12 de outubro de 2015

Bispos podem pedir um novo Sínodo para o próximo ano


À medida que avançam os trabalhos no Sínodo dos Bispos sobre a Família, que decorre em Roma, começa a levantar-se a hipótese de um terceiro Sínodo sobre a família, a ser marcado no próximo ano.

A novidade foi revelada em primeira mão à Família Cristã por D. José Ornelas, bispo eleito de Setúbal e antigo superior geral dos dehonianos, que revelou que «já se fala de uma terceira etapa no sínodo», que pode passar por um novo sínodo, pedido pelos participantes na assembleia que decorre em Roma. «Começam a circular vozes de um terceiro Sínodo, no próximo ano, que possa ser ainda mais objetivo, pois a discussão tem levantado muitas questões que ainda estão a ser estudadas», afirmou o prelado.

Antes da sua partida para Roma, já D. Manuel Clemente dizia à Família Cristã que não se sabia se o Papa iria ficar por aqui na reflexão sobre a família. «E vamos ver se as coisas acabam por aqui. Depois do sínodo, ou o Papa acha que a matéria não está ainda suficientemente aprofundada e encontra outra maneira de continuarmos a refletir sobre isto, ou acha que já tem elementos suficientes para, como é normal acontecer, fazer um documento final que proponha à Igreja e ao mundo», dizia na altura o Cardeal-Patriarca.

Para além disso, também várias passagens dos relatórios dos círculos menores, entregues no final da semana passada, deixam a entender que os próximos 15 dias podem ser «insuficientes» para completar todo o trabalho que é necessário até ao fim do Sínodo, o que pode confirmar que este Sínodo não será a última etapa antes da exortação que o Papa deverá fazer para finalizar todo o trabalho iniciado em outubro de 2013.

D. José Ornelas refere que «o Sínodo não é um Concílio, é um órgão consultivo, mas o Papa tem todo a razão em dizer “vamos pensar e escutar o sentir da Igreja». Neste sentido, será de esperar que, nos próximos dias, se possa perceber se esta é uma possibilidade que se concretiza ou não.

Bíblia é o «livro de instruções da Humanidade» 
Sobre as questões que estão a ser debatidas no Sínodo, D. José Ornelas espera «muito». «Eu nunca participei num sínodo, mas o que tenho ouvido, de pessoas muito próximas que têm participado, é “a gente faz uma discussão, etc, mas nem chega a ser uma discussão, fazem-se uns discursos, apresentam-se ideias e depois o Papa faz uma mensagem”. O Papa Francisco mudou a metodologia, dando mais peso às discussões. Além disso, envolveu muito mais pessoas e a generalidade da Igreja. Isto é caminhar em Sínodus, não pode ser só uns tipos que se reúnem em Roma. Tem de ser um diálogo da própria Igreja, e foi a primeira vez que, para um Sínodo, se interpelou o povo de Deus», refere D. José Ornelas.

Um Sínodo que tenha em atenção os anseios das pessoas e que permita combater a «arrogância» do Ocidente. «Não nos esqueçamos que a conceção de matrimónio que temos no mundo ocidental é diferente noutras culturas, e a arrogância que temos muitas vezes de dizer que nós é que temos a verdadeira imagem do homem, da mulher, é uma arrogância da qual os outros se riem, porque ainda pensamos que somos o umbigo do mundo, e não é verdade», defende.

Afirmando que «temos de estar abertos a outras possibilidades», D. José diz que a «forma de compreendermos e fazermos agir» as verdades que são eternas no nosso mundo «tem de ser adequada, e sempre foram ao longo dos séculos, e a Igreja tem sido mestra nessa adaptação». Essa adequação passa por ter bem claro «o ponto de vista do Evangelho». «O Evangelho é um aprofundamento daquilo que é ser homem e mulher neste mundo. É isso que o Evangelho nos leva a descobrir», porque se não «aceitarmos que o mundo é um mistério que tem uma autorrevelação que é preciso entender», há certas coisas que a Igreja diz que «não está nas nossas mãos», para justificar nada fazer, e isso é muito perigoso. «Nós estamos com capacidades de intervenção novas, mesmo a nível das raízes da vida, e se não temos a sabedoria de entender as coisas, corremos o risco de fazer grandes borradas», avisa.

É neste sentido que D. José Ornelas defende que o que é disciplina pode ser mexido e atualizado. «Deus conta com o Homem para aperfeiçoar este mundo, e por isso lhes deus responsabilidade, as chaves da casa. «O carácter normativo da Bíblia é o livro de instruções da Humanidade e deste mundo. Ali estão os princípios, mas a adequação desses princípios e o desenvolvimento técnico é como a lei e a sua regulamentação. A disciplina tem de ser adaptada ao tempo, e entender a mente do Papa», pediu o prelado.

Acesso aos sacramentos é questão de disciplina 
Considerando que é necessário fazer um «upgrade» à Igreja, que não coloque em causa do Evangelho, mas que adeque a Igreja os dias de hoje, D. José Ornelas usa o exemplo dos divorciados recasados para explicar melhor este upgrade. «A questão da família não deverá sofrer nenhuma alteração, não é porque é uma leizinha, mas porque é uma proposta de felicidade para os casais. Mas o divórcio, por exemplo. No contexto bíblico em que aparece esta discussão, a mulher não era tida nem achada no assunto, e por isso Jesus diz “não, vocês não podem simplesmente repudiar uma mulher”, e já Moisés o tinha feito, permitindo que dessem o libelo. Porque naquela altura o homem separava-se da mulher mas não a tornava livre de se casar com outro homem, ficava como sua escrava, não como mulher. Isso não, e Moisés disse “faça-se justiça”, e pôs o homem e a mulher em paridade», sustenta.


Mas isto não significa que não haja projetos que falham. «As pessoas entram num projeto que era para durar, mas não durou. A vida é uma história, mas se essa história teve percalços e se está a reanimar agora, deve ter formas de expressão dentro da Igreja. Vamos simplesmente abençoar mais um matrimónio? Não, eles não são o mesmo matrimónio, mas são uma outra forma de viver em Igreja», e é preciso «encontrar resposta» para isso.

Resposta essa que pode estar na própria Bíblia. «Quando falha, Jesus diz “a não ser em caso de” e usa o grego porneia, uma palavra com muitas aceções», que a Igreja Ortodoxa entende de forma a permitir uma segunda união, válida aos olhos da Igreja. «A Igreja Ortodoxa, que é outro pulmão da Igreja, tem uma solução diferente, que tem de ser estudada. Não para dizer quem está certo ou errado, mas para ver quais são as soluções, dentro da tradição da Igreja e da Evangelho, que nos pode servir também a nós para encontrarmos caminhos novos.

Até porque a comunhão dos divorciados recasados «é uma questão de disciplina», segundo D. José. «Aos bispos [portugueses], o Papa dizia que temos de ver a incongruência de certas coisas. Temos um tipo que é um grande distribuidor de droga, arrependeu-se, a gente perdoou-lhe, vem à comunhão e ninguém faz problema. Mas se for um que está a procurar viver honestamente e a reconstruir a sua vida, já temos problema... Temos de encontrar formas novas, na busca de soluções que sejam verdadeiramente fiéis ao Evangelho, mas que sejam Boa notícia para estas pessoas. Não pode ser só “não podem”, tem de ser estudada uma forma de chegar a estas pessoas», defende.

O mesmo se passa em relação à poligamia, um problema do continente africano que o antigo superior geral dos dehonianos conhece bem de perto. «Eu vivi isso muitas vezes em missão. A poligamia, sabemos. Mas não podemos chegar e dizer “olha, tu tens 3 ou 4 mulheres, agora escolhe uma”. E as outras? O que se faz a essas mulheres? Temos de ter atenção para não cometermos injustiças que, sendo um bem para alguém, são um mal para outra. As pessoas têm de ser postas no centro da discussão dos problemas, não os princípios», conclui.

Texto: Ricardo Perna
Fotos: News.va e Ricardo Perna

7 de outubro de 2015

Bispos admitem «lóbi» no Sínodo, mas sem «conspiração»


O arcebispo de Filadélfia (EUA) confirmou hoje que o Papa alertou os participantes no Sínodo dos Bispos para a criação de um clima de «conspiração» que prejudicaria o debate sobre a família. «Devemos evitar pensar nos outros como alguém que conspira contra nós, mas trabalhar pela unidade entre os bispos”, disse D. Charles Chaput, em conferência de imprensa, citando o apelo de Francisco aos participantes na assembleia sinodal.

O prelado norte-americano respondia a uma pergunta sobre um alerta do Papa para a “hermenêutica conspirativa”, expressão divulgada esta terça-feira através das redes sociais pelo jesuíta António Spadaro, que participa no Sínodo. D. Laurent Ulrich, arcebispo de Lille (França), outro dos participantes na conferência de imprensa desta tarde, sublinhou que no Sínodo “cada um diz e pensa como entende” tendo em vista um “trabalho comum”. “O Papa pediu-nos para estarmos atentos e salvaguardarmos a serenidade do debate entre nós”, assinalou.

D. Salvador Piñeiro, arcebispo de Ayacucho (Peru), resumiu este apelo de Francisco numa frase: “Falar com toda a liberdade e ouvir com toda a humildade”. A divergência de opiniões é vista como algo natural pelo arcebispo de Filadélfia, o qual disse mesmo que “nunca” esteve numa reunião da Igreja sem grupos que se juntassem para “fazer lóbi numa direção em particular”. “Não devemos ficar escandalizados ou surpreendidos”, prosseguiu D. Charles Chaput, destacando a importância da “honestidade” neste debate.

O responsável, que acolheu em finais de setembro o 8.º Encontro Mundial das Famílias (EMF), com a participação do Papa, convidou os católicos a “confiar que Deus guia a sua Igreja”. “Não estamos aqui [no Sínodo] para ganhar alguma coisa, estamos aqui para chegar à Verdade que o Senhor estabeleceu para a sua Igreja”, realçou. O arcebispo observou que os trabalhos desta assembleia, na sequência da reunião extraordinária de 2014, têm procurado encontrar uma linguagem que “acolha” e não abra feridas nas pessoas, em fidelidade à doutrina católica.

No mesmo sentido, D. Laurent Ulrich fez questão de ressalvar que “não está em discussão a doutrina da Igreja, mas a maneira de a viver no dia-a-dia, na relação pastoral”. Já D. Salvador Piñeiro, presidente da Conferência Episcopal Peruana, apontou o dedo a um discurso de “duas caras” da sociedade, que por um lado proclama a crença na família como “célula fundamental” mas por outro aprova leis que facilitam “o divórcio” e “o aborto”.

D. Charles Chaput observou, por sua vez, que os participantes nesta assembleia sinodal têm procurado sublinhar a importância do ensinamento da Igreja sobre a família, com atenção às “99 ovelhas” que o colocam em prática e não apenas “à ovelha perdida”, em referência a uma das parábolas de Jesus apresentadas nos Evangelhos. Outra das preocupações é refletir uma visão “universal” e não só do Ocidente sobre a família.

Os participantes no Sínodo dos Bispos estão a trabalhar nos chamados ‘círculos menores’, grupos linguísticos que promovem o debate fora das chamadas ‘congregações gerais’. Durante o encontro com jornalistas, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, reafirmou que os membros da assembleia são “livres” para falar à imprensa ou publicar os seus discursos, mesmo que a sala de imprensa da Santa Sé não o faça.

Texto e foto: Agência Ecclesia

6 de outubro de 2015

Comunhão aos divorciados é questão de doutrina ou disciplina?


A conferência de imprensa desta manhã, no Vaticano, fez um resumo dos trabalhos realizados até ao momento e deixou algumas pistas sobre o que serão os trabalhos dos próximos tempos. A começar, a surpresa de sabermos que o Papa interveio esta manhã no sentido de «orientar os trabalhos». Francisco disse aos mais de 400 participantes que «a doutrina católica sobre o Matrimónio não foi colocada em questão» na assembleia extraordinária de 2014, referiu o padre Federico Lombardi, em conferência de imprensa.

O Papa, que tinha aberto a primeira reunião geral, esta segunda-feira, com um discurso, voltou a falar esta manhã a pedir que os membros da 14ª assembleia evitem deixar-se «condicionar» ou «reduzir o horizonte de trabalho neste Sínodo», como se o único problema «fosse o da Comunhão aos divorciados, recasados ou não». Um sinal claro de que o debate estaria a centralizar-se apenas nesta questão, o que levou o Papa a intervir.

Questionado pelos jornalistas sobre se existiu uma intenção de forçar esta discussão por parte dos oradores, o arcebispo de Ontário, no Canadá, D. Paul-André Durocher, explicou que o problema estava na metodologia utilizada neste sínodo, que era nova para todos. «Não estávamos habituados a ter de trabalhar com base num documento, na Instrumentum Laboris, e isso provocou algumas dúvidas», disse o arcebispo, mas um documento idêntico sempre serviu de base a todos os Sínodos anteriores.

Nas duas congregações gerais, foram ouvidos 72 oradores, provenientes de todos os continentes, e foram vários os temas abordados, incluindo este da comunhão aos recasados, como já tínhamos dito. Apesar de não fazer parte do resumo dado pelos porta-vozes do Vaticano, os jornalistas questionaram os bispos presentes na conferência de imprensa. D. Claudio Maria Celli afirmou que a questão não estava fechada com o relatório e a intervenção do Cardeal Erdö, como não estava nenhuma outra questão. «Se a discussão sinodal sobre divorciados e recasados acabasse ontem com a apresentação do Cardeal Erdö, então o que estávamos aqui a fazer todo este tempo?», questionou em tom de brincadeira.

D. Paul-André Durocher concorda que «a apresentação do Cardeal Erdö foi uma parte do caminho», e foi dizendo que esta é uma questão que não está fechada. Há uma «diferença de opiniões» sobre se a Comunhão aos divorciados recasados é uma questão de «doutrina» ou de «disciplina», e essa reflexão «poderá ser feita agora nas reuniões dos círculos menores», disse aos jornalistas. «Vamos ser honestos: é uma questão de doutrina ou disciplina? Acho que é uma das questões que serão debatidas nos círculos menores, mais para a frente. Se quiser procurar o que é doutrina, compra o volume grande de Denzinger e vê o que está lá escrito…», disse, adiantando também que este não é o único assunto que irá ser tratado no Sínodo. «Não quero parecer que estou a levar este tema com leveza, mas o Papa disse-nos que este é apenas um assunto entre muitos», avisou o arcebispo do Canadá.

Absolvição geral por causa do Ano da Misericórdia? 
As intervenções destes dois dias ficaram também marcadas por outros assuntos. Foram muitos os que referiram a «necessidade de uma preparação para o matrimónio mais longa e que vá para além da celebração», disse o Pe. Thomas Rosica. Para além disso, referiu o Pe. Lombardi, alguns oradores falaram na «necessidade de formação do sacerdote para poder acompanhar os casais na preparação para o matrimónio», pois é preciso «mudar a linguagem».

A proposta mais surpreendente terá sido a de um orador, que sugeriu que fosse aplicado, neste Ano da Misericórdia, uma absolvição geral a todos os cristãos, como forma de «entusiasmar as pessoas a voltarem para casa, para a Igreja», disse o sacerdote, que informou que era apenas uma proposta levantada para reflexão, nada mais. O Pe. Thomas Rosica disse ainda que alguns oradores de língua inglesa tinham referido a necessidade de a Igreja ser como um GPS para os cristãos. «Quando a estrada falha, temos de descobrir novos caminhos para as pessoas, como um GPS», foi uma das ideias lançadas.

Sobre as pessoas com inclinação homossexual, «que são nosso sangue», os oradores referiram a necessidade de «não ter pena deles, mas antes reconhecê-los pelo que eles são: nossos irmãos». Falando da emancipação das mulheres, alguns dos oradores levantaram a ideia de que, apesar das coisas boas que a emancipação trouxe, as mulheres não se podiam esquecer «das responsabilidades delas perante a família, não esquecendo a maternidade», sendo que esses oradores referiram também a necessidade de «erradicar» o domínio que o homem exerce sobre as mulheres em alguns países.

Os participantes nas congregações de língua espanhola referiram a necessidade de encontrar «ferramentas» para auxiliar os casais, antes de se preocuparem com a questão da indissolubilidade. «Não podemos falar de indissolubilidade do matrimónio se não houver ferramentas para apoiar os casais na sua caminhada», disseram os bispos na sua intervenção.

Foi ainda referido, com maior ênfase pelos bispos africanos, o problema da poligamia, que afeta muitas comunidades em África, com muitas pessoas que se querem converter ao Cristianismo impedidas de o fazer pois têm muitas mulheres a seu cargo. A situação é complicada, pois se essas mulheres forem rejeitadas pelo homem, ficarão sozinhas sem qualquer possibilidade de se juntarem a mais alguém, pois essas sociedades discriminam essas pessoas.

Finalmente, um orador pediu ao Sínodo que se pronunciasse claramente sobre o que fazer com as pessoas que aparecem para se batizar, mas já são casadas pelo civil. A Igreja obriga ao casamento pela Igreja, o que levanta dificuldades, e o sínodo foi convidado a refletir sobre o tema e a encontrar caminhos de ajuda para essas situações.

Pode continuar a acompanhar todas as incidências do Sínodo no blogue especial que a Família Cristã criou para o efeito em http://www.sinododafamilia.blogspot.pt

Texto: Ricardo Perna
Fotos: l'Osservatore Romano

5 de outubro de 2015

Relatório inicial reforça indissolubilidade, pede acompanhamento dos casais, mas esquece África

© Foto Lusa
Os trabalhos do Sínodo Ordinário sobre a família iniciaram-se verdadeiramente hoje, com a leitura do relatório inicial, que faz um ponto de situação sobre as opiniões e reflexões levadas a cabo no anterior sínodo, juntamente com os contributos que, durante ste ano, foram chegando ao Vaticano em resposta à Lineamenta que foi enviada para todos os fiéis e que resultou na construção da Instrumentum Laboris, documento que irá orientar os trabalhos sinodais.

A leitura do documento na aula sinodal ficou a cargo do Cardeal Péter Erdö, o relator geral do Sínodo. Dividido em três partes, o relatório traz um retrato do que foi a escuta dos fiéis sobre a família, o discernimento da vocação familiar e a missão da família hoje. Começando desde logo por afirmar que «o movimento migratório está a desintegrar as famílias ou é uma dificuldade para que venha a ser formada. Em muitas partes do mundo os jovens pais deixam os seus filhos em casa e procuram trabalho no estrangeiro», refere o relatório.

Defendendo que a família «oferece uma possibilidade de desenvolvimento humano que é insubstituível», os relatos dos fiéis falam de uma realidade onde o casamento é cada vez menor porque as pessoas se ligam cada vez menos aos compromissos. Neste sentido, é preciso anunciar «um verdadeiro caminho para a felicidade», como Paulo o fazia, já que o matrimónio é «um objetivo da existência humana». Neste sentido, «as famílias cristãs são chamadas a testemunhar o Evangelho com a sua vida de acordo com o próprio Evangelho, através de um anúncio missionário. Os cônjuges reforçam a sua fé e passam-na aos seus filhos, mas também as crianças e outros membros da família são chamados a compartilhar sua fé».

É neste sentido que o relatório reforça o valor da indissolubilidade do matrimónio, um dos aspetos que mais irá ser debatido neste sínodo, admitindo a «exigência» desta condição. «Os Evangelhos e São Paulo também confirmam que o repúdio da sua esposa, praticado em primeiro lugar entre o povo de Israel, não pode tornar possível um novo casamento para qualquer das partes. Esta afirmação é tão incomum e tão exigente manteve-se presente ao longo dos séculos na tradição disciplinar da Igreja, constituindo um elemento ainda a tal ponto que, entre os povos convertidos que se converteram ao Cristianismo, a monogamia e a indissolubilidade do casamento tornou-se uma matéria disciplinar».

Sobre este tema, o relatório fala da necessidade de criar uma «comunidade de amigos verdadeiros», que podem surgir dos grupos de casais que se juntam para acompanhar os casais recém-casados. «Pertencer a um grupo dessa natureza, pode amadurecer a fé do casal, especialmente se essas comunidades de famílias se reunirem regularmente, lerem a Sagrada Escritura, orarem juntos e fizerem crescer a sua fé à luz do ensinamento da Igreja, especialmente através do Catecismo da Igreja Católica».

Poder fazer este caminho de acompanhamento é um «desafio» para bispos e sacerdotes e podem exigir «novas formas de catequese e testemunho, em plena fidelidade à verdade revelada por Cristo», mesmo que isso possa implicar, segundo o relatório, um afastamento de algumas pessoas. «Se falamos do fundo do nosso coração, se não houvermos desistido de prestar contas a nós mesmos em primeiro lugar de nossa fé, então podemos falar aos outros com convicção e coragem. Se dizemos francamente aos outros aquilo em que acreditamos, não devemos ter medo de não sermos compreendidos, porque também somos filhos de nosso tempo. Assim, embora nem todos aceitem a proposta, o anúncio vai ser compreensível para todos», pode ler-se.

© Foto Lusa

Escutar todas as situações, mas sem colocar em causa indissolubilidade do matrimónio
Sobre o problema dos casais divorciados e recasados, o relatório pede a criação de «centros de escuta», com grupos de pessoas que possam ajudar, por um lado, a tentar a reconciliação e o perdão de pessoas divorciadas que ainda não iniciaram uma nova relação, e por outro possam acompanhar as crianças que são vítimas dessas situações. Estes centro serviriam também para orientar alguns no sentido de compreender o novo processo de nulidade matrimonial criado pelo Papa Francisco há dias.

Admitindo que a questão do acesso à comunhão e à confissão «é um assunto que requer profunda reflexão», o relatório reafirma que estas questões não são proibições, mas sim «exigência intrínsecas no contexto do testemunho da Igreja». No entanto, mesmo com essas limitações, o relatório refere que os divorciados recasados «são orientados no sentido de aumentar a sua integração na vida da comunidade cristã, tendo em conta a diversidade das situações iniciais».

O relatório, que, conforme foi referido na conferência de imprensa que se seguiu à leitura do relatório, é «um ponto de partida para a reflexão e não o final», afirma ainda que a opção ortodoxa, que permite uma segunda união, «não pode ser avaliada adequadamente usando apenas a estrutura conceptual desenvolvida no Ocidente no segundo milénio. Deve-se ter em mente a grande diferença sobre os tribunais institucionais da Igreja, bem como o respeito especial para com o direito dos Estados, que por vezes pode tornar-se crítica, se as leis estaduais são separadas da verdade do matrimónio, de acordo com o plano do Criador», numa referência clara ao facto dos estados permitirem várias uniões válidas civilmente.

© Foto Lusa
Finalmente, o relatório volta a falar sobre a abertura à vida e aos métodos de planeamento familiar, assumindo-se mais uma vez de forma paradoxalmente estranha. Se, por um lado, afirma que a vida em plenitude leva a «sugerir um ensino adequado sobre os métodos naturais para a procriação responsável», também por outro lado aconselha a que, conforma explica a encíclica Humanae Vitae, se «respeite a dignidade da pessoa na avaliação moral dos métodos de regulação da natalidade». Este respeito, por enquanto, não chega para permitir a utilização de métodos artificiais, o que, de alguma forma, leva a questionar se este respeito pela escolha existe verdadeiramente.

Uma grande surpresa foi a ausência de referências no relatório a questões mais próximas da igreja africana, como a questão da poligamia. Questionados sobre isso, os prelados presentes na conferência de imprensa afirmaram que essa foi «uma escolha vossa [dos cristãos]». O cardeal Erdö afirmou que os bispos esperam com grande expetativa «o contributo dos bispos africanos» que já no Sínodo passado deram um bom contributo, sem no entanto explicar o porquê da omissão destes assuntos do relatório inicial.

É sobre este relatório que se irão desenrolar os trabalhos na próxima semana, com intervenções dos vários prelados presentes na aula sinodal, entre os quais D. Manuel Clemente, que afirmou, em entrevista à Família Cristã, que iria pedir a «reorganização da igreja em chave familiar» na sua intervenção.

Pode acompanhar o trabalho do Sínodo no blogue que a Família Cristã criou em http://sinododafamilia.blogspot.pt

Texto: Ricardo Perna

Papa diz que Sínodo «não é Parlamento» onde se recorra a «negociação ou cedências»

© Foto Famiglia Christiana
O Papa Francisco disse hoje no Vaticano que o Sínodo dos Bispos “não é um congresso ou uma convenção, um parlamento ou um senado” onde se negoceiem decisões. “Caros irmãos, como disse, o Sínodo não é um parlamento, onde para se chegar a um consenso ou a um acordo comum, se recorre à negociação, a pactos ou a cedências. O único método do Sínodo é o de abrir-se ao Espírito Santo, com coragem apostólica, humildade evangélica e oração confiante” declarou, na primeira sessão de trabalho da 14ª assembleia geral ordinária deste organismo consultivo, dedicado ao tema da família.

Francisco sublinhou que o “depósito da fé” da Igreja Católica não é “um museu para olhar ou salvaguardar, mas é uma fonte viva”. “O Sínodo é uma expressão eclesial, isto é, a Igreja que caminha em conjunto para ler a realidade com os olhos da fé e o coração de Deus”, precisou. Nesse sentido, convidou a “valorizar e refletir em conjunto” o trabalho realizado desde a reunião extraordinária de 2014, sobre os mesmos temas, elogiando “todas as pessoas que se deixam guiar pelo Deus que surpreende sempre”, do Deus que “criou a lei e o sábado para o homem e não ao contrário”. “O Sínodo, como sabemos, é um caminhar juntos, com o espírito de colegialidade e sinodalidade, adotando corajosamente a franqueza (parrésia, no original)”, assinalou.

O Papa pediu que os participantes tenham sempre em vista “o bem da Igreja, das famílias”, falando do Sínodo como “um espaço protegido, onde a Igreja experimenta a ação do Espírito Santo”. A intervenção alertou para as “seduções do mundo que tendem a apagar nos corações do homem a luz da verdade” ou para os que querem fazer da vida cristã “um museu de recordações”.

O Papa espera que os participantes na assembleia sinodal saibam “esvaziar-se das próprias convenções e preconceitos para ouvir os irmãos bispos”, evitando “apontar o dedo ao outro para o julgar, mas estender a mão para o levantar”. Francisco sublinhou por isso a importância de um coração que se “abre a Deus” e ao seu Espírito, para evitar que as decisões do Sínodo sejam apenas “decorações, que em vez de exaltar o Evangelho, o cobrem e escondem”.

No final do discurso, o Papa deixou uma palavra de agradecimento aos jornalistas e a quantos acompanham os trabalhos de longe, pela sua “participação apaixonada e atenção admirável”. Os trabalhos da 14ª assembleia geral do Sínodo dos Bispos (4-25 de outubro) vão ter mais espaço para o debate e o diálogo, com 13 sessões de trabalhos em grupo.

Ao longo de três semanas, serão debatidos os temas “A escuta dos desafios sobre a família”, “O discernimento da vocação familiar” e “A missão da família hoje”, correspondentes a cada uma das partes do Instrumento de Trabalho.

Pode acompanhar os trabalhos do Sínodo no blogue que a Família Cristã criou para o efeito em http://sinododafamilia.blogspot.pt

Texto: Agência Ecclesia

4 de outubro de 2015

Papa inicia Sínodo reforçando «indissolubilidade» do matrimónio e apelando ao acolhimento de todos


Missa inaugural da assembleia de Bispos apresentou «verdade» e «caridade» como chaves para o debate sobre as famílias, sem «apontar o dedo» a quem errou 

O Papa inaugurou hoje a nova assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a família com uma homilia em que apresentou “verdade” e “caridade” como chaves do debate de três semanas. “Neste contexto social e matrimonial bastante difícil, a Igreja é chamada a viver a sua missão na fidelidade, na verdade e na caridade”, declarou, na Missa a que presidiu na Basílica de São Pedro, no Vaticano. Francisco desafiou por isso a Igreja a propor “o significado autêntico do casal e da sexualidade humana no projeto de Deus”, num “amor conjugal único e usque ad mortem” (até à morte). “Paradoxalmente, também o homem de hoje – que muitas vezes ridiculariza este desígnio – continua atraído e fascinado por todo o amor autêntico, por todo o amor sólido, por todo o amor fecundo, por todo o amor fiel e perpétuo”, prosseguiu.

Esta verdade, acrescentou o pontífice argentino, “não se altera segundo as modas passageiras ou as opiniões dominantes”. “Parece que as sociedades mais avançadas são precisamente aquelas que têm a taxa mais baixa de natalidade e a altas percentagens de abortos, de divórcios, de suicídios e de poluição ambiental e social”, advertiu. A intervenção multiplicou apelos à defesa do “amor fiel”, da “sacralidade da vida” e da “unidade e indissolubilidade do vínculo conjugal”, citando a este respeito os seus diretos predecessores, São João Paulo II e Bento XVI.

O Papa acrescentou que este compromisso de uma Igreja que “ensina e defende os valores fundamentais” é assumido sem “apontar o dedo para julgar os outros”, mas no esforço de “procurar e cuidar dos casais feridos com o óleo da aceitação e da misericórdia”. “Uma Igreja que educa para o amor autêntico, capaz de tirar da solidão, sem esquecer a sua missão de bom samaritano da humanidade ferida”, precisou.

Francisco falou do Sínodo como um “acontecimento de graça” para a Igreja, começando a sua intervenção a partir de três questões: “o drama da solidão, o amor entre homem-mulher e a família”. A este respeito, recordou os efeitos da solidão, entre outros, sobre os que foram abandonados pelo seu marido ou a sua mulher, bem como sobre os migrantes e refugiados ou os jovens vítimas da “cultura do consumismo”. Segundo o Papa, há cada vez “menos seriedade em levar por diante uma relação sólida e fecunda de amor: na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na boa e na má sorte”. “O objetivo da vida conjugal não é apenas viver juntos para sempre, mas amar-se para sempre. Jesus restabelece assim a ordem originária e originadora”, precisou.

A celebração reuniu cardeais, patriarcas, arcebispos, bispos e padres membros da 14ª assembleia geral ordinária do Sínodo, sobre o tema ‘A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”, que decorre até 25 de outubro. A Conferência Episcopal Portuguesa tem como delegados D. Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa, e D. Antonino Dias, bispo de Portalegre-Castelo Branco.

Texto: Agência Ecclesia

1 de outubro de 2015

O Sínodo das decisões… ou não

© Foto l'Osservatore Romano
O mundo católico aguarda em expectativa o desenrolar da reunião ordinária do sínodo dos bispos, que terá lugar este mês em Roma. As posições têm-se extremado entre conservadores e liberais, e, apesar de não parecer ter o mesmo impacto mediático, a verdade é que muitos aguardam com ansiedade mal contida as propostas que os bispos irão aprovar ali, que servirão de base de reflexão para a exortação apostólica que Francisco publicará nos meses seguintes. 

Estávamos no início de outubro de 2013 quando o Papa Francisco decidiu surpreender o mundo com a convocação de um sínodo extraordinário sobre a família, a que se seguiria, no ano seguinte, o sínodo ordinário, também sobre a família. A decisão de convocar um sínodo extraordinário era surpreendente por si, mas dedicar dois sínodos, espaçados por um ano, ao mesmo tema, foi caso único na história da Igreja Católica. Por isso, o tema começou desde logo a ser falado e debatido, o que ia ao encontro das intenções do Santo Padre: colocar a família no centro das discussões e reflexões dos católicos e do resto do mundo.

Quando saíram os Lineamenta para o sínodo, o frenesim subiu de tom: Francisco pedia que todos os católicos do mundo se pronunciassem sobre as questões da família. Em todos os sínodos, os fiéis são chamados a pronunciar-se sobre o tema, mas raras vezes o fazem, deixando o trabalho para os bispos, sacerdotes e movimentos da Igreja. Aqui, o Papa foi, no entanto, claro: queria que todos contribuíssem. E assim foi: milhares de católicos em todo o mundo responderam aos inquéritos lançados pelas conferências episcopais, com base no inquérito que vinha nos Lineamenta.

Se a intenção era despertar o interesse, a estratégia resultou. Saíram para fora muitas ideias e opiniões, quer no sentido de abrir a Igreja a novas realidades como os divorciados e recasados, os homossexuais e as uniões de facto, quer no sentido de manter a doutrina da Igreja tal como está, reforçando a indissolubilidade do matrimónio e a impossibilidade doutrinal de aceitar qualquer coisa mais do que o que já estava definido.

Apesar de haver quem criticasse Francisco por ter “aberto” estas frentes de discussão pública, o Papa foi claro quando iniciou o sínodo. «Uma condição de base é falar claro. Que ninguém diga que “sobre este assunto não se pode falar”. Um cardeal escreveu-me uma vez a dizer que havia assuntos sobre os quais os cardeais não falavam, por causa do que diria o Papa. Isto não é sinodalidade, pois temos de dizer tudo aquilo que achamos que o Senhor quer que digamos», avisou o Papa no início dos trabalhos. E foi isso que, durante as duas semanas seguintes, se fez. Com um relatório intermédio polémico, por parecer muito imparcial, e com um relatório final que, não tendo sido aprovado pela maioria necessária, demonstrou a maior vontade dos participantes sinodais em introduzir algumas mudanças na realidade da Igreja, deu-se início a um ano de reflexão e de maturação das reflexões ali efetuadas.
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As diferenças entre o Sínodo extraordinário e o ordinário
O Papa, esse, continuou impávido e sereno. Durante este ano que passou, dedicou as suas catequeses semanais ao tema da família, e as suas palavras foram aproveitadas por ambos os lados da discussão para fazer valer os seus pontos de vista. Mas tudo não passa de especulação. E por isso todos olham para este novo sínodo, desta vez ordinário, onde se vão voltar a discutir os mesmos temas, mas onde as coisas poderão ser bem diferentes.

Tudo começa no número de participantes. No sínodo extraordinário, participaram apenas os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, para além dos cardeais, peritos e leigos convidados. Este ano, como é norma nos sínodos ordinários, as conferências enviam os seus representantes, e muitos países, nos quais se inclui Portugal, enviam dois ou mais representantes. De Portugal seguem D. Manuel Clemente, que já esteve no ano passado e D. Antonino Dias, presidente do Comissão Episcopal do Laicado e Família em Portugal.

A verdade é que, como no outro sínodo, daqui não irão sair decisões. Apesar das pressões colocadas por muitos dos que irão intervir no próprio sínodo, este órgão não tem capacidade decisória dentro da Igreja. Cabe apenas ao Papa a decisão sobre o caminho a seguir daqui para a frente. E o que pode o Papa decidir? Esta é a grande interrogação, da qual nada se sabe e pouco se pode adivinhar.

Francisco é um Papa que, desde o início do pontificado, se tem pautado pela busca de consensos, dentro e fora da Igreja, atitude que já vem dos seus tempos de bispo na Argentina. Essa busca pode levar a pensar que se preparam grandes mudanças, mas a verdade é que a personalidade de Francisco sempre foi marcada por um tradicionalismo e fidelidade à Igreja, que defendia com unhas e dentes. Aliás, foram públicas as suas posições, quando estava como bispo de Buenos Aires, contra a legalização das uniões entre pessoas do mesmo sexo, entre outras questões com as quais foi chocando com o poder político da altura.

O que se deixa transparecer do discurso de Francisco, e da reflexão dos padres sinodais, é que, antes de qualquer modificação legal, tem de existir alteração de comportamentos. A Igreja não acolhe como deveria, não fala como deveria, e precisa mudar. São muitos os exemplos dentro da própria Igreja que mostram que é possível, como Francisco pede, acolher com misericórdia todos os que estão em situação irregular. A questão é que acolher é muito diferente de aceitar, e essa tem sido uma argumentação por parte de quem deseja ver essas mudanças na Igreja que não corresponde à realidade.
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Quando Francisco afirma que é preciso acolher todas as pessoas homossexuais ou divorciadas e recasadas, em momento algum refere que se deve aceitar a sua condição. Também Jesus acolheu a mulher adúltera, mas disse-lhe «vai e não tornes a pecar», pelo que não se poderá confundir a abertura ao acolhimento com a aceitação de todos esses comportamentos ou situações irregulares. Mas isto não impede que venham a ser introduzidas mudanças reais, fruto de uma reflexão sobre a doutrina que pode, em situações como a dos divorciados e recasados, permitir analisar os casos individualmente e estabelecer modos de atuação diferentes dos atuais.

O aprofundamento da doutrina em questões como a comunhão espiritual, por exemplo, que é permitida aos casais divorciados recasados, mas que foi questionada no último sínodo, por não ter grande diferença para a comunhão física, pode ser um dos pontos de partida, mas especular que se irá permitir a comunhão a todos os recasados já é “esticar a corda”, uma vez que uma decisão desse tipo colocaria em causa todo o caminho que muitos fiéis já fizeram na pele de divorciados recasados dentro da Igreja.

Perigo de Cisma parece pouco provável
Alguns temem que o sínodo abra feridas que não irá conseguir sarar. Outros aspiram pelo dia em que a Igreja se irá abrir à vontade da sociedade, apesar de 2000 anos de história afirmarem que isso raramente aconteceu. Mas todos esperam ansiosamente pelas palavras de Francisco, pois sabem (ou irão saber) que, apesar de serem muitos a pensar, o único a decidir será mesmo ele. De tudo isto, Francisco já conseguiu algo importante: pôs toda a sociedade a falar sobre a família, a pensar sobre a família.

Porque mesmo para criticar a Igreja, é preciso refletir sobre o assunto, e isso já foi conseguido. Mesmo nos países onde a família é colocada em causa, os últimos anos de inverno demográfico ajudam a que o assunto da família esteja na ordem do dia, e até nisso o timing de Francisco foi perfeito. A família precisa de ajuda, e o Papa parece a pessoa mais bem colocada para o fazer, assim todos os fiéis decidam escutá-lo, compreendê-lo e aceitar o resultado de todas as reflexões que irão ser feitas.

Texto Ricardo Perna

30 de setembro de 2015

«A família é pouco eclesial e as comunidades paroquiais pouco familiares»


O presidente do Conselho Pontifício para a Família, D. Vincenzo Paglia, acha que as comunidades fazem pouco para receber as famílias e as famílias pouco se interessam em se integrar na vida das comunidades paroquiais. Usando como exemplo o Evangelho de Lucas, o prelado explica que a melhor forma de levar a misericórdia aos outros é através da família. Tudo no seu novo livro "Uma casa rica de misericórdia", editado pela PAULUS Editora.


O que o levou a relacionar o Evangelho de Lucas com a Família e a Misericórdia?
Como sabe, o Evangelho de S. Lucas é chamado o Evangelho da Misericórdia pelas muitas passagens que mostram precisamente o amor visceral, misericordioso, apaixonado de Deus pelas suas criaturas. Emblemático de tudo isto é aquela parte das famosas três parábolas, precisamente da misericórdia, a que depois se segue a do bom samaritano. Neste contexto, a família inscreve-se num modo extraordinariamente eficaz, seja porque S. Lucas é o único evangelista que apresenta nos dois capítulos do Evangelho da infância de Jesus a família de Nazaré, mas também porque nas páginas de Lucas muitas vezes se fala de Jesus, embora também isto suceda nos outros evangelhos, como membro de uma família. Um exemplo, que vale para tudo, é a relação tão relevante e afetuosa de Jesus com a família de Lázaro, de Marta e de Maria. Por esta razão, pareceu-me bem que o Sínodo da Família, que de algum modo abre o Ano da Misericórdia, pudesse encontrar, precisamente, neste pequeno instrumento do Evangelho de S. Lucas comentado, uma oportunidade para todas as nossas famílias. Porque a misericórdia certamente faz parte essencial da vida, não só da família cristã, mas espero que de todas as famílias humanas.

A família é a base de toda a educação, incluindo a religiosa. É por isso que é tão necessário que a família se mantenha estruturada? 
Ninguém duvidará de que hoje a crise na qual a família se sente se encontra ligada também a uma aceleração de uma cultura secularizada que se afasta da fé. Numa humanidade em que a família se priva da dimensão religiosa, a família cansa-se de viver. E de certa forma encontra ainda maiores dificuldades na educação. É por isso que o Evangelho de S. Lucas, perspetivando a escolha que o próprio Deus fez para educar o seu Filho, teve necessidade da família: de uma mãe como Maria, e de um pai, ainda que putativo, como S. José. E foi extraordinariamente eficaz a síntese que S. Lucas faz a dada altura quando escreve: «Jesus crescia em sabedoria, idade e graça» (Lc 2,52;40). Uma vida como esta que não era, como se disséssemos, uma decoração. Na família de Nazaré realizaram-se muitas das nossas tensões contemporâneas; como por exemplo, a relação entre Maria e S. José no início. Pensemos na fuga para o Egito. Jesus, Maria e S. José tornam-se emigrantes. E depois, pensemos na relação entre pais e Filho na perda e encontro no Templo. Por fim, uma situação de luto quando Maria está sob a Cruz; e por aí adiante. Em suma, a família é realmente o lugar de provação radical bem ativa. E lá onde isto não acontece, aí nós temos que nos encontrar a recolher as tragédias que não tiveram este processo educativo desde a infância.

Muitos pais mandam os filhos à catequese ou à eucaristia, mas ficam em casa. Qual a importância do exemplo dos pais na educação religiosa dos filhos? 
Este é um dos pontos mais importantes da vida da igreja de hoje, em minha opinião. Existe como que uma separação entre a família e a comunidade cristã. Uma fossa, que permanece quando se enviam os filhos para a paróquia. Porquê? A família é pouco eclesial e as comunidades paroquiais pouco familiares. Pelo que, uma torna-se uma espécie de recinto fechado, e a outra torna-se uma realidade funcional, exterior. Neste sentido, ouso brincar um bocadinho afirmando que, neste sentido, é indispensável que os pais levem para a comunidade os seus filhos, desde a idade do berço. Sem esta dimensão, não é possível a evangelização. A brincadeira que me vem à ideia é esta: como o filho entra como membro da família, através do aleitamento, o amor da mãe, a voz do pai e o desvelo dos avós, a evangelização torna-se possível através do odor das velas, o cheiro do incenso, a visão dos que atuam à volta do altar. Se depois é verdade que os primeiros três anos são os que constroem o âmago duma personalidade, compreende-se que de nada vale esconder uma criança desde que nasceu e apenas levá-la aos sete anos para a paróquia para a primeira Comunhão. Temos que recriar intimidade entre família e paróquia. A nós ambas nos servem.

Pede que as famílias leiam juntas o Evangelho de Lucas. Como podem elas arranjar tempo, na sociedade de hoje? 
É o desafio de «rezar sempre», como dizia Jesus. Se vivemos numa sociedade em que a pressa e o caos são de casa, «rezar sempre sem nunca nos cansarmos» significa rezar pelo menos cinco minutos por dia, juntos em família. Neste sentido, o Evangelho de S. Lucas que publicámos, nas edições Paulus em várias línguas, é um instrumento para o que chamarei a lectio divina popular ou familiar. Quando eu era bispo de Terni, uma senhora contou-me, quando então distribuía estes evangelhos nas minhas visitas às famílias da diocese, a sua alegria porque todas as noites antes da ceia liam em família um ou dois versículos do Evangelho com um comentário muito breve. E esta é uma maneira de fazer as famílias discípulas de Jesus. Em suma, aquela Maria, irmã de Marta, ensina-nos que estes cinco minutos poderão ser a «melhor parte» (Lc 10,42) dos nossos dias.


Neste ano da Misericórdia, como podem as famílias exercer essa misericórdia entre elas? 
Eu penso que este Ano de Misericórdia é um pouco como Jesus: anunciou em Nazaré um ano de graça, durante o qual a dimensão do dom, da gratuidade, deve aparecer de muitos modos nas famílias. O Papa Francisco deu-nos aquelas famosas três palavras: desculpa, por favor, obrigado! São três palavras que podem declinar-se durante o Ano da Misericórdia, ou melhor dizendo, a jornada de um Ano de Misericórdia. Claro, tudo isto se deve passar na paróquia, mas também tomá-lo como hábito de vida, na vida ordinária, no trabalho, no mercado, na rua, em todo o lado. Na verdade, trata-se de transformar a vida não apenas vivendo melhor, mas até conduzindo-a mais graciosamente. A gratuidade falta-nos muito nas nossas relações. Tudo se faz como se fosse um comércio: dou-te para que me dês; quanto custa; quanto devo gastar... Precisamos de mais atitudes graciosas, de algo mais de «grátis» nas nossas relações. E a Misericórdia entra nisto, porque Deus opera sempre graciosamente em favor de todos, especialmente em favor dos mais necessitados.

«Na Igreja celebramos o casamento, mas depois não acompanhamos as famílias»


D. António Francisco dos Santos, bispo do Porto, falou à Família Cristã sobre o Sínodo que agora se inicia, revelando que espera decisões concretas da parte do Papa. Para o prelado do Porto, a principal preocupação está na integração dos casais na comunidade, num caminho que se inicia na preparação para o matrimónio, que deve ser mais exigente, e continua depois do matrimónio, num acompanhamento que as comunidades ainda não dão aos seus casais.

O Papa tem tentado chamar a atenção para a família, marcando estes dois sínodos e dedicando as suas catequeses semanais a esta temática. É uma estratégia que está a resultar? As pessoas estão, de facto, a olhar mais para a família? 
Eu penso que foi uma pedagogia muito própria do Papa Francisco, que eu admiro. Ajudou-nos a compreender que a decisão do Sínodo sobre a Família era uma decisão dele, rezada junto de Deus. Ao chegar, o Papa Francisco trazia esta preocupação e este sonho de colocar a igreja disponível para refletir sobre a família. Foi uma pedagogia nova, pois ele quis realizar o Sínodo em dois momentos. Primeiro numa assembleia extraordinário, em que quis auscultar todo o mundo, independentemente de serem cristãos ou não. Procurou que aí se afirmasse e revelasse o que o mundo e a sociedade pensa da família, não apenas a igreja. Agora, com esta segunda fase, ele procurou devolver essa reflexão às nossas dioceses para que lhe digamos aquilo que pensamos e sonhamos para a família.

Mas a estratégia de facto levou as pessoas a discutir mais a família? 
Teve frutos práticos em três vertentes: valorizámos a família no que de melhor e mais sagrado tem, que é fonte de vida, espaço do amor e escola da educação e igreja doméstica; veio dizer à humanidade inteira, que deu grande atenção à decisão do Papa, que a família é importante, e nós na sociedade muitas vezes não damos essa importância e desvalorizamos aquilo que ela mais precisa, que é o respeito e ajuda de todos nós; em terceiro lugar veio dizer que a ação pastoral tem de ser diferente. Precisamos de ter mais atenção quer à preparação das famílias, quer ao acompanhamento depois da celebração dos sacramentos. Muitas vezes a igreja tem esquecido esse acompanhamento espiritual, humano, de integração na comunidade, de ajuda nos momentos difíceis.
A Igreja tem de fazer aí um imenso caminho. Há muito trabalho feito, valorizemo-lo, mas há ainda um grande caminho para andar, e muita forma diferente de acompanhamento e acolhimento, e mesmo de valorização dos movimentos de espiritualidade familiar, ao qual não temos dado tanta atenção como deveríamos ter dado.

No relatório final do Sínodo extraordinário, falou-se da necessidade das famílias serem sujeitos de evangelização, em vez de meros objetos de evangelização. As famílias já compreenderam esta urgência de se “chegarem à frente”? 
Eu creio que esse é um dos dados mais valiosos do relatório final e uma das descobertas que quem está mais atenta à vida das igrejas diocesanas há muito o fez, mas que nem sempre deu a visibilidade e importância e até a capacidade institucional necessária. Nós setorizamos demasiado a pastoral. Fizemos catequese para as crianças, pastoral de saúde para os doentes, serviço social aos idosos, tivemos algum acompanhamento nos movimentos de casais, mas nem nas comunidades promovíamos momentos em que toda a família podia estar reunida. Ultimamente a catequese deu-se conta que o melhor caminho é valorizar a catequese familiar, e a pastoral deu-se conta que, mais do que setorizar iniciativas, temos de valorizar a família no seu todo.
Esta é hoje uma realidade palpável e só não vê isso quem não quer, e por isso é necessário que todos nos mobilizemos para isso. A minha experiência dos anos mais recentes diz-me que sempre que fizemos propostas para a família, os resultados foram mais eficientes, sólidos e continuados no tempo. Em Portugal este é um caminho obrigatório para a Igreja.

Parece-lhe mais importante que do Sínodo saiam contributos para o Papa mais na área da prevenção (preparação para o matrimónio, formação dos sacerdotes, planeamento familiar), ou na área dos paliativos (nulidade, comunhão dos recasados, etc)?
Todos esperamos muito do Sínodo, e é bom que o façamos, pois foi nesse sentido que o Papa o propôs. Esperamos muito em todas as vertentes, e é normal que esperemos caminhos novos. Embora esta exportação apostólica não seja pós-sinodal, o Papa ensinou-nos a não fazermos apenas grandes reflexões pastorais, mas a abrir caminhos de propostas concretas. Aquilo que espero do Sínodo é que, com o contributo de todos nós, que tem sido muito responsável da parte de todos nós, bispos, sacerdotes e todas as bases, os padres sinodais tenham todas as possibilidades de, com o caminho já feito, darem ao Santo Padre o verdadeiro pensar da Igreja. O Santo Padre dar-nos-á depois caminhos novos e propostas concretas que nos vão ajudar a preparar a família a ser família, a ajudar a família a viver feliz, como família cristã, e ao mesmo tempo a ir ao encontro das situações mais difíceis, que é preciso ajudar.

Precisamos de uma preparação para o matrimónio mais exigente?
Penso que há experiências em algumas dioceses em Portugal onde a preparação começa com mais tempo. Há outro elemento que é importante: que a preparação seja feita na comunidade, não apenas no cartório paroquial, ou com uma equipa em reuniões com o sacerdote.
Mas precisamos é de acompanhar depois do matrimónio. Penso que a lacuna maior da pastoral da Igreja na relação com as famílias não foi na preparação, foi no acompanhamento dos novos casais e das famílias no seu todo. A comunidade precisa de se responsabilizar pela celebração do casamento. Na preparação para o casamento, precisamos de implicar a comunidade paroquial no acompanhamento destes casais, para que eles sejam parte integrante da vida da comunidade. O que tem faltado muito na Igreja é que nós celebramos o casamento mas depois não acompanhamos as famílias, não as sentimos inseridas. Preocupamo-nos com os crismandos, e que os crismados devem ficar integrados nas atividades da Igreja. Porque é que não fazemos o mesmo com quem celebra o sacramento do matrimónio? É um sacramento de integração na vida comunitária…

E como é que esse acompanhamento pode ser feito? 
Pode ser feito não colando apenas a preparação do matrimónio com a cerimónia. Temos de preparar os casais de noivos para a vida da comunidade. Muitos destes casais só os encontramos quando trazem os filhos para o batismo ou a catequese, e portanto nós temos a possibilidade de integrar os jovens casais na vida da comunidade, porque a comunidade é que evangeliza.

Uma integração pré-matrimónio ou pós? 
A integração deve ser feita durante a preparação para o matrimónio, para que eles possam descobrir como vão viver a sua vida matrimonial e familiar integrados naquela comunidade que os recebeu e os preparou para o matrimónio.


Isso implicará uma preparação mais estendida no tempo? 
Sim, mais estendida no tempo e mais aberta à comunidade. A dimensão da descoberta da comunidade onde se vão fixar, que nem sempre é a comunidade onde se casam, é muito importante. Estive com alguns casais que me diziam “estou há cinco anos nesta comunidade, venho todos os fins-de-semana à missa, temos três crianças que vão iniciar a catequese e nunca ninguém me perguntou quem eu era, de onde era e porque estava ali”. As comunidades têm de se abrir a este acolhimento dos casais novos. Nas áreas urbanas é difícil, mas é possível, porque se a preparação para o casamento leva as pessoas a descobrirem a comunidade onde vão estar inseridas, a partir daí é possível que a comunidade valorize o dom de uma nova família que vem ali ao seu encontro.

Mas falamos em participação nos serviço da paróquia, apresentação na eucaristia, o quê exatamente? 
De tudo isso. A minha experiência de sacerdote era, ao longo do primeiro ano, fazer um acompanhamento que lhes permitisse alguma privacidade, para se adaptarem à realidade da família, terem tempo para criarem uma certa autonomia, mas também tempo para descobrirem que a comunidade onde eles vivem têm espaços que estão livres para a sua missão, e muitos deles foram integrando-se na catequese, nas atividades de cariz social, na liturgia. Há muitos casais novos que se valorizaram muito através da participação na liturgia, ou noutras instâncias. Quantos foram integrados no conselho pastoral, na preparação do casamento de outros, ou até na constituição de equipas de casais. Mas sobretudo fazê-lo integrando-se na comunidade. Creio que as famílias jovens cristãs precisam de saber que o fazem numa envolvência de aconchego, integração e necessidade pastoral da comunidade que os recebe.

«Estamos [Igreja] ainda muito longe de dar as respostas que os casais merecem»

E isso é a chave para evitar as situações de sofrimento no futuro? 
É sobretudo a certeza de que não estão sós. Nos momentos felizes partilham a felicidade, e nos momentos de dor, rutura, e provação, sabem que encontrarão sempre membros da comunidade que estão ao lado deles para os ouvir e acolher. Eu creio que a dimensão da preparação para o matrimónio precisa desta vertente nova de saberem que todo o caminho que fazemos como cristãos não o fazemos como ilhas isoladas, mas que o fazem integrados numa comunidade paroquial, vicarial e diocesana. Precisamos de dar aos jovens casais esta descoberta da realidade da comunidade em si. O valor da comunidade não está suficientemente afirmado na preparação para o matrimónio, e é necessário que naquela comunidade saibam quantos casamentos ali se realizaram, e que têm ali um espaço para viverem como família cristã. É um contributo necessário não apenas para eles, mas no bem que podem fazer ao outro.


Há espaço na doutrina para ponderar a possibilidade de um acesso dos divorciados e recasados à comunhão, passando por um processo penitencial, como alguns avançaram no sínodo do ano passado? 
Nessa perspetiva, o Santo Padre pediu-nos que disséssemos o que pensávamos. Sabemos que há famílias que passam por situações de grandes provações. Aguardamos que o Papa nos diga também aquilo que ele pensa e nos propõe. Da nossa parte, devemos estar disponíveis para caminhar em Igreja, sentindo que muitas vezes o problema, posto desta forma só com a comunhão, é ver as coisas apenas por um lado. Mas também não nos devemos esquecer no sofrimento que estas famílias têm de não poderem comungar e de não poderem participar em pleno. As situações são muito diferenciadas e cada um tem o seu percurso de vida, e é importante que a Igreja saiba caminhar com cada família, com cada pessoa de modo muito personalizado, e isso tem-nos faltado. Estabelecemos normas, e elas são importante, mas elas não nos devem dispensar de fazer um caminho com essas pessoas.

Um caminho que pode levar a ponderar essa possibilidade, em circunstâncias específicas?
Pode levar-nos, em algumas circunstâncias específicas, a ajudá-los a perceber, em primeiro lugar e como dizia o Papa, da validade do seu casamento. Temos de ajudar a valorizar isso, e há situações em que precisamos de ajudar na questão da validade do mesmo. Depois há um processo espiritual para as outras situações, a aguardamos com serenidade aquilo que o Espírito Santo e o Papa irão dizer à Igreja, pois é isso que sempre se fez na Igreja desde o Concílio de Jerusalém. Esta espera não nos livre de acompanharmos todos os dias os casais que sofrem e de acolher os que não podem receber esses sacramentos. Estamos ainda muito longe de dar as respostas que os casais merecem.

Segundas uniões são «um assunto que precisa de ser estudado à luz dessa [dos dias de hoje] realidade»


D. Joseph Coutts, presidente da Conferência Episcopal do Paquistão, esteve no primeiro Sínodo, o ano passado, mas não estará neste, em virtude terem escolhido outros participantes para enviar como representantes do seu país, na vontade de «dar lugar a bispos mais novos», referiu o prelado. Mas isso não o impede de ter a sua opinião sobre alguns dos assuntos que vão estar em cima da mesa no Sínodo que se inicia no próximo dia 4.


Quais são os assuntos mais importantes que o Paquistão quer levar ao Sínodo de outubro?
A coisa boa é que o processo todo dos sínodos permite a participação de todos os países. Assim, se as nossas questões não forem abordadas, o problema não está no sínodo, está connosco, a falha será nossa. Divórcio e recasamento é um problema para nós, mas de uma forma diferente da Europa. Num país como o Paquistão, onde a taxa de literacia é pouco acima de 50%, os cristãos estão organizados, mas aparecem sempre uma série de pastores evangelistas que criam igrejas próprias com nomes muito bonitos, e isso confunde os cristãos que não têm formação.
Depois, o nosso governo reconhece o casamento religioso como válido, não é preciso casamento civil. Portanto, se um cristão quiser deixar a sua mulher, é possível que possam mudar-se apenas de cidade, pagar algum dinheiro a um destes pastores, que celebra o casamento sem saber que outro casamento já existe, e tudo fica legalizado. Sei que aqui isso não acontece, mas para nós é algo que sucede muito.

E, na sua opinião, as segundas uniões não são possíveis dentro da Igreja Católica? 
O processo, mesmo que o casamento tenha falhado e haja bom motivo para o anular, é tão longo que se encontram atalhos. Isto é uma teologia que ainda não desenvolvemos. Nós pomos as coisas do casamento num pedestal ideal que exige fidelidade até ao fim, e nem sempre é possível ao ser humano viver segundo esse ideal para sempre. O mesmo acontece no celibato dos sacerdotes. Mas aí é possível pedir dispensa do celibato, mas é mais difícil conseguir a anulação de um casamento. Há outras igrejas cristãs, como os ortodoxos, que têm outras práticas, pelo que penso que é um assunto que precisa de ser estudado à luz dessa realidade. Entretanto, o ponto que o Papa fala é o da misericórdia. Cristo representa o amor e a misericórdia de Deus, não apenas o cumprimento de leis que temos de obedecer.

As pessoas precisam de uma aproximação mais misericordiosa? 
Sim, precisam. Mas como vamos fazê-lo, sem tornar isto uma regra? É por isso que o Sínodo será muito duro. No final, espero que estas questões tenham resposta, embora saiba que não será fácil. Até porque estas questões vão levantar alguma fricção, como fez Jesus no seu tempo, quando perdoou as pessoas ou se sentou com pecadores.

Alguns dos participantes queixaram-se que as suas necessidades foram deixadas de lado no Sínodo ou na comunicação social, pelo menos.
Acho que isso aconteceu, de alguma forma. Mas os problemas do Mundo Ocidental são muito diferentes dos nossos. A poligamia em África é um deles. Podem ter uma família grande, que vive feliz numa grande casa, e depois temos de dizer ao chefe tribal que quer ser batizado que ele tem de mandar para casa 3 das 4 mulheres que tem. De acordo com a cultura deles, isso não era problema, e agora temos de dividir a família, e isso abriu-nos os olhos. Nos países asiáticos e em alguns africanos há a ideia de que a homossexualidade e o casamento é algo que não pode existir. Não é comum para nós, mas isso é diferente de aceitar pessoas que são homossexuais. Mas usar o termo casamento para nós também não é aceitável de todo.

Teme algum Cisma na Igreja por causa disto? 
Não creio. Depois do Vaticano II, as mudanças começaram a chegar e nós tínhamos um cardeal cuja lema era “sem mudança”, mas mesmo ele acabou por ir mudando. Haverá tensões, mas não vejo em que possa resultar dali uma divisão séria.
Temos de estudar bem os assuntos e saber bem o que queremos, porque não podemos dar a impressão de que estamos simplesmente a deitar à rua tradições que estão aqui há milhares de anos, mas sim olhar para elas sob uma nova luz, uma luz mais abrangente e, se essa luz sugerir mudanças, então elas devem ser feitas.

21 de setembro de 2015

Cardeal Patriarca quer «reorganizar a Igreja em chave familiar»



D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa, falou à Família Cristã sobre as suas expectativas antes de iniciar o Sínodo da Família, onde o prelado será um dos dois representantes dos bispos português, em conjunto com D. Antonino Dias, bispo de Portalegre e Castelo Branco.

Este Sínodo é o culminar de dois anos intensos sobre a família. Esta “estratégia”, quase de marketing, do Papa Francisco, que procurava colocar a família no centro das atenções de crentes e não crentes, resultou?
Eu creio que sim, e vou explicar porquê. Porque foi um processo eclesial propriamente dito, e um processo desses envolve o mais possível os membros da Igreja. Sendo que, esta assembleia sinodal, e é bom que se tenha isso em conta, é distinta da anterior, que era sobre os desafios à família. Esta será sobre a missão da família na Igreja e na sociedade. Será muito mais projetiva, já que não se pode dizer muito mais sobre o que se disse no ano passado, e o que saiu naquela série de proposições que foram votadas e que o Papa quis que fossem manifestas as votações que cada proposição tinha tido, até para se poder aquilatar quais os pontos em que há consenso geral e mais problemáticos, mas sobre isso haverá pouco a dizer. Agora neste contexto o que esperamos das famílias, dentro da visão cristã da família, que é aquela em que Jesus se apresenta, não nos vão pedir outra, que não somos a ONU, somos a Igreja Católica. E é bom insistir nisto, porque parece que às vezes há uma certa expetativa algo despistada. Esperam que a Igreja apresente linha de atuação da família que não tenham em conta aquilo que a define e valida como Igreja, que é a proposta que está. Naturalmente que tem de ser aprofundada, atualizada e aplicada com aquilo que é de hoje, mas que é a proposta que está.

Quais são as preocupações que a Igreja portuguesa vai levar?
Em primeiro lugar, a necessidade de preparar e acompanhar, ao longo da vida, as famílias cristãs. Levar por diante um processo matrimonial, paternal e agora com avós, à luz do Evangelho, tem de ser preparado, consciencializado, e tem de ser acompanhado. Não pode ficar reduzido a uns meses antes, em que aparece um casal que se quer casar, faz-se um curso de preparação para o matrimónio com meia dúzia, ou às vezes nem isso, e pronto, “estão casados, agora aguentem-se”, para falar mal e depressa. Não é isto. Trata-se de algo tão importante na ordem sacramental, em que o próprio Deus está incluído, que requer muita consciência, muita preparação e muito acompanhamento. Porque uma vida tem crises a ultrapassar e superar, e sozinhos é muito difícil, para não dizer impossível. A grande questão que se põe é como que nós, comunidades cristãos, vamos, nas nossas famílias, paróquias, comunidades e movimentos, preparar e apoiar o matrimónio cristão. Isto vai levar, e a minha intervenção vai ser nesse sentido, a uma reorganização da vida cristã em chave familiar.


E como se fará essa reorganização?
Isto é importante para a Igreja, que nem sempre vive assim. Mesmo em casos de militância, falamos do homem ou da mulher, mas não sabemos se é casado, se é viúvo, se tem filhos… há aqui uma relação familiar que tem de estar muito mais presente na comunidade cristã, para que ela seja, como já pedia o Papa João Paulo II, uma família de famílias, e não em termos individuais. E se a Igreja conseguir avançar para uma organização em chave familiar, isto pode ser um grande estímulo para a sociedade, que também não vive assim. A nossa sociedade vive, infelizmente, e desfaz-se mais do que se constrói, em torno de duas abstrações: o indivíduo, que é o ser sem relações, e o termo massas, que é o ser sem rosto. Reparamos que é assim na vida profissional, até na desportiva, em que se contam mais as pessoas individuais, ou as massas, mas sem entrar em linha de conta com a rede familiar.

E como é que conseguiríamos organizar a Igreja e a sociedade em chave familiar? 
Bom, começamos pela Igreja, que é aquilo que nos compete. De resto, participamos como cidadãos. No que diz respeito à Igreja… bom, pelo exemplo é mais fácil. Olhamos para uma paróquia e dizemos que tem 2 ou 3 mil praticantes dominicais, e fazemos censos e estatísticas. Não é muito mais interessante dizer “eu nesta paróquia tenho 253 famílias”? Em que a base e a estruturação, a vida sacramental, o batismo dos filhos que já provieram do matrimónio dos pais, a iniciação cristã, conta muito mais com a base familiar, do que com a abstração individual. Quantas famílias são? Mesmo que depois haja algum individual que por esta ou aquela razão não tem família, e se inclui também. E aqui toca-se um ponto doutrinal: nós somos cristãos porquê? Como todos os religiosos, acreditamos em Deus, certo. Não estamos cá por acaso nem sozinho, acreditamos que alguém nos precede e nos espera, como as pessoas de todas as religiões. Mas isto é ser religioso, no sentido de estar ligado a Deus. Mas ser cristão é outra coisa: é dentro deste fundo comum, que compartilhamos com todas as pessoas crentes, nós situamos a nossa relação com Deus na pessoa de Jesus Cristo. E eu disse pessoa, não indivíduo. Porque Jesus teve mãe, um pai adotivo, parentes que são referenciados no Evangelho, Jesus vive 30 anos em contexto familiar e de trabalho, numa terra, com vizinhos. Nós não falamos em abstrações. Quando um cristão pensa em Deus e como Deus se revela, pensa numa família, que foi a família de Nazaré, que aliás foi emigrante à força no Egito. Pensamos na carpintaria de Nazaré, naquele contexto local em que foi bem recebido umas vezes e outras não. Pensamos na sinagoga, pois Jesus era um judeu praticante e não ia à missa ao domingo, mas sim à sinagoga ao sábado. Há um contexto local, familiar, de vizinhança, que nós cristãos acreditamos que é a própria revelação de Deus. E por isso a família não é algo acessório

Mas se sabem assim tão bem, porque é que ainda não vivemos nessa chave familiar?
Temos de viver mais, temos de ser operativos e viver mais. Mas julgo que é porque ainda somos subsidiários dessas abstrações. Pensamos em indivíduos mais ou menos sem relação, ou pensamos em massas. Mas essa não é a maneira evangélica de pensar as coisas, não foi essa a Revelação cristã. E mais! Lemos os textos do Novo Testamento, que dizem respeito as primeiras comunidades cristãs, e verificamos que elas também têm chave familiar. É muito interessante ver S. Paulo dizer que batizou a casa de fulano, a família de fulano. A primeira referência de Paulo à Europa é a família da Lídia que ele encontrou e foi a sua casa. Quando Paulo fala a Timóteo, não lhe fala da fé, diz-lhe “não te esqueças da fé que recebeste da tua mãe Eunice e da tua avó Loíde”. Não podia haver igrejas, como temos agora, e a comunidade funcionava em casa deste e daquele. O casal importante de Aquila e Priscila onde funcionavam as comunidades.

Este motu proprio sobre a nulidade matrimonial vem colocar mais responsabilidade sobre os ombros dos bispos, com a criação do processo breve. Não sei se o Papa terá falado convosco sobre o motu proprio, mas o que é que ele traz de novo?
Na linha de coisas que tinham sido pedidas e insistidas na última assembleia sinodal, que se facilite o que pode ser facilitado. Atenção que o sacramento é uma coisa séria, e portanto quando de uma maneira consciente, responsável e livre um homem e uma mulher se aceitam como esposas perante Deus, nós, Igreja, não temos qualquer espécie de poder ou autoridade para interferir. Agora o que podemos e devemos é não só preparar esse momento, e daí a tal aplicação muito maior na formação para o matrimónio cristão, para as pessoas perceberem do que se trata e tenham uma base experimental onde isso possa assentar, e depois verificar se isso aconteceu assim. E é em relação a estas circunstâncias que se facilita o processo, no sentido de ser só numa instância, e de não precisar de ir a outra diocese para confirmação – sempre com o direito a apelarem os que não ficarem satisfeitos – com mais envolvimento do bispo diocesano, dispensando algumas formalidades quando os casos são muito evidentes. Tudo no sentido da verdade do que aconteceu e na respetiva verificação.

Muitos bispos não têm formação em direito canónico, mas o Papa pede que sejam eles a julgar estas situações. Não tem receio que isto possa vulgarizar a declaração de nulidade e criar quase um divórcio religioso? 
Isso, meu amigo, nisto como em todos os casos, é a consciência que cada um tem ou não tem. Se estamos a tratar de algo tão sério como a é a vida sacramental para aqueles que a querem seguir, contamos com a seriedade de consciência de quem realiza o ato sacramental e de quem o acompanha e avalia. Se faltar a esta base, em relação a isto e a tudo… vamos acreditar que tudo seja feito com seriedade, e vamos exigir essa seriedade. Se algum caso muito notório de desrespeito desta seriedade e regras, isso seria verificado e devidamente reprovado… não vejo aqui um problema maior do que noutros setores, é uma base geral de seriedade que vale aqui e vale em tudo.

Acredita que isto possa resolver parte significativa dos casos existentes de divorciados recasados, que sofrem por não poderem comungar ou confessar-se? 
Eu aí nem preciso de achar, porque se trata de verificar o número de verificação da nulidade do alegado casamento que se dão e vermos que os caso é grandíssimo. Até por uma certa experiência empírica de ouvirmos os casos e ouvirmos como é que as pessoas pretensamente se casaram. Infelizmente é assim…

Quanto aos outros, muitos dos defensores de uma maior abertura para com as pessoas em situações irregulares, têm-se socorrido de declarações do Papa em que ele pede uma maior abertura para dizer que ele vai mudar tudo. Mas acolher essas pessoas significa aceitar as suas situações? 
O acolhimento refere-se às pessoas. Cada batizado tem o seu lugar nesta casa da família dos filhos de Deus. No que diz respeito à prática sacramental, temos de entendê-la como um todo, pois os sacramentos não vivem independentes uns dos outros. Pelo Batismo entra-se em casa. Mas enfim, mesmo não estando nós em condições dessa vida sacramental plena, estamos sempre em condições para uma vida sacramental que o nosso estado de batizado nos habilita.

Não depreende, portanto, das palavras do Papa que ele está a declarar que vai aceitar essas situações irregulares dentro da Igreja? 
Com certeza que não. Não devemos fazer avaliações subjetivas, e a situação, não sendo a que propomos, é a que existe, e a pessoa está antes, durante e depois de tudo isso.

Acha possível que, dentro da doutrina, nomeadamente em casos pontuais, ou em situações em que o cônjuge é abandonado e o parceiro não deixa qualquer solução de reconciliação... 
A Igreja, em toda a sua moral e aplicação moral, inclusive na vida sacramental, já faz esse raciocínio. A proposta é o que é, a apreciação caso a caso das circunstâncias faz-se a outro nível mais pessoal e interpessoal, porque é aí que se deve fazer…

E aí é possível estabelecer diferenças para as situações que são diferentes? 
Isso com certeza.

Porque temos pessoas que nunca viverão de forma completa, ou fora da comunhão da Igreja, ou fora da alegria de uma vida familiar plena... 
Sim… trata-se de vermos como devemos conjugar cada vez melhor a verdade sacramental com a vida de cada um e as circunstâncias subjetivas e objetivas. Temos de ver tudo isso sem pôr em causa nenhum dos termos.

E adequando as coisas a cada pessoa e cada caso? 
Isso é o que já acontece, e quem está dentro da igreja sabe que é isso que se faz.



Outra das questões que tem sido debatida foi a necessidade de melhorar a preparação para o matrimónio, e promover o acompanhamento posterior dos casais. Uma preparação mais exigente, e mais espaçada no tempo, é necessária? 
 Isso já está dito, até por João Paulo II, que dizia que a preparação para o matrimónio começa na casa dos pais e na catequese. Porque isto trata-se da educação para uma vida em função do outro, e isto é uma educação longa, que começa em casa, com a noção de que há o menino, mas há a menina, a avó, o parente que está doente e precisa de atenção, a refeição que aparece na mesa mas que é preciso colaborar. Coisas tão simples que vão educando no sentido da atenção ao outro, uma dai que está descentrada em si e centrada em Deus e nos outros que mais precisam. E essa é a grande preparação para uma comunhão real e de compromisso como é o caso do compromisso matrimonial. A preparação significa uma preparação para viver não a seu bel-prazer, mas em função dos outros.

Mas muitos casais que chegam à preparação imediata não vêm nessas condições… Deve essa preparação imediata ser mais exigente no sentido de acompanhar os casais?
Tornar as coisas claras, para os casais saberem ao que se estão a comprometer, sacramentalmente, envolvendo o próprio Deus nesse ato, com certeza. Agora estas são as disposições gerais, e depois temos o caso a caso, em que há pessoas que aprendem mais depressa que outras. Há uma meta a atingir, mas depois temos de ver caso a caso.

Mas há paróquias que têm apenas um encontro, ou nenhum, e depois…
E depois, o depois é que é importante. Saber como se sustenta a vida matrimonial. Por exemplo, há bocadinho, quando falávamos da reorganização comunitária em chave familiar. Nós reparamos que muitas das nossas celebrações dão uma importância muito grande ao sufrágio dos defuntos, “missa por alma”, como se diz. Damos igual relevo às comemorações matrimoniais? “hoje é o aniversário deste e daquele casal na nossa paróquia”, fazemos isto? E nem precisamos de esperar pelos 25 anos, fazem dois, fazem três… damos suficiente relevo ao compromisso matrimonial na nossa vida paroquial? É algo que parece simples, mas é muito importante. Eu conheço párocos que, todos os anos, tendo as direções dos casais, enviam uma felicitação a quem faz anos de matrimónio. Coisas simples mas que dão à vida matrimonial um acompanhamento e uma atenção como deve ser.

Um acompanhamento da comunidade… 
Da comunidade, precisamente, comunitário. Há tentativas nesse sentido, mas ainda falta muito. Qual é o lugar que nós damos à celebração do batismo que insere na família dos filhos de Deus aquela criança que os pais trazem à comunidade? Vemos isso com gosto, a nossa família cristã a crescer? A mesma coisa para os avós, que dão à comunidade cristã uma atenção prioritária e permanente ao primeiro núcleo que é o da igreja doméstica. Manter constantemente a referência matrimonial e familiar no âmago da comunidade cristã. Da família igreja doméstica à família dos filhos de Deus.

Coincidência ou não, começam a aparecer medidas mais efetivas de apoio à natalidade em Portugal, e este ano o número de nascimentos parece estar em curva ascendente, como não se via há uns anos. Estamos a preocupar-nos mais com a família? 
Um movimento no qual devemos estar todos atentos e ativos. O matrimónio, mesmo que não seja sacramental, não é um exclusivo cristão. Nós colocamos a pessoa de Jesus Cristo no seu centro. Paulo diz que quem casa, casa-se no Senhor, e isto tem uma envolvência. Há muita inspiração cristã na sociedade portuguesa, e esse é um dos pontos em que fazemos o reconhecimento feliz que há incidência. O Patriarcado está também a viver um tempo sinodal.

De que forma pode o Sínodo de Lisboa ser enriquecido pelo Sínodo de Roma? 
Bom, isso só saberei no final do sínodo em Roma (risos). Mas quase que adianto que, estando este caminho sinodal de Lisboa a refletir sobre as variadas reflexões do Papa Francisco na Evangelii Gaudium, está a fazê-lo projetando-se para o futuro. Esse futuro passará certamente por este revigoramente comunitário, esse revigoramento comunitário passará certamente pela presença mais forte das famílias nas nossa comunidades cristãs, e aí conjugam-se muito as duas coisas.

9 de dezembro de 2014

Vaticano apresenta Lineamenta para o Sínodo de 2015

O Vaticano apresentou hoje o documento preparatório (‘lineamenta’) para o Sínodo 2015, no qual se apresentam 46 perguntas sobre temas como a pastoral dos divorciados ou acolhimento dos homossexuais, para além das propostas sobre o “Evangelho da Família”. “A pastoral sacramental em relação aos divorciados recasados precisa de um novo aprofundamento”, assinala o texto, que acrescenta as questões e algumas reflexões ao relatório final da assembleia geral extraordinária do Sínodo que decorreu em outubro deste ano.

O texto é constituído pela ‘Relatio Synodi’, o relatório final da assembleia geral extraordinária do organismo consultivo que decorreu em outubro deste ano, acompanhado por um questionário com 46 perguntas.

Os contributos das conferências episcopais serão depois utilizados para a elaboração do documento de trabalho (Instrumentum Laboris) da 14ª Assembleia Geral ordinária do Sínodo dos Bispos, que vai decorrer de 4 a 25 de outubro de 2015, com o tema ‘A vocação e a missão da família na Igreja, no mundo contemporâneo’.

O documento pede sugestões para “precaver formas de impedimentos indevidos ou desnecessários”, no caso destas pessoas, que estão atualmente afastadas do acesso à Comunhão. “Como tornar mais acessíveis e ágeis, de preferência gratuitos, os procedimentos para o reconhecimento dos casos de nulidade?”, é outra das perguntas. O texto foi enviado às Conferências Episcopais, aos responsáveis dos Institutos Religiosos e aos organismos da Cúria Romana, para recolha de contributos. “O cuidado pastoral das pessoas com tendência homossexual coloca hoje novos desafios, devido também à maneira como são socialmente propostos os seus direitos”, pode ler-se, na versão original, em italiano, divulgada pela sala de imprensa da Santa Sé, no qual se fala na necessidade de uma pastoral com a “arte do acompanhamento”.

Os ‘lineamenta’ apelam ainda a um compromisso mais efetivo na “transmissão da vida” e para enfrentar o “desafio da quebra da natalidade”. “Como é que a Igreja combate a chaga do aborto, promovendo uma cultura eficaz da vida?”, questiona-se. Os vários organismos que recebem o documento são chamados a envolver, na sua discussão, as comunidades católicas e “instituições académicas, organizações, movimentos laicais e outras instâncias eclesiais”, a fim de “promover uma ampla consulta sobre a família segundo a orientação e o espírito do processo sinodal”.

As perguntas abordam as questões ligadas às uniões de facto e casamentos civis, alertando também para a “difusão do relativismo cultural na sociedade” que leva à “rejeição, por parte de muitos, do modelo de família formado pelo homem e a mulher unidos no vínculo matrimonial e aberto à procriação”. “Como ajudar quem vive em uniões a decidir-se pelo matrimónio?”, pergunta Neste sentido, pedem-se “respostas fiéis e corajosas” para um novo anúncio do “Evangelho da Família”, também junto das “situações extremas”.

 O documento refere-se à “relevância da vida afetiva”, ao “desejo de família” e à “grandeza e beleza do dom da indissolubilidade” do matrimónio. O anúncio da mensagem cristã sobre a família implica ainda a luta por “condições para que cada família seja como Deus quer e venha a ser socialmente reconhecida na sua dignidade e missão”.

A este respeito, há um apelo à “denúncia franca dos processos culturais, económicos e políticos que minam a realidade familiar”. Os ‘lineamenta’ recordam um dos temas mais debatidos na assembleia extraordinária de outubro, a preparação para o matrimónio e o acompanhamento dos casais nos primeiros anos de vida a dois, questionando sobre os “percursos” e propostas de formação que existem.


O documento foi enviado às Conferências Episcopais, aos responsáveis dos Institutos Religiosos e aos organismos da Cúria Romana, para recolha de contributos. "Os resultados desta consulta devem ser enviados à Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos até 15 de abril de 2015, para que possam ser estudados e valorizados na preparação do instrumento de trabalho, que será publicado antes do verão", adianta a Santa Sé, em comunicado.

Pode ter acesso ao documento, por enquanto apenas em italiano, clicando aqui.

Texto: Agência Ecclesia
Foto: News.va