Mostrar mensagens com a etiqueta Papa Francisco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Papa Francisco. Mostrar todas as mensagens

28 de outubro de 2015

Um Sínodo pela saída da Igreja ao encontro das pessoas

 
O mundo católico, e não só, tinha os olhos postos em Roma este fim-de-semana. Terminava o Sínodo dos Bispos, a face mais mediática de um processo sinodal que apenas se concluirá com a palavra do Papa Francisco. O Papa decidiu dedicar cerca de dois anos da vida da Igreja à temática da Família, célula base e nuclear da sociedade, mas que a sociedade tinha decidido ignorar. A sociedade e a Igreja, que tinha passado, com os séculos, de um movimento de fervorosos fiéis que percorriam o mundo a anunciar a Boa Nova, a uma instituição aberta apenas aos que decidiam entrar e vir ter com ela.

E esta é a primeira consequência visível deste processo sinodal: a Igreja abriu as suas portas e vai sair à procura de todas as ovelhas que se perderam. O Sínodo alertou, como tinha vindo o Papa a fazer, para a necessidade de acolher a todos, para a necessidade dos católicos, religiosos e leigos, abrirem as portas dos templos e saírem à procura das pessoas onde elas estão. Esta atitude missionária não é novidade na Igreja dos dias de hoje, mas estava limitada a uma minoria que compreendia esta necessidade e partia.

Agora não há volta a dar: Francisco e os padres sinodais abriram as portas da Igreja e querem acolher todas as pessoas, principalmente aquelas que mais precisam do ombro amigo de Deus e que eram os que mais se afastavam: as famílias em situações irregulares, sofridas, que erravam e eram afastadas. Para isto, o Sínodo pediu uma linguagem positiva, que não afaste as pessoas, mas as acolha e acompanhe. Todos têm lugar na Igreja, sem implicar que todos tenham ficado subitamente em estado de graça e sem pecado.

Acolher não significa aceitar ou concordar com as más ações, e foram muitos os padres sinodais que o foram dizendo ao longo deste tempo. Significa sim que a Igreja tem de ter uma resposta clara para todas as situações, que integre e que não afaste, e que seja sensível às realidades de cada um. O que nos leva à segunda consequência visível: os sacerdotes, religiosos e leigos precisam de formação. Precisam de aprender a acolher, a discernir as diferentes situações que lhes são apresentadas todos os dias, e a saber quais as respostas que a Igreja tem para propor a cada pessoa. Não há respostas gerais, e o Sínodo foi claro nisso. Cada pessoa é um caso, e tem de ser tratada como tal, como indivíduo que é.

A face mais visível desta questão é que os leigos que se aproximam da Igreja, ao serem afastados, podem hoje olhar para quem afasta e bater o pé: a Igreja é de todos, inclusive dos que erram, e ninguém pode ser afastado do regaço de Deus.

O Sínodo não esqueceu a enorme quantidade de divorciados recasados que existem no mundo, e que precisam de uma resposta. Muitos poderão pensar que a resposta foi dada nos pontos mais polémicos do relatório final, apontando um caminho de discernimento que pode levar, em alguns casos, ao acesso pleno aos sacramentos, mas isso é apenas parte da verdade. Como tem feito nestes dois mil anos, a Igreja não funciona ao ritmo das pessoas,funciona com uma visão mais ampla e profética, e foi nesse sentido que pensou em tudo.

Antes de mais, com a simplificação dos processos de nulidade. Processos mais céleres para as situações onde, claramente, o vínculo nunca existiu, vai permitir que a grande maioria das situações fiquem resolvidas, como têm vindo a afirmar bispos e sacerdotes durante este tempo sinodal, como disse D. Manuel Clemente à Família Cristã, antes da sua partida para Roma. Com processos mais rápidos e tendencialmente gratuitos, muitas das pessoas que hoje sofrem por não poderem aceder aos sacramentos poderão fazê-lo, se perceberem que, como acontecerá com a maioria, esse vínculo não foi válido e podem avançar para legitimar esta nova união.

Mas porque isto de declarar nulidade não pode ser o pão nosso de cada dia, a Igreja deu outro passo importante com a preparação para o matrimónio. Antes do Sínodo, D. Joseph Coutts, do Paquistão, dizia, em entrevista à Família Cristã, que não era justo colocar um peso tão grande em cima de um casal que tinha acedido ao sacramento do matrimónio com tanta facilidade, sem qualquer preparação. E os padres sinodais, apesar de terem hesitado mexer nesse tema no sínodo anterior, neste foram claros ao afirmar que é necessária uma preparação para o matrimónio mais intensa, prolongada no tempo, que envolva a comunidade e promova a integração dos noivos nessa mesma comunidade, cultivando uma relação que se vai manter depois do matrimónio, com um acompanhamento mais próximo desses casais.


Com noivos conscientes do sacramento, devidamente integrados na comunidade paroquial que os acolhe, e devidamente acompanhados nas alegrias e nas tristezas, o risco de rutura diminui consideravelmente, se é que não desaparece. O risco é que desapareçam também os casais interessados no matrimónio religioso, mas não acho que seja um risco real. Mesmo que diminuam no início, a proposta de felicidade que a Igreja tem para os casais cativa e atrai, e o que todos os casais procuram é a felicidade conjugal. Percebendo que a encontram na proposta da Igreja, voltarão como voltou o filho pródigo depois de tentar um estilo de vida afastado do Pai que não lhe trouxe felicidade.

Depois de tudo isto, resistirão algumas situações de divorciados que entraram em rutura, cujo vínculo foi válido, e também a esses é preciso dar resposta, e é apenas aí que surgem os tais pontos polémicos, que mais não fazem que ir ao encontro das pessoas e das suas vidas. O resultado será diferente para cada um, e pode acontecer que, em alguns casos, se chegue à consciência de que é possível chegar a aceder aos sacramentos da comunhão e da confissão. Ou não. Mas mesmo que não seja possível isso, será possível uma outra proposta que enquadre essa pessoa navida da Igreja e possibilite a participação tão plena quanto possível na vida da Igreja. Se tiver este acompanhamento, mesmo sem comunhão ou confissão, a pessoa estará enquadrada na Igreja e será feliz, porque Deus tem uma resposta para ela.

Agora vem o maior desafio: conseguir que as estruturas locais da Igreja recebam a mensagem do Sínodo e comecem a procurar formação, a ir ao encontro das pessoas, a acolher a todos, a preparar bem para o matrimónio. Sim, o Sínodo arranjou uma carga de trabalhos para toda a gente, e o principal risco de tudo ficar na mesma não é o conteúdo das propostas, é a inércia dos católicos que não sejam capazes de abrir o coração e escutar o que o Sínodo lhes pede, pelo bem de todos.

Opinião: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e Lusa

25 de outubro de 2015

Papa rejeita fé pré-programada que ignora sofrimento alheio


O Papa alertou hoje no Vaticano para a tentação de uma “fé pré-programada” que ignora o sofrimento alheio em função da sua própria agenda. "Uma fé que não sabe radicar-se na vida das pessoas, permanece árida e, em vez de oásis, cria outros desertos", disse, na homilia da Missa conclusiva do Sínodo dos Bispos sobre a família, na Basílica de São Pedro.

Francisco partiu do relato da cura de um cego, por Jesus, para recordar que perante o sofrimento de Bartimeu “nenhum dos discípulos para”, mas “continuam a caminhar, avançam como se nada fosse”. “Se Bartimeu é cego, eles são surdos: o seu problema não é problema deles. Esse pode ser o nosso risco: face aos problemas contínuos, o melhor é seguir em frente, sem deixar-se perturbar”, advertiu. 

Neste contexto, a homilia falou numa “fé pré-programada”, em que cada um já tem a sua agenda própria, “ onde tudo está previsto”. “Sabemos para onde ir e quanto tempo gastar; todos devem respeitar os nossos ritmos e qualquer inconveniente perturba-nos. Corremos o risco de nos tornarmos como «muitos» do Evangelho que perdem a paciência e repreendem Bartimeu”, precisou.

Em vez de rejeitar quem incomoda, Jesus quer “incluir, sobretudo quem está relegado para a margem e grita por Ele”. O Papa aludiu depois à falta de “abertura do coração” e ao fim de aspetos da vida espiritual como “a admiração, a gratidão e o entusiasmo”, longe do “coração” de Deus, que “se inclina para quem está ferido”. “Esta é a tentação duma «espiritualidade da miragem»: podemos caminhar através dos desertos da humanidade não vendo aquilo que realmente existe, mas o que nós gostaríamos de ver”, prosseguiu.


Perante os “irmãos sinodais”, cardeais, patriarcas, arcebispos, bispos e padres que participaram na 14ª assembleia geral do Sínodo, o Papa elogiou o caminho que todos fizeram “juntos”. “Sem nos deixarmos jamais ofuscar pelo pessimismo e pelo pecado, procuremos e vejamos a glória de Deus que resplandece no homem vivo”, apelou.

Francisco defendeu que, tal como na cura do cego, os cristãos devem ir ter com quem sofre para dizer-lhes “coragem”, “tem confiança, anima-te” e “levanta-te”. “Os seus limitam-se a repetir as palavras encorajadoras e libertadoras de Jesus, conduzindo diretamente a Ele sem fazer sermões. A isto são chamados os discípulos de Jesus, também hoje, especialmente hoje: pôr o homem em contacto com a Misericórdia compassiva que salva”, observou.

A menos de dois meses do início do Jubileu da Misericórdia, um Ano Santo extraordinária convocado pelo Papa, Francisco disse que as situações de “miséria e de conflitos” são para Deus “ocasiões de misericórdia”. “Hoje é tempo de misericórdia”, sustentou.

Após a homilia, na apresentação das ofertas, uma família com uma filha em cadeiras de rodas foi ao altar, um dia depois de o Sínodo dos Bispos ter manifestado o seu apoio a todas as pessoas com deficiência.

Texto: Octávio Carmo (Agência Ecclesia)
Fotos: Ricardo Perna

Acolher e discernir: a Igreja ao encontro da Família


Após três semanas de discussão e reflexão, o Sínodo dos bispos aprovou o relatório final que será entregue ao Papa como base de reflexão para que possa decidir o caminho que a Igreja fará com a Família para que esta possa ser, «na sua vocação e missão», um «tesouro da Igreja». Os 94 pontos do relatório foram aprovados pela maioria de 2/3 necessária à sua publicação como parte do relatório, o que reflete o que vários participantes foram dizendo à comunicação social durante os dias de trabalho, e que contradizia a alegada divisão que era noticiada por alguns órgãos de comunicação social.

O consenso foi conseguido mesmo em matérias mais sensíveis, como o acompanhamento dos divorciados recasados e aos casais em situações irregulares ou de rutura, que mereceram mais votos contra.

O Papa abordou essa questão no seu discurso final, quando falava na necessidade de compreender que as sensibilidades das diferentes culturas e realidades de todo o mundo levavam por vezes a entender de forma diferente o mesmo assunto, o que se traduz naturalmente numa riqueza de partilha e em eventuais discordâncias em algumas soluções.

Pastoral do discernimento com casais em situações de rutura ou irregulares 
Este caminho sinodal de dois anos resultou em duas perspetivas que podem marcar o futuro da Igreja nos próximos anos em relação à família: acolher e discernir. O acolhimento tem sido a grande bandeira já desde o sínodo do ano passado. Os participantes defenderam na altura, como defendeu este Sínodo, a necessidade de mudar a linguagem da Igreja, e torná-la mais positiva, não excluindo ninguém do seu seio.

No seu discurso, o Papa avisava que a Igreja não pertence apenas aos «justos e santos, mas é também pertença dos «pobres em espírito e dos pecadores a espera de perdão». Durante estas três semanas, os participantes do Sínodo pediram que a Igreja tivesse uma linguagem mais «positiva», que não afastasse ninguém.

Esse é o primeiro passo do acolhimento, mas o Sínodo foi mais longe. «A Igreja deve formar os seus membros – sacerdotes, religiosos e leigos – na “arte do acompanhamento”, diz o documento, que reafirma a necessidade de se falar do «sacramento do matrimónio» que, «como união fiel e indissolúvel entre um homem e uma mulher chamados a acolherem-se reciprocamente e a acolherem a vida, é uma grande graça para a família humana».


Nunca deixando em vista este fim último, e tanto o Sínodo como o Papa foram bem claros na necessidade de reafirmar a Doutrina da Igreja sobre o casamento e a família, o relatório pede uma atenção especial a todas as situações irregulares. O texto que vai ser agora entregue ao Papa refere que é missão dos padres «acompanhar as pessoas no caminho do discernimento segundo o ensinamento da Igreja e as orientações do bispo».

Na votação final, 178 dos 265 participantes que votaram (mais um voto do que os necessários para a maioria de dois terços), aprovaram o número 85, em que se apela a um «exame de consciência» das pessoas em causa sobre a forma como trataram os seus filhos ou como viveram a «crise conjugal». O documento questiona ainda se houve «tentativas de reconciliação», qual a situação do «cônjuge abandonado» e quais as consequências da nova relação «sobre o resto da família e a comunidade dos fiéis». «Uma reflexão sincera pode reforçar a misericórdia de Deus, que não é negada a ninguém», diz o documento.

Este relatório não aborda diretamente a possibilidade de acesso aos sacramentos dos divorciados recasados, que é neste momento negada pela Igreja Católica. Sobre isso, os participantes apresentam critérios de reflexão, recordando que há «condicionamentos» que podem anular ou diminuir a responsabilidade de uma ação. «Por isso, mesmo apoiando uma norma geral, é necessário reconhecer que a responsabilidade em relação a determinadas ações ou decisões não é a mesma em todos os casos», e nesse sentido nem «as consequências dos atos realizados são necessariamente as mesmas em todos os casos», pelo que é essencial o «discernimento pastoral» que tem de acompanhar cada situação.

O texto cita o ensinamento de São João Paulo II na Familiaris Consortio: «Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforçaram por salvar o primeiro matrimónio e foram injustamente abandonados e aqueles que por sua grave culpa destruíram um matrimónio canonicamente válido». «Há ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjetivamente certos em consciência de que o precedente matrimónio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido», acrescentava o Papa polaco, na sua exortação apostólica sobre a família.

A grande novidade, que abre a porta ao acesso dos divorciados recasados aos sacramentos que lhes eram até aqui negados, surge no ponto 86 do relatório. «A conversa com o sacerdote, no foro interno, contribui para a formação de um julgamento correto sobre o que dificulta a possibilidade de uma  mais plena participação na vida da Igreja e as medidas que podem promovê-la e fazê-la crescer», diz o relatório. A ideia de plena participação na Igreja inclui o acesso a sacramentos como a confissão e a comunhão, embora o documento não especifique claramente esta questão, deixando tudo na consciência do pecador e do sacerdote que o acompanha.

Preparação para o matrimónio mais efetiva 
Outro dos pontos fortes do relatório é a necessidade de uma preparação para o matrimónio mais efetiva, exigente, longa no tempo e, acima de tudo, inserida na vivência da comunidade paroquial. «A pastoral dos noivos deve inserir-se no empenho geral da comunidade cristã de apresentarem de modo adequado e convincente a mensagem evangélica sobre a dignidade da pessoa, a sua liberdade e o respeito pelos seus direitos», refere o relatório.

Para além disso, o relatório sugere que os agentes pastorais locais promovam a «integração da família na comunidade paroquial, sobretudo na formação cristã em vista aos sacramentos». Para isso, alertam que é importante que os sacerdotes sejam formados, a partir do seminário, a serem «apóstolos da família». O texto conclusivo do Sínodo valoriza a dimensão familiar na preparação do clero e dos religiosos, defendendo em particular uma «maior presença feminina na formação sacerdotal».

Os bispos apresentam depois os primeiros anos de casamento como um «período vital e delicado» para os casais católicos, o que exige um «acompanhamento pastoral que continue após a celebração do sacramento», com o compromisso de todas as paróquias e a ajuda de «casais especialistas», associações ou movimentos.

A este respeito, recorda-se que as dificuldades em ter filhos podem levar «rapidamente» a uma separação, pelo que as comunidades católicas devem oferecer um «apoio afetuoso e discreto». Aos padres é pedido também que acompanhem as famílias em situações de «emergência», provocadas por «casos de violência doméstica e de abusos sexuais».



A Família na sociedade
Grande parte dos 94 pontos postos a votação dizem respeito ao contexto sociocultural em que a família se vê envolvida na sociedade de hoje nas diversas partes do mundo, com os seus respetivos desafios. O Sínodo dos Bispos deixa uma mensagem de solidariedade às vítimas de violência doméstica e de maus-tratos, além de reafirmar «tolerância zero» para casos de abusos sexuais. «A prevenção e a resposta aos casos de violência familiar exigem uma colaboração estreita com a justiça para agir contra os responsáveis e proteger adequadamente as vítimas», refere o relatório final.

Os «grandes valores» do matrimónio e da família cristã como respostas aos anseios da humanidade num tempo de «individualismo» e «hedonismo». «A família baseada sobre o matrimónio do homem e da mulher é o lugar magnífico e insubstituível do amor pessoal que transmite a vida», refere o documento. Partindo de uma análise do contexto cultural e religioso em que vivem as famílias, face a uma mudança «antropológica» em que surge o desafio da ideologia do género, que «nega a diferença e a reciprocidade natural do homem e da mulher», o relatório analisa em seguida as situações dos vários elementos dos agregados familiares, com atenção aos idosos e criança, aos viúvos e aos solteiros.

São apontados alguns «desafios particulares», como a poligamia, o casamento entre católicos e fiéis de outras confissões cristãs ou religiões, a secularização ou a «desconfiança» dos jovens em relação ao matrimónio, e a família é apresentada como o «porto seguro», a «célula fundamental» da sociedade numa época de fragmentação.

O relatório final do Sínodo dos Bispos contesta ainda as políticas e os sistemas económicos contrários às famílias, em particular as que vivem em situações de pobreza e exclusão. «A hegemonia crescente da lógica do mercado, que mortifica os espaços e os tempos de uma verdadeira vida familiar, concorre para agravar discriminações, pobrezas, exclusões e violência», alerta o documento.

Os participantes dirigem-se às autoridades políticas para exigir que estas se empenhem «seriamente» na defesa da família, um «bem social primário», com políticas que a «apoiem e encorajem». «A acumulação de riqueza nas mãos de poucos e o desvio de recursos destinados ao projeto familiar agravam a situação de pobreza de famílias em muitas regiões do mundo», adverte o relatório.

Depois de todo este debate, falta agora saber a vontade do Papa. Francisco pediu uma abertura da Igreja ao acolhimento, e o Sínodo embarcou nessa nova missão de acolher verdadeiramente a todos, sem não esquecer a doutrina ou a tradição da Igreja. O verdadeiro desafio começa agora.



Texto: Ricardo Perna (com Octávio Carmo)
Fotos: Ricardo Perna

24 de outubro de 2015

Papa encerra Sínodo afirmando que Igreja não existe para condenar


O Papa encerrou hoje no Vaticano os trabalhos do Sínodo dos Bispos sobre a família e disse que as últimas três semanas abriram «novos horizontes» na vida da Igreja, que recusam uma linguagem condenatória». «Procuramos abrir os horizontes para superar qualquer hermenêutica conspiratória ou perspetiva fechada, para defender e difundir a liberdade dos filhos de Deus, para transmitir a beleza da Novidade cristã, por vezes coberta pela ferrugem duma linguagem arcaica ou simplesmente incompreensível», declarou Francisco, numa intervenção à porta fechada, posteriormente publicada pela sala de imprensa da Santa Sé.

Perante 265 participantes com direito a voto, entre eles D. Manuel Clemente e D. Antonino Dias, de Portugal, o Papa declarou que «o primeiro dever da Igreja não é aplicar condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus». «A experiência do Sínodo fez-nos compreender melhor também que os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão», precisou.


Francisco apresentou uma reflexão sobre o que deve significar para a Igreja «encerrar este Sínodo dedicado à família», que desde 2013 incluiu questionários às comunidades católicas, uma reunião extraordinária de bispos (2014) e a 14ª assembleia geral ordinária, que se conclui oficialmente este domingo, com a Missa na Basílica de São Pedro.

O fim deste percurso, afirmou o Papa, não significa que se esgotaram todos os temas, mas que estes foram debatidos «à luz do Evangelho, da tradição e da história bimilenária da Igreja», sem «cair na fácil repetição do que é indiscutível ou já se disse», «sem medo e sem esconder a cabeça na areia». «Seguramente não significa que encontrámos soluções exaustivas para todas as dificuldades e dúvidas que desafiam e ameaçam a família», admitiu.

Francisco falou da reunião de bispos e outros representantes das comunidades católicas como uma prova da «vitalidade da Igreja Católica», num «período histórico de desânimo e de crise social, económica, moral e de prevalecente negatividade». «Testemunhámos a todos que o Evangelho continua a ser, para a Igreja, a fonte viva de novidade eterna, contra aqueles que querem “endoutriná-lo” como pedras mortas para as jogar contra os outros», defendeu. O Sínodo desafia a Igreja e a sociedade a compreender a importância da «instituição da família e do Matrimónio entre homem e mulher», fundado sobre «a unidade e a indissolubilidade».

Francisco lamentou que alguns «corações fechados que, frequentemente, se escondem mesmo por detrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções para se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas», e avisou que a Igreja não pertence apenas aos «justos e santos, mas é também pertença dos «pobres em espírito e dos pecadores a espera de perdão».

Noutra passagem do discurso, o Papa critica os que se opuseram à dinâmica sinodal «com métodos não totalmente benévolos», sustentado que esta assembleia nunca quis entrar nas questões dogmáticas, «bem definidas pelo Magistério da Igreja». Após três semanas de encontros com responsáveis de todo o mundo, o pontífice argentino recordou que aquilo que parece «normal» para um bispo de determinado continente pode ser «quase um escândalo» para outro. «O desafio que temos pela frente é sempre o mesmo: anunciar o Evangelho ao homem de hoje, defendendo a família de todos os ataques ideológicos e individualistas», disse ainda, advertindo para os perigos do relativismo ou de «demonizar os outros».

Em conclusão, Francisco sustenta que, para a Igreja, encerrar o Sínodo significa «voltar realmente a “caminhar juntos” para levar a toda a parte do mundo, a cada diocese, a cada comunidade e a cada situação a luz do Evangelho, o abraço da Igreja e o apoio da misericórdia de Deus».

O Sínodo termina amanhã, oficialmente, com a missa presidida pelo Papa na Basílica de S. Pedro.

Texto: Ricardo Perna/Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna

22 de outubro de 2015

Papa cria Congregação para a Família, Leigos e Vida


O Papa Francisco acaba de anunciar, no início dos trabalhos da tarde das congregações gerais do Sínodo dos Bispos, a criação de uma congregação novo na Cúria Romana. Este organismo da Santa Sé vai substituir o Conselho Pontifício para a Família, o Conselho Pontifício para os Leigos e a Academia Pontifícia para a Vida, que não será absorvida, mas ficará dependente do novo organismo, e visa dar mais importância às questões da família dentro do governo central da Igreja Católica.

O anúncio foi feito logo após a oração que marca o início dos trabalhos, e vem na sequência de uma proposta feita pelo Conselho de Cardeais em setembro. O Papa anunciou ainda a criação de uma comissão para redigir os estatutos da nova Congregação.

À saída da aula sinodal, D. Vincenzo Paglia, presidente do Conselho Pontifício para a Família, um dos organismos que irá ser fundido na nova Congregação, mostrou-se «muito satisfeito» com a notícia, em declarações à Família Cristã. «Era uma notícia que já esperávamos, mas que nos deixa a todos muito satisfeitos», afirmou.

Em Portugal os leigos e a família já estavam unidos numa só Comissão Episcopal do Laicado e Família, criada em 2005 e que é presidida atualmente pelo bispo de Portalegre e Castelo Branco, D. Antonino Dias, um dos delegados da Conferência Episcopal Portuguesa no Sínodo que está a decorrer em Roma.

Os trabalhos desta tarde ficam também marcados pela entrega do relatório final aos participantes com direito a voto no Sínodo. Estes deverão fazer amanhã, sexta-feira, as suas propostas da alteração aos pontos do relatório, e proceder à votação, ponto por ponto, no sábado à tarde.

(notícia atualizada às 17h42 com as declarações de D. Vincenzo Paglia e com a informação sobre os trabalhos da parte da tarde)

Texto: Ricardo Perna
Foto: Ricardo Perna

14 de outubro de 2015

Grupos de trabalho pedem intervenção «documento magisterial» do Papa sobre o casamento


Os grupos de trabalho do Sínodo dos Bispos que decorre no Vaticano publicaram hoje novos relatórios, em que multiplicam observações sobre a necessidade de uma “intervenção magisterial” para clarificar a posição da Igreja sobre família e casamento. “O anúncio do Evangelho da família exige hoje uma intervenção magisterial que possa tornar mais coerente e possa simplificar a atual doutrina teológica-canónica sobre o casamento”, pode ler-se nos documentos, divulgados pela sala de imprensa da Santa Sé.

Os textos, em cinco línguas (francês, inglês, italiano, espanhol e alemão) deixam várias propostas tendo em vista a redação do documento final da assembleia sinodal, presidida pelo Papa Francisco, após nove das 13 sessões de debate previstas nos chamados ‘círculos menores’. Vários participantes esperam que exista, no final dos trabalhos, um “documento magisterial” e alguns propõem que após a assembleia se abra um período de “paciente busca comum” teológica e pastoral sobre a família. Um dos textos alerta para a necessidade de apresentar as “razões canónicas” para a anulação dos matrimónios canónicos. “Temos de ser realistas sobre os problemas matrimoniais e não apenas encorajar simplesmente as pessoas a permanecer juntas”, assinala-se, antes de recordar a “violência contra as mulheres”.

Outro relatório pede “misericórdia para os filhos que sofrem as consequências da violência familiar, o abandono, o divórcio dos seus pais”. Noutra passagem, o divórcio é colocado ao lado da poligamia e da submissão da mulher como um dos frutos do “pecado”, que desviou a humanidade do plano de Deus, de matrimónio “indissolúvel” e de “igualdade” entre homem e mulher. A este respeito, o grupo alemão pede “prudência e sabedoria” na aplicação “justa e equitativa” da palavra de Jesus sobre a indissolubilidade do casamento, frisando que não se procuram “exceções” à Palavra de Deus. Várias propostas rejeitam a linguagem excessivamente “jurídica” sobre o casamento, pedindo antes que se apresente a proposta da Igreja como “graça, bênção, uma aliança de amor”, um “dom de Deus”.

Os participantes lamentam a falta de uma “teologia da família”, por causa da centralização do debate no casamento e na moral, que leva a “repetir coisas óbvias, sem ideias chave e mobilizadoras”. Tendo em vista o texto final do Sínodo 2015, pede-se que se use uma linguagem “clara e simples” que evite “ambiguidades e equívocos”, superando “falsas oposições”.

Os relatórios sublinham a importância do “contexto cultural” na vivência familiar, apelando a um maior espaço para o ensinamento bíblico sobre a família e à apresentação da proposta cristã de forma concreta e não como um “ideal abstrato”.

Entre as preocupações apresentadas, está a necessidade de não fazer “leituras simplistas” de fenómenos complexos, como a diminuição do número de casamentos ou o surgimento de outras formas de união, particularmente entre os mais jovens, para os quais se sugere a criação de um percurso de “iniciação” ao matrimónio.

Texto: Agência Ecclesia
Foto: News.va

5 de outubro de 2015

Papa diz que Sínodo «não é Parlamento» onde se recorra a «negociação ou cedências»

© Foto Famiglia Christiana
O Papa Francisco disse hoje no Vaticano que o Sínodo dos Bispos “não é um congresso ou uma convenção, um parlamento ou um senado” onde se negoceiem decisões. “Caros irmãos, como disse, o Sínodo não é um parlamento, onde para se chegar a um consenso ou a um acordo comum, se recorre à negociação, a pactos ou a cedências. O único método do Sínodo é o de abrir-se ao Espírito Santo, com coragem apostólica, humildade evangélica e oração confiante” declarou, na primeira sessão de trabalho da 14ª assembleia geral ordinária deste organismo consultivo, dedicado ao tema da família.

Francisco sublinhou que o “depósito da fé” da Igreja Católica não é “um museu para olhar ou salvaguardar, mas é uma fonte viva”. “O Sínodo é uma expressão eclesial, isto é, a Igreja que caminha em conjunto para ler a realidade com os olhos da fé e o coração de Deus”, precisou. Nesse sentido, convidou a “valorizar e refletir em conjunto” o trabalho realizado desde a reunião extraordinária de 2014, sobre os mesmos temas, elogiando “todas as pessoas que se deixam guiar pelo Deus que surpreende sempre”, do Deus que “criou a lei e o sábado para o homem e não ao contrário”. “O Sínodo, como sabemos, é um caminhar juntos, com o espírito de colegialidade e sinodalidade, adotando corajosamente a franqueza (parrésia, no original)”, assinalou.

O Papa pediu que os participantes tenham sempre em vista “o bem da Igreja, das famílias”, falando do Sínodo como “um espaço protegido, onde a Igreja experimenta a ação do Espírito Santo”. A intervenção alertou para as “seduções do mundo que tendem a apagar nos corações do homem a luz da verdade” ou para os que querem fazer da vida cristã “um museu de recordações”.

O Papa espera que os participantes na assembleia sinodal saibam “esvaziar-se das próprias convenções e preconceitos para ouvir os irmãos bispos”, evitando “apontar o dedo ao outro para o julgar, mas estender a mão para o levantar”. Francisco sublinhou por isso a importância de um coração que se “abre a Deus” e ao seu Espírito, para evitar que as decisões do Sínodo sejam apenas “decorações, que em vez de exaltar o Evangelho, o cobrem e escondem”.

No final do discurso, o Papa deixou uma palavra de agradecimento aos jornalistas e a quantos acompanham os trabalhos de longe, pela sua “participação apaixonada e atenção admirável”. Os trabalhos da 14ª assembleia geral do Sínodo dos Bispos (4-25 de outubro) vão ter mais espaço para o debate e o diálogo, com 13 sessões de trabalhos em grupo.

Ao longo de três semanas, serão debatidos os temas “A escuta dos desafios sobre a família”, “O discernimento da vocação familiar” e “A missão da família hoje”, correspondentes a cada uma das partes do Instrumento de Trabalho.

Pode acompanhar os trabalhos do Sínodo no blogue que a Família Cristã criou para o efeito em http://sinododafamilia.blogspot.pt

Texto: Agência Ecclesia

4 de outubro de 2015

Papa inicia Sínodo reforçando «indissolubilidade» do matrimónio e apelando ao acolhimento de todos


Missa inaugural da assembleia de Bispos apresentou «verdade» e «caridade» como chaves para o debate sobre as famílias, sem «apontar o dedo» a quem errou 

O Papa inaugurou hoje a nova assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a família com uma homilia em que apresentou “verdade” e “caridade” como chaves do debate de três semanas. “Neste contexto social e matrimonial bastante difícil, a Igreja é chamada a viver a sua missão na fidelidade, na verdade e na caridade”, declarou, na Missa a que presidiu na Basílica de São Pedro, no Vaticano. Francisco desafiou por isso a Igreja a propor “o significado autêntico do casal e da sexualidade humana no projeto de Deus”, num “amor conjugal único e usque ad mortem” (até à morte). “Paradoxalmente, também o homem de hoje – que muitas vezes ridiculariza este desígnio – continua atraído e fascinado por todo o amor autêntico, por todo o amor sólido, por todo o amor fecundo, por todo o amor fiel e perpétuo”, prosseguiu.

Esta verdade, acrescentou o pontífice argentino, “não se altera segundo as modas passageiras ou as opiniões dominantes”. “Parece que as sociedades mais avançadas são precisamente aquelas que têm a taxa mais baixa de natalidade e a altas percentagens de abortos, de divórcios, de suicídios e de poluição ambiental e social”, advertiu. A intervenção multiplicou apelos à defesa do “amor fiel”, da “sacralidade da vida” e da “unidade e indissolubilidade do vínculo conjugal”, citando a este respeito os seus diretos predecessores, São João Paulo II e Bento XVI.

O Papa acrescentou que este compromisso de uma Igreja que “ensina e defende os valores fundamentais” é assumido sem “apontar o dedo para julgar os outros”, mas no esforço de “procurar e cuidar dos casais feridos com o óleo da aceitação e da misericórdia”. “Uma Igreja que educa para o amor autêntico, capaz de tirar da solidão, sem esquecer a sua missão de bom samaritano da humanidade ferida”, precisou.

Francisco falou do Sínodo como um “acontecimento de graça” para a Igreja, começando a sua intervenção a partir de três questões: “o drama da solidão, o amor entre homem-mulher e a família”. A este respeito, recordou os efeitos da solidão, entre outros, sobre os que foram abandonados pelo seu marido ou a sua mulher, bem como sobre os migrantes e refugiados ou os jovens vítimas da “cultura do consumismo”. Segundo o Papa, há cada vez “menos seriedade em levar por diante uma relação sólida e fecunda de amor: na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na boa e na má sorte”. “O objetivo da vida conjugal não é apenas viver juntos para sempre, mas amar-se para sempre. Jesus restabelece assim a ordem originária e originadora”, precisou.

A celebração reuniu cardeais, patriarcas, arcebispos, bispos e padres membros da 14ª assembleia geral ordinária do Sínodo, sobre o tema ‘A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”, que decorre até 25 de outubro. A Conferência Episcopal Portuguesa tem como delegados D. Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa, e D. Antonino Dias, bispo de Portalegre-Castelo Branco.

Texto: Agência Ecclesia

1 de outubro de 2015

O Sínodo das decisões… ou não

© Foto l'Osservatore Romano
O mundo católico aguarda em expectativa o desenrolar da reunião ordinária do sínodo dos bispos, que terá lugar este mês em Roma. As posições têm-se extremado entre conservadores e liberais, e, apesar de não parecer ter o mesmo impacto mediático, a verdade é que muitos aguardam com ansiedade mal contida as propostas que os bispos irão aprovar ali, que servirão de base de reflexão para a exortação apostólica que Francisco publicará nos meses seguintes. 

Estávamos no início de outubro de 2013 quando o Papa Francisco decidiu surpreender o mundo com a convocação de um sínodo extraordinário sobre a família, a que se seguiria, no ano seguinte, o sínodo ordinário, também sobre a família. A decisão de convocar um sínodo extraordinário era surpreendente por si, mas dedicar dois sínodos, espaçados por um ano, ao mesmo tema, foi caso único na história da Igreja Católica. Por isso, o tema começou desde logo a ser falado e debatido, o que ia ao encontro das intenções do Santo Padre: colocar a família no centro das discussões e reflexões dos católicos e do resto do mundo.

Quando saíram os Lineamenta para o sínodo, o frenesim subiu de tom: Francisco pedia que todos os católicos do mundo se pronunciassem sobre as questões da família. Em todos os sínodos, os fiéis são chamados a pronunciar-se sobre o tema, mas raras vezes o fazem, deixando o trabalho para os bispos, sacerdotes e movimentos da Igreja. Aqui, o Papa foi, no entanto, claro: queria que todos contribuíssem. E assim foi: milhares de católicos em todo o mundo responderam aos inquéritos lançados pelas conferências episcopais, com base no inquérito que vinha nos Lineamenta.

Se a intenção era despertar o interesse, a estratégia resultou. Saíram para fora muitas ideias e opiniões, quer no sentido de abrir a Igreja a novas realidades como os divorciados e recasados, os homossexuais e as uniões de facto, quer no sentido de manter a doutrina da Igreja tal como está, reforçando a indissolubilidade do matrimónio e a impossibilidade doutrinal de aceitar qualquer coisa mais do que o que já estava definido.

Apesar de haver quem criticasse Francisco por ter “aberto” estas frentes de discussão pública, o Papa foi claro quando iniciou o sínodo. «Uma condição de base é falar claro. Que ninguém diga que “sobre este assunto não se pode falar”. Um cardeal escreveu-me uma vez a dizer que havia assuntos sobre os quais os cardeais não falavam, por causa do que diria o Papa. Isto não é sinodalidade, pois temos de dizer tudo aquilo que achamos que o Senhor quer que digamos», avisou o Papa no início dos trabalhos. E foi isso que, durante as duas semanas seguintes, se fez. Com um relatório intermédio polémico, por parecer muito imparcial, e com um relatório final que, não tendo sido aprovado pela maioria necessária, demonstrou a maior vontade dos participantes sinodais em introduzir algumas mudanças na realidade da Igreja, deu-se início a um ano de reflexão e de maturação das reflexões ali efetuadas.
© Foto Lusa
As diferenças entre o Sínodo extraordinário e o ordinário
O Papa, esse, continuou impávido e sereno. Durante este ano que passou, dedicou as suas catequeses semanais ao tema da família, e as suas palavras foram aproveitadas por ambos os lados da discussão para fazer valer os seus pontos de vista. Mas tudo não passa de especulação. E por isso todos olham para este novo sínodo, desta vez ordinário, onde se vão voltar a discutir os mesmos temas, mas onde as coisas poderão ser bem diferentes.

Tudo começa no número de participantes. No sínodo extraordinário, participaram apenas os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, para além dos cardeais, peritos e leigos convidados. Este ano, como é norma nos sínodos ordinários, as conferências enviam os seus representantes, e muitos países, nos quais se inclui Portugal, enviam dois ou mais representantes. De Portugal seguem D. Manuel Clemente, que já esteve no ano passado e D. Antonino Dias, presidente do Comissão Episcopal do Laicado e Família em Portugal.

A verdade é que, como no outro sínodo, daqui não irão sair decisões. Apesar das pressões colocadas por muitos dos que irão intervir no próprio sínodo, este órgão não tem capacidade decisória dentro da Igreja. Cabe apenas ao Papa a decisão sobre o caminho a seguir daqui para a frente. E o que pode o Papa decidir? Esta é a grande interrogação, da qual nada se sabe e pouco se pode adivinhar.

Francisco é um Papa que, desde o início do pontificado, se tem pautado pela busca de consensos, dentro e fora da Igreja, atitude que já vem dos seus tempos de bispo na Argentina. Essa busca pode levar a pensar que se preparam grandes mudanças, mas a verdade é que a personalidade de Francisco sempre foi marcada por um tradicionalismo e fidelidade à Igreja, que defendia com unhas e dentes. Aliás, foram públicas as suas posições, quando estava como bispo de Buenos Aires, contra a legalização das uniões entre pessoas do mesmo sexo, entre outras questões com as quais foi chocando com o poder político da altura.

O que se deixa transparecer do discurso de Francisco, e da reflexão dos padres sinodais, é que, antes de qualquer modificação legal, tem de existir alteração de comportamentos. A Igreja não acolhe como deveria, não fala como deveria, e precisa mudar. São muitos os exemplos dentro da própria Igreja que mostram que é possível, como Francisco pede, acolher com misericórdia todos os que estão em situação irregular. A questão é que acolher é muito diferente de aceitar, e essa tem sido uma argumentação por parte de quem deseja ver essas mudanças na Igreja que não corresponde à realidade.
© Foto Lusa
Quando Francisco afirma que é preciso acolher todas as pessoas homossexuais ou divorciadas e recasadas, em momento algum refere que se deve aceitar a sua condição. Também Jesus acolheu a mulher adúltera, mas disse-lhe «vai e não tornes a pecar», pelo que não se poderá confundir a abertura ao acolhimento com a aceitação de todos esses comportamentos ou situações irregulares. Mas isto não impede que venham a ser introduzidas mudanças reais, fruto de uma reflexão sobre a doutrina que pode, em situações como a dos divorciados e recasados, permitir analisar os casos individualmente e estabelecer modos de atuação diferentes dos atuais.

O aprofundamento da doutrina em questões como a comunhão espiritual, por exemplo, que é permitida aos casais divorciados recasados, mas que foi questionada no último sínodo, por não ter grande diferença para a comunhão física, pode ser um dos pontos de partida, mas especular que se irá permitir a comunhão a todos os recasados já é “esticar a corda”, uma vez que uma decisão desse tipo colocaria em causa todo o caminho que muitos fiéis já fizeram na pele de divorciados recasados dentro da Igreja.

Perigo de Cisma parece pouco provável
Alguns temem que o sínodo abra feridas que não irá conseguir sarar. Outros aspiram pelo dia em que a Igreja se irá abrir à vontade da sociedade, apesar de 2000 anos de história afirmarem que isso raramente aconteceu. Mas todos esperam ansiosamente pelas palavras de Francisco, pois sabem (ou irão saber) que, apesar de serem muitos a pensar, o único a decidir será mesmo ele. De tudo isto, Francisco já conseguiu algo importante: pôs toda a sociedade a falar sobre a família, a pensar sobre a família.

Porque mesmo para criticar a Igreja, é preciso refletir sobre o assunto, e isso já foi conseguido. Mesmo nos países onde a família é colocada em causa, os últimos anos de inverno demográfico ajudam a que o assunto da família esteja na ordem do dia, e até nisso o timing de Francisco foi perfeito. A família precisa de ajuda, e o Papa parece a pessoa mais bem colocada para o fazer, assim todos os fiéis decidam escutá-lo, compreendê-lo e aceitar o resultado de todas as reflexões que irão ser feitas.

Texto Ricardo Perna

18 de novembro de 2014

Papa convida a defender família perante ameaças contemporâneas

O Papa Francisco recebeu hoje no Vaticano os bispos católicos da Zâmbia, perante os quais deixou um alerta para os «grandes desafios» que ameaçam a vida social e eclesial, em particular para as famílias. «Quando as famílias estão em perigo, então a vida da fé também está em risco. Como vós próprios relatastes, muitos - especialmente os pobres na sua luta pela sobrevivência - são enganados por promessas vazias em falsos ensinamentos que parecem oferecer alívio rápido em tempos de desespero», assinalou, num discurso entregue aos membros da conferência episcopal do país africano.
A intervenção desafiou os bispos a não se esquecerem de ir ao encontro dos membros mais desfavorecidos da sociedade, entre os quais estão os pobres e os que sofrem com o HIV/SIDA. «A grande maioria dos pobres tem uma abertura especial para a fé, precisam de Deus e devemos oferecer-lhes a sua amizade, a sua bênção, a sua palavra, a celebração dos sacramentos e um caminho de crescimento e maturidade na fé», sustentou.

O Papa convidou os bispos a serem sempre solícitos na defesa do "santuário da vida" que é a família, célula fundamental da sociedade e da Igreja. Francisco encorajou ainda os responsáveis eclesiais a estarem perto dos jovens, para ajudá-los a encontrar os seus objetivos, na vocação à vida matrimonial ou na vocação celibatária à vida sacerdotal ou consagrada.

Em conclusão, o Papa falou da «necessidade imperiosa» de evangelizar as culturas para inculturar o Evangelho. «Apesar do encontro, por vezes doloroso, de formas antigas com a nova esperança que Cristo traz a todas as culturas, a palavra da fé criou raízes profundas, multiplicando-se cem vezes mais, e uma nova sociedade zambiana transformada pelos valores cristãos emergiu», observou.

Texto: Agência Ecclesia
Foto: D.R.

17 de novembro de 2014

Papa confirmou participação no Encontro Mundial das Famílias e rejeita família «ideológica»

O Papa Francisco disse hoje no Vaticano que a Igreja Católica rejeita uma família construída com base em ideologias que ignoram a «complementaridade» de um pai e de uma mãe na educação dos filhos. «As crianças têm o direito de crescer numa família, com um pai e uma mãe, capazes de criar um ambiente idóneo para o seu desenvolvimento e o seu amadurecimento afetivo», declarou, perante os participantes num colóquio inter-religioso sobre a complementaridade homem-mulher, promovido pela Congregação para a Doutrina da Fé (Santa Sé), noticia a Agência Ecclesia.

Francisco aproveitou esta ocasião para confirmar a participação no 8.º Encontro Mundial das Famílias que vai decorrer em setembro de 2015, na cidade norte-americana de Filadélfia. A intervenção alertou para a «armadilha» de se qualificar a família a partir de conceitos de natureza ideológica, com um valor limitado do ponto de vista histórico e antropológico.
«Não se pode falar hoje de família conservadora ou de família progressista: a família é família. Não a deixemos qualificar assim com este ou outros conceitos, de natureza ideológica. A Família é por si mesma, tem uma força própria», precisou o Papa.

Francisco elogiou a escolha do tema da «complementaridade» para este colóquio internacional, considerando que o conceito está «na base do matrimónio e da família». Neste contexto, o Papa alertou para a «crise» provocado por uma «cultura do provisório», que leva cada vez mais pessoas a evitarem o compromisso do casamento. «Esta revolução dos costumes e da moral içou, por muitas vezes, a bandeira da ‘liberdade’, mas na verdade trouxe devastação espiritual e material a muitíssimos seres humanos, especialmente aos mais vulneráveis», lamentou.

Francisco disse ser claro que o declínio da cultura do matrimónio está associado a uma série de problemas sociais, que atingem em particular as crianças e os idosos, sublinhando que «a família continua a ser o fundamento da convivência e a garantia contra a desintegração social».
«O compromisso definitivo para a solidariedade, a fidelidade e o amor fecundo responde aos anseios mais profundos do coração humano», referiu.

O Papa concluiu com votos de que este encontro possa servir como inspiração para «todos os que procuram apoiar e reforçar a união do homem e da mulher no matrimónio como um bem único, natural, fundamental e belo para as pessoas, as famílias, as comunidades e a sociedade».

27 de outubro de 2014

Papa pede preparação mais exigente para o matrimónio


O Papa Francisco afirmou sábado aos peregrinos do movimento de Schöenstatt que se deslocaram ao Vaticano para comemorar os 100 anos da fundação do movimento que «a família cristã e o sacramento do matrimónio nunca foram tão atacados como agora, direta ou indiretamente», em virtude da cultura contemporânea da «cultura do deitar fora», ou relativismo. «Não se pode reduzir o sacramento do matrimónio a um rito social. O casamento é para sempre», lembrou, ressalvando «que na sociedade, hoje, é comum a cultura do provisório».

Neste âmbito, Francisco falou sobre a importância da preparação para o matrimónio, e, ao contrário dos bispos que, reunidos em Sínodo, afirmaram não ser conveniente «complicar os ciclos de formação», o Papa referiu que «a primeira coisa é não confundir casamento com festa, simplificando assim o rito». «Fazer o curso de preparação ao sacramento com duas aulas é um nosso pecado de omissão», completou o Santo Padre.

Neste sentido, Francisco afirmou ainda aos 7 mil peregrinos presentes na sala Paulo VI no Vaticano que a missão da Igreja é ajudar «corpo a corpo», não fazendo «proselitismo», mas acompanhando. «A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração», disse, citando Bento XVI.

Questionado sobre o casamento e que conselho ele pode oferecer para aqueles que não se sentem bem-vindos na Igreja, o Papa Francisco destacou a necessidade dos sacerdotes ficarem perto de cada uma das ovelhas do seu rebanho «sem se escandalizarem com o que acontece dentro da família». Francisco contou que um bispo, durante o recente Sínodo sobre a família, perguntou se os padres estão conscientes do que as crianças sentem e os danos psicológicos causados ​​quando os seus pais se separam, observando ainda como, por vezes, o pai que se está a separar permanece a viver em casa a tempo parcial com as crianças, no que ele descreveu como uma «nova e totalmente destrutiva» forma de coabitação.

Texto e foto: Ricardo Perna

21 de outubro de 2014

Patriarca diz que Sínodo «marca nova fase de vida na Igreja»


O Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, considera que a «metodologia» utilizada por Francisco neste Sínodo dos Bispos vai «marcar uma nova fase na vida da Igreja». O Patriarca de Lisboa falou hoje em conferência de imprensa sobre os dias que passou no Vaticano, em representação da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), e fez uma avaliação muito positiva. «O que o Papa inaugurou foi uma forma de exercer a colegialidade constante, e está a criar uma nova forma de viver a Igreja. Tudo se falou com a maior franqueza, com muito ímpeto», considerou D. Manuel Clemente, que sublinhou o «ineditismo» desta reflexão sinodal. «Nestas duas semanas o ponto mais salientado foi a bondade, a importância e a conveniência da proposta cristã sobre a família quando ela é realmente vivida e devidamente proporcionada, e o contraponto foram as realidades que hoje se apresentam e que não podemos esconder, colocando a cabeça na areia», sustentou.

Sobre esses desafios, o Patriarca de Lisboa destacou «a fragilidade dos vínculos familiares, dos vínculos duradouros, as uniões de facto, no campo interno da Igreja as famílias que foram reconstituídas civilmente mas não sacramentalmente e o problema das pessoas com tendências homossexuais». Estes e outros aspetos apareceram com propostas concretas no polémico relatório preliminar, feito no final da primeira semana de congregações gerais, que originou muitas reações negativas, em virtude do mediatismo que atingiu. «Este impacto provocou um certo recuo nos círculos menores, que transpareceu nos trabalhos de grupo. As afirmações mais polémicas foram muito mitigadas, e nos trabalhos de grupo começaram a surgir algumas questões sobre como colocar estas questões para o futuro, e julgo que a reconsideração disto em termos de prós e contras levou a que nas votações da mensagem e do Relatio Synodi esses pontos não tivessem tantos pontos a favor», disse o Patriarca, que acrescentou que a reação de «defesa» foi «legítima». «O relevo desses pontos polémicos era excessivo em relação ao que eu tinha ouvido nas congregações gerais. Os padres sinodais não se sentiram refletidos no conjunto desses dois artigos, não tanto pelo conteúdo dos mesmos, mas pela mediatização que tiveram», disse aos jornalistas.

O facto de não terem sido aprovados alguns pontos com a maioria de 2/3 necessária não incomoda o Patriarca, que se mostrou satisfeito pelo facto de terem surgido no relatório final. «O facto de se terem mantido é muito positivo. Entre o que estava no relatório preliminar e a vontade dos círculos menores em retirá-los por completo, ganhou o equilíbrio de nem omitir as propostas, nem dizer que eram a vontade do Sínodo», afirmou o presidente da CEP.

Questionado sobre este Sínodo teria sido uma forma do Papa Francisco «apalpar terreno» a eventuais mudanças na Igreja, D. Manuel Clemente afirmou que desconhecia essa intenção. «Se o Papa Francisco quis apenas testar o impacto das propostas, ganhou. O aplauso no final do discurso do Papa foi sinal do apoio que o Papa tem em todo o episcopado mundial», considerou o prelado.

Assumindo que a doutrina da Igreja não deve mudar no final deste caminho sinodal, D. Manuel Clemente sempre vai avisando que «a verdade objetiva» da doutrina «é captada pela relatividade do ser humano», pelo que é importante perceber que se podem refletir todas as questões. «Também há 50 anos atrás se achava que o problema da liberdade religiosa não teria solução, e foi possível encontrá-la», lembrou.

Sobre a necessidade de preparação para o matrimónio, o Patriarca descartou uma preparação imediata mais longa no imediato, e prefere um plano mais alargado no tempo que, segundo o próprio, conduzirá a esse aumento da exigência. «Tem de ser a comunidade a tornar natural essa maior exigência na preparação para o matrimónio. Para isso, é preciso uma centralidade reforçada da dimensão familiar nas comunidades cristãs», disse o prelado.

Sobre a formação do clero e a contribuição das famílias, outra das propostas lançadas durante o Sínodo, D. Manuel Clemente afirmou que «a ligação do clero com a igreja doméstica está presente desde o início do Cristianismo, e foi mais longe na proposta dos bispos. «Faz sentido que as famílias possam dar formação aos seminaristas e também ao próprio clero na sua formação contínua», concluiu.

20 de outubro de 2014

O Sínodo do diálogo e da partilha

O Sínodo que terminou este domingo em Roma marcou um ponto de viragem na Igreja, mas não aquele que muita comunicação social anda por aí a apregoar. Não foram os conservadores que ganharam alguma coisa, ou os liberais que libertaram a Igreja da prisão conservadora em que habitava. A viragem foi precisamente na abertura e na transparência que se viram durante as duas semanas de trabalho, e até antes. Às acusações de uma Igreja fechada e “secreta”, o Papa respondeu com indicações claras: fale-se de tudo sem se esconder nada. E de tudo o que foi falado dentro de portas foi dado a conhecer fora de portas com uma velocidade e eficiência impressionantes. Que outra organização, ou estado, consegue produzir documentos para a comunicação social minutos após serem discutidos, apresentados ou votados, ou sequer resumos de debates longos? E com a transparência de até publicar os votos individuais em cada um dos pontos do relatório final? Ou sequer que permita que todos os participantes falassem abertamente à comunicação social sobre todos os assuntos que estavam a ser debatidos no Sínodo, e sobre as suas intervenções?

Hoje em dia, quem quiser estar informado sobre a Igreja e o que está em causa neste Sínodo, pode fazê-lo, consultando a muita informação disponível nos meios de comunicação social que, de forma mais objetiva nuns casos ou mais parcial noutros, mostram os diversos argumentos e os vários pontos de vista sobre todas as situações mais ou menos polémicas. Este tipo de abertura é rara nas grandes ou pequenas instituições, e uma prova de que a Igreja continua, em muitos campos, a estar anos à frente de outras organizações.

No que toca a conclusões, a mais importante de todas ficou espelhada no discurso do Papa Francisco aos bispos no final da assembleia sinodal. «A Igreja é de Cristo – é a sua esposa – e todos os bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro, têm a missão e o dever de custodiá-la e de servi-la, não como donos, mas como servidores. O Papa, neste contexto, não é o senhor supremo, mas sim um supremo servidor – o “servus servorum Dei”; o garante da obediência e da conformidade da Igreja à vontade de Deus, ao Evangelho de Cristo e à Tradição da Igreja, deixando de lado todo arbítrio pessoal, mesmo sendo – por vontade do próprio Cristo – o “Pastor e Doutor supremo de todos os fiéis” (Can. 749) enquanto gozando “da potestade ordinária que é suprema, é plena, imediata e universal na Igreja” (cf. Cann. 331-334)». Ou, trocado por miúdos: “discutam e ponham tudo em cima da mesa, mas não se esqueçam que o Sínodo é cum Petro et sub Petro (feito com a presença do Papa e sob a sua supervisão), e no final quem vai decidir sou eu e todos devem aceitar a minha decisão”.

Com este simples parágrafo, o Papa Francisco esclareceu toda a discussão e pôs todos no seu lugar, conservadores e liberais. Porque, no final de contas, o Sínodo é “apenas” um órgão consultivo, que nada vincula na Igreja. A sua tarefa é a de dar a conhecer ao Papa a realidade da Igreja e as propostas que cada pastor tem para a Igreja universal. Neste sentido, foi um Sínodo perfeito, que lançou as bases para, durante o próximo ano, «amadurecer, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas às tantas dificuldades e inumeráveis desafios que as famílias devem enfrentar», como também referiu o Papa no seu discurso.

Agora é tempo de olhar para o relatório final e refletir sobre as propostas que lá são feitas, que davam toda uma outra reflexão. O Papa agradece o contributo de todos, e não rejeita nenhuma opinião. Sempre sabendo que, no final, é a opinião dele que será vinculativa, nenhuma das outras…

Texto: Ricardo Perna
Jornalista da Revista Família Cristã
Foto: News.va

19 de outubro de 2014

Missa de encerramento do Sínodo e beatificação de Paulo VI

Foi beatificado esta manhã em Roma, na praça de São Pedro e perante 70.000 fiéis, o Papa Paulo VI.
Na celebração, que foi simultaneamente a de encerramento do Sínodo, o Papa Francisco recordou um homem humilde que soube “dar a Deus o que é de Deus” e agradeceu por todo o seu trabalho de serviço à Igreja. “Obrigado, nosso querido e amado Papa Paulo VI! Obrigado pelo teu humilde e profético testemunho de amor a Cristo e à sua Igreja!”

Referindo-se a Paulo VI como o grande “timoneiro do Concílio”, num contexto “secularizado e hostil”, Francisco reforçou o papel do beato na condução da Igreja como “mãe amorosa de todos os homens e medianeira de salvação» (Carta enc. Ecclesiam suam, prólogo).”

Invocando o papel do Sínodo na contribuição para esta missão, Francisco recorreu às palavras de Paulo VI para relembrar o objetivo de “caminhar juntos” (significado de Sínodo). “Ao perscrutar atentamente os sinais dos tempos, procuramos adaptar os métodos (...) às múltiplas necessidades dos nossos dias e às novas características da sociedade”.


Em jeito de balanço, o Santo Padre afirmou que a caminhada destes dias foi de trabalho “com verdadeira liberdade e humilde criatividade”. O Papa invocou o Espírito Santo para que “continue a acompanhar o caminho que nos prepara, nas Igrejas de toda a terra, para o Sínodo Ordinário dos Bispos no próximo Outubro de 2015, com a garantia de que a Igreja continuará a trabalhar. “Semeámos e continuaremos a semear, com paciência e perseverança, na certeza de que é o Senhor que faz crescer tudo o que semeámos (cf. 1 Cor 3, 6)”.

Texto: Rita Bruno
Foto: Sala de Imprensa da Santa Sé

18 de outubro de 2014

Francisco rejeita ideia de Igreja em «litígio»


O Papa Francisco encerrou hoje os trabalhos da terceira assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos com um discurso em que alertou contra atitudes de rigorismo ou de facilitismo na ação da Igreja. “A Igreja tem as portas escancaradas para receber os necessitados, os arrependidos e não só os justos ou os que pensam que são perfeitos. A Igreja não se envergonha do irmão caído e não finge que não o vê, pelo contrário, sente-se levada e quase obrigada a levantá-lo de novo”, declarou, concluindo duas semanas de debate sobre o tema ‘Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização’.

Francisco, que interveio pela primeira vez desde a sessão inaugural, a 6 de outubro, admitiu que houve “tentações” de “rigidez hostil”, ou seja, de quem se quis “fechar no que está escrito” em vez de se deixar “surpreender por Deus”. “Desde o tempo de Jesus, é a tentação dos zelosos, dos escrupulosos, dos cuidadosos e dos hoje chamados tradicionalistas e também dos intelectualistas”, precisou.
O Papa advertiu ainda para a “tentação do facilitismo [buonismo, em italiano] destrutivo, quem em nome de uma misericórdia enganadora enfaixa as feridas sem primeira as curar e medicar”.
“É a tentação dos facilitistas, dos medrosos e também dos chamados progressistas e liberais”, realçou.
Francisco lamentou que muitos comentadores tenham pensado “ver uma Igreja em litígio”, durante o Sínodo 2014, “onde uma parte está contra a outra”.

A intervenção pediu que a Igreja não transforme “o pão em pedra”, para a atirar contra “os pecadores, fracos e doentes” e alertou para a “tentação de descer de cruz, para contentar as pessoas” em vez de purificar o “espírito mundano”.
 
O debate, disse Francisco, decorreu sem colocar nunca em discussão as verdades fundamentais do sacramento do Matrimónio: indissolubilidade, unidade, fidelidade e abertura à vida. Francisco falou ainda na tentação de “descuidar o depósito da fé”, considerando-se “não guardiães, mas proprietários e patrões”, ou de “descuidar a realidade”, com uma linguagem incompreensível.

Segundo o Papa, este Sínodo foi um “caminho” que incluiu momentos de “tensão” e de “consolação”, admitindo que teria ficado mais preocupado se “todos estivessem de acordo ou taciturnos numa falsa e quietista paz”.
O debate, disse Francisco, decorreu “sem colocar nunca em discussão as verdades fundamentais” do sacramento do Matrimónio: indissolubilidade, unidade, fidelidade e abertura à vida.

A intervenção observou ainda que o dever de cada bispo, como “pastor”, é o “alimentar o rebanho que o Senhor lhe confiou” acolhendo e indo ao encontro das ovelhas perdidas “com paternidade e misericórdia, sem falsos medos”. “Caros irmãos e irmãs, agora temos ainda um ano para amadurecer, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas para tantas dificuldades e incontáveis desafios que as famílias têm de enfrentar”, concluiu.

Segundo o porta-voz do Vaticano, a intervenção de Francisco foi aplaudida de pé durante cerca de cinco minutos. O debate sobre a situação da família vai continuar nos próximos meses até à realização de uma assembleia geral ordinário do Sínodo dos Bispos, com três semanas de trabalho, em outubro de 2015.

Texto: Agência Ecclesia
Fotos: News.va

9 de outubro de 2014

O Sínodo que pode abrir (de novo) a Igreja ao mundo

O mundo católico está de olhos postos no Vaticano, onde, nestas duas semanas, se discute a Família, um assunto que interessa a todos os católicos. Mais do que perceber que decisões poderão sair do Sínodo, já que é pouco provável que saia algo de definitivo antes do Sínodo do próximo ano, é importante olhar para a dinâmica e o espírito com que estão a ser conduzidos os trabalhos na aula sinodal.

O Papa Francisco pediu que os bispos falassem com ousadia e escutassem com humildade, e essa tem sido uma constante nos relatos que se vão ouvindo. Problemas, desafios, dúvidas, tudo tem sido posto em cima da mesa sem filtro ou censura. Há dias, D. Victor Fernández, reitor da Universidade Católica na Argentina, brincava com os jornalistas, dizendo que todos falavam com liberdade durante os trabalhos, sem medo que o Cardeal Müller, prefeito da congregação para a doutrina da Fé, «fosse atrás deles».

Esta é a Igreja que Francisco quer, aberta ao diálogo, na procura de consensos, sem medo de enfrentar as suas próprias teorias e posições. Isto não significa, no entanto, que se estejam a preparar grandes mudanças doutrinais. Mais do que mudar a doutrina, este Sínodo servirá para a Igreja mudar o modo como olha para os seus fiéis, principalmente aqueles que, por este ou aquele motivo, se encontram em situação irregular. Será um sínodo pastoral, que irá mudar a forma como os católicos são recebidos, tratados e acompanhados no seio da Igreja. Este é um desígnio que se percebe em todos os cardeais e bispos que diariamente marcam presença na sala de imprensa para falar com os jornalistas. Mesmo sem mudar a doutrina, terá de haver ajustes no sentido de compreender as situações particulares de cada um e acolher com amor e compaixão, mais do que afastar com regras e frieza.

Sem deixar de chamar a atenção para o pecado, e sem deixar de o condenar, uma linguagem mais positiva na abordagem a estas pessoas poderá conduzi-las ao seio da Igreja onde depois, com a preparação e o caminho certos, poderão iniciar, desde aí, um caminho de transformação pessoal que os conduzirá à salvação, conforme é desejo do Papa.

Diz-se que prognósticos só no fim do jogo, e aqui é bem verdade. Mas parece desde já claro que, decidam o que decidirem, este não é um sínodo “para inglês ver”.

Opinião de Ricardo Perna

8 de outubro de 2014

Francisco dedicou audiência pública às divisões entre cristãos


O Papa Francisco apelou hoje às orações dos católicos pelos trabalhos do Sínodo dos Bispos sobre a família, a decorrer no Vaticano, e recordou as pessoas que vivem situações de maior dificuldade.
“É um momento importante da vida da Igreja, para o apoio às nossas famílias que muitas vezes são feridas e provadas de muitas formas. Que Deus vos abençoe e abençoe as vossas famílias”, declarou, durante a audiência pública semanal que renuiu milhares de pessoas na Praça de São Pedro.

A habitual catequese foi dedicada ao tema do ecumenismo e da necessidade de comunhão entre as várias Igrejas cristãs, tema que levou o Papa a fazer uma revelação pessoal. “Hoje, faz 70 anos que fiz a Primeira Comunhão. Fazer a Primeira Comunhão, todos nós devemos saber que significa entrar em comunhão com os outros, em comunhão com os irmãos da nossa Igreja e também em comunhão com todos os que pertencem a comunidades diferentes, mas que acreditam em Jesus”, disse, de improviso.

“Agradeçamos ao Senhor pelo nosso Batismo, agradeçamos ao Senhor pela nossa Comunhão, para que esta comunhão acabe por ser de todos, juntos”, acrescentou.
Francisco pediu que os cristãos não se resignem ou fiquem indiferentes perante as divisões entre Igrejas e comunidades cristãs, para que “se possa e se deva caminhar na direção da reconciliação e da plena comunhão”.

Segundo o Papa, por trás destas divisões estão “a soberba e o egoísmo” que tornam as pessoas “intolerantes, incapazes de escutar e de aceitar quem tem uma visão ou uma posição diferente”.
"Durante o seu caminho na história, a Igreja é tentada pelo maligno, que procura dividi-la, e infelizmente foi marcada por separações graves e dolorosas", afirmou.
Neste sentido, Francisco apelou ao diálogo e à oração comum, destacando a importância do “ecumenismo espiritual”.

“Caros amigos, vamos agora em frente rumo à plena unidade. A história separou-nos, mas estamos a caminho rumo à reconciliação e à comunhão”, referiu.

O Papa deixou uma saudação aos peregrinos de língua portuguesa, particularmente aos fiéis de Amarante e Viana do Castelo, aos membros da Federação Portuguesa de Folclore e Etnografia e da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE). “Peço vossa oração para que cresçam a solidariedade e a colaboração entre os cristãos, dando ao mundo um testemunho comum de Jesus Cristo morto e ressuscitado por todos! Que Deus vos abençoe! Obrigado”, declarou.

O presidente da ACEGE, António Pinto Leite, esteve presente na Praça de São Pedro para entregar ao Papa um exemplar do seu livro ‘O Amor como Critério de Gestão’.

Texto: Agência Ecclesia
Foto: News.va

6 de outubro de 2014

Papa pede que cardeais «falem com ousadia e escutem com humildade»


O Papa Francisco abriu hoje, pela manhã, os trabalhos do Sínodo da Família. Dirigindo-se aos bispos presentes, o Santo Padre agradeceu o trabalho de todos quantos colaboraram até à data na preparação do evento e elogiou o espírito sinodal que esteve presente desde o início.

Francisco afirmou que «a sinodalidade é uma grande responsabilidade, pois é preciso trazer os problemas da Igreja para os ajudar a caminhar segundo o Evangelho que é a família», e por isso estabeleceu algumas condições de base para este Sínodo, para as quais pediu a atenção dos cardeais. «Uma condição de base é falar claro. Que ninguém diga que “sobre este assunto não se pode falar”. Um cardeal escreveu-me uma vez a dizer que havia assuntos sobre os quais os cardeais não falavam, por causa do que diria o Papa. Isto não é sinodalidade, pois temos de dizer tudo aquilo que achamos que o Senhor quer que digamos», considerou o Papa.

«Depois», acrescentou, «é preciso falar com ousadia e escutar com humildade e de coração aberto» o que dizem os irmãos. «Com estas duas condições se faz a sinodalidade. Por isso, peço que o façam com tranquilidade e paz, porque o Sínodo faz-se sempre cum Petro et sub Petro [com a presença e sob a presidência do Papa], garantia para todos e custódia da fé», referiu Francisco.

Os trabalhos da manhã para os participantes no Sínodo tiveram início com a oração de laudes. Na ressonância da leitura, o Cardeal Lluís Sistach, bispo de Barcelona, afirmou que o trabalho dos bispos «deve ser verdadeiramente evangelizador». «Que os fiéis possam receber a Boa Nova  a partir de evangelizadores cheios de alegria em Cristo, e não tristes», pediu o prelado.

O Cardeal Sistach pediu que os bispos consigam «manter o sentimento do Bom Pastor, que larga as suas 99 ovelhas para ir atrás da que se perdeu, numa altura em que em algumas zonas diminuem os fiéis, e a postura do Bom Samaritano, que se dedica ao outro». «Neste Sínodo, falaremos das maravilhas da Família, e, como bons pastores e bons samaritanos, façamos conforme a indicação de Paulo, de tudo fazer por amor a Cristo», concluiu.

Depois deste prelado, foi a vez do Cardeal Vingt-Trois, arcebispo de Paris, pedir «que o trabalho que hoje iniciamos aqui possa ajudar a Igreja a andar para a frente na sua missão». «A missão pastoral não é a de dificultar a vida às famílias, mas apoiar no aprofundamento e na procura da verdade sobre a vida», defendeu o cardeal francês, já que, adiantou, «o futuro da família está no coração das preocupações das pessoas de hoje».

«É preciso perceber que este será um caminho que terá de ser feito não só aqui, mas depois em todo o tempo entre as duas sessões do Sínodo. Não vamos procurar encontrar resultados para problemas tão graves em apenas duas semanas», pediu o cardeal Vingt-Trois.

Os trabalhos iniciaram com a intervenção do Cardeal Baldisseri, que fez uma contextualização do caminho sinodal feito desde a convocação do Sínoco no ano passado, deu algumas indicação práticas, e pediu também que o espírito sinodal permita que os participantes procurem a Verdade num clima de diálogo e partilha. Os trabalhos da manhã iniciaram depois desta intervenção. Os temas sobre os quais os bispos se irão debruçar são «O desígnio de Deus sobre matrimónio e família» e o «Conhecimento e receção da Sagrada Escritura e dos documentos da Igreja sobre matrimónio e família».

Hoje será ainda entregue o relatório preliminar do Sínodo. Poderá continuar a acompanhar todos os trabalhos do Sínodo em www.sinododafamilia.familiacrista.com