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28 de outubro de 2015

Um Sínodo pela saída da Igreja ao encontro das pessoas

 
O mundo católico, e não só, tinha os olhos postos em Roma este fim-de-semana. Terminava o Sínodo dos Bispos, a face mais mediática de um processo sinodal que apenas se concluirá com a palavra do Papa Francisco. O Papa decidiu dedicar cerca de dois anos da vida da Igreja à temática da Família, célula base e nuclear da sociedade, mas que a sociedade tinha decidido ignorar. A sociedade e a Igreja, que tinha passado, com os séculos, de um movimento de fervorosos fiéis que percorriam o mundo a anunciar a Boa Nova, a uma instituição aberta apenas aos que decidiam entrar e vir ter com ela.

E esta é a primeira consequência visível deste processo sinodal: a Igreja abriu as suas portas e vai sair à procura de todas as ovelhas que se perderam. O Sínodo alertou, como tinha vindo o Papa a fazer, para a necessidade de acolher a todos, para a necessidade dos católicos, religiosos e leigos, abrirem as portas dos templos e saírem à procura das pessoas onde elas estão. Esta atitude missionária não é novidade na Igreja dos dias de hoje, mas estava limitada a uma minoria que compreendia esta necessidade e partia.

Agora não há volta a dar: Francisco e os padres sinodais abriram as portas da Igreja e querem acolher todas as pessoas, principalmente aquelas que mais precisam do ombro amigo de Deus e que eram os que mais se afastavam: as famílias em situações irregulares, sofridas, que erravam e eram afastadas. Para isto, o Sínodo pediu uma linguagem positiva, que não afaste as pessoas, mas as acolha e acompanhe. Todos têm lugar na Igreja, sem implicar que todos tenham ficado subitamente em estado de graça e sem pecado.

Acolher não significa aceitar ou concordar com as más ações, e foram muitos os padres sinodais que o foram dizendo ao longo deste tempo. Significa sim que a Igreja tem de ter uma resposta clara para todas as situações, que integre e que não afaste, e que seja sensível às realidades de cada um. O que nos leva à segunda consequência visível: os sacerdotes, religiosos e leigos precisam de formação. Precisam de aprender a acolher, a discernir as diferentes situações que lhes são apresentadas todos os dias, e a saber quais as respostas que a Igreja tem para propor a cada pessoa. Não há respostas gerais, e o Sínodo foi claro nisso. Cada pessoa é um caso, e tem de ser tratada como tal, como indivíduo que é.

A face mais visível desta questão é que os leigos que se aproximam da Igreja, ao serem afastados, podem hoje olhar para quem afasta e bater o pé: a Igreja é de todos, inclusive dos que erram, e ninguém pode ser afastado do regaço de Deus.

O Sínodo não esqueceu a enorme quantidade de divorciados recasados que existem no mundo, e que precisam de uma resposta. Muitos poderão pensar que a resposta foi dada nos pontos mais polémicos do relatório final, apontando um caminho de discernimento que pode levar, em alguns casos, ao acesso pleno aos sacramentos, mas isso é apenas parte da verdade. Como tem feito nestes dois mil anos, a Igreja não funciona ao ritmo das pessoas,funciona com uma visão mais ampla e profética, e foi nesse sentido que pensou em tudo.

Antes de mais, com a simplificação dos processos de nulidade. Processos mais céleres para as situações onde, claramente, o vínculo nunca existiu, vai permitir que a grande maioria das situações fiquem resolvidas, como têm vindo a afirmar bispos e sacerdotes durante este tempo sinodal, como disse D. Manuel Clemente à Família Cristã, antes da sua partida para Roma. Com processos mais rápidos e tendencialmente gratuitos, muitas das pessoas que hoje sofrem por não poderem aceder aos sacramentos poderão fazê-lo, se perceberem que, como acontecerá com a maioria, esse vínculo não foi válido e podem avançar para legitimar esta nova união.

Mas porque isto de declarar nulidade não pode ser o pão nosso de cada dia, a Igreja deu outro passo importante com a preparação para o matrimónio. Antes do Sínodo, D. Joseph Coutts, do Paquistão, dizia, em entrevista à Família Cristã, que não era justo colocar um peso tão grande em cima de um casal que tinha acedido ao sacramento do matrimónio com tanta facilidade, sem qualquer preparação. E os padres sinodais, apesar de terem hesitado mexer nesse tema no sínodo anterior, neste foram claros ao afirmar que é necessária uma preparação para o matrimónio mais intensa, prolongada no tempo, que envolva a comunidade e promova a integração dos noivos nessa mesma comunidade, cultivando uma relação que se vai manter depois do matrimónio, com um acompanhamento mais próximo desses casais.


Com noivos conscientes do sacramento, devidamente integrados na comunidade paroquial que os acolhe, e devidamente acompanhados nas alegrias e nas tristezas, o risco de rutura diminui consideravelmente, se é que não desaparece. O risco é que desapareçam também os casais interessados no matrimónio religioso, mas não acho que seja um risco real. Mesmo que diminuam no início, a proposta de felicidade que a Igreja tem para os casais cativa e atrai, e o que todos os casais procuram é a felicidade conjugal. Percebendo que a encontram na proposta da Igreja, voltarão como voltou o filho pródigo depois de tentar um estilo de vida afastado do Pai que não lhe trouxe felicidade.

Depois de tudo isto, resistirão algumas situações de divorciados que entraram em rutura, cujo vínculo foi válido, e também a esses é preciso dar resposta, e é apenas aí que surgem os tais pontos polémicos, que mais não fazem que ir ao encontro das pessoas e das suas vidas. O resultado será diferente para cada um, e pode acontecer que, em alguns casos, se chegue à consciência de que é possível chegar a aceder aos sacramentos da comunhão e da confissão. Ou não. Mas mesmo que não seja possível isso, será possível uma outra proposta que enquadre essa pessoa navida da Igreja e possibilite a participação tão plena quanto possível na vida da Igreja. Se tiver este acompanhamento, mesmo sem comunhão ou confissão, a pessoa estará enquadrada na Igreja e será feliz, porque Deus tem uma resposta para ela.

Agora vem o maior desafio: conseguir que as estruturas locais da Igreja recebam a mensagem do Sínodo e comecem a procurar formação, a ir ao encontro das pessoas, a acolher a todos, a preparar bem para o matrimónio. Sim, o Sínodo arranjou uma carga de trabalhos para toda a gente, e o principal risco de tudo ficar na mesma não é o conteúdo das propostas, é a inércia dos católicos que não sejam capazes de abrir o coração e escutar o que o Sínodo lhes pede, pelo bem de todos.

Opinião: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e Lusa

14 de outubro de 2015

Um Sínodo de mudança na forma, não no conteúdo

Enquanto jornalista, tenho vindo a acompanhar os trabalhos do Sínodo com afinco, no sentido de os noticiar e dar a conhecer a todos. Como cristão, fico sempre muito espantado com a alegada divisão interna de que o Sínodo padece. Cartas ao Papa, teoria da conspiração, lóbis, de tudo já se falou cá fora e lá dentro. Ninguém sabe bem no que isto vai resultar, até porque agora são os próprios bispos que já pedem um novo sínodo, que estas três semanas não vão chegar para tudo.

No meio de toda a confusão mediática que alguns órgãos, jornalistas e participantes no Sínodo procuram criar, é possível encontrar já frutos do que tem sido a discussão sinodal, que é afinal o que interessa ao Papa e a todos os que seguem o evento com atenção. Desde logo, a comunicação e a linguagem. A Igreja está verdadeiramente preocupada com a forma como recebe e acolhe as pessoas. A linguagem é uma preocupação que vai estar nas prioridades da Igreja, assim como a preparação para o matrimónio.

Depois de, no último Sínodo, os padres sinodais terem falado de uma melhor preparação, mas sem aumentar o tempo ou o peso, agora o discurso mudou e já se fala na necessidade de uma formação maior no tempo, que permita uma ligação à comunidade, e a urgência de um acompanhamento pós-matrimónio, na comunidade, para ajudar a que não surjam tantas ruturas.

Os participantes no Sínodo valorizaram ainda o heroísmo da experiência familiar, e criticaram a visão demasiado ocidentalizada da realidade familiar, pedindo que se abra espaço para uma visão mais global da família.

 Não sabemos se este Sínodo será suficiente para o Papa, ou se haverá mais sessões sinodais, ou outras formas de aprofundamento destas matérias. Mas o que parece claro é que o Espírito atua já sobre a aula sinodal. É certo que virão mudanças, no sentido da Igreja poder chegar mais perto de quem precisa da sua misericórdia, da sua atenção, do seu carinho. Quais serão, só o Papa saberá.

A nós, resta-nos acompanhar os trabalhos com a certeza de que a Igreja não está parada, está viva e desejosa de, como há dois mil anos, apresentar a sua Boa Nova a todos os povos, mesmo que isso signifique abanar as fundações e fortalecer os princípios.

Texto: Ricardo Perna

20 de outubro de 2014

O Sínodo do diálogo e da partilha

O Sínodo que terminou este domingo em Roma marcou um ponto de viragem na Igreja, mas não aquele que muita comunicação social anda por aí a apregoar. Não foram os conservadores que ganharam alguma coisa, ou os liberais que libertaram a Igreja da prisão conservadora em que habitava. A viragem foi precisamente na abertura e na transparência que se viram durante as duas semanas de trabalho, e até antes. Às acusações de uma Igreja fechada e “secreta”, o Papa respondeu com indicações claras: fale-se de tudo sem se esconder nada. E de tudo o que foi falado dentro de portas foi dado a conhecer fora de portas com uma velocidade e eficiência impressionantes. Que outra organização, ou estado, consegue produzir documentos para a comunicação social minutos após serem discutidos, apresentados ou votados, ou sequer resumos de debates longos? E com a transparência de até publicar os votos individuais em cada um dos pontos do relatório final? Ou sequer que permita que todos os participantes falassem abertamente à comunicação social sobre todos os assuntos que estavam a ser debatidos no Sínodo, e sobre as suas intervenções?

Hoje em dia, quem quiser estar informado sobre a Igreja e o que está em causa neste Sínodo, pode fazê-lo, consultando a muita informação disponível nos meios de comunicação social que, de forma mais objetiva nuns casos ou mais parcial noutros, mostram os diversos argumentos e os vários pontos de vista sobre todas as situações mais ou menos polémicas. Este tipo de abertura é rara nas grandes ou pequenas instituições, e uma prova de que a Igreja continua, em muitos campos, a estar anos à frente de outras organizações.

No que toca a conclusões, a mais importante de todas ficou espelhada no discurso do Papa Francisco aos bispos no final da assembleia sinodal. «A Igreja é de Cristo – é a sua esposa – e todos os bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro, têm a missão e o dever de custodiá-la e de servi-la, não como donos, mas como servidores. O Papa, neste contexto, não é o senhor supremo, mas sim um supremo servidor – o “servus servorum Dei”; o garante da obediência e da conformidade da Igreja à vontade de Deus, ao Evangelho de Cristo e à Tradição da Igreja, deixando de lado todo arbítrio pessoal, mesmo sendo – por vontade do próprio Cristo – o “Pastor e Doutor supremo de todos os fiéis” (Can. 749) enquanto gozando “da potestade ordinária que é suprema, é plena, imediata e universal na Igreja” (cf. Cann. 331-334)». Ou, trocado por miúdos: “discutam e ponham tudo em cima da mesa, mas não se esqueçam que o Sínodo é cum Petro et sub Petro (feito com a presença do Papa e sob a sua supervisão), e no final quem vai decidir sou eu e todos devem aceitar a minha decisão”.

Com este simples parágrafo, o Papa Francisco esclareceu toda a discussão e pôs todos no seu lugar, conservadores e liberais. Porque, no final de contas, o Sínodo é “apenas” um órgão consultivo, que nada vincula na Igreja. A sua tarefa é a de dar a conhecer ao Papa a realidade da Igreja e as propostas que cada pastor tem para a Igreja universal. Neste sentido, foi um Sínodo perfeito, que lançou as bases para, durante o próximo ano, «amadurecer, com verdadeiro discernimento espiritual, as ideias propostas e encontrar soluções concretas às tantas dificuldades e inumeráveis desafios que as famílias devem enfrentar», como também referiu o Papa no seu discurso.

Agora é tempo de olhar para o relatório final e refletir sobre as propostas que lá são feitas, que davam toda uma outra reflexão. O Papa agradece o contributo de todos, e não rejeita nenhuma opinião. Sempre sabendo que, no final, é a opinião dele que será vinculativa, nenhuma das outras…

Texto: Ricardo Perna
Jornalista da Revista Família Cristã
Foto: News.va

12 de outubro de 2014

Balanço do Sínodo sobre a Família

A primeira semana da Assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispo sobre a Família foi intensa e vai a bom ritmo. Os 253 participantes, entre cardeais, bispos, presbíteros e leigos tiveram oportunidade de «falar claro», como pediu o Papa Francisco. Para que através de «um confronte sincero, aberto e fraterno assumamos com responsabilidade pastoral as interrogações que as mudanças desta época nos trazem».

Este é um acontecimento decisivo e importantíssimo para toda a Igreja e para todas as famílias. Só é pena que as televisões, rádios e jornais generalistas lhe estejam a dar tão pouca cobertura. Sabemos que não são esperadas para já respostas revolucionárias aos temas mais controversos, pois trata-se de um percurso em dois tempos.

Porém, o facto de o Papa pedir que toda a Igreja durante dois anos se junte e reflita sobre a família em colegialidade, é já uma grande novidade e é a primeira vez na história da Igreja que isto acontece. Várias têm sido as abordagens e reflexões aos temas tratados. Basta elencar alguns deles para sentirmos a seriedade e riqueza deste acontecimento eclesial. O Card. Erdó começou logo por sublinhar que a família «está ameaçada por factores desagregadores como o divórcio, o aborto, a violência, a pobreza, os abusos, o pesadelo da precariedade, os desequilíbrios causados pelas migrações». Os padres sinodais também referiram que a Eucaristia «não é o sacramento dos perfeitos, mas daqueles que estão em caminho». Por isso, partilham que não é necessária «uma escolha entre a doutrina e a misericórdia, mas o início de uma pastoral iluminada, para encorajar sobre tudo as famílias em dificuldades, que muitas vezes sentem de não pertencerem à Igreja».

A questão da pobreza, da precaridade do trabalho, o desemprego, a falta de dinheiro e uma habitação decente também foram abordadas no sínodo, sublinhando como aspectos que põem em crise as famílias. Para isso sugeriu-se a importância de uma «ecologia humana» que ajude a minimizar os efeitos negativos da globalização económica, valorizando a Doutrina Social da Igreja. Testemunhou-se também como o fundamentalismo religioso, sobretudo islâmico, impede os cristãos de serem cidadãos com os mesmos direitos que os muçulmanos e com problemas sérios onde existem matrimónios mistos.

Um aspecto curioso é o quase desaparecimento da língua latina e a adopção do italiano como língua “oficial” neste sínodo. Do latim ficaram apenas os nomes dos documentos: Relatio ante e post disceptationem; e Relatio Synodi. A tão esperada questão da comunhão aos divorciados recasados foi bem debatida e das 85 intervenções surgiram duas “linhas” oficialmente reconhecidas: a primeira diz que não é possível admitir aos sacramentos os divorciados recasados; a segunda quer ver através da misericórdia as situações vividas por estes católicos e discernir como abordar as várias situações sem negar a doutrina fundamental, mas encontrar novas formas de pastoral. Onde os bispos poderão ter um papel mais activos nas condições da fé e na vida destas pessoas.

Também se falou sobre a necessidade de uma pastoral para os homossexuais, assente na escuta e na criação de grupos de acolhimento nas paróquias. Fazendo ver que a Igreja não é uma alfândega que deixa de fora os maus e só acolhe os bons, mas é uma casa onde existem famílias sem problemas e famílias em crise. O Card. Coccopalmerio chegou a dizer que é necessário «adoptar a hermenêutica do Papa, que é aquela de salvar a doutrina mas a partir de cada pessoa, da sua situação concreta, necessidades, urgências, sofrimento. Devemos dar uma resposta a pessoas concretas que se encontram em condições graves e urgentes».

Nesta primeira semana do sínodo sublinhou-se ainda o papel importantíssimo dos leigos que «devem ser activos e competente na defesa pública dos valores da vida e da família». Reconhecendo também a urgência de formar adequadamente e permanentemente os sacerdotes e os seminaristas sobre os temas da família. Não ficaram de fora da reflexão o sofrimento de quem perde um familiar, como as pessoas viúvas, os órfãos ou os pais que perdem um filho. Também para estes referiu-se que é fundamental que a Igreja os acompanhe através de grupos de escuta e partilha.

Na segunda semana de trabalhos haverá encontros em círculos menores, divididos por línguas, onde os participantes continuarão a trabalhas estes temas em vista do documento que será aprovado em assembleia e entregue ao Papa. Continuemos a acompanhar este momento tão importante para todos nós com interesse e oração.

Texto: Pe. José Carlos Nunes
Superior regional dos Paulistas
Foto: Ricardo Perna e Salt Light TV 

9 de outubro de 2014

O Sínodo que pode abrir (de novo) a Igreja ao mundo

O mundo católico está de olhos postos no Vaticano, onde, nestas duas semanas, se discute a Família, um assunto que interessa a todos os católicos. Mais do que perceber que decisões poderão sair do Sínodo, já que é pouco provável que saia algo de definitivo antes do Sínodo do próximo ano, é importante olhar para a dinâmica e o espírito com que estão a ser conduzidos os trabalhos na aula sinodal.

O Papa Francisco pediu que os bispos falassem com ousadia e escutassem com humildade, e essa tem sido uma constante nos relatos que se vão ouvindo. Problemas, desafios, dúvidas, tudo tem sido posto em cima da mesa sem filtro ou censura. Há dias, D. Victor Fernández, reitor da Universidade Católica na Argentina, brincava com os jornalistas, dizendo que todos falavam com liberdade durante os trabalhos, sem medo que o Cardeal Müller, prefeito da congregação para a doutrina da Fé, «fosse atrás deles».

Esta é a Igreja que Francisco quer, aberta ao diálogo, na procura de consensos, sem medo de enfrentar as suas próprias teorias e posições. Isto não significa, no entanto, que se estejam a preparar grandes mudanças doutrinais. Mais do que mudar a doutrina, este Sínodo servirá para a Igreja mudar o modo como olha para os seus fiéis, principalmente aqueles que, por este ou aquele motivo, se encontram em situação irregular. Será um sínodo pastoral, que irá mudar a forma como os católicos são recebidos, tratados e acompanhados no seio da Igreja. Este é um desígnio que se percebe em todos os cardeais e bispos que diariamente marcam presença na sala de imprensa para falar com os jornalistas. Mesmo sem mudar a doutrina, terá de haver ajustes no sentido de compreender as situações particulares de cada um e acolher com amor e compaixão, mais do que afastar com regras e frieza.

Sem deixar de chamar a atenção para o pecado, e sem deixar de o condenar, uma linguagem mais positiva na abordagem a estas pessoas poderá conduzi-las ao seio da Igreja onde depois, com a preparação e o caminho certos, poderão iniciar, desde aí, um caminho de transformação pessoal que os conduzirá à salvação, conforme é desejo do Papa.

Diz-se que prognósticos só no fim do jogo, e aqui é bem verdade. Mas parece desde já claro que, decidam o que decidirem, este não é um sínodo “para inglês ver”.

Opinião de Ricardo Perna

8 de outubro de 2014

Um olhar sobre o Sínodo extraordinário dos Bispos

Estamos a viver a Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, cujo tema é: «Os Desafios da Família no Contexto da Evangelização». Esta é uma etapa intermédia na caminhada Sinodal. O trabalho desta assembleia é conduzido pelo Instrumentum Laboris, que reúne as numerosas respostas do Povo de Deus ao Documento Preparatório.

O setor da Pastoral da Família de Lisboa acompanha este Sínodo com muita atenção, pedindo ao Senhor que o Espírito Santo conduza os trabalhos sinodais de forma a que seja um verdadeiro tempo de caminho eclesial. Tal como afirmou o Papa Francisco, na Saudação aos padres sinodais, é preciso que no Sínodo se fale claro, ou seja que se diga tudo o que se pensa com ousadia e, ao mesmo tempo, que se ouça com humildade e acolha com coração aberto aquilo que dizem os irmãos, fazendo-o com tranquilidade e paz.

Um dos desafios deste Sínodo, tal como indica o tema que preside a estes dois anos de caminhada, é conseguir propor ao nosso mundo o atrativo da mensagem cristã a respeito do matrimónio e da família, sublinhando a alegria que dá a vida em Cristo. Diante dos problemas e dificuldades que tocam a existência da família dos nossos dias, é fundamental que as respostas da Igreja sejam impregnadas de caridade. É importante que este Sínodo não fique apenas com umas ideias bonitas, como disse o Papa, nem que se centre apenas em alguns aspectos da moral cristã, mas que seja abrangente, que fale de todas as realidades da vida familiar, de forma a que se possam descobrir novos caminhos de evangelização. Numa sociedade por vezes tão adversa à vida familiar, cabe à Igreja a proximidade com vida familiar, de forma a que, acompanhando as famílias, possa ser um porto seguro, uma referência, uma orientação.

Assim, enquanto setor da Pastoral da Família, a nossa grande expetativa é que este sínodo traga um renovado entusiasmo por este setor da pastoral, que não é mais um setor entre tantos outros, é aquele que mais toca a vida das pessoas, pois a grande referência da cada pessoa é sempre a família. É preciso implantar uma autêntica Pastoral Familiar nas nossas comunidades cristãs; é preciso trabalhar numa séria e longa preparação para o matrimónio e para a vida familiar, que comece no seio da vida familiar, na catequese, nos grupos de jovens; é preciso que os casais cristãos conheçam a beleza da vocação a que são chamados; em suma, é preciso que as famílias se redescubram como Igrejas domésticas, como santuários de vida e amor.

Queira Deus que este Sínodo possa trazer um novo impulso à Pastoral da Família.

Texto: Pe. Rui Pedro Trigo Carvalho

7 de outubro de 2014

Família: Ideias básicas

O Sínodo extraordinário sobre a Família, começado no dia 5 de Outubro de 2014 e que só terminará em 1915 com a segunda parte deste mesmo Sínodo, suscita em todos, genericamente, ansiedade, expetativas, surpresa e alegrias.
Desde já alegrias. Todos reconhecem que este tema toca com as fontes da fé, e estas são as palavras da sagrada Escritura. A Igreja, por isso, nunca poderá deixar de proclamar a Palavra de Deus sobre a família e os alcances, espiritual, social, comunitário e geracional desta. Com decisão e firmeza, a Igreja quer dizer uma palavra própria, e por isso terá que estudar e excogitar o que genuinamente diz a Sagrada Escritura sobre a família. E diz muito; e coisas muito essenciais que só fazem bem à vida e às sociedades humanas.

Há de propô-las com a “alegria do Evangelho” e a ânsia de chegar validamente a todos, e especialmente aos últimos ou aos marginalizados ou desiludidos da vida – sobretudo da vida familiar. Acerca desta realidade, há uma brecha – uma gravíssima brecha – que transversalmente tem a ver com o mundo inteiro. Parece que ninguém escapa dela. Duma maneira ou de outra: por medo que lhe suceda, o mais das vezes o inevitável; devido a feridas que já sangraram e muitas delas, infelizmente, até se repetiram; por acomodamento ao que a sorte lhes ditou; pela inevitabilidade da situação em que se encontram em que muitas vezes não têm saídas, ou se as têm, são muito difíceis de conseguir...

Por conseguinte, a Igreja terá que esmiuçar a Boa Nova bíblica e evangélica sobre a Família, da forma mais clara e precisa possível, inspirando-se no exemplo e na pessoa de Jesus, o qual não se coibiu de reclamar o que para Ele era inevitável e inquestionável: a fidelidade ao projeto de Deus Criador e instituidor do matrimónio, tal como vinha desde “o princípio” (cf Mc 10,6-9). Conseguirá a Igreja construir um discurso segundo o agrado de Deus que, ao mesmo tempo, seja fonte de alegria, de inspiração e de paz para todos?

Este é o grande repto e desafio que o Sínodo coloca à “grande Igreja”. Será ela ainda capaz de galvanizar e chamar a atenção sobre o sentido da família e do matrimónio, tal como a Igreja o concebe (e reforma!) sob inspiração da Palavra de Deus? Naturalmente que neste capítulo não vivemos no melhor dos mundos, bem sabendo que o mundo anseia ouvir da Igreja uma Palavra estimuladora e de consolação.

Estes vão ser os temas que obrigatoriamente terão de ser tratados, segundo a nossa perspetiva acabada de explicar: o amor mútuo de adultos, com vinculação estável de pessoas (especialmente homens com mulheres); o acolhimento e educação pessoal dos filhos num contexto de maturidade afetiva ou relacional (sem esta, a paz e a concórdia acabam no mundo e toda a humanidade pode cair no risco duma opressão de alguns ou duma violência que a todos atinge); o problema da identidade pessoal e individual, comunitária e social (sem esta, os seres humanos podem suicidar-se e fá-lo-ão, se não se cuidar da família).

Na vigília em favor do Sínodo realizada na Praça de S. Pedro, sob organização da Igreja italiana, também o próprio Papa Francisco falou no mesmo sentido: «O Papa olhou para o Sínodo e fez dele um sonho, “um sonho essencial de estabilidade, e uma porta aberta". Uma história, a da salvação, e a da família, "à qual se pertence: a comunhão de vida entre os esposos, a sua abertura ao dom da vida, a guarda recíproca, o acompanhamento educativo ou a transmissão da fé, contribuem para uma sociedade mais justa e solidária. Temos uma ocasião providencial para renovar, a exemplo de S. Francisco, a Igreja e a sociedade. Com a alegria do Evangelho apontaremos o caminho de uma Igreja reconciliada e misericordiosa, pobre e amiga dos pobres, com capacidade de vencer, com paciência e amor, as aflições e as dificuldades que vierem tanto de dentro como de fora». Assim falou o Papa Francisco na vigília do Sínodo.

E qual o caminho que os Padres sinodais deveriam adotar ou abrir para aqui se chegar? A História da Igreja até ao terceiro século indica-lho claramente pela maneira como trataram e (re)admitiram na Igreja os pecadores inscritos em práticas penitenciais muito difíceis. Os doutores e professores da fé daquele tempo, uma vez mudados em Pastores (bispos e papas), ofereceram a medicina da misericórdia, quando antes dos mesmos só havia aplicação moral ou legal contra os prevaricadores. Se a história do sacramento da penitência nos ensina esta intuição e mudança evangélica, agora é só mudá-la para ser aplicada à questão familiar.

P. Mário José dos Santos, SSP

23 de setembro de 2014

Família, um projeto...

No último fim de semana participei em Fátima nas jornadas nacionais, missionárias e juvenis, cujo tema foi "Família, um projeto..." Uma excelente forma de entrar neste clima de preparação para o Sínodo sobre a família, que começa daqui a alguns dias em Roma. De facto, a família é sempre um projeto, sempre em construção e sempre aberto, e as excelentes reflexões que ali se propuseram foram certamente uma bela contribuição para centenas de jovens, discípulos e missionários de Cristo refletirem sobre este que é um dos temas mais delicados da sociedade atual.

Ir. Darlei Zanon
Religioso Paulista
A família como projeto leva a considerar questões fundamentais, afinal, fazer um bom projeto implica pensar, refletir, preparar, analisar alternativas, pedir ajuda... coisa que a maioria das família hoje formadas não consegue fazer, às vezes pela falta de preparação e de tempo (são formadas por impulso ou por pressão) e às vezes simplesmente por comodismo. Um projeto é muito mais do que buscar a estabilidade profissional, económica ou social. Um projeto existe para a melhor concepção e resultado, para que a edificação seja perfeita. Existe para que o percurso seja consciente, e não segundo a lógica do "desenrascanço". Existe para gerar unidade e sintonia, e não um grupo de pessoas que habitam no mesmo espaço mas vivem refugiadas em mundos divergentes.

Ter a família como um projeto significa contrariar a tendência social atual, envolvida por uma cultura do individualismo, do hedonismo, das aparências, da busca de protagonismo. Projetar uma família é fazer exatamente o contrário, priorizando a comunhão, o coletivismo, a profundidade, a relação, os verdadeiros valores. Significa construir uma comunidade de vida e de amor, onde se partilham as expectativas, as conquistas, as decepções, os encontros e desencontros, as feridas, as dores, os sofrimentos e as superações, as alegrias e as esperanças.

A família não é certamente um projeto simples, fácil, mas é um projeto essencial para uma vida feliz, o único meio para a construção de uma sociedade com valores e realização. E como diz o Papa Francisco, o cristão deve "primeirear" na construção deste modelo de família, ou seja, deve tomar a iniciativa, dar o exemplo, ser o primeiro. Mãos à obra, pois o projeto já está em curso.