Mostrar mensagens com a etiqueta D. Vincenzo Paglia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta D. Vincenzo Paglia. Mostrar todas as mensagens

30 de setembro de 2015

«A família é pouco eclesial e as comunidades paroquiais pouco familiares»


O presidente do Conselho Pontifício para a Família, D. Vincenzo Paglia, acha que as comunidades fazem pouco para receber as famílias e as famílias pouco se interessam em se integrar na vida das comunidades paroquiais. Usando como exemplo o Evangelho de Lucas, o prelado explica que a melhor forma de levar a misericórdia aos outros é através da família. Tudo no seu novo livro "Uma casa rica de misericórdia", editado pela PAULUS Editora.


O que o levou a relacionar o Evangelho de Lucas com a Família e a Misericórdia?
Como sabe, o Evangelho de S. Lucas é chamado o Evangelho da Misericórdia pelas muitas passagens que mostram precisamente o amor visceral, misericordioso, apaixonado de Deus pelas suas criaturas. Emblemático de tudo isto é aquela parte das famosas três parábolas, precisamente da misericórdia, a que depois se segue a do bom samaritano. Neste contexto, a família inscreve-se num modo extraordinariamente eficaz, seja porque S. Lucas é o único evangelista que apresenta nos dois capítulos do Evangelho da infância de Jesus a família de Nazaré, mas também porque nas páginas de Lucas muitas vezes se fala de Jesus, embora também isto suceda nos outros evangelhos, como membro de uma família. Um exemplo, que vale para tudo, é a relação tão relevante e afetuosa de Jesus com a família de Lázaro, de Marta e de Maria. Por esta razão, pareceu-me bem que o Sínodo da Família, que de algum modo abre o Ano da Misericórdia, pudesse encontrar, precisamente, neste pequeno instrumento do Evangelho de S. Lucas comentado, uma oportunidade para todas as nossas famílias. Porque a misericórdia certamente faz parte essencial da vida, não só da família cristã, mas espero que de todas as famílias humanas.

A família é a base de toda a educação, incluindo a religiosa. É por isso que é tão necessário que a família se mantenha estruturada? 
Ninguém duvidará de que hoje a crise na qual a família se sente se encontra ligada também a uma aceleração de uma cultura secularizada que se afasta da fé. Numa humanidade em que a família se priva da dimensão religiosa, a família cansa-se de viver. E de certa forma encontra ainda maiores dificuldades na educação. É por isso que o Evangelho de S. Lucas, perspetivando a escolha que o próprio Deus fez para educar o seu Filho, teve necessidade da família: de uma mãe como Maria, e de um pai, ainda que putativo, como S. José. E foi extraordinariamente eficaz a síntese que S. Lucas faz a dada altura quando escreve: «Jesus crescia em sabedoria, idade e graça» (Lc 2,52;40). Uma vida como esta que não era, como se disséssemos, uma decoração. Na família de Nazaré realizaram-se muitas das nossas tensões contemporâneas; como por exemplo, a relação entre Maria e S. José no início. Pensemos na fuga para o Egito. Jesus, Maria e S. José tornam-se emigrantes. E depois, pensemos na relação entre pais e Filho na perda e encontro no Templo. Por fim, uma situação de luto quando Maria está sob a Cruz; e por aí adiante. Em suma, a família é realmente o lugar de provação radical bem ativa. E lá onde isto não acontece, aí nós temos que nos encontrar a recolher as tragédias que não tiveram este processo educativo desde a infância.

Muitos pais mandam os filhos à catequese ou à eucaristia, mas ficam em casa. Qual a importância do exemplo dos pais na educação religiosa dos filhos? 
Este é um dos pontos mais importantes da vida da igreja de hoje, em minha opinião. Existe como que uma separação entre a família e a comunidade cristã. Uma fossa, que permanece quando se enviam os filhos para a paróquia. Porquê? A família é pouco eclesial e as comunidades paroquiais pouco familiares. Pelo que, uma torna-se uma espécie de recinto fechado, e a outra torna-se uma realidade funcional, exterior. Neste sentido, ouso brincar um bocadinho afirmando que, neste sentido, é indispensável que os pais levem para a comunidade os seus filhos, desde a idade do berço. Sem esta dimensão, não é possível a evangelização. A brincadeira que me vem à ideia é esta: como o filho entra como membro da família, através do aleitamento, o amor da mãe, a voz do pai e o desvelo dos avós, a evangelização torna-se possível através do odor das velas, o cheiro do incenso, a visão dos que atuam à volta do altar. Se depois é verdade que os primeiros três anos são os que constroem o âmago duma personalidade, compreende-se que de nada vale esconder uma criança desde que nasceu e apenas levá-la aos sete anos para a paróquia para a primeira Comunhão. Temos que recriar intimidade entre família e paróquia. A nós ambas nos servem.

Pede que as famílias leiam juntas o Evangelho de Lucas. Como podem elas arranjar tempo, na sociedade de hoje? 
É o desafio de «rezar sempre», como dizia Jesus. Se vivemos numa sociedade em que a pressa e o caos são de casa, «rezar sempre sem nunca nos cansarmos» significa rezar pelo menos cinco minutos por dia, juntos em família. Neste sentido, o Evangelho de S. Lucas que publicámos, nas edições Paulus em várias línguas, é um instrumento para o que chamarei a lectio divina popular ou familiar. Quando eu era bispo de Terni, uma senhora contou-me, quando então distribuía estes evangelhos nas minhas visitas às famílias da diocese, a sua alegria porque todas as noites antes da ceia liam em família um ou dois versículos do Evangelho com um comentário muito breve. E esta é uma maneira de fazer as famílias discípulas de Jesus. Em suma, aquela Maria, irmã de Marta, ensina-nos que estes cinco minutos poderão ser a «melhor parte» (Lc 10,42) dos nossos dias.


Neste ano da Misericórdia, como podem as famílias exercer essa misericórdia entre elas? 
Eu penso que este Ano de Misericórdia é um pouco como Jesus: anunciou em Nazaré um ano de graça, durante o qual a dimensão do dom, da gratuidade, deve aparecer de muitos modos nas famílias. O Papa Francisco deu-nos aquelas famosas três palavras: desculpa, por favor, obrigado! São três palavras que podem declinar-se durante o Ano da Misericórdia, ou melhor dizendo, a jornada de um Ano de Misericórdia. Claro, tudo isto se deve passar na paróquia, mas também tomá-lo como hábito de vida, na vida ordinária, no trabalho, no mercado, na rua, em todo o lado. Na verdade, trata-se de transformar a vida não apenas vivendo melhor, mas até conduzindo-a mais graciosamente. A gratuidade falta-nos muito nas nossas relações. Tudo se faz como se fosse um comércio: dou-te para que me dês; quanto custa; quanto devo gastar... Precisamos de mais atitudes graciosas, de algo mais de «grátis» nas nossas relações. E a Misericórdia entra nisto, porque Deus opera sempre graciosamente em favor de todos, especialmente em favor dos mais necessitados.

29 de outubro de 2014

«Há necessidade de que se desenvolva uma nova fraternidade entre todas as famílias»


 

D. Vincenzo Paglia é o presidente do Conselho Pontifício para a Família. Em exclusivo para a Família Cristã, faz um balanço do Sínodo sobre a Família e pede que todas as famílias e comunidades se envolvam no processo de reflexão que agora se inicia, em vista do Sínodo ordinário do próximo ano.

Qual é a sua avaliação do Sínodo que se passou em Roma?
Direi que foi um acontecimento absolutamente extraordinário. E num certo sentido foi importante não apenas para a Igreja mas para todas as famílias do mundo. Poderia dizer que, sobre as costas daqueles 191 padres sinodais, realmente existia uma preocupação por todas as famílias do planeta; não somente pelas crentes, mas por todas. E eu creio que a sapiência e o olhar preventivamente avançado do Papa Francisco, que quis este longo percurso de reflexão de toda a Igreja sobre a família, deu os seus frutos. Foi um debate animado, livre, franco, em que se tocaram muitos temas – outros deverão ser ainda examinados – todavia o itinerário que se abriu no encerramento do Sínodo extraordinário é um itinerário de grande responsabilidade, além de grande interesse.

Qual será, no decurso do próximo ano, o trabalho do Conselho Pontifício para a Família sobre a Relatio Synodi, em vista à preparação do Sínodo ordinário de 2015?
O Conselho Pontifício para a Família, obviamente, está particularmente interessado na reflexão e na realização de debates múltiplos, plurais, a todos os níveis, sobre cada temática discutida durante este Sínodo. Não foi por acaso que o Sínodo quis “caminhar em conjunto”. Apesar de ter sido muito aberto, tem, todavia, que se favorecer indispensavelmente uma ulterior abertura de tal modo que as temáticas que ali foram tocadas sejam debatidas em todos os níveis. Houve debates que tiveram um caráter mais teológico, outros uma relação mais imediata com a vida pastoral, mas indubitavelmente todos somos chamados a meter no centro da nossa atenção não somente as teorias, mas também a vizinhança de todas as famílias, em relação às sãs e às feridas; às que caminham e às que coxeiam. Porque é importante que todas as famílias – mesmo as que ainda não estão marcadas pela plenitude do sacramento, ou até pela robustez de um caminho – apressem o passo e se unam numa simpatia comum de tal modo que o que já está bem amadureça plenamente. Há, pois, a necessidade de que se desenvolva uma nova fraternidade entre todas as famílias, entre as famílias crentes, entre as famílias crentes e as não-crentes, porque se volta a descobrir com clareza que a família é um património comum para toda a humanidade. 

A preparação para o matrimónio foi um dos temas discutidos no Sínodo. Como podemos integrar a pastoral do matrimónio na pastoral juvenil, catequética, privilegiando a preparação remota exigida pela Familiaris Consortio?
Todos os padres sinodais sublinharam a importância da preparação ao matrimónio, até porque o matrimónio não é uma festa, e nem é sequer um dia em que é festejado, mas é uma escolha de vida: neste sentido trata-se de fazer redescobrir que a escolha de um se casar é um chamamento, uma vocação. Ninguém se casa só para si mesmo mas para criar uma família, e para que esta família incida na sociedade e na criação. Isto significa que a preparação ao matrimónio não pode ser nem apressada nem muito menos superficial, bem pelo contrário, em minha opinião, deve representar uma ocasião para uma compreensão renovada, seja da fé, seja da vida matrimonial e familiar. Não basta por isso contentar-se com um amor romântico ou um “gostamos um do outro, ponto final”. Na realidade deve-se redescobrir a alta e difícil vocação de ser esposos, pais e promotores de ligações sociais. 

Pensa que a formação imediata ao matrimónio deva ser mais exigente?
É indispensável uma ligação dos nubentes – destes jovens que querem assumir a vida matrimonial – com a comunidade cristã. Não é possível conceber um matrimónio e uma família sem uma ligação com a comunidade cristã de referência: esta é uma das indispensáveis acentuações que devem ser promovidas. Com demasiada frequência a família anda por conta própria, como também muitas vezes a paróquia, ou a comunidade cristã, anda por conta própria. Por isso acontece que se prepara sem viver a vida da comunidade e se inicia a vida de uma nova família num ambiente onde da comunidade paroquial, ou da comunidade cristã, não se sabe nada, e nem sequer se conhece.

Em sua opinião, é justo que as dioceses exijam que os seus sacerdotes devam recusar fazer o casamento dum homem e duma mulher se estes não estiverem bem conscientes do sacramento?
Este vazio deve absolutamente ser ultrapassado e neste sentido a proposta evangélica da família não deve abaixar-se, mas deve ser sempre alta. O problema não é, se assim posso dizer, abaixar a meta, mas deve-se reforçar o acompanhamento com ela, e isto comporta um envolvimento de todos: dos esposos, dos operadores pastorais, e da própria comunidade cristã, que acolhe e acompanha cada jovem família.
É evidente então que o sacerdote ou o grupo pastoral que acolhe os jovens nubentes devam fazer crescer neles a consciência. Portanto é sempre uma perda, é uma derrota deixar cair esta questão. Nunca mandar ninguém para trás. A mecha que ainda fumega não seja apagada, mas reavivada e reativada para se tornar uma chama ardente. Por isso eu sou completamente contrário a mandar para trás, pelo contrário, deveríamos ser despachados para trás nós se não formos capazes de ajudar. 

Além da questão da preparação, muitos falaram da necessidade do acompanhamento dos casais, estejam eles em crise ou não. Como fazer isto?
Eu creio que aqui devemos redescobrir uma grande sapiência. Infelizmente muitos matrimónios, tantas famílias, rompem-se porque estão sozinhos, abandonados. Por isso nós devemos estar perto destas pessoas antes da crise, mais ainda durante a crise, e acompanhá-las esperando que obviamente tudo se resolva. Se depois sucedem fraturas devemos estar ao lado e compreender. E onde se descobre que o matrimónio não existiu, deve-se obviamente facilitar os procedimentos de nulidade, sem que isso porém signifique um alegre cancelamento. 

Como podem os sacerdotes ajudar nesta tarefa?
Estar perto dos matrimónios que se fraturam é um dos grandes desafios que o Sínodo pediu para enfrentar e que sobretudo o Papa Francisco quer que todos os pastores e compreendam. E a vizinhança faz encontrar também caminhos, se não de solução, certamente de acompanhamento. É uma arte acompanhar todos; é uma arte ainda mais sofisticada a de acompanhar os feridos. Quanto tempo é preciso para ter um doutoramento em medicina, para operar, para ajudar a manter a saúde? Eu creio que o mesmo seja necessário para acompanhar, para fazer crescer bem, para curar quando as doenças do espírito enfraquecem ou fraturam coexistências que deveriam reencontrar um novo vigor e uma nova primavera.

Entrevista: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e News.va

24 de setembro de 2014

A nulidade matrimonial no Sínodo


Em janeiro, D. Vincenzo Paglia, presidente do Conselho Pontifício para a Família, afirmava em entrevista à Família Cristã que os processos precisavam de ser mais céleres, a pedido do próprio Papa. Na semana passada, o Papa Francisco nomeou uma comissão para estudar «a reforma do processo canónico de casamento» e reforçou assim a ideia que já se vinha formando de que o Sínodo, agora ou em 2015, irá introduzir alterações aos processos de nulidade matrimonial.

Neste sentido, o que poderá mudar? «Se houver recursos e disponibilidade é possível que todo o processo seja mais célere, mas há prazos que nos obrigam a ir esperando. Há quem especule que a não necessidade de confirmação pode acontecer, mas a necessidade de confirmação é para salvaguardar algum tipo de arbitrariedade. Por mais sério que seja, pode ter escapado ao juiz alguma coisa, e um outro olhar dá-nos mais segurança na confirmação da sentença. Mas há a possibilidade de deixar a confirmação apenas para quem se sinta injustiçado», diz o Pe. Ricardo Ferreira, que adianta outra hipótese, «mais difícil». «Outra solução, mais difícil, seria prescindir da figura do defensor do vínculo, que é quem defende a validade do ato e aponta a fragilidade do processo», considera o sacerdote.

Pedro Vaz Patto, que é juiz, também concorda com a eliminação da obrigatoriedade da segunda instância. «A exigência da confirmação na segunda instância pode ser abolida, porque a esmagadora maioria das decisões são confirmadas. Salvaguardando sempre a possibilidade de uma das partes recorrer, pode eliminar-se a exigência», defende o magistrado.
Um maior investimento em recursos humanos nos tribunais eclesiásticos também contribuirá para diminuir não o tempo do processo, mas o período de espera entre a entrega do libelo e o início da instrução, que é, em alguns casos, o período mais demorado de todo o processo.

No que diz respeito a novos critérios de nulidade que possam ser estudados, o Pe. Ricardo Ferreira não está certo de que possam existir, mas não fecha a porta a essa possibilidade. «O código de direito canónico de 83 é o atualmente em vigor. A própria jurisprudência pode ir encontrando novas práticas que se vão enquadrando nos critérios que temos. Ultimamente o que temos verificado são as situações da falta de liberdade interna, que alguns tribunais consideraram como fator autónomo, mas que já se percebeu que está incluído nos fatores já definidos», indicou o sacerdote, que afirma, no entanto, que, à semelhança do cânone 1095, que foi «introduzido na última revisão», «pode acontecer que, no futuro, as novas revisões levem à criação de novos fatores que permitam perceber a nulidade», conclui.

Ricardo Perna

23 de janeiro de 2014

Nulidade: Vaticano quer acelerar processo

O presidente do Conselho Pontifício para a Família, Mons. Vincenzo Paglia, assegurou em exclusivo à Família Cristã que «há já algum tempo» está a pressionar para que sejam acelerados os processos de nulidade do matrimónio, uma perspetiva que, segundo o prelado, o Papa Francisco partilha e que será «solicitada» também por ele. «Não podemos prolongar demasiado tempo estes processos, porque o problema não é anular um matrimónio já realizado, mas reconhecer que aquele casamento nunca existiu e que foi viciado logo nos inícios. Pro veritate devemos despachar tais processos», defende o presidente do Conselho Pontifício para a Família, em declarações prestadas em Roma.

Mons. Paglia indicou ainda que não se pode olhar para todos os casos de divórcio da mesma forma, e introduziu uma novidade ao distinguir entre quem se divorcia e quem é abandonado sem o desejar e sem nada poder fazer para contrariar. «Um homem ou uma mulher que sejam abandonados porque são velhos, isto não merece também uma resposta?», questionou o prelado, deixando antever que esta diferenciação de situações possa ser uma solução para quem se viu numa situação de divórcio sem nada ter feito para tal.

D. Vincenzo Paglia
Presidente do Conselho Pontifício para a Família
Um acelerar dos processos de nulidade permitirá diminuir o número de divorciados que existem na igreja, assim como o número de fiéis que, por via do divórcio, se veem impossibilitados de participar na vida comunitária através dos sacramentos. O facto de muitos dos casamentos poderem ser objeto de nulidade hoje em dia prende-se com a pouca consciência que existe da parte dos noivos sobre o sacramento que pretendem receber.

D. Vincenzo Paglia reconhece que, aqui, a falha é da Igreja e da preparação que faz com os noivos. «Num certo sentido, diria que sim. É preciso compreender que hoje, ao contrário do passado em que a cultura e a economia ajudava os esposos, hoje a cultura, a economia, a política e a própria atitude desencoraja os jovens, que acabam por se casar mais tarde», lamentou o prelado. Neste sentido, o arcebispo italiano anunciou que estava a elaborar um documento que sirva para refletir sobre as questões da preparação do matrimónio. «Sejamos claros: um "príncipe encantado" não existe. Não existe um casamento cujos sentimentos nunca sejam feridos. O perdão aqui é necessário; precisa-se de sofrimento», defende o prelado. Comparando a família a uma equipa de futebol, Mons. Paglia argumenta que, «se os jogadores de uma equipa de futebol devem fazer treinos, sacrifícios e jejuns para vencer um campeonato, quem pode pensar que não seja do mesmo modo importante, e até muito mais, ter uma equipa não de futebol, mas uma equipa de família, com capacidade de criar para poder continuar a vencer no amor», questionou o responsável. Continuando com o futebol, o prelado porque é que é possível alguém dizer «Benfica forever [para sempre]», mas ser incapaz de dizer à sua noiva «forever». «Esta é a cultura que precisa de ser mudada, e é importante que os jovens de hoje não tenham medo, uma vez que, infelizmente, a cultura não ajuda», refere.

Os perigos da «superficialidade» e da «rigidez»
No que diz respeito a uma possível aproximação da posição ortodoxa, que permite um segundo matrimónio devido a uma interpretação do termo porneia, que aparece no Evangelho, o arcebispo italiano é cauteloso, mas não rejeita essa hipótese. «Esse é um assunto que o Papa Francisco pôs em cima da mesa quando regressava do Rio de Janeiro, e estou certo que a solução vai aparecer», disse, acrescentando no entanto que a solução partirá sempre do «acolhimento muito mais aberto que a Igreja deve ter em relação a estas situações de dificuldade, que são muito diferentes», anunciou.
Quanto a mudanças práticas e efetivas, o prelado adverte para dois perigos. «Devemos enfrentar os dois perigos que se colocam: a superficialidade de um lado, e a rigidez do outro. Há problemas teológicos que não podem ser esquecidos, problemas pastorais que nalguns casos podem ser acelerados, aparecerão soluções que acabam por se verificar impraticáveis, e outras, pelo contrário, para praticar», defende.

Por tudo isto e considerando as dificuldades que a família atravessa hoje em dia, Mons. Vincenzo Paglia considera importante a criação de uma «rede de amizade entre as famílias». «Nisto a comunidade cristã deve fazer muito, muito, muito mais. Não podemos mais ir à Missa cada um por sua conta, pensando apenas no seu pequeno lar. Devemos ir à Missa para transformar a Igreja numa família de famílias que sabe acolher também aqueles que têm uma família gasta ou dividida e em crise», concluiu.

Ricardo Perna

8 de janeiro de 2014

«A Família é a maior pérola do mundo»


 
*entrevista de Ricardo Perna
Tem a cara de um avô, mas o pensamento de um profundo conhecedor da realidade da família. Mons. Vincenzo Paglia, presidente do Conselho Pontifício para a Família, entra na sala para a entrevista apressado e sai quase a correr, mas enquanto esteve com a FAMÍLIA CRISTÃ as suas respostas não demonstraram pressa ou urgência. Antes, havia um profundo conhecimento da realidade da família hoje em dia, e um desejo de que as famílias se entendam e se apoiem nos momentos mais difíceis, como o desta crise que se vive nos nossos tempos. Reconhece que a Igreja precisa de fazer mais em relação à catequese familiar e pergunta porque é que não há quem dê catequese aos pais e aos seus filhos com menos de seis anos.
FAMÍLIA CRISTÃ (FC) – Pensa que o conceito de família que a Igreja defende pode estar a mudar?
Mons. Vincenzo Paglia (M.V.P.) –
Não há dúvida que o conceito de família está a mudar. A questão é saber se está a mudar na substância ou nas formas. Na substância, creio que seja indispensável que a família continue a ser aquilo que sempre foi: pai, mãe e filhos. Se depois existem outras formas de convivência, não são certamente uma família, porque a família exige, pela sua natureza própria, a continuidade das gerações. Dou um exemplo: não acredito que em Lisboa, há dois mil anos existissem as mesmas casas de hoje. Hoje, penso que Lisboa tem lindos palácios, extraordinários, mas sempre quatro paredes e um teto. Era assim há dois mil anos, e hoje também. Isto é de tal maneira evidente que significa que, por comparação, não se poderia dizer que duas colunas sejam um palácio... Parece-me um pouco um problema. Toda a tradição jurídica dos nossos antepassados – a grande tradição do Império Romano e depois até a grande tradição laica, que deu origem aos direitos humanos, aos direitos das crianças – diz que a família é realmente pai, mãe, filhos, sobrinhos, primos, que continuam o curso dos séculos.

FC – Apesar dos níveis demográficos baixos, não se fala da necessidade de ter filhos. Porquê?
M.V.P. –
Este é um problema que existe por defeito de cultura. É o medo do futuro. Estamos de tal forma concentrados sobre o presente e sobre a nossa "pequena" felicidade que esquecemos a felicidade da sociedade e também dos nossos filhos. E até da própria Europa. Um antigo provérbio árabe dizia: Um agricultor, quando deita à terra a semente de uma palmeira para que cresça, sabe que os frutos não será ele a comê-los, mas sim o filho ou até o filho do filho. E isto é como se dissesse que a falta de filhos acompanha a falta de esperança e de futuro. Muitas vezes a política não ajuda, porque se vier um filho, logo se começa a temer o problema económico. Se vem um segundo, com a crise, chega a pobreza. Então é difícil que os jovens sejam levados a casarem-se. Em breve não se casarão também porque não há trabalho. Mas isto é culpa da família ou da falta de trabalho? Muitos não se casam porque não têm casa. E quantos não se casam porque não têm um salário suficiente? Neste sentido, a baixa da natalidade é um problema enorme. Quando formos anciãos e não houver jovens, o que é que nos acontecerá?

FC – Muita gente pensa que a falta de crianças é uma das causas do problema económico, porque não há crianças que cresçam para ser adultos e suportar a vida na sociedade...
M.V.P. –
Neste sentido culpo uma falta de cultura solidária, porque hoje cada um pensa somente em si, na própria felicidade, no próprio interesse, no próprio lucro. Perdemos um certo pensar comum, perdemos a beleza do "nós", que na família encontra o primeiro núcleo. É por isso que pôr a família em risco, não é só colocar em crise apenas a família, mas também Lisboa, Portugal, a Europa, é pôr em causa a beleza da vida. Quando a Europa era forte, quando Portugal tinha uma força interior, conquistou o mundo. E agora o que é que conquistámos? Nem quase nós mesmos! Por isso, é indispensável encontrar uma força espiritual ou interior; e isto digo-o antes de mais a nós católicos cristãos. Temos de descobrir a beleza da força do matrimónio. E digo-o até aos leigos; até o digo a quem não crê. Onde vamos acabar, nós os anciãos? Quem nos ajudará? Porque haveremos de ver a velhice como um naufrágio e não como a conclusão de uma vida? Seremos fracos, mas se nos encontrarmos sozinhos, a fraqueza será pior do que a morte. E é por isso que esta terrível práxis hodierna se está a transformar na cultura da eutanásia. Chamam-na precisamente «eu...tanásia», uma boa morte, a de cada um a provocar a si mesmo. Eu penso, caros amigos, que a família é a melhor pérola do mundo. Não a abandonemos!

FC – Pensa que a sociedade corre o risco de desaparecer? Estamos a caminhar para o fim de uma era no mundo?
M.V.P. –
Eu creio que, por exemplo, não há dúvidas que em Itália, para fazer uma pequena comparação, a imigração de estrangeiros igualou a queda de natalidade, e assim há um pouco mais de esperança, por terem vindo estes estrangeiros que têm mais filhos do que os italianos. Mas efetivamente, se uma família não gera mais filhos – é claro que, não somente a família, mas a Nação –, destina-se aos poucos a desaparecer. Não é que este desaparecimento venha de repente. Começa com o desregramento e com a solidão que crescem, e com a procura do bem-estar individual desaparece aquela beleza e também a fadiga de construção do "nós", de nos construirmos em conjunto. É claro que isto custa. Quando uma mãe jovem tem um primeiro filho, é claro que algo sucede de sacrifício. E quando chega o segundo, aparece outro problema que tem a ver com a relação entre os dois, com as invejas. Mas quando um fica doente, imediatamente cresce a sensibilidade de ajudar aquele que está no tapete. E é assim que se constrói a família e a sociedade.

FC – Muitas crianças chegam à catequese sem bases teológicas que a família devia dar. É um problema também da paróquia?
M.V.P. –
Esse problema é um defeito pastoral. Na minha diocese, Termi, através de uma reorganização da Catequese da Iniciação Cristã, o batismo não está desligado dos outros. Porque é que, por exemplo, temos tantos catequistas para a Primeira Comunhão, tantos catequistas para o Crisma, mas porque é que não criámos também catequistas para os pais e para as crianças até aos sete anos? É um problema.

FC – Mas esse não deveria ser o papel da família?
M.V.P. –
Certamente. É o que estou a escrever e estou empenhado em apresentar no Manual de Preparação para Noivos. Aí vou dizer a estas pessoas que o nascimento de um filho deve implicar um acompanhamento durante todo o percurso da adolescência. Dou-lhe um exemplo: Não estou a ver que uma família só seja responsável pela educação até mais ou menos aos sete anos. Porque é que acontece isto na Igreja, que após o batismo, só levamos a criança à igreja depois dos sete anos? Desde a maternidade, deve-se levar para casa para sempre o fazer crescer... até ao Crisma. Como uma criança, logo que nasce, tenta procurar a mãe e reconhecê-la, pelos gestos e pela voz (não porque a entende!), assim todos os nossos filhos devem crescer experimentando o cheiro das velas. Infelizmente, hoje nota-se que é cada vez mais difícil ter as crianças na igreja, porque não estão habituadas.

FC – Os projetos de catequese familiar que surgiram na América Latina e vieram para a Europa são experiências que lhe agradam?
M.V.P. –
Também nisto é importante que na Igreja haja uma troca de experiências. E não duvido, porque eu próprio estive no Rio, onde vi os programas do episcopado brasileiro, que são excelentes sob este ponto de vista. E creio que é até comum a atenção que em certas dioceses se dá neste acompanhamento desde o nascimento, em que temos criancinhas, adolescentes, jovens, todos juntos, a participarem. Diria que a educação é como o amor: não poderá terminar, porque é indispensável.