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29 de outubro de 2015

Cardeal-Patriarca pede «apostolado familiar nas comunidades» e rejeita comunhão aos recasados


D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) afirmou hoje em conferência de imprensa no Patriarcado de Lisboa que é preciso «investir muito mais» do que até agora na formação e preparação para o matrimónio. «Temos de investir muito mais nas áreas da preparação do matrimónio e na nulidade. Se estamos num debate grande e diferenciado em que queremos que a Igreja se assuma como família de famílias, temos de investir muito mais nisto», afirmou aos jornalistas presentes.

Questionado sobre se a CEP irá uniformizar os procedimentos em todo o país com algum documento base, o seu presidente diz que haverá «indicações», mas que a solução não vira das instituições, mas sim das próprias famílias. «A esperança está no apostolado familiar nas comunidades, sujos resultados serão muito melhores que uma intervenção institucional a nível nacional. Elas é que podem fazer esse acompanhamento da melhor forma, com princípios gerais de elucidação e acompanhamento que sirvam de exemplo aos mais novos», referiu o prelado.

Reafirmando que a proposta católica é «para quem deseje aceitá-la», D. Manuel Clemente rejeitou que o documento final do Sínodo tenha trazido grandes mudanças. «O projeto católico é uma das propostas existentes na nossa sociedade. Haverá outras, e os casais poderão escolher, mas a nossa proposta é clara e está bem definida», referiu quando questionado que mudanças poderia haver para os divorciados recasados, uma das áreas mais mediáticas do último Sínodo. «O sacramento não pode contrariar outro sacramento, e se há uma união sacramental, não pode participar na comunhão», defende o presidente da CEP.

Isto não significa, no entanto, que o resto da vida comunitária paroquial e de ministérios esteja negada a estes casais. «Dependendo da sua caminhada e testemunho, podemos questionar, como o fizeram o Papa Francisco e o Papa Bento XVI enquanto eram bispos, se não haverá espaço para estes casais nos diferentes ministérios da paróquia, e porque não até podendo assumir as responsabilidades de padrinhos nos batizados. É preciso analisar a situação de cada um e responder em conformidade», disse.

Considerando que «o critério familiar tem de ser o critério de pastoral» a partir de agora, D. Manuel Clemente a família tem de «ser a base de tudo o que se faz na pastoral». «Se estamos num ambiente em que a problemática familiar se põe desta forma, temos de tirar conclusões práticas para o acompanhamento das famílias», disse, acrescentando que «tudo passa pela colaboração dos leigos com os sacerdotes» em cada comunidade.

Situação política deve resolver-se à luz do bem comum 
No final da conferência de imprensa, D. Manuel aceitou comentar a situação política do país, e retomou o que já tinha dito em entrevista à Família Cristã antes das eleições. «Para os cristãos, que existem em todas as forças políticas do nosso país, e para todos os que se declaram admiradores das palavras do Papa Francisco, pedimos que tomem em conta o que o Papa tem dito, a Doutrina Social da Igreja e a última encíclica papal, que fala da ecologia integral», sustentou.

«Se há pessoas que se dizem católicas, então levem isso até à consequência da sua ação partidária», pediu, relembrando os quatro pilares sobre os quais considera que a política deverá assentar a sua ação. «Há princípios que são nossos e que não abdicamos: o respeito pela vida e dignidade humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade. Na conjugação destas quatro rodas, o carro anda bem», assegurou.

Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna

25 de outubro de 2015

Vaticano é a «casa de todos», diz bispo moçambicano


O arcebispo de Maputo, D. Francisco Chimoio, mostrou-se satisfeito com o desenrolar do Sínodo dos Bispos sobre as famílias e espera que os trabalhos ofereçam força e coragem às famílias católicas. “Queremos ajudar as famílias a ser cada vez mais fortes”, declarou o prelado moçambicano, em declarações à Agência ECCLESIA e Família Cristã, em Roma.

O arcebispo, que participou nos trabalhos da 14ª assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre a família, elogiou as famílias “corajosas” que dão o melhor de si próprias face às dificuldades do seu quotidiano, com “amor, transparência e responsabilidade”. Após o final deste percurso de reflexão, o “grande trabalho” é acompanhar todas as famílias, para as “alertar e fortalecer”. D. Francisco Chimoio deixa críticas à ideologia do género, que “mina as bases da família”, antes de reconhecer que o debate sobre o acesso dos divorciados recasados à Comunhão causou alguma tensão, sublinhando que os bispos nunca “colocaram em questão a doutrina”. “Eu, como bispo, não posso dizer a um cristão ou a uma cristã, sabendo que não está em graça, que vá comungar”, observou.

Para o arcebispo de Maputo é necessário «acompanhar». «Não se pode apontar o dedo a ninguém, não se pode desprezar alguém só porque falhou», mas «acompanhar não é dizer que está tudo bem: é dizer a verdade, porque é esta que salva». O responsável mostrou-se impressionado com a situação em que muitos católicos vivem, por todo o mundo, e diz que também por isso o Sínodo «foi um momento de graça».

Além das perseguições religiosas e do fundamentalismo, muitos cristãos enfrentam os ataques do laicismo, «uma onda que há de passar com o tempo, porque não é possível que as pessoas se sintam felizes longe da presença de Deus». Em Moçambique começam a sentir-se os desafios do «materialismo e do relativismo» potenciados pela globalização, para além dos problemas levantados pelos casamentos de muitas mulheres com muçulmanos e deixam de fazer parte da comunidade cristã. «É um grande desafio que temos», admite D. Francisco Chimoio.

Nos trabalhos da assembleia sinodal, o prelado moçambicano abordou a dimensão «missionária» das famílias, que podem dar um «impulso» à ação da Igreja Católica, a começar pelos próprios filhos, na sua iniciação à fé. O responsável fala do Sínodo como um «encontro de irmãos» e descarta uma «regionalização» da Igreja Católica, evidenciando a centralidade da figura do Papa, «um pastor para todos». «É saudável isto, porque senão não temos unidade. Esta é a casa de todos, o Vaticano é a casa de todos», referiu, sublinhando que os bispos não trabalham «sozinhos».

D. Francisco Chimoio abordou ainda a nova responsabilidade que as dioceses assumem com a criação dos chamados «processos breves» em relação a uma eventual declaração de nulidade matrimonial. «Não vai ser um trabalho simples», admite.

Texto: Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna

24 de outubro de 2015

«Deixámos tudo nas mãos, na cabeça e sobretudo no grande coração do Papa Francisco»


D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa e um dos delegados da Conferência Episcopal Portuguesa, fez, em primeira mão para a Família Cristã e a Agência Ecclesia, um balanço deste Sínodo e do relatório acabado de aprovar. À saída da aula sinodal, o prelado mostrava-se muito «satisfeito» com o resultado dos trabalhos das últimas três semanas e com o consenso que foi possível alcançar na aula sinodal em relação a todos os pontos do relatório final.

Satisfeito com o resultado destas três semanas de trabalho? 
Muito satisfeito. No complemento do que aconteceu o ano passado, os temas foram tratados com mais incidência na missão da família na Igreja e na sociedade, mas com muita serenidade. Eu estive nos dois sínodos e reparei nisso, como a generalidade dos meus colegas também repararam, sobretudo os que tinham estado o ano passado, porque, na primeira vez, alguns dos temas tratados aqui, a este nível, e numa assembleia com o Santo Padre, apareciam de forma meio inusitada, e causavam perplexidade e debates intensos e acalorados, por vezes. Desta vez foi tudo tratado com muita serenidade, quer no plenário, quer nos trabalhos de grupo. As questões já foram vistas com outra naturalidade, e isso deve-se muito à feliz ideia do Santo Padre de não ter querido resolver o assunto numa só assembleia sinodal, mas nestas duas fases. Isto começou com uma consulta ao povo de Deus, depois uma assembleia sinodal, os resultados da primeira assembleia voltaram às dioceses, depois voltaram aqui e foram aprofundados no sentido mais de projeção da realidade da família na sociedade e na igreja... toda esta sequência permitirá agora ao Santo Padre pegar nas reflexões e nos resultados, nas propostas desta assembleia, e ver que tratamento lhe há-de dar. Todos ficamos à espera que, como sucessor de Pedro, nos confirme na fé a nós e às famílias cristãs.

Havia a ideia de que a assembleia estava dividida em muitos assuntos, e que não havia forma de resolver os problemas levantados... 
O burburinho que por aí houve não correspondia ao que se passou na aula sinodal, nem nos trabalhos de grupo, nem nas conversas de corredores, nada... Este foi um exercício de sinodalidade, um caminho que se faz em conjunto, e que o Papa quer que se torne habitual na vida da Igreja a todos os níveis. Ainda agora foram os 50 anos do Sínodo dos Bispos e ele sublinhava muito este aspeto de caminharmos em conjunto nos diversos patamares da vida da Igreja, das famílias às comunidades, aos movimentos, às dioceses, as conferências episcopais, aqui em Roma... este tipo de vivência eclesial, que o Papa exprime como sinodalidade, vai ficar e de certa maneira vai transpor para a Igreja aquilo que é mais espontâneo nas famílias, onde todas as pessoas conversam frequentemente, partilham uma vida muito próxima e comum nas famílias, homens, mulheres, pais e filhos. Que isto se projete também na história da Igreja num exercício conjunto de vida e de procura é o que se espera.

E a Família, como fica, depois deste Sínodo? 
Essa poderia ser a primeira nota a retirar, a família. Como o Papa disse no discurso final, não saímos daqui a dizer e a pensar “família” como quando esta reflexão começou. Com a ajuda das várias famílias aqui presentes, responsáveis de movimentos familiares leigos e leigas, e até um bebé que de vez em quando chorava na aula sinodal e nos lembrava a realidade familiar em todas as suas faces, enfim, com tudo isto, vamos muito mais enriquecidos para as igrejas que servimos nas nossas dioceses com uma reflexão conjunta e que sublinha o papel real da família na Igreja e na sociedade. E com uma consequência prática muito forte: se isto é assim, temos de dar muito mais importância às famílias, à preparação para o matrimónio, ao acompanhamento das famílias cristãs, mesmo aquelas que vivem em rutura, para vermos o que podemos consertar com a ajuda de todos.

E naquelas em que já não é possível consertar nada? 
Naquelas em que já não seja possível recuperar a situação anterior, continuar a considerá-los, como são, nossos irmãos e irmãs, batizados que têm o seu lugar na comunidade cristã. O aspeto muitas vezes frisado de saber se acedem ou não à comunhão sacramental não foi demasiado frisado como foi o ano passado, porque a comunhão eclesial não passa necessariamente por aí, dada a ligação que esse aspeto tem a uma ordem de Cristo aqui citada muitas vezes, que foi «não separe o Homem aquilo que Deus uniu». É preciso ter uma atenção redobrada da parte da Igreja a saber se Deus uniu mesmo, ou seja, se foi válido aquele sacramento, e daí a importância do Motu proprio do Papa no mês passado, que fez com que nós encaremos, nas dioceses, de forma, não digo mais fácil, mas mais simplificada todos esses casos. Porque se realmente a família é assim tão importante, vamos dar-lhe a importância que ela tem, quer na preparação, quer no acompanhamento daqueles que já não vivem a família como a começaram dantes. Para todos uma atenção redobrada, porque o seu papel é indispensável para a Igreja e para a sociedade.

O documento dá indicações claras às igrejas sobre como proceder perante as situações irregulares, e na necessidade do discernimento e de julgar caso a caso. Até onde pode ir essa distinção? Até à comunhão, em alguns casos? 
A comunhão sacramental tem a ver com a validade do vínculo, e saber se houve ou não houve, e a atenção a esse nexo é que fica aqui mais vincada e mais redobrada. Depois o acompanhamento caso a caso, quando o Sínodo falou nisso, é para verificar o que o Papa João Paulo II já disse há 30 anos na Familiaris Consortio. Temos de ter muita atenção porque os casos não são todos iguais, e às vezes uma expressão forte pode encobrir situações muito diversas. É o que estamos a fazer e o que vamos continuar a fazer.

Mas pode chegar a permitir, em casos pontuais, o acesso à comunhão de alguns desses casais, em casos específicos, com um caminho penitencial próprio? 
Está sempre em ligação com o vínculo, de saber se houve ou não houve. Por isso, a atenção mais pessoal a cada caso pode permitir constatar se houve ou não houve vínculo. Muitas vezes constata-se que não houve vínculo matrimonial e abre-se a porta à comunhão.

D. Manuel Clemente e D.Antonino Dias, os dois delegados da Conferência Episcopal Portuguesa ao Sínodo

Do relatório, o que destaca ser mais importante levar para a Igreja em Portugal? 
O novo protagonismo que a família cristã tem de ter na comunidade para depois se projetar na sociedade. A sociedade portuguesa, como a generalidade das cidades do chamado mundo ocidental, é muito individualizada. As pessoas já não vivem naqueles núcleos familiares garantidos e tradicionais, ou por procura de trabalho, ou porque nem as próprias casas permitem que lá vivam famílias grandes ou porque o ambiente não valoriza muito a constituição de famílias numerosas. É preciso reforçar o papel da família na vida da Igreja, para ela ser sinal, testemunho e fermento de um reforço da família na sociedade. As famílias cristãs são famílias da nossa sociedade. Reforçado o seu papel e a consciência do que valem, também depois isso pode e deve transferir-se para a sociedade no sentido de a tornar mais familiar, mais próxima, mais vizinha, mais solidária entre gerações, todos. Isso aprende-se na família e se queremos fazer uma sociedade humana temos de começar por aqui. 

Algumas pessoas temiam um relatório pouco prático, em relação a diversas matérias. Sente que é um relatório que aponta caminhos práticos e concretos, onde o Papa se poderá basear para definir o papel da família na Igreja para os próximos tempos? 
Creio que sim, e foi isso mesmo que pedimos ao Papa. Com estas reflexões vindas dos grupos, que contêm sensibilidades que são distintas, conforme os continentes, as regiões e as culturas, pedimos que nos dê orientações mais concretas e mais práticas. Pediu-nos para refletir a nós e a toda a Igreja, que o fez com todos os milhares de respostas que aqui chegaram, pelo que agora deixámos isto tudo nas mãos, na cabeça e sobretudo no grande coração do Papa Francisco, e esperamos que nos diga como é que vai ser.



Texto e fotos: Ricardo Perna

Papa encerra Sínodo afirmando que Igreja não existe para condenar


O Papa encerrou hoje no Vaticano os trabalhos do Sínodo dos Bispos sobre a família e disse que as últimas três semanas abriram «novos horizontes» na vida da Igreja, que recusam uma linguagem condenatória». «Procuramos abrir os horizontes para superar qualquer hermenêutica conspiratória ou perspetiva fechada, para defender e difundir a liberdade dos filhos de Deus, para transmitir a beleza da Novidade cristã, por vezes coberta pela ferrugem duma linguagem arcaica ou simplesmente incompreensível», declarou Francisco, numa intervenção à porta fechada, posteriormente publicada pela sala de imprensa da Santa Sé.

Perante 265 participantes com direito a voto, entre eles D. Manuel Clemente e D. Antonino Dias, de Portugal, o Papa declarou que «o primeiro dever da Igreja não é aplicar condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus». «A experiência do Sínodo fez-nos compreender melhor também que os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão», precisou.


Francisco apresentou uma reflexão sobre o que deve significar para a Igreja «encerrar este Sínodo dedicado à família», que desde 2013 incluiu questionários às comunidades católicas, uma reunião extraordinária de bispos (2014) e a 14ª assembleia geral ordinária, que se conclui oficialmente este domingo, com a Missa na Basílica de São Pedro.

O fim deste percurso, afirmou o Papa, não significa que se esgotaram todos os temas, mas que estes foram debatidos «à luz do Evangelho, da tradição e da história bimilenária da Igreja», sem «cair na fácil repetição do que é indiscutível ou já se disse», «sem medo e sem esconder a cabeça na areia». «Seguramente não significa que encontrámos soluções exaustivas para todas as dificuldades e dúvidas que desafiam e ameaçam a família», admitiu.

Francisco falou da reunião de bispos e outros representantes das comunidades católicas como uma prova da «vitalidade da Igreja Católica», num «período histórico de desânimo e de crise social, económica, moral e de prevalecente negatividade». «Testemunhámos a todos que o Evangelho continua a ser, para a Igreja, a fonte viva de novidade eterna, contra aqueles que querem “endoutriná-lo” como pedras mortas para as jogar contra os outros», defendeu. O Sínodo desafia a Igreja e a sociedade a compreender a importância da «instituição da família e do Matrimónio entre homem e mulher», fundado sobre «a unidade e a indissolubilidade».

Francisco lamentou que alguns «corações fechados que, frequentemente, se escondem mesmo por detrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções para se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas», e avisou que a Igreja não pertence apenas aos «justos e santos, mas é também pertença dos «pobres em espírito e dos pecadores a espera de perdão».

Noutra passagem do discurso, o Papa critica os que se opuseram à dinâmica sinodal «com métodos não totalmente benévolos», sustentado que esta assembleia nunca quis entrar nas questões dogmáticas, «bem definidas pelo Magistério da Igreja». Após três semanas de encontros com responsáveis de todo o mundo, o pontífice argentino recordou que aquilo que parece «normal» para um bispo de determinado continente pode ser «quase um escândalo» para outro. «O desafio que temos pela frente é sempre o mesmo: anunciar o Evangelho ao homem de hoje, defendendo a família de todos os ataques ideológicos e individualistas», disse ainda, advertindo para os perigos do relativismo ou de «demonizar os outros».

Em conclusão, Francisco sustenta que, para a Igreja, encerrar o Sínodo significa «voltar realmente a “caminhar juntos” para levar a toda a parte do mundo, a cada diocese, a cada comunidade e a cada situação a luz do Evangelho, o abraço da Igreja e o apoio da misericórdia de Deus».

O Sínodo termina amanhã, oficialmente, com a missa presidida pelo Papa na Basílica de S. Pedro.

Texto: Ricardo Perna/Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna

Família: Relatório final propõe prática do «Discernimento» nas comunidades


O cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, disse hoje no Vaticano que o Sínodo dos Bispos sobre a família propõe critérios de «discernimento» sobre situações como as dos divorciados em segunda união. Em conferência de imprensa, o presidente da Conferência Episcopal da Áustria referiu que o relatório final da assembleia, com votação marcada para esta tarde, «dá critérios não só para a questão do acesso aos Sacramentos mas para o acompanhamento de situações que o Catecismo chama irregulares».

 Especificamente sobre os divorciados que voltaram a casar civilmente, os participantes falaram com «com grande atenção», sem tocar a questão do acesso à Comunhão de forma «direta», mas com «a palavra chave discernimento». «Não há preto e branco, sim ou não», acrescentou. Esta apresentação traz «critérios fundamentais» para o «discernimento das situações» que são em muitos casos «tremendamente diferentes», sem as «julgar». «A própria palavra do Papa João Paulo II na Familiaris Consortio, diz que é obrigatório procurar a verdade e pede que os pastores exerçam o discernimento, porque as situações são diversas. Nisto, o Papa Francisco, como bom jesuíta que é, quer que este discernimento permita perceber a situação de cada pessoa», referiu o cardeal.

O cardeal Raymundo Damasceno Assis, presidente-delegado do Sínodo 2015, também confirmou aos jornalistas esta preocupação com o «discernimento», porque «cada situação é muito própria, muito concreta». «A dimensão da ternura e da misericórdia está no documento final. A preocupação é integrar as pessoas na comunidade eclesial, seja qual for a sua situação. Uma atenção muito especial pelas famílias em situações difíceis: migrações, pobreza extrema, a violência familiar, o problema dos meninos de rua, os divorciados recasados e tantas outras situações que encontramos nas famílias no mundo. A igreja quer estar próxima dessas famílias, muito atenta», refere o cardeal, acrescentando que, depois, é preciso discernir sobre as diferentes situações.

«Dentro desta integração, dá-se um processo de discernimento de cada situação, muito própria, muito concreta, para que as famílias possam participar nos mais diferentes âmbitos da paróquia. Isto faz com que possamos acompanhar melhor as situações de cada família, e fazer um discernimento que pode levar a uma comunhão plena com a Igreja», não especificando se esta comunhão plena seria possível de alcançar também pelos que estão divorciados recasados, apesar de os ter incluido no grupo daqueles que deverão ser acolhidos pela Igreja.

Para D. Christoph Schönborn, o essencial deste processo é o «grande sim à família» que foi dado pela Igreja Católica, após ter debatido o tema durante dois anos, «um facto notável para o nosso tempo». «O êxito deste Sínodo para mim é um grande sim à família, que não é um modelo ultrapassado», insistiu. «Toda uma biblioteca de livros foi publicada» sobre a família e a teologia, acrescentou o cardeal.

Para o cardeal austríaco, filho de pais divorciados, «não há rede mais segura, em tempos difíceis, do que a família, mesmo a família ferida, recomposta». Ainda em relação ao relatório final, um «documento de consenso», D. Christoph Schönborn adiantou que não haverá «muito sobre a homossexualidade neste documento», admitindo que «alguns ficarão desiludidos». O tema é «abordado sobre o aspeto da família, em que se faz a experiência de ter um familiar que é homossexual». O arcebispo de Viena realçou que este é um «tema demasiado delicado» para alguns «contextos culturais» e que, para a Igreja, a definição da família é «muito clara», exigindo a relação «homem e mulher», «fiel» e «aberta à vida». Esta definição não exclui «situações de recomposição familiar», mas permanece sempre como o «núcleo» do ensinamento católico.

O cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida (Brasil), elogiou a metodologia «diferente» desta assembleia sinodal, em que se deu muita importância aos trabalhos de grupo, com participação «muito maior» de todos, ajudando a encontrar o maior consenso possível. O mesmo responsável precisou, por outro lado, que a «descentralização» na experiência da vida da Igreja, sobretudo na América Latina, não significou, de forma alguma, «nacionalizar ou continentalizar» a Igreja Católica.


O Cardeal Schönborn concordou. «A nova metodologia é uma das grandes novidades deste sínodo. Sentimo-nos bem no final, em grande parte graças à nova metodologia, porque permite a todos exprimirem-se com calma. Nestes 50 anos de sínodo, é um verdadeiro progresso», concluiu.

A votação do documento final será esta tarde, após a qual o Papa Francisco irá concluir os trabalhos com uma mensagem.


Texto: Ricardo Perna/Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna

22 de outubro de 2015

Relatório final do Sínodo vai ser apresentado hoje aos participantes


O relatório final do Sínodo dos Bispos sobre a família está pronto e vai começar hoje a ser debatido pela assembleia, anunciou o cardeal Oswald Gracias, um dos responsáveis pela elaboração do texto. «Estou muito confiante, tenho uma ideia muito clara de que temos – há muitas opiniões – fazer um texto que expresse as preocupações de todos e dê orientações pastorais que sejam aceitáveis para todos», disse o presidente da Federação das Conferências Episcopais Asiáticas e arcebispo de Bombaim (Índia), em conferência de imprensa.

O responsável revelou que a comissão responsável pelo relatório, com dez elementos, recebeu uma visita breve do Papa, para «agradecer pelo trabalho», encorajar os participantes e fazer uma referência à «importância da família e da Bíblia». «A doutrina, naturalmente, não será mudada», sustentou o cardeal Gracias, após revelar que existiram 700 a 800 propostas de alterações dos grupos de trabalho, em cinco línguas, e o prelado foi avisando que o relatório final não deverá conter questões muito específicas, antes dar «indicações gerais» sobre os caminhos a seguir. «Acho que ainda não encontrámos soluções... mas pelo menos já começámos a falar dos problemas», disse o cardeal.

Apesar dos relatórios intermédios terem citado a Familiaris Consortio, o documento de 1984 elaborado por João Paulo II sobre a família, D. Oswald Gracias (na foto) considera que os 30 anos que separam o documento da atualidade levantam «novos desafios» que é preciso enfrentar. «O mundo mudou, os desafios são novos. Não esperamos que o texto seja o mesmo de há 30 anos, mas acho que será referido o documento. A ideia do Sínodo é como enfrentamos os problemas de hoje, mantendo a doutrina e a fé», afirmou.
O esforço de organização e redação do relatório final ultrapassou o tempo estabelecido, pelo que foi preciso acrescentar uma manhã de trabalho sobre as emendas. O texto, que é apresentado esta tarde aos participantes, procurou captar «qual era o sentido da assembleia», para tentar apresentar uma visão «equilibrada», sem querer propor «todas as respostas». «Este Sínodo não está a fazer doutrina, mas procura uma aproximação pastoral», com um discurso mais geral, acrescentou o cardeal indiano. 

Para já, o relatório final tem menos de 100 parágrafos que os participantes vão discutir também na manhã de sexta-feira, antes de serem votados um a um numa votação global do texto, este sábado. «Ainda estamos no caminho da busca», acrescentou o responsável. Segundo D. Oswald Gracias, o Sínodo tem debatido a necessidade de «descentralização», para enfrentar temas específicos, situações particulares, embora a Igreja «seja una». «As conferências episcopais podem estudar as questões» para encontrar «soluções pastorais», precisou.

O encontro com os jornalistas contou ainda com a presença de D. José H. Gómez, arcebispo de Los Angeles (EUA), o qual admitiu que gostaria de ver mais desenvolvidos temas como «imigração», a «educação» ou a situação dos «indocumentados». Para o prelado, há necessidade de aprofundar as propostas de «espiritualidade», para que o Sínodo ajude as famílias a encontrar novas maneiras de serem «membros ativos da Igreja».

D. Soane Patita Paini Mafi, de Tonga, o mais jovem membro do Colégio Cardinalício, falou dos desafios que se colocam aos «valores tradicionais familiares» face um período de transição, de globalização, com os desafios do «individualismo» e das «migrações».


Texto: Ricardo Perna (com Octávio Carmo, Agência Ecclesia)
Fotos: Ricardo Perna

14 de outubro de 2015

Um Sínodo de mudança na forma, não no conteúdo

Enquanto jornalista, tenho vindo a acompanhar os trabalhos do Sínodo com afinco, no sentido de os noticiar e dar a conhecer a todos. Como cristão, fico sempre muito espantado com a alegada divisão interna de que o Sínodo padece. Cartas ao Papa, teoria da conspiração, lóbis, de tudo já se falou cá fora e lá dentro. Ninguém sabe bem no que isto vai resultar, até porque agora são os próprios bispos que já pedem um novo sínodo, que estas três semanas não vão chegar para tudo.

No meio de toda a confusão mediática que alguns órgãos, jornalistas e participantes no Sínodo procuram criar, é possível encontrar já frutos do que tem sido a discussão sinodal, que é afinal o que interessa ao Papa e a todos os que seguem o evento com atenção. Desde logo, a comunicação e a linguagem. A Igreja está verdadeiramente preocupada com a forma como recebe e acolhe as pessoas. A linguagem é uma preocupação que vai estar nas prioridades da Igreja, assim como a preparação para o matrimónio.

Depois de, no último Sínodo, os padres sinodais terem falado de uma melhor preparação, mas sem aumentar o tempo ou o peso, agora o discurso mudou e já se fala na necessidade de uma formação maior no tempo, que permita uma ligação à comunidade, e a urgência de um acompanhamento pós-matrimónio, na comunidade, para ajudar a que não surjam tantas ruturas.

Os participantes no Sínodo valorizaram ainda o heroísmo da experiência familiar, e criticaram a visão demasiado ocidentalizada da realidade familiar, pedindo que se abra espaço para uma visão mais global da família.

 Não sabemos se este Sínodo será suficiente para o Papa, ou se haverá mais sessões sinodais, ou outras formas de aprofundamento destas matérias. Mas o que parece claro é que o Espírito atua já sobre a aula sinodal. É certo que virão mudanças, no sentido da Igreja poder chegar mais perto de quem precisa da sua misericórdia, da sua atenção, do seu carinho. Quais serão, só o Papa saberá.

A nós, resta-nos acompanhar os trabalhos com a certeza de que a Igreja não está parada, está viva e desejosa de, como há dois mil anos, apresentar a sua Boa Nova a todos os povos, mesmo que isso signifique abanar as fundações e fortalecer os princípios.

Texto: Ricardo Perna

4 de outubro de 2015

Papa inicia Sínodo reforçando «indissolubilidade» do matrimónio e apelando ao acolhimento de todos


Missa inaugural da assembleia de Bispos apresentou «verdade» e «caridade» como chaves para o debate sobre as famílias, sem «apontar o dedo» a quem errou 

O Papa inaugurou hoje a nova assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a família com uma homilia em que apresentou “verdade” e “caridade” como chaves do debate de três semanas. “Neste contexto social e matrimonial bastante difícil, a Igreja é chamada a viver a sua missão na fidelidade, na verdade e na caridade”, declarou, na Missa a que presidiu na Basílica de São Pedro, no Vaticano. Francisco desafiou por isso a Igreja a propor “o significado autêntico do casal e da sexualidade humana no projeto de Deus”, num “amor conjugal único e usque ad mortem” (até à morte). “Paradoxalmente, também o homem de hoje – que muitas vezes ridiculariza este desígnio – continua atraído e fascinado por todo o amor autêntico, por todo o amor sólido, por todo o amor fecundo, por todo o amor fiel e perpétuo”, prosseguiu.

Esta verdade, acrescentou o pontífice argentino, “não se altera segundo as modas passageiras ou as opiniões dominantes”. “Parece que as sociedades mais avançadas são precisamente aquelas que têm a taxa mais baixa de natalidade e a altas percentagens de abortos, de divórcios, de suicídios e de poluição ambiental e social”, advertiu. A intervenção multiplicou apelos à defesa do “amor fiel”, da “sacralidade da vida” e da “unidade e indissolubilidade do vínculo conjugal”, citando a este respeito os seus diretos predecessores, São João Paulo II e Bento XVI.

O Papa acrescentou que este compromisso de uma Igreja que “ensina e defende os valores fundamentais” é assumido sem “apontar o dedo para julgar os outros”, mas no esforço de “procurar e cuidar dos casais feridos com o óleo da aceitação e da misericórdia”. “Uma Igreja que educa para o amor autêntico, capaz de tirar da solidão, sem esquecer a sua missão de bom samaritano da humanidade ferida”, precisou.

Francisco falou do Sínodo como um “acontecimento de graça” para a Igreja, começando a sua intervenção a partir de três questões: “o drama da solidão, o amor entre homem-mulher e a família”. A este respeito, recordou os efeitos da solidão, entre outros, sobre os que foram abandonados pelo seu marido ou a sua mulher, bem como sobre os migrantes e refugiados ou os jovens vítimas da “cultura do consumismo”. Segundo o Papa, há cada vez “menos seriedade em levar por diante uma relação sólida e fecunda de amor: na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na boa e na má sorte”. “O objetivo da vida conjugal não é apenas viver juntos para sempre, mas amar-se para sempre. Jesus restabelece assim a ordem originária e originadora”, precisou.

A celebração reuniu cardeais, patriarcas, arcebispos, bispos e padres membros da 14ª assembleia geral ordinária do Sínodo, sobre o tema ‘A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”, que decorre até 25 de outubro. A Conferência Episcopal Portuguesa tem como delegados D. Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa, e D. Antonino Dias, bispo de Portalegre-Castelo Branco.

Texto: Agência Ecclesia

30 de setembro de 2015

«A família é pouco eclesial e as comunidades paroquiais pouco familiares»


O presidente do Conselho Pontifício para a Família, D. Vincenzo Paglia, acha que as comunidades fazem pouco para receber as famílias e as famílias pouco se interessam em se integrar na vida das comunidades paroquiais. Usando como exemplo o Evangelho de Lucas, o prelado explica que a melhor forma de levar a misericórdia aos outros é através da família. Tudo no seu novo livro "Uma casa rica de misericórdia", editado pela PAULUS Editora.


O que o levou a relacionar o Evangelho de Lucas com a Família e a Misericórdia?
Como sabe, o Evangelho de S. Lucas é chamado o Evangelho da Misericórdia pelas muitas passagens que mostram precisamente o amor visceral, misericordioso, apaixonado de Deus pelas suas criaturas. Emblemático de tudo isto é aquela parte das famosas três parábolas, precisamente da misericórdia, a que depois se segue a do bom samaritano. Neste contexto, a família inscreve-se num modo extraordinariamente eficaz, seja porque S. Lucas é o único evangelista que apresenta nos dois capítulos do Evangelho da infância de Jesus a família de Nazaré, mas também porque nas páginas de Lucas muitas vezes se fala de Jesus, embora também isto suceda nos outros evangelhos, como membro de uma família. Um exemplo, que vale para tudo, é a relação tão relevante e afetuosa de Jesus com a família de Lázaro, de Marta e de Maria. Por esta razão, pareceu-me bem que o Sínodo da Família, que de algum modo abre o Ano da Misericórdia, pudesse encontrar, precisamente, neste pequeno instrumento do Evangelho de S. Lucas comentado, uma oportunidade para todas as nossas famílias. Porque a misericórdia certamente faz parte essencial da vida, não só da família cristã, mas espero que de todas as famílias humanas.

A família é a base de toda a educação, incluindo a religiosa. É por isso que é tão necessário que a família se mantenha estruturada? 
Ninguém duvidará de que hoje a crise na qual a família se sente se encontra ligada também a uma aceleração de uma cultura secularizada que se afasta da fé. Numa humanidade em que a família se priva da dimensão religiosa, a família cansa-se de viver. E de certa forma encontra ainda maiores dificuldades na educação. É por isso que o Evangelho de S. Lucas, perspetivando a escolha que o próprio Deus fez para educar o seu Filho, teve necessidade da família: de uma mãe como Maria, e de um pai, ainda que putativo, como S. José. E foi extraordinariamente eficaz a síntese que S. Lucas faz a dada altura quando escreve: «Jesus crescia em sabedoria, idade e graça» (Lc 2,52;40). Uma vida como esta que não era, como se disséssemos, uma decoração. Na família de Nazaré realizaram-se muitas das nossas tensões contemporâneas; como por exemplo, a relação entre Maria e S. José no início. Pensemos na fuga para o Egito. Jesus, Maria e S. José tornam-se emigrantes. E depois, pensemos na relação entre pais e Filho na perda e encontro no Templo. Por fim, uma situação de luto quando Maria está sob a Cruz; e por aí adiante. Em suma, a família é realmente o lugar de provação radical bem ativa. E lá onde isto não acontece, aí nós temos que nos encontrar a recolher as tragédias que não tiveram este processo educativo desde a infância.

Muitos pais mandam os filhos à catequese ou à eucaristia, mas ficam em casa. Qual a importância do exemplo dos pais na educação religiosa dos filhos? 
Este é um dos pontos mais importantes da vida da igreja de hoje, em minha opinião. Existe como que uma separação entre a família e a comunidade cristã. Uma fossa, que permanece quando se enviam os filhos para a paróquia. Porquê? A família é pouco eclesial e as comunidades paroquiais pouco familiares. Pelo que, uma torna-se uma espécie de recinto fechado, e a outra torna-se uma realidade funcional, exterior. Neste sentido, ouso brincar um bocadinho afirmando que, neste sentido, é indispensável que os pais levem para a comunidade os seus filhos, desde a idade do berço. Sem esta dimensão, não é possível a evangelização. A brincadeira que me vem à ideia é esta: como o filho entra como membro da família, através do aleitamento, o amor da mãe, a voz do pai e o desvelo dos avós, a evangelização torna-se possível através do odor das velas, o cheiro do incenso, a visão dos que atuam à volta do altar. Se depois é verdade que os primeiros três anos são os que constroem o âmago duma personalidade, compreende-se que de nada vale esconder uma criança desde que nasceu e apenas levá-la aos sete anos para a paróquia para a primeira Comunhão. Temos que recriar intimidade entre família e paróquia. A nós ambas nos servem.

Pede que as famílias leiam juntas o Evangelho de Lucas. Como podem elas arranjar tempo, na sociedade de hoje? 
É o desafio de «rezar sempre», como dizia Jesus. Se vivemos numa sociedade em que a pressa e o caos são de casa, «rezar sempre sem nunca nos cansarmos» significa rezar pelo menos cinco minutos por dia, juntos em família. Neste sentido, o Evangelho de S. Lucas que publicámos, nas edições Paulus em várias línguas, é um instrumento para o que chamarei a lectio divina popular ou familiar. Quando eu era bispo de Terni, uma senhora contou-me, quando então distribuía estes evangelhos nas minhas visitas às famílias da diocese, a sua alegria porque todas as noites antes da ceia liam em família um ou dois versículos do Evangelho com um comentário muito breve. E esta é uma maneira de fazer as famílias discípulas de Jesus. Em suma, aquela Maria, irmã de Marta, ensina-nos que estes cinco minutos poderão ser a «melhor parte» (Lc 10,42) dos nossos dias.


Neste ano da Misericórdia, como podem as famílias exercer essa misericórdia entre elas? 
Eu penso que este Ano de Misericórdia é um pouco como Jesus: anunciou em Nazaré um ano de graça, durante o qual a dimensão do dom, da gratuidade, deve aparecer de muitos modos nas famílias. O Papa Francisco deu-nos aquelas famosas três palavras: desculpa, por favor, obrigado! São três palavras que podem declinar-se durante o Ano da Misericórdia, ou melhor dizendo, a jornada de um Ano de Misericórdia. Claro, tudo isto se deve passar na paróquia, mas também tomá-lo como hábito de vida, na vida ordinária, no trabalho, no mercado, na rua, em todo o lado. Na verdade, trata-se de transformar a vida não apenas vivendo melhor, mas até conduzindo-a mais graciosamente. A gratuidade falta-nos muito nas nossas relações. Tudo se faz como se fosse um comércio: dou-te para que me dês; quanto custa; quanto devo gastar... Precisamos de mais atitudes graciosas, de algo mais de «grátis» nas nossas relações. E a Misericórdia entra nisto, porque Deus opera sempre graciosamente em favor de todos, especialmente em favor dos mais necessitados.

18 de novembro de 2014

Papa convida a defender família perante ameaças contemporâneas

O Papa Francisco recebeu hoje no Vaticano os bispos católicos da Zâmbia, perante os quais deixou um alerta para os «grandes desafios» que ameaçam a vida social e eclesial, em particular para as famílias. «Quando as famílias estão em perigo, então a vida da fé também está em risco. Como vós próprios relatastes, muitos - especialmente os pobres na sua luta pela sobrevivência - são enganados por promessas vazias em falsos ensinamentos que parecem oferecer alívio rápido em tempos de desespero», assinalou, num discurso entregue aos membros da conferência episcopal do país africano.
A intervenção desafiou os bispos a não se esquecerem de ir ao encontro dos membros mais desfavorecidos da sociedade, entre os quais estão os pobres e os que sofrem com o HIV/SIDA. «A grande maioria dos pobres tem uma abertura especial para a fé, precisam de Deus e devemos oferecer-lhes a sua amizade, a sua bênção, a sua palavra, a celebração dos sacramentos e um caminho de crescimento e maturidade na fé», sustentou.

O Papa convidou os bispos a serem sempre solícitos na defesa do "santuário da vida" que é a família, célula fundamental da sociedade e da Igreja. Francisco encorajou ainda os responsáveis eclesiais a estarem perto dos jovens, para ajudá-los a encontrar os seus objetivos, na vocação à vida matrimonial ou na vocação celibatária à vida sacerdotal ou consagrada.

Em conclusão, o Papa falou da «necessidade imperiosa» de evangelizar as culturas para inculturar o Evangelho. «Apesar do encontro, por vezes doloroso, de formas antigas com a nova esperança que Cristo traz a todas as culturas, a palavra da fé criou raízes profundas, multiplicando-se cem vezes mais, e uma nova sociedade zambiana transformada pelos valores cristãos emergiu», observou.

Texto: Agência Ecclesia
Foto: D.R.

17 de novembro de 2014

Papa confirmou participação no Encontro Mundial das Famílias e rejeita família «ideológica»

O Papa Francisco disse hoje no Vaticano que a Igreja Católica rejeita uma família construída com base em ideologias que ignoram a «complementaridade» de um pai e de uma mãe na educação dos filhos. «As crianças têm o direito de crescer numa família, com um pai e uma mãe, capazes de criar um ambiente idóneo para o seu desenvolvimento e o seu amadurecimento afetivo», declarou, perante os participantes num colóquio inter-religioso sobre a complementaridade homem-mulher, promovido pela Congregação para a Doutrina da Fé (Santa Sé), noticia a Agência Ecclesia.

Francisco aproveitou esta ocasião para confirmar a participação no 8.º Encontro Mundial das Famílias que vai decorrer em setembro de 2015, na cidade norte-americana de Filadélfia. A intervenção alertou para a «armadilha» de se qualificar a família a partir de conceitos de natureza ideológica, com um valor limitado do ponto de vista histórico e antropológico.
«Não se pode falar hoje de família conservadora ou de família progressista: a família é família. Não a deixemos qualificar assim com este ou outros conceitos, de natureza ideológica. A Família é por si mesma, tem uma força própria», precisou o Papa.

Francisco elogiou a escolha do tema da «complementaridade» para este colóquio internacional, considerando que o conceito está «na base do matrimónio e da família». Neste contexto, o Papa alertou para a «crise» provocado por uma «cultura do provisório», que leva cada vez mais pessoas a evitarem o compromisso do casamento. «Esta revolução dos costumes e da moral içou, por muitas vezes, a bandeira da ‘liberdade’, mas na verdade trouxe devastação espiritual e material a muitíssimos seres humanos, especialmente aos mais vulneráveis», lamentou.

Francisco disse ser claro que o declínio da cultura do matrimónio está associado a uma série de problemas sociais, que atingem em particular as crianças e os idosos, sublinhando que «a família continua a ser o fundamento da convivência e a garantia contra a desintegração social».
«O compromisso definitivo para a solidariedade, a fidelidade e o amor fecundo responde aos anseios mais profundos do coração humano», referiu.

O Papa concluiu com votos de que este encontro possa servir como inspiração para «todos os que procuram apoiar e reforçar a união do homem e da mulher no matrimónio como um bem único, natural, fundamental e belo para as pessoas, as famílias, as comunidades e a sociedade».

21 de outubro de 2014

Patriarca diz que Sínodo «marca nova fase de vida na Igreja»


O Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, considera que a «metodologia» utilizada por Francisco neste Sínodo dos Bispos vai «marcar uma nova fase na vida da Igreja». O Patriarca de Lisboa falou hoje em conferência de imprensa sobre os dias que passou no Vaticano, em representação da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), e fez uma avaliação muito positiva. «O que o Papa inaugurou foi uma forma de exercer a colegialidade constante, e está a criar uma nova forma de viver a Igreja. Tudo se falou com a maior franqueza, com muito ímpeto», considerou D. Manuel Clemente, que sublinhou o «ineditismo» desta reflexão sinodal. «Nestas duas semanas o ponto mais salientado foi a bondade, a importância e a conveniência da proposta cristã sobre a família quando ela é realmente vivida e devidamente proporcionada, e o contraponto foram as realidades que hoje se apresentam e que não podemos esconder, colocando a cabeça na areia», sustentou.

Sobre esses desafios, o Patriarca de Lisboa destacou «a fragilidade dos vínculos familiares, dos vínculos duradouros, as uniões de facto, no campo interno da Igreja as famílias que foram reconstituídas civilmente mas não sacramentalmente e o problema das pessoas com tendências homossexuais». Estes e outros aspetos apareceram com propostas concretas no polémico relatório preliminar, feito no final da primeira semana de congregações gerais, que originou muitas reações negativas, em virtude do mediatismo que atingiu. «Este impacto provocou um certo recuo nos círculos menores, que transpareceu nos trabalhos de grupo. As afirmações mais polémicas foram muito mitigadas, e nos trabalhos de grupo começaram a surgir algumas questões sobre como colocar estas questões para o futuro, e julgo que a reconsideração disto em termos de prós e contras levou a que nas votações da mensagem e do Relatio Synodi esses pontos não tivessem tantos pontos a favor», disse o Patriarca, que acrescentou que a reação de «defesa» foi «legítima». «O relevo desses pontos polémicos era excessivo em relação ao que eu tinha ouvido nas congregações gerais. Os padres sinodais não se sentiram refletidos no conjunto desses dois artigos, não tanto pelo conteúdo dos mesmos, mas pela mediatização que tiveram», disse aos jornalistas.

O facto de não terem sido aprovados alguns pontos com a maioria de 2/3 necessária não incomoda o Patriarca, que se mostrou satisfeito pelo facto de terem surgido no relatório final. «O facto de se terem mantido é muito positivo. Entre o que estava no relatório preliminar e a vontade dos círculos menores em retirá-los por completo, ganhou o equilíbrio de nem omitir as propostas, nem dizer que eram a vontade do Sínodo», afirmou o presidente da CEP.

Questionado sobre este Sínodo teria sido uma forma do Papa Francisco «apalpar terreno» a eventuais mudanças na Igreja, D. Manuel Clemente afirmou que desconhecia essa intenção. «Se o Papa Francisco quis apenas testar o impacto das propostas, ganhou. O aplauso no final do discurso do Papa foi sinal do apoio que o Papa tem em todo o episcopado mundial», considerou o prelado.

Assumindo que a doutrina da Igreja não deve mudar no final deste caminho sinodal, D. Manuel Clemente sempre vai avisando que «a verdade objetiva» da doutrina «é captada pela relatividade do ser humano», pelo que é importante perceber que se podem refletir todas as questões. «Também há 50 anos atrás se achava que o problema da liberdade religiosa não teria solução, e foi possível encontrá-la», lembrou.

Sobre a necessidade de preparação para o matrimónio, o Patriarca descartou uma preparação imediata mais longa no imediato, e prefere um plano mais alargado no tempo que, segundo o próprio, conduzirá a esse aumento da exigência. «Tem de ser a comunidade a tornar natural essa maior exigência na preparação para o matrimónio. Para isso, é preciso uma centralidade reforçada da dimensão familiar nas comunidades cristãs», disse o prelado.

Sobre a formação do clero e a contribuição das famílias, outra das propostas lançadas durante o Sínodo, D. Manuel Clemente afirmou que «a ligação do clero com a igreja doméstica está presente desde o início do Cristianismo, e foi mais longe na proposta dos bispos. «Faz sentido que as famílias possam dar formação aos seminaristas e também ao próprio clero na sua formação contínua», concluiu.