Mostrar mensagens com a etiqueta Matrimónio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Matrimónio. Mostrar todas as mensagens

4 de outubro de 2015

Papa inicia Sínodo reforçando «indissolubilidade» do matrimónio e apelando ao acolhimento de todos


Missa inaugural da assembleia de Bispos apresentou «verdade» e «caridade» como chaves para o debate sobre as famílias, sem «apontar o dedo» a quem errou 

O Papa inaugurou hoje a nova assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a família com uma homilia em que apresentou “verdade” e “caridade” como chaves do debate de três semanas. “Neste contexto social e matrimonial bastante difícil, a Igreja é chamada a viver a sua missão na fidelidade, na verdade e na caridade”, declarou, na Missa a que presidiu na Basílica de São Pedro, no Vaticano. Francisco desafiou por isso a Igreja a propor “o significado autêntico do casal e da sexualidade humana no projeto de Deus”, num “amor conjugal único e usque ad mortem” (até à morte). “Paradoxalmente, também o homem de hoje – que muitas vezes ridiculariza este desígnio – continua atraído e fascinado por todo o amor autêntico, por todo o amor sólido, por todo o amor fecundo, por todo o amor fiel e perpétuo”, prosseguiu.

Esta verdade, acrescentou o pontífice argentino, “não se altera segundo as modas passageiras ou as opiniões dominantes”. “Parece que as sociedades mais avançadas são precisamente aquelas que têm a taxa mais baixa de natalidade e a altas percentagens de abortos, de divórcios, de suicídios e de poluição ambiental e social”, advertiu. A intervenção multiplicou apelos à defesa do “amor fiel”, da “sacralidade da vida” e da “unidade e indissolubilidade do vínculo conjugal”, citando a este respeito os seus diretos predecessores, São João Paulo II e Bento XVI.

O Papa acrescentou que este compromisso de uma Igreja que “ensina e defende os valores fundamentais” é assumido sem “apontar o dedo para julgar os outros”, mas no esforço de “procurar e cuidar dos casais feridos com o óleo da aceitação e da misericórdia”. “Uma Igreja que educa para o amor autêntico, capaz de tirar da solidão, sem esquecer a sua missão de bom samaritano da humanidade ferida”, precisou.

Francisco falou do Sínodo como um “acontecimento de graça” para a Igreja, começando a sua intervenção a partir de três questões: “o drama da solidão, o amor entre homem-mulher e a família”. A este respeito, recordou os efeitos da solidão, entre outros, sobre os que foram abandonados pelo seu marido ou a sua mulher, bem como sobre os migrantes e refugiados ou os jovens vítimas da “cultura do consumismo”. Segundo o Papa, há cada vez “menos seriedade em levar por diante uma relação sólida e fecunda de amor: na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na boa e na má sorte”. “O objetivo da vida conjugal não é apenas viver juntos para sempre, mas amar-se para sempre. Jesus restabelece assim a ordem originária e originadora”, precisou.

A celebração reuniu cardeais, patriarcas, arcebispos, bispos e padres membros da 14ª assembleia geral ordinária do Sínodo, sobre o tema ‘A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”, que decorre até 25 de outubro. A Conferência Episcopal Portuguesa tem como delegados D. Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa, e D. Antonino Dias, bispo de Portalegre-Castelo Branco.

Texto: Agência Ecclesia

30 de setembro de 2015

Segundas uniões são «um assunto que precisa de ser estudado à luz dessa [dos dias de hoje] realidade»


D. Joseph Coutts, presidente da Conferência Episcopal do Paquistão, esteve no primeiro Sínodo, o ano passado, mas não estará neste, em virtude terem escolhido outros participantes para enviar como representantes do seu país, na vontade de «dar lugar a bispos mais novos», referiu o prelado. Mas isso não o impede de ter a sua opinião sobre alguns dos assuntos que vão estar em cima da mesa no Sínodo que se inicia no próximo dia 4.


Quais são os assuntos mais importantes que o Paquistão quer levar ao Sínodo de outubro?
A coisa boa é que o processo todo dos sínodos permite a participação de todos os países. Assim, se as nossas questões não forem abordadas, o problema não está no sínodo, está connosco, a falha será nossa. Divórcio e recasamento é um problema para nós, mas de uma forma diferente da Europa. Num país como o Paquistão, onde a taxa de literacia é pouco acima de 50%, os cristãos estão organizados, mas aparecem sempre uma série de pastores evangelistas que criam igrejas próprias com nomes muito bonitos, e isso confunde os cristãos que não têm formação.
Depois, o nosso governo reconhece o casamento religioso como válido, não é preciso casamento civil. Portanto, se um cristão quiser deixar a sua mulher, é possível que possam mudar-se apenas de cidade, pagar algum dinheiro a um destes pastores, que celebra o casamento sem saber que outro casamento já existe, e tudo fica legalizado. Sei que aqui isso não acontece, mas para nós é algo que sucede muito.

E, na sua opinião, as segundas uniões não são possíveis dentro da Igreja Católica? 
O processo, mesmo que o casamento tenha falhado e haja bom motivo para o anular, é tão longo que se encontram atalhos. Isto é uma teologia que ainda não desenvolvemos. Nós pomos as coisas do casamento num pedestal ideal que exige fidelidade até ao fim, e nem sempre é possível ao ser humano viver segundo esse ideal para sempre. O mesmo acontece no celibato dos sacerdotes. Mas aí é possível pedir dispensa do celibato, mas é mais difícil conseguir a anulação de um casamento. Há outras igrejas cristãs, como os ortodoxos, que têm outras práticas, pelo que penso que é um assunto que precisa de ser estudado à luz dessa realidade. Entretanto, o ponto que o Papa fala é o da misericórdia. Cristo representa o amor e a misericórdia de Deus, não apenas o cumprimento de leis que temos de obedecer.

As pessoas precisam de uma aproximação mais misericordiosa? 
Sim, precisam. Mas como vamos fazê-lo, sem tornar isto uma regra? É por isso que o Sínodo será muito duro. No final, espero que estas questões tenham resposta, embora saiba que não será fácil. Até porque estas questões vão levantar alguma fricção, como fez Jesus no seu tempo, quando perdoou as pessoas ou se sentou com pecadores.

Alguns dos participantes queixaram-se que as suas necessidades foram deixadas de lado no Sínodo ou na comunicação social, pelo menos.
Acho que isso aconteceu, de alguma forma. Mas os problemas do Mundo Ocidental são muito diferentes dos nossos. A poligamia em África é um deles. Podem ter uma família grande, que vive feliz numa grande casa, e depois temos de dizer ao chefe tribal que quer ser batizado que ele tem de mandar para casa 3 das 4 mulheres que tem. De acordo com a cultura deles, isso não era problema, e agora temos de dividir a família, e isso abriu-nos os olhos. Nos países asiáticos e em alguns africanos há a ideia de que a homossexualidade e o casamento é algo que não pode existir. Não é comum para nós, mas isso é diferente de aceitar pessoas que são homossexuais. Mas usar o termo casamento para nós também não é aceitável de todo.

Teme algum Cisma na Igreja por causa disto? 
Não creio. Depois do Vaticano II, as mudanças começaram a chegar e nós tínhamos um cardeal cuja lema era “sem mudança”, mas mesmo ele acabou por ir mudando. Haverá tensões, mas não vejo em que possa resultar dali uma divisão séria.
Temos de estudar bem os assuntos e saber bem o que queremos, porque não podemos dar a impressão de que estamos simplesmente a deitar à rua tradições que estão aqui há milhares de anos, mas sim olhar para elas sob uma nova luz, uma luz mais abrangente e, se essa luz sugerir mudanças, então elas devem ser feitas.

11 de outubro de 2014

«É necessária uma maior preparação para o Matrimónio»


Diante do alto número de divorciados, é necessária uma preparação maior, personalizada e também severa para o matrimónio, sem medo de ver, eventualmente, uma diminuição no número de casamentos celebrados na Igreja. Este foi um dos aspectos salientados nos trabalhos do Sínodo Extraordinário sobre a Família em andamento no Vaticano. A Rádio Vaticano conversou sobre este tema com o Presidente da Prefeitura dos Assuntos Econômicos da Santa Sé, Cardeal Giuseppe Versaldi:
 
Card. Versaldi: Os problemas existem, e são resolvidos os que dizem respeito às pessoas em dificuldade após o matrimónio, mas eu quis insistir no facto de que é necessário prevenir as dificuldades e sobretudo os sofrimentos das pessoas, tendo portanto, uma maior atenção à preparação do matrimónio. No Ano da Fé, o Papa disse-nos que a fé – também entre os batizados – não pode mais ser pressuposta e, portanto, é necessário realizar um caminho também doutrinal. Eu insisti sobre o acompanhamento pessoal dos casais, em maneira tal que, não por meio de instrumentos jurídicos, mas através de um acompanhamento pastoral e espiritual, se verifique verdadeiramente se a intenção dos esposos é a de serem introduzidos não ao casamento, mas ao Sacramento do Matrimónio, de modo que depois possam gerir as dificuldades na vida matrimonial. Fracassos existirão sempre, mas assim colocamos uma barreira não para impedir o matrimónio, mas para o tornar não só válido, mas também frutuoso. É melhor ser um pouco mais exigente antes, mesmo que diminuam um pouco as celebrações de casamento, mas que sejam pessoas convencidas de encontrar Cristo e não somente de fazer a cerimónia.
 
Para evitar justamente quem se casa como uma etapa social, concentrada mais na cerimônia e no dia do matrimónio. Depois, quando chegam os problemas, encontram-se despreparados...
Supondo este automatismo entre o fato de que alguém é batizado – e portanto se supõe que tenha a fé – e o Matrimónio, que é outro Sacramento. Certo, o Batismo introduz na salvação, porém é um encontro com Cristo e quem se casa, ao invés disto, acreditando não ter necessidade de Cristo - mas somente porque é uma tradição ou até mesmo um ato folclórico -, se casa validamente, mas depois não consegue administrar a fadiga do matrimónio e então pede a nulidade. O paradoxo então é que a Igreja é generosa no início, admitindo a todos, e depois é severa deixando-os com os seus pesos. Isto não está certo!

Seria necessário, então, ter a coragem de dizer “não” a alguns casais que chegam despreparados ao matrimónio?Mais do que dizer “não”, indicar um caminho: não casem já, mas, façamos um caminho. Agora fala-se tanto dos divorciados e dos recasados e de um caminho penitencial, que é sempre penitencial e doloroso; lá seria, ao contrário, um caminho não penitencial, mas de crescimento, de maturação na fé.

Agir na origem…Agir na origem, fazendo também entender que não podem ir ali pedindo o matrimônio, já fixando a data e pressupondo que se trata somente de uma fórmula: “Aceitas aquilo que faz a Igreja?”; “Sim!”. E depois se passa a saber o que existe por trás daquele ‘sim’.... Estamos a discutir tanto sobre como mudar o ‘depois’ e não discutimos tanto sobre como mudar o ‘antes’. Eu fiz um pronunciamento, mas também outros se pronunciaram neste sentido.
 
Há depois o “pós-matrimónio”. Tem quem sugira um acompanhamento também após o matrimónio dos casais, que frequentemente se casam com pressupostos cristãos e de repente se encontram sozinhos....E alí verdadeiramente é a paróquia, a comunidade paroquial, como família de família, e sobretudo os esposos, mais do que os sacerdotes, que devem acompanhar os casados naquele ponto. É importante o acompanhamento dos jovens esposos por parte de quem já tem a experiência, quem sabe mesmo, de crises superadas. Este é outro ponto intermediário: antes de chegar à ‘vexata questio’ “Damos ou não damos a comunhão aos divorciados-recasados?”, o que certamente é um problema, mas quando torna-se um problema muito generalizado, quer dizer que alguma coisa está errada no início. Se não fazemos uma preparação adequada, devemos depois cuidar dos matrimónios fracassados e a Igreja de “hospital de campanha” torna-se um obituário, onde se fazem as autópsias dos matrimónios defuntos”.


Fala-se muito nestes dias de doutrina e misericórdia, quase como se fossem duas realidades distintas. É realmente assim ou doutrina e misericórdia necessariamente devem caminhar juntos?
A misericórdia é a doutrina da Igreja e a doutrina da Igreja é a salvação: “Não vim para condenar, mas para perdoar”. Todavia, o perdão pressupõe o arrependimento.

Entrevista: News.va

Arcebispo Martin defende que Sínodo tem de encontrar nova linguagem para chegar aos jovens

Na conferência de imprensa desta tarde no Vaticano, o pe. Lombardi deu indicação de que hoje não houve trabalhos no Sínodo, uma vez que o relator e o secretário do sínodo estão a preparar o relatório pós-discussão a ser apresentado na segunda-feira.
De acordo com o director da sala de imprensa da Santa Sé, uma parte do dia de ontem foi dedicada a ouvir os representantes de outras comunidades cristãs.

Destas intervenções há a realçar o facto das diferentes comunidades cristãs considerarem que os desafios que se apresentam à Igreja são, em boa parte, comuns a todos os cristãos, tais como a crise económica, a realidade dos meios comunicação, ou a globalização, a guerra, desastres e epidemias.
Os representantes destas comunidades também exprimiram preocupação em encontrar um discurso que consiga chegar aos  jovens e em evitar ser muito moralizador ou muito rígidos.
Os delegados fraternos realçaram também a importância da família como escola de fé e a importância de viver com alegria o Evangelho.

Na conferência de hoje interveio o Monsenhor Diarmuid Martin, arcebispo de Dublin, que realçou a necessidade de haver um “novo tipo de diálogo com a família, uma nova linguagem.” Martin lembrou o Sínodo da família de 1980, em que esteve presente e que analisou a família na sociedade contemporânea. Na altura, o cardeal Ratzinger falou sobre a relação entre a fé, a validade da fé e a validade do matrimónio.
Não havendo dados novos a acrescentar relativamente aos trabalhos do Sínodo, a conferência esteve aberta a questões dos jornalistas.

Abordado sobre o impacto da imigração causada pela crise e guerra nas famílias, Martin afirmou que “o casamento de jovens para obtenção de vistos cria uma cultura de isolamento das pessoas em suas casas o que destrói a família”. Utilizando outro exemplo, Martin referiu a separação entre novos e velhos, os primeiros que partem, os segundos que não estão em condições de o fazer.

Questionado sobre o andamento dos trabalhos e sobre o documento final a ser apresentado, Martin descreveu que o debate tem sido muito aberto e que se têm apresentado diferentes opiniões.
O arcebispo reconheceu que o trabalho deste sínodo é recolher os frutos da consulta e das opiniões e não chegar a conclusões finais. Referiu igualmente a obrigatoriedade de apresentar as opiniões minoritárias que vão surgindo durante o sínodo e não apenas as maioritárias. Toda a gente tem escutado com respeito os argumentos apresentados por todos os lados.
Martin explicou que o documento a entregar ao Papa resultante destes trabalhos será mais uma moldura, do que um documento final e apresentará as propostas e não as conclusões.
O arcebispo irlandês defendeu que o sínodo tem de encontrar uma maneira, através da tal nova linguagem, de explicar aos jovens o que é o compromisso do casamento e que não se pode limitar a repetir o que já foi dito anos atrás.

Respondendo ao porquê desta nova abertura ao debate sobre as declarações de nulidade, Martin concordou que houve uma mudança na cultura em dois aspectos, no antropológico e no teológico, e que o matrimónio é uma realidade eclesial. Martin assegurou que dogma e verdade devem caminhar lado a lado e que é preciso encontrar maneira de fazer com que isso aconteça. No entanto, o arcebispo assegurou que embora podendo haver visões diferentes sobre as matérias deste sínodo, nomeadamente a questão da nulidade, não há dúvida nenhuma para ninguém sobre a indissolubilidade do matrimónio e que isso não pode mudar, pois é algo “estabelecido por Cristo”.

Na conferência interveio também Valerie Duval-Poujol, representante da Aliança Mundial Baptista que se regozijou pela presença da comunidade neste sínodo, pautado por um diálogo “aberto e fraterno”.


No final do encontro director da sala de imprensa da Santa Sé anunciou que o Papa Francisco irá receber o primeiro-ministro da República do Vietname para aprofundar relações bilaterais entre os dois estados, reforçando que esta não é a primeira vez que os dois chefes de estado se encontram.

10 de outubro de 2014

Bispos lamentam que igrejas estejam cheias de «viúvos do divórcio»


Na última conferência de imprensa dedicada às congregações gerais, que terminaram ontem da parte da tarde no Sínodo para a Família que decorre no Vaticano, grande parte das intervenções foram dedicadas ao tema do matrimónio e aos desafios que esta temática apresenta.

Segundo o Pe. Dorantes informou os jornalistas, muitas das intervenções tocaram na questão da misericórdia para com os católicos afetados pelo divórcio. «Um dos padres sinodais recordou que devemos ajoelhar-nos diante do Espírito Santo, pois não somos chefes da misericórdia de Deus, e devemos recordar-nos que a missão que Jesus deixou aos apóstolos foi de evangelizar e curar, e isto significa levar a Boa Nova», referiu o sacerdote que está encarregue de resumir as intervenções em língua espanhola que acontecem na aula sinodal.

A possibilidade de haver um caminho penitencial a poder ser realizado pelos divorciados, nomeadamente aqueles «que são fiéis ao matrimónio mas que a outra pessoa abandonou», foi uma possibilidade levantada pelos oradores da tarde de ontem, à semelhança do que já tinha sido em dias anteriores. «Ontem diversos bispos abordaram este tema de forma intensa. Deram um bom exemplo de como se pode exercitar este caminho, com uma exigência de reflexão sobre as consequências de uma decisão destas para com os filhos, ou de como se colocar perante Deus na situação em que se encontra», disse o Pe. Lombardi, porta-voz do Vaticano.

«É preciso fazer um caminho de reconciliação e abertura. As igrejas estão cheias de viúvos e viúvas do divórcio», lamentou outro dos bispos sinodais que fez ontem a sua intervenção. Alguns bispos apontaram a falta de fé como possível motivo para avaliar a validade do matrimónio. Hipótese semelhante já tinha sido levantada pelo então Papa Bento XVI, quando, em janeiro de 2013, dizia aos membros do Tribunal da Rota Romana que «não se deve prescindir da consideração que se possam verificar casos nos quais, precisamente devido à ausência de fé, o bem dos cônjuges resulte comprometido», disse o então Papa. Apesar de ser um critério que pode levantar questões de subjetividade, não foram adiantadas mais informações sobre as discussões que decorreram daqui, pelo que apenas na relatio post disceptationem se poderá perceber melhor as propostas apresentadas pelos padres sinodais.

Um dos bispos sinodais criticou o «ato social» em que se tornou o matrimónio. «Os pobres veem-no como um ato inalcançável, e muitos jovens veem-se obrigado a unir-se apenas, com a perspetiva de se casarem mais tarde, por causa dessa perspetiva, criticou esse bispo.

Alice Heinzen, uma das leigas convidadas a estar hoje no briefing aos jornalistas, explicou que, para poder fazer com que este caminho penitencial resulte, é preciso muita formação prévia. «Fazer o caminho pela penitência só pode ser possível se houver conhecimento do sacramento e das leis da Igreja. Primeiro há que educar as pessoas, e depois é uma conversão de coração, e por aí ficamos mais próximos do Senhor, pois é aí que encontraremos a felicidade», disse esta leiga americana.

Dar uma «segunda oportunidade» à Humanae Vitae
Leigos querem que Humanae Vitae tenha uma
segunda oportunidade junto dos católicos
Questionada sobre a validade das propostas da Humanae Vitae nos dias de hoje, Alice afirmou que já é tempo dos casais católicos «darem uma segunda oportunidade aos métodos naturais», em virtude dos «recursos», que são «muito mais fortes do que eram na altura da publicação da encíclica». «Há muitas novidades nesse campo e encorajo os media a olharem para isso, porque vem aí muita coisa boa», referiu a leiga.

Jeffrey Heinzen, o marido, que trabalha com a esposa nesta área dos métodos naturais de planeamento familiar, explicou aos jornalistas que, «quando os casais têm uma compreensão da sua relação e da fertilidade entre eles, a confiança passa para outro nível». «Porquê termos casamentos bons, quando podemos ter casamentos fantásticos? O que mais podem desejar os homens do que ter as suas mulheres sempre satisfeitas?», perguntou, provocando risos entre os jornalistas presentes.

Finalmente, os bispos pronunciaram-se também sobre o problema das crianças cujos pais estão divorciados, e do efeito de “bola de pingue-pongue” que sofrem quando são obrigadas a saltar entre a casa do pai e da mãe, e têm de conviver com os novos parceiros que os seus pais arranjam. «Quando estava para vir para o Sínodo, estive com uma criança que está no 5º ano numa escola católica. Disse-lhe que vinha ter com o Papa Francisco e perguntei-lhe o que ele queria que lhe dissesse. “Diga ao Papa que sou filho de pais divorciados, e que a minha mãe tem um namorado novo e o meu pai uma mulher nova. É tudo muito triste”. Esta é a realidade que temos de combater», disse Alice Heinzen.

Segundo os bispos também alertaram a aula sinodal, parte deste combate passa pela formação teológica e antropológica do clero. «Eles devem saber explicar, com argumentos, as questões relacionadas com a família», referiram os bispos durante a congregação geral de ontem de tarde


9 de outubro de 2014

Humanae Vitae «carece de praticidade» nos dias de hoje


Os trabalhos no Sínodo dos Bispos desta manhã abriram com o testemunho de Hermelinda e Arturo, um casal brasileiro responsável pelo Movimento das Equipas de Nossa Senhora no Brasil. «A abertura dos cônjuges à vida» foi o tema desta manhã, e o casal trouxe um testemunho não só da sua experiência enquanto casal, mas da experiência dos casais que fazem parte do movimento das equipas de Nossa Senhora no Brasil, e deixaram críticas não aos princípios defendidos pela Humanae Vitae, mas à sua aplicação prática, afirmando que é possível aplicar os princípios «orientados à transmissão da vida e ao serviço do amor conjugal» utilizando outros métodos que não os naturais.

O casal veio, assim, contradizer o que o cardeal André Vingt-Trois havia proferido momentos antes, na abertura dos trabalhos. O cardeal-arcebispo de Paris, D. André Vingt-Trois, lamentou que muitos casais católicos tenham perdido a noção de «pecado» no uso de contracetivos, rejeitados pelo magistério da Igreja.«Há casais que muitas vezes não julgam que o uso de métodos anticoncetivos seja um pecado e, como tal, tendem a não fazer disso uma matéria de Confissão e assim receber a Comunhão sem problemas», declarou o presidente da Conferência Episcopal Francesa, introduzindo a congregação geral desta manhã. «Muitos são os que têm dificuldade em compreender a diferença entre os métodos naturais de regulação da fertilidade e a contraceção», sustentou o cardeal Vingt-Trois, um dos três presidentes-delegados desta assembleia sinodal.

Na sua intervenção, o casal brasileiro começou por elogiar o «ato sexual», «querido e abençoado por Deus», e defendeu que «o prazer que dele decorre contribui para a alegria de viver e para a estruturação sadia da personalidade». «Os casais que fazem amor são os que expressam com o corpo o que lhes vai ao coração. Para chegar à harmonia, é preciso saber cultivar o desejo e até mesmo um erotismo sadio. É preciso continuar apaixonados e estar atentos um ao outro», defenderam Hermelinda e Arturo.

Ambos falaram da necessidade dos casais «quererem espaçar o nascimento dos filhos» e da opção não só pelos métodos naturais preconizados pela Igreja que muitos casais tomam. Temos de admitir sem medo que muitos casais católicos, mesmo os que procuram viver seriamente o seu matrimónio, não se sentem obrigados a usar apenas os métodos naturais», afirmou o casal, que adiantou que, «geralmente, não são questionados pelos confessores» sobres esta matéria.

O casal afirma que, apesar de os casais estarem «abertos à vida e rejeitarem o aborto», não percebem «nas pregações e atendimentos espirituais» dos sacerdotes a «insistência na doutrina da Humanae Vitae». Consideram, para além disso, que, «na cultura atual», os métodos naturais «carecem de praticidade». «Casais, principalmente jovens, vivem um ritmo de vida que não lhes permite praticar esses métodos, uma vez que exigem tempo para treino, e tempo é produto raro no mundo em que vivemos. E o pior: por ser superficialmente explicado e, por isso mesmo, mal utilizado, o método natural ganha a fama injusta de ser inseguro e assim muitas vezes ineficiente. Portanto, mais uma vez com sinceridade admitimos que não é seguido pela maioria dos casais católicos», referiu o casal aos bispos presentes na aula sinodal.

Por estas razões, os casais com os quais trabalham, «na sua maioria, não descartam o uso de outros métodos contracetivos» e não os consideram «um problema moral», até porque as relações continuam a ser «orientadas à transmissão da vida» e «ao serviço do amor conjugal». Por isso, o casal pediu aos bispos que se apressem «em dar aos padres e aos fiéis as grandes linhas de uma pedagogia pastoral que ajude a adotar e a observar os princípios acordados pela Humanae Vitae». «Se pelo menos os casais encontrassem luz e suporte junto ao clero já seria um grande alento! Muitas vezes os conselhos contraditórios só agravam sua confusão», observou o casal no final da sua intervenção.

Pode continuar a acompanhar todos os trabalhos do Sínodo em www.sinododafamilia.familiacrista.com

Texto: Ricardo Perna
Foto. News.va

8 de outubro de 2014

Papa não quer decisões para as «pessoas aplaudirem», mas sim «processos» que deem «frutos»


D. Victor Fernández, reitor da Universidade Católica Argentina, afirmou hoje aos jornalistas que o Papa não pretende que o Sínodo «produza decisões para as pessoas aplaudirem, mas que inicie processos, mais do que forçar decisões, e que esses processos produzam os frutos no tempo adequado». Esta foi uma resposta dada aos jornalistas que perguntavam por decisões ou hipóteses concretas a serem debatidas nas congregações gerais do Sínodo que decorre no Vaticano.

Questionado sobre a forma como a lei da gradualidade pode ser aplicada a casos concretos na Igreja, D. Fernández explicou que «o ideal que temos e que não devemos desistir choca com a realidade concreta das pessoas» e deu o exemplo da poligamia, um dos assuntos muito debatidos na aula sinodal, em virtude da intervenção, hoje, de muitos bispos africanos. «Em situações como a poligamia, que não podemos aceitar por causa da dignidade da mulher que defendemos, é preciso entender o que é possível fazer. O homem não pode simplesmente mandar embora as outras mulheres, que vão ser discriminadas e abandonadas, pelo que é preciso entender como abordar esta questão», sustentou.

O bispo argentino confirmou que o ambiente na sala é de respeito por todos, coisa que, aliás, o Papa tinha pedido. «Podemos falar o que quisermos, que o Cardeal Müller [Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé] não virá atrás de nós», gracejou o prelado, que voltou a referir a necessidade de defender a indissolubilidade do matrimónio. «Não podemos retirar a indissolubilidade do matrimónio, pois a mensagem de que o vínculo apenas se quebra com a morte é uma bela imagem. A maior parte dos padres sinodais concorda com a ideia, mas outros insistem no realismo de acompanhar o sofrimento dos outros, porque também Jesus chegava a todos», disse aos jornalistas.

Outro dos convidados no briefing diário foi D. Ignatius Ayau Kaigama, arcebispo de Jos, na Nigéria, país que recentemente aprovou uma lei que criminalizava a homossexualidade, e que foi apoiada pela Igreja. Questionado sobre isso, o prelado acusou os media de «apenas verem uma parte da questão». «A Igreja Católica respeita os seres humanos. Nós acreditamos que o casamento é entre homem e mulher, e tudo o resto está errado. Falámos a favor disso, o nosso governo aprovou uma lei que apoiámos, mas foi muito mal entendida. Nós dissemos que apoiavámos o conceito de casamento entre homem e mulher, não apoiámos a criminalização dos homossexuais, e os media apenas apanharam essa parte, e esqueceram que somos ferozes defensores dos direitos humanos, e que a Igreja Católica está na frente desse combate. Nós defenderíamos qualquer homossexual que esteja injustamente na prisão ou sofra violência», garantiu D. Kaigama.

Um dos assuntos debatidos foi ainda a forma como os países desenvolvidos procuram impor a sua realidade cultural aos países africanos, em troca de fundos monetários que cada vez interessam menos aos interesses dos responsáveis desses países. «Somos confrontados com pessoas que nos dizem que nos dão dinheiro se limitarmos os nascimentos, mas quem diz que crescemos demais? Quem diz que precisamos de limitar nascimentos? Nós queremos é educação e bons cuidados, não preservativos ou outros métodos contracetivos…», garantiu o bispo nigeriano.
«Estão a oferecer-nos as coisas erradas, e esperam que aceitemos, só porque somos pobres. Mas a pobreza não é uma questão financeira, e nós não somos pobres no nosso pensamento. Por isso dizemos “Não”, questionamos, e é isso que fazemos em África agora», assegurou o prelado de forma veemente.

Igreja não quer ser farol, mas sim tocha

Sobre os dias de ontem à tarde e esta manhã, o Pe. Lombardi, um dos três porta-vozes encarregues de passar uma síntese dos assuntos aos jornalistas, referiu que os temas mais falados foram a crise na família, a necessidade da «oração e da espiritualidade na vida familiar», a simplificação dos processos de nulidade (sem adiantar pormenores) e um testemunho que trazia uma imagem «positiva» da realidade dos sacerdotes casados nas igrejas orientais, por oposição ao debate da manhã de ontem sobre as dificuldades que esses sacerdotes encontravam.

O sacerdote italiano referiu uma alegoria utilizada no sínodo para descrever a ação da Igreja no terreno. «A Igreja não é farol, uma luz estática que não se mexe, mas sim uma tocha, que caminha com o povo, que está no seu meio a iluminar o caminho», ilustrou.

O Pe. Rosica, outro dos porta-vozes, falou de um ambiente «que não é catastrófico», ao contrário do que o relato das várias dificuldades poderia fazer supor. «Finanças, Migrações, todos os problemas relatados foram encarados com a postura “o que podemos fazer quanto a isto?”, não com uma imagem derrotista, e isto foi algo que me impressionou ao assistir aos trabalhos», referiu o sacerdote.

Os bispos abordaram a questão dos matrimónios civis também numa perspetiva inclusiva. «é preciso tomar atenção aos elementos dos casamentos civis que já existem e que possam conduzir as pessoas ao matrimónio canónico. Em vez de criticar a sua opção, devemos procurar elementos, ou sementes, que existam naquelas relações que os possam trazer até à igreja», referiram os bispos nas suas intervenções, apontando a «linguagem da misericórdia» que João XXIII falava como caminho a seguir na abordagem a estas pessoas.

Sobre os jovens e os problemas que enfrentam hoje com as suas referências, os bispos refletiram sobre a importância que as redes sociais têm hoje na formação da personalidade do jovem. «É preciso estar presente lá, para evitar o possível efeito destrutivo que essas referências lhes podem dar», referiram alguns bispos nas suas intervenções.

Os trabalhos desta tarde vão debater o tema das situações pastorais difíceis. Este será o dia mais esperado por muitas pessoas, pois debater-se-ão os temas dos recasados, das novas formas de família, dos processos de nulidade… poderá acompanhar todas as notícias no seu site www.sinododafamilia.familiacrista.com