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23 de outubro de 2015

Sínodo pode ser o «início de uma nova Igreja»


O relatório final do Sínodo dos Bispos, que vai ser votado este sábado, é visto como um documento conciliador que congrega as várias visões da assembleia para as apresentar ao Papa, propondo uma nova relação Igreja-Família. Segundo o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, foram feitas 1.355 propostas de alteração ao Instrumentum Laboris, ao longo das três semanas de encontro, num esforço que foi recebido com «satisfação» pela assembleia.

O responsável disse em conferência de imprensa que as reações gerais em relação ao texto proposto vão no sentido de o considerar «muito satisfatório» e mais «organizado». O cardeal Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz (Santa Sé), disse aos jornalistas que faltam «pequenos detalhes» para que o documento, com votação marcada para a tarde de sábado, seja algo com que «todos possam concordar».

D. Luc Van Looy, bispo de Gent (Bélgica), falou num Sínodo «pastoral», que se preocupou com as famílias a partir de três palavras-chave: «Escuta, acompanhamento e integração». «Se a Igreja fosse isto, o Sínodo, teríamos o fim do julgar as pessoas, de uma Igreja que julga em todas as situações, antes uma Igreja acolhe, que caminha com, que escuta, que fala com clareza» e com «ternura» sobre todas as situações da família, precisou. «Poderia ser o início de uma nova Igreja», prosseguiu.

O cardeal Peter Turkson falou de um «Sínodo emblemático» na vida da Igreja e considerou natural que haja «pontos de vista diferentes» quando se discute «uma instituição humana básica», que é a família. O prelado ganês rejeitou, por outro lado, que a homossexualidade seja vista como um «tabu» pelos prelados africanos, face ao que acontece em países islâmicos ou na Rússia. A esse respeito, pediu «tempo de crescimento» para os países que têm «dificuldade» na compreensão desta realidade, sublinhando que entre 1971 e 1975 estudou nos EUA, numa altura em que os livros de psicologia apresentavam a homossexualidade como uma «anormalidade», algo que mudou. «Encorajamos os nossos a não criminalizar este fenómeno e pedimos aos outros que não vitimem as pessoas que têm problemas com esta situação», prosseguiu.


O cardeal Cyprien Lacroix, arcebispo do Quebeque (Canadá), elogiou por sua vez a experiência de universalidade, de «escutar todos», com partilha de testemunhos das várias famílias no Sínodo. «Volto a casa com muito mais esperança do quando cheguei», confessou. O cardeal canadiano rejeitou a ideia de «receitas milagrosas» para todos os problemas, sublinhando a importância do «acompanhamento» das famílias pela Igreja.

No dia em que foi anunciado que o Sínodo dos Bispos vai aprovar uma declaração sobre as famílias do Médio Oriente, D. Luc Van Looy mostrou-se preocupado com os refugiados e deslocados que chegam à sua diocese, recordando ainda «as famílias que estão nos campos de refugiados». «Como se vive a vida familiar nestas situações?», questionou.

Um Sínodo à sul-americana
A manhã no Sínodo foi mais longa que o normal neste Sínodo. Os trabalhos terminaram mais tarde que o habitual, e havia semblantes carregados à saída da aula sinodal. Apesar disso, em declarações à Família Cristã e à Ecclesia, o arcebispo de Mérida, na Venezuela, D. Baltazar Porras, dizia que estamos «no momento mais belo do relatório final». «O projeto reflete bem o que se passou dentro da aula sinodal. A partilha dos diversos pontos de vista é o que podemos oferecer ao Papa e ao mundo, e é uma porta que se abre para lidar com muitas situações complicadas com que a família se depara», declarou.

Após elogiar a presença «fraterna e próxima» do Papa nos trabalhos sinodais, D. Baltazar Porras espera que a votação de amanhã, sábado, possa ser «unânime». «As convergências são mais do que as divergências, porque o espírito que tem estado esta semana é a preocupação pastoral e a experiência que, vindos de todas as partes do mundo, trazemos para aqui», afirmou.

Neste sentido, elogia também a metodologia trazida para o Sínodo pelo Papa, uma metodologia sul-americana. «O método deste Sínodo é muito mais parecido com a forma como trabalhamos na América Latina, e essa é marca do Papa Francisco, porque ele foi relator principal na Aparecida [5ª Conferência do Episcopado Latino-americano de 2007] e sempre teve este espírito de abertura, respeito uns pelos outros e podermos falar com liberdade. Isso percebemos estes dias», disse.



Texto: Ricardo Perna/Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna


28 de outubro de 2014

«Muitas vezes o que afasta as pessoas é a atitude da comunidade, e não a doutrina da Igreja»


Maria Giovanna Ruggieri é a presidente da União Mundial das Organizações Femininas Católicas (UMOFC), tendo sido reconduzida no cargo na Assembleia-geral que decorreu esta última semana em Fátima, onde 500 membros desta união mundial se juntaram para falar sobre o papel da mulher na Igreja. Sobre o Sínodo da Família, onde dois dos membros da união se pronunciaram enquanto leigos, a presidente da UMOFC faz uma avaliação positiva e lamenta que os media generalistas tenham reduzido a discussão alargada a «apenas dois temas», a comunhão dos recasados e as pessoas com tendências homossexuais.

Como é que viu o sínodo sobre a Família?
Vi de uma forma positiva, porque o clima foi muito aberto, as pessoas puderem falar abertamente sobre os assuntos, e isso é muito bom. A ideia de que estamos num local tão importante, com toda a hierarquia, e temos a possibilidade de falar de todas as nossas dificuldades, é muito bom. Este foi um passo em direção ao sínodo do próximo ano, e é importante perceber como o conteúdo deste sínodo pode ser refletido e discutido ao nível local e ver o que volta para discussão em outubro do próximo ano.

Foram colocadas muitas propostas em cima da mesa. Quais foram as mais significativas para si?
Não acho que seja importante destacar um ou outro ponto. Lamento que, nos media, apenas se tenha falado de dois assuntos, e não se prestou atenção a todo o trabalho de reflexão em conjunto, que é muito importante. O Papa disse que não havia dúvidas sobre a indissolubilidade do matrimónio, da abertura à vida dos casais, ou da noção de que o casamento é entre um homem e uma mulher. Estes princípios não foram colocados em causa, são a base da nossa doutrina. Os media apenas transmitiram estes assuntos, aplicaram categorias sociais à Igreja, e esqueceram que a Igreja não é uma democracia, é um corpo em que todos tendem à comunhão. É por isso que é muito fácil degenerar para as questões do poder, em detrimento do serviço. Se eu achar que estou trabalhar numa carreira, para o poder, é mau, mas se eu me lembrar que estou a trabalhar para a comunidade, tudo será mais fácil. Claro que podemos ter opiniões diferentes, mas o que é importante é não quebrar a comunhão, e a mim parece-me que o Sínodo não quebrou a comunhão. Sim, em dois assuntos houve diferença de opiniões, mas a maioria esteve de acordo em todos os casos. Eu vejo o Sínodo como um exercício de comunhão, um caminho em conjunto.

Mas se há desafios que precisavam de ser abordados, é porque algo tem de mudar…
Sim, há. Os participantes falaram dos desafios da migração, que são terríveis. Mulheres da Ucrânia ou da Roménia que deixam os seus filhos com os avós para virem trabalhar para outros países, é um desafio que tem de ser abordado. Ou mulheres da América Latina onde a figura do pai não existe. Não são apenas as questões dos divorciados e recasados ou homossexuais, como os media tentaram fazer perceber. Veja a falta de trabalho. O que fazemos com os jovens que não podem casar porque não têm emprego permanente? Como conciliar essa instabilidade com um casamento e com filhos? Temos de olhar para todos os desafios, não apenas alguns…
Penso que temos muitos assuntos que precisam de ser abordados, e espero que venham a fazer parte da pastoral familiar nas paróquias. Por vezes, quando preparamos os casais para o matrimónio, estas questões não são abordadas, e acho que esta preparação deveria incluir isto.

A preparação para o matrimónio pode ser a solução?
Não digo que seja a solução para tudo, mas é importante que as pessoas tenham noção dos problemas que vão enfrentar. E tenho de dizer outra coisa: deveríamos também perceber que os casais que decidem casar têm de ser apoiados. A minha sobrinha tem 32 e dois filhos, e já esteve desempregada, o que foi muito complicado. Quando ela estava grávida do segundo filho e estava com dificuldades, alguém lhe sugeriu uma alternativa que ela se recusou a aceitar. O que é que fazemos com estas pessoas? Dizemos que elas têm de casar e ter filhos, mas depois, como comunidade, não as apoiamos? Um casal que tem de vir viver para uma grande cidade e não tem ninguém que lhe fique com os filhos, o que fazemos? Qual é a importância da comunidade neste trabalho? Em qual comunidade os casais podem deixar os seus filhos com alguém para que possam até ir comer um gelado como casal, porque é importante para a sua relação que o façam? Estas são pequenas questões, mas que devem ser refletidas para chegarmos a uma conclusão.

As comunidades devem organizar-se para isso?
Sim, porque não? Em vez de julgarem, ou de ficarem a apontar o dedo a dizer “ah, ela é divorciada, não pode comungar”, devemos oferecer as nossas mãos para ajudar, e não para apontar e dizer que ele ou ela não fazem parte da comunidade.

É uma questão de atitude?
Sim, muitas vezes o que afasta as pessoas é a atitude da comunidade, e não a doutrina da Igreja. O Papa Francisco diz-nos muitas vezes que a misericórdia de Deus é tão grande, e mesmo assim nós damos mais importância à lei. Nós esquecemo-nos disto, e apenas aplicamos a lei, em certos casos, e esquecemos a misericórdia. Eu concordo com a lei, mas podemos fazer outras coisas para acolher as pessoas, para lhes dizer que são filhas de Deus e não foram esquecidas…

Entrevista: Ricardo Perna
Fotos: Rita Bruno

18 de outubro de 2014

Relatório final do Sínodo não reúne consenso em pontos polémicos

O Vaticano apresentou hoje em conferência de imprensa o relatório final da assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos, que debateu os temas da família, o qual sublinha a “verdade” da indissolubilidade do casamento, recusando outros tipos de união.

O documento, publicado pela sala de imprensa da Santa Sé, refere que o único “vínculo nupcial” na Igreja Católica é o sacramento do Matrimónio e que “qualquer rutura do mesmo é contra a vontade de Deus”. O Sínodo assume a necessidade de “discernir os caminhos para renovar a Igreja e a sociedade no seu compromisso pela Igreja fundada sobre o matrimónio”, a “união indissolúvel entre o homem e a mulher”.
Os participantes sustentam que “os grandes valores do matrimónio e da família cristã” são a resposta aos anseios da existência humana face ao “individualismo” e “hedonismo”.

 O documento sintetiza as duas semanas de debate, com intervenções em sessões gerais e discussões em grupos linguísticos em que se discutiu muito a relação entre doutrina e misericórdia.
Jesus, “colocou em prática a doutrina ensinada, manifestando assim o verdadeiro significado da misericórdia”, pode ler-se, antes de se referir que "a maior misericórdia é dizer a verdade com amor".

A reflexão sobre casamentos civis, divorciados e recasados na Igreja deixa uma mensagem de “amor” para com a “pessoa pecadora” e diz que esta participa “de forma incompleta” na vida eclesial.
“Trata-se de acolher e acompanhar estas pessoas com paciência e delicadeza”, pode ler-se.

O documento retoma as observações sobre a necessidade de fazer “escolhas pastorais corajosas” na ação da Igreja junto das “famílias feridas”, em particular junto de quem “viveu injustamente” a separação e o divórcio.

O relatório final do Sínodo de 2014 foi votado ponto a ponto, em cada um dos seus 62 números, que reuniu 470 propostas dos chamados ‘círculos menores’. As votações sobre cada número foram divulgadas pelo Vaticano, por decisão do Papa, revelando que os parágrafos 52 (acesso dos divorciados recasados à Comunhão), 53 (comunhão espiritual a divorciados) e 55 (homossexuais) não chegaram a uma maioria de dois terços dos 183 padres sinodais presentes; o parágrafo 41 (matrimónios civis e uniões de facto) mereceu 54 votos contra.

 Em relação ao acesso à Comunhão e à Penitência pelos divorciados em segunda união, tema sobre o qual se gerou divisão entre os participantes, alguns “argumentaram em favor da disciplina atual [que impede o acesso aos sacramentos]” e outros propõem um “acolhimento não-generalizado”.
Este foi o ponto em que houve mais votos contra (74), no qual se pede que seja aprofundada a questão, “tendo presente a distinção entre situação objetiva de pecado e circunstâncias atenuantes”.

O texto apresenta dois números sobre a situação dos homossexuais, com críticas às “pressões” sobre os membros da Igreja por causa da sua doutrina nesta matéria e às leis que instituem uniões entre pessoas do mesmo sexo. 62 pessoas votaram contra um número no qual se afirma que “os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito e delicadeza”.

O relatório do Sínodo alude ainda às propostas para tornar “mais acessíveis e ágeis”, de preferência “gratuitos”, os procedimentos para o reconhecimento de casos de nulidade matrimonial, realçando que alguns participantes se mostraram “contrários” a mudanças.

Os vários pontos apelam à valorização dos métodos naturais de planeamento natural e da adoção, condenando a mentalidade “antinatalista”; recordam a reflexão sobre a família nos documentos da Igreja e pedem liberdade de educação para os pais.

O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, sublinhou que este não é um documento “doutrinal” e que vai servir de base para a preparação para a assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, com três semanas de trabalho, em outubro de 2015.

Texto: Agência Ecclesia
Foto: News.va

16 de outubro de 2014

Círculos menores em contra-corrente com Relatio Post Disceptationem


Após a entrega das propostas da alteração à Relatio Post Disceptationem (RPD), é possível perceber que o documento final terá muitas alterações em relação ao texto apresentado pelo Cardeal Péter Erdò e por D. Bruno Forte. Eram 10 os grupos menores, divididos por línguas: 3 italianos, 3 ingleses, 2 franceses e 2 espanhois.

De um modo geral, parece claro, pela leitura dos relatórios de cada círculo, que foram publicados hoje pela Sala de Imprensa da Santa Sé nas línguas originais em que foram entregues, que existe uma vontade grande em mudar o sentido em que estava orientado o documento intermédio. Muitos dos grupos declararam mesmo a sua surpresa pelo impacto mediático que o documento teve, ou se quer pela sua publicação sem aprovação da parte dos padres sinodais. Esta publicação nada teve de surpreendente, conforme um dos grupos reconheceu, já que é o procedimento habitual em todos os sínodos, mas as repercussões desta divulgação ultrapassaram todas as expetativas, como tem sido reconhecido por alguns dos cardeais que têm ido à sala de imprensa falar com os jornalistas.

São várias as ideias que saltam à vista nos relatórios dos grupos. Os dois círculos de língua francesa concordam num aspeto que mais nenhum refere: a importância de dar autonomia às conferências episcopais na abordagem pastoral de alguns problemas. Se o círculo moderado pelo Cardeal Robert Sarah pede mesmo «autonomia para as igrejas locais encontrarem soluções para as preocupações pastorais que têm», o círculo menor moderado pelo Cardeal Schönborn coloca a questão de como «permitir que as conferências nacionais, regionais ou continentais tenham autonomia para resolver certas situações, sob o princípio da subsidariedade, sem colocar em causa a catolicidade ou a universalidade da Igreja?»

Este círculo questiona ainda como «conjugar doutrina e disciplina, visão dogmática e aproximação pastoral», perguntando «como conjugar o amor da verdade e da caridade pastoral de uma forma que não choque o filho mais novo ou o filho mais velho da famosa parábola relatada por Lucas?», e nessa linha propõem um estudo aprofundado da validade teológica da comunhão espiritual. «Se for credenciada, que seja mais divulgada junto dos fiéis», propõe este grupo de bispos.

Os círculos de língua francesa elogiam ainda a encíclica Humanae Vitae e denunciam a «discriminação» que alguns homossexuais sofrem, «por vezes dentro da Igreja», rejeitando, no entanto, quaisquer práticas homossexuais ou o casamento homossexual. Uma posição, aliás, que é comum a todos os círculos menores, sendo que muitos criticam a forma como a questão foi colocada no RPD.

Grupos de língua inglesa mais conservadores
A questão da necessidade da mudança de linguagem na Igreja parece unânime, já que apenas um dos círculos refere a necessidade de incluir no documento termos como "pecado", "adultério" e "conversão", enquanto quase todos os outros referem a necessidade de chegar às pessoas com uma linguagem mais «positiva».

Muitos são os círculos que referem a necessidade de mudar a II parte do relatório, tornando mais virado para Cristo e para o Magistério da Igreja e o Evangelho. «É um documento pastoral, mas que não pode ser afastado da doutrina da Igreja», referiu o grupo moderado pelo Cardeal Raymond Burke, um conservador.

No que diz respeito às questões mais polémicas, constantes nas propostas da alteração da pastoral da Igreja, três dos grupos mantêm o apoio à teoria que permite que os divorciados e recasados façam um caminho pastoral de aproximação aos sacramentos, enquanto que dois dos grupos se manifestam claramente contra esta possibilidade. É importante «estudar caminhos pelos quais, em circunstâncias particulares, um divorciado recasado possa ter acesso aos sacramentos», refere um dos círculos.

A necessidade de aposta na formação do clero é colocada em relevo por um dos círculos menores, mas nenhum se refere à maior necessidade de formação antes do matrimónio, dando indicação de que o referido no RPD satisfez os bispos sinodais. O acompanhamento pós-matrimónio, também já contemplado no RPD, merece referência de um dos círculos, que pede uma maior aposta nesta área.

Finalmente, a lei da gradualidade. Alguns dos bispos receiam que leve a uma «preguiça pastoral», e que envie uma mensagem errada aos católicos que cumprem os preceitos e os ensinamentos da Igreja Católica, receando um efeito de contágio. «Se dermos a entender que certos estilos de vida são aceitáveis, então pais preocupados poderão facilmente dizer "porque é que estamos a tentar tanto encorajar os nosso filhos a viver o Evangelho e a abraçar os ensinamentos da Igreja?"», avisam estes bispos.

Neste sentido, alguns bispos falam na necessidade de avaliar a lei da gradualidade, mas não admitem que seja aprovada a gradualidade da lei, ou seja, admitem que há elementos positivos nas uniões irregulares, mas não querem conceber que tais situações venham a ser reconhecidas pela Igreja, o que poderia acontecer, por exemplo, com o acesso aos sacramentos dos divorciados e recasados, ou de quem viva em união de facto.

Dois dos círculos menores falaram sobre a necessidade de incluir no Relatio Synodi referências à adoção, uma área que nem sempre é referida pela Igreja Católica, lembrando a beleza desta opção, a ser tomada «por pais sem filhos ou pais que já tenham filhos biológicos».

Estas propostas vão agora ser reunidas e, juntamente com o RPD, serão compiladas no Relatio Synodi, o documento que será apresentado ao Papa Francisco e anunciado como base de trabalho para o próximo Sínodo, que irá decorrer daqui a um ano. Nada do que sair no documento serão decisões, antes propostas de reflexão, conforme os responsáveis do Vaticano não se têm cansado de dizer nos últimos dias, procurando evitar a polémica que a publicação do RPD teve.


Texto: Ricardo Perna
Foto: News.va


Cardeal Schönborn fala de «um Sínodo autêntico»


Depois de dias de tensão, a conclusão dos trabalhos nos círculos menores do Sínodo da família que decorre no Vaticano trouxe também uma visão mais calma dos documentos de trabalho. Hoje os bispos entregaram as suas propostas para «alteração e aprofundamento» do Relatio Post Disceptationem, a fim de que seja preparada a mensagem final da Assembleia Sinodal e o Relatio Synodi, o documento de trabalho que concluirá este sínodo e lançará as bases de trabalho para o sínodo de 2015.

O Cardeal Christoph Schönborn foi hoje o convidado para vir falar aos jornalistas, e convidado por um deles a adjetivar este Sínodo que caminha para o final, destacou a sua autenticidade. «Um Sínodo autêntico, que se está a desenvolver num sentido muito positivo, porque é um caminho de conjunto», definiu o cardeal austríaco de Viena, Áustria. O prelado declarou-se «surpreendido» com o interesse que o Sínodo está a despertar nas pessoas, mas reconhece que o tema assim obriga. «Poucos temas nos tocam tanto como o tema da família», reconheceu o cardeal. «Todos temos pais, irmãos, primos, tios, etc, e todos sabemos que quando temos problemas, o nosso primeiro recurso é a família», acrescentou.

Defendendo a necessidade de «alargamento da visão da família», o cardeal reconhece que é normal haver «tensões» no Sínodo. «Há vários aspetos a considerar: todos sabemos a doutrina, mas todos conhecemos também a misericórdia de Jesus. Como unir as duas é a questão permanente da Igreja, aqui e a nível local, na paróquia, onde é preciso encontrar um equilíbrio entre a força da doutrina e a pastoral», afirma. E dá o exemplo da indissolubilidade. «A indissolubilidade foi ensinada por Jesus não como uma imposição, mas como uma proposta de caminho de vida, não é um ideal, é um caminho real», diz, reconhecendo de seguida a existência de situações irregulares, que conheceu na primeira pessoa. «Os meus pais eram divorciados, conheço a realidade, não é a ideal, mas é uma realidade. A Igreja fala destas situações porque são verdade, mas fá-lo com compaixão e como um convite a um caminho de fé», sustenta o prelado.

Quanto a perspetivas de mudanças no Catecismo da Igreja Católica, cuja mais recente edição o cardeal Schönborn foi secretário, o prelado não se mostra confiante. «Não creio que haja necessidade de mudanças, mas pode haver desenvolvimentos. Há 50 anos atrás, o fenómeno das uniões de facto era impensável e por isso não foram mencionadas no catecismo, mas hoje são uma realidade que é preciso contemplar», exemplificou, afirmando que, também aqui, a Igreja precisa de dar uma resposta. «São uma desinstitucionalização da família, e devemos enfrentar este novo desafio de encontrar uma palavra para dar nestas situações. A proposta que fizemos foi no sentido de ver esta gradualidade, não da lei, mas da vivência da lei, passo a passo», revelou o cardeal austríaco.

Quanto à questão do acolhimento dos homossexuais, cuja polémica se agravou com a emenda que o Vaticano fez da tradução inglesa do relatório preliminar, para um termo mais leve de avaliação da realidade homossexual, e não tanto de aceitação, como sugeria a primeira versão do documento, o cardeal Schönborn não tem dúvidas sobre como enfrentar a realidade. «Primeiro olhamos para a pessoa, não para a sua orientação sexual. Quando o catecismo fala de acolhimento, é um comportamento básico, todos os seres humanos têm uma dignidade antes de qualquer outra coisa. Mas isto não significa, nem significará, que a Igreja pode dizer que o respeito pela vida humana signifique o respeito por todos os comportamentos humanos», avisou.

«O dom fundamental da criação de Deus é a relação entre homem e mulher, e o catecismo é muito claro. O sentimento da homossexualidade não tem nada a ver com pecado, mas as relações homossexuais não podem ser aceites, pois a Igreja não pode mudar de forma fundamental para aceitar isto. Com todo o respeito pela situação, e sem saber o que estará no documento final, posso prever que será acolhimento, que é elementar», afirmou o cardeal Schönborn.

O Pe. Lombardi, porta-voz da Santa Sé, anunciou na conferência de imprensa que serão disponibilizados os textos de resumo entregues pelos círculos menores. «Em virtude de ter ido publicado o relatório preliminar, a maioria concordou que também estes documentos devem ser publicados», informou o sacerdote jesuíta.

O porta-voz aproveitou o encontro com os jornalistas para transmitir um recado do cardeal Muller, que desmentia categoricamente todas as declarações negativas que tinham sido postas a circular na comunicação social sobre o relatório preliminar atribuídas a si, e para informar que o Papa Francisco tinha decidido incluir na comissão que prepara o Relatio Synodi o cardeal sul-africano Wilfrid Napier e o arcebispo australiano de Melbourne Dennis Hart. A inclusão do cardeal africano, não sendo possível confirmar tal situação, acaba por ir contra as declarações do cardeal Kasper reproduzidas ontem pela agência de notícias ZENIT, onde afirmava que os bispos africanos de países de maioria muçulmana não poderiam ser ouvidos sobre algumas das matérias, tendo em conta a realidade que vivam nos seus países.

Texto: Ricardo Perna
Foto: News.va

12 de outubro de 2014

Balanço do Sínodo sobre a Família

A primeira semana da Assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispo sobre a Família foi intensa e vai a bom ritmo. Os 253 participantes, entre cardeais, bispos, presbíteros e leigos tiveram oportunidade de «falar claro», como pediu o Papa Francisco. Para que através de «um confronte sincero, aberto e fraterno assumamos com responsabilidade pastoral as interrogações que as mudanças desta época nos trazem».

Este é um acontecimento decisivo e importantíssimo para toda a Igreja e para todas as famílias. Só é pena que as televisões, rádios e jornais generalistas lhe estejam a dar tão pouca cobertura. Sabemos que não são esperadas para já respostas revolucionárias aos temas mais controversos, pois trata-se de um percurso em dois tempos.

Porém, o facto de o Papa pedir que toda a Igreja durante dois anos se junte e reflita sobre a família em colegialidade, é já uma grande novidade e é a primeira vez na história da Igreja que isto acontece. Várias têm sido as abordagens e reflexões aos temas tratados. Basta elencar alguns deles para sentirmos a seriedade e riqueza deste acontecimento eclesial. O Card. Erdó começou logo por sublinhar que a família «está ameaçada por factores desagregadores como o divórcio, o aborto, a violência, a pobreza, os abusos, o pesadelo da precariedade, os desequilíbrios causados pelas migrações». Os padres sinodais também referiram que a Eucaristia «não é o sacramento dos perfeitos, mas daqueles que estão em caminho». Por isso, partilham que não é necessária «uma escolha entre a doutrina e a misericórdia, mas o início de uma pastoral iluminada, para encorajar sobre tudo as famílias em dificuldades, que muitas vezes sentem de não pertencerem à Igreja».

A questão da pobreza, da precaridade do trabalho, o desemprego, a falta de dinheiro e uma habitação decente também foram abordadas no sínodo, sublinhando como aspectos que põem em crise as famílias. Para isso sugeriu-se a importância de uma «ecologia humana» que ajude a minimizar os efeitos negativos da globalização económica, valorizando a Doutrina Social da Igreja. Testemunhou-se também como o fundamentalismo religioso, sobretudo islâmico, impede os cristãos de serem cidadãos com os mesmos direitos que os muçulmanos e com problemas sérios onde existem matrimónios mistos.

Um aspecto curioso é o quase desaparecimento da língua latina e a adopção do italiano como língua “oficial” neste sínodo. Do latim ficaram apenas os nomes dos documentos: Relatio ante e post disceptationem; e Relatio Synodi. A tão esperada questão da comunhão aos divorciados recasados foi bem debatida e das 85 intervenções surgiram duas “linhas” oficialmente reconhecidas: a primeira diz que não é possível admitir aos sacramentos os divorciados recasados; a segunda quer ver através da misericórdia as situações vividas por estes católicos e discernir como abordar as várias situações sem negar a doutrina fundamental, mas encontrar novas formas de pastoral. Onde os bispos poderão ter um papel mais activos nas condições da fé e na vida destas pessoas.

Também se falou sobre a necessidade de uma pastoral para os homossexuais, assente na escuta e na criação de grupos de acolhimento nas paróquias. Fazendo ver que a Igreja não é uma alfândega que deixa de fora os maus e só acolhe os bons, mas é uma casa onde existem famílias sem problemas e famílias em crise. O Card. Coccopalmerio chegou a dizer que é necessário «adoptar a hermenêutica do Papa, que é aquela de salvar a doutrina mas a partir de cada pessoa, da sua situação concreta, necessidades, urgências, sofrimento. Devemos dar uma resposta a pessoas concretas que se encontram em condições graves e urgentes».

Nesta primeira semana do sínodo sublinhou-se ainda o papel importantíssimo dos leigos que «devem ser activos e competente na defesa pública dos valores da vida e da família». Reconhecendo também a urgência de formar adequadamente e permanentemente os sacerdotes e os seminaristas sobre os temas da família. Não ficaram de fora da reflexão o sofrimento de quem perde um familiar, como as pessoas viúvas, os órfãos ou os pais que perdem um filho. Também para estes referiu-se que é fundamental que a Igreja os acompanhe através de grupos de escuta e partilha.

Na segunda semana de trabalhos haverá encontros em círculos menores, divididos por línguas, onde os participantes continuarão a trabalhas estes temas em vista do documento que será aprovado em assembleia e entregue ao Papa. Continuemos a acompanhar este momento tão importante para todos nós com interesse e oração.

Texto: Pe. José Carlos Nunes
Superior regional dos Paulistas
Foto: Ricardo Perna e Salt Light TV 

9 de outubro de 2014

Bispos estão a «tentar encontrar o que é a vontade de Deus»


Os cuidados pastorais a ter com divorciados e recasados, homossexuais e outros casos de uniões irregulares e a promoção de alterações nos processos de nulidade matrimonial foram os tópicos mais em discussão na tarde de ontem e na manhã de hoje. O excesso de intervenções pedidas pelos bispos sinodais levou a que o tema de ontem se estendesse até parte da manhã de hoje, provocando atrasos na discussão do tema previsto para esta manhã, que será apenas concluído da parte da tarde.

A discussão foi «acesa» e «apaixonante», «com todas as cartas na mesa», explicou o Pe. Thomas Rosica, um dos porta-vozes que fazem o resumo diário aos jornalistas, mas sempre envolto num «clima de respeito» por todas as intervenções. O Cardeal Francesco Coccopalmerio, presidente do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos, foi um dos bispos presentes hoje no briefing, e o mais requisitado pelos jornalistas presentes.

No tópico do acolhimento aos divorciados recasados, o Cardeal Coccopalmerio demonstrou a abertura que se tem vivido no sínodo com uma postura aberta ao acolhimento destas pessoas. «Pensem numa mulher que se casou com um homem abandonado injustamente pela sua esposa, com três crianças pequenas. Esta mulher uniu-se a ele, criou as três crianças, deu-lhe a vida e agora dizemos-lhe: “abandona esta união, senão não te damos a Comunhão” O que devo fazer nessa altura?», questionou, sem no entanto esclarecer se concordava que essa pessoa deveria receber os sacramentos que, segundo a lei canónica atual, lhe são negados.

O cardeal italiano afirma que «devemos adotar a hermenêutica do Papa, que é a de guardar a doutrina, mas partir da pessoa individual, do seu sofrimento, e dar uma resposta individual às pessoas concretas que se encontram em situações de gravidade e urgência». Por isso, defende alterações que podem ser muito significativas nos processos de nulidade, nomeadamente no que diz respeito ao envolvimento do bispo diocesano no processo. «Se o defensor é uma pessoa credível, eu bispo, posso declarar que o matrimónio é nulo. E em alguns casos isto poderia tornar o processo mais rápido. Apenas o testemunho de um ou dois dos contraentes - sem prova testemunhal, documental, apenas a palavra. Neste caso, se são “credíveis”, eu bispo desta diocese, posso declarar que este matrimónio é nulo», sustentou o prelado, acrescentando que, «em certos casos, é verdadeiramente importante», que este procedimento avance.

Quanto à questão dos ortodoxos, o Cardeal Coccopalmerio confirma que a questão foi abordada na aula sinodal durante as intervenções, e aceita que se estude e hipótese, mas não está convencido do sucesso dessa abordagem. «Só o primeiro matrimónio ortodoxo é o verdadeiro matrimónio. As outras uniões não são matrimónios, são uniões acompanhadas, bentas, mas não são matrimónios para os ortodoxos. O Sínodo tomou em consideração esta hipótese, e veremos. Creio que o assunto pode ser colocado a estudo nos círculos menores, mas para mim é difícil que se faça isto com sucesso», considerou.

Foram ainda lançadas pelos bispos outras possibilidades de agilizar os processos de nulidade, como a exclusão de uma segunda sentença, a existência da figura do defensor do vínculo, uma maior divulgação desta possibilidade aos fiéis. Tudo olhando na necessidade de encarar cada caso como um caso, sem soluções que sirvam para toda a gente. «O que está a acontecer no Sínodo é que temos uma forma de reflexão indutiva, baseada na experiência das pessoas, que é uma fonte teológica. Estamos a aprender a usar o estudo de caso, ao refletir teologicamente sobre os casos das pessoas. Aprender a fazer isto vai levar tempo, e muitas vozes dizem que não há nenhuma linha que será aplicável a todos os indivíduos», sustentou D. Paul-André Durocher, presidente da Conferência Episcopal do Canadá, o outro convidado no briefing desta manhã.

Impedir «matrimónios turísticos»
Durante as intervenções no sínodo, um dos aspetos mais focados foi a preparação para o matrimónio. O Pe. Dorantes, outro dos porta-vozes, falou da intervenção de um bispo que falou da existência de «matrimónios turísticos», um fenómeno que tinha na sua diocese, onde havia uma igreja que, pela sua beleza, recebia noivos de todo o mundo. «Os sacerdotes que prestavam serviço lá estavam tão desanimados que não faziam qualquer tipo de trabalho pastoral com os noivos, limitavam-se a pedir que os papéis viessem todos em ordem, e nada mais, e os próprios novos encaravam a celebração como mais uma paragem no périplo turístico por aquele país. Acabei por proibir que se realizassem lá essas celebrações, e sugiro que todos os bispos façam o mesmo nas suas dioceses», disse o bispo na sua intervenção.

Este exemplo veio no seguimento de muitos outros padres que, segundo o Pe. Rosica, falaram na necessidade de aprofundar a preparação para o matrimónio, para que este possa ser «apresentado aos jovens desta nova geração de uma forma que seja apelativa para eles», sem perder a exigência necessária.

O Pe. Rosica falou ainda que, apesar de «muitos pretenderem respostas imediatas», «o que foi pedido foram estratégias pastorais a médio e longo prazo, num esforço comum que permita evitar o desmoronar dos valores».

Sobre a questão do acolhimento aos homossexuais, ficou claro para o Pe. Rosica que o sínodo pretende que haja «um cuidado pastoral em relação aos homossexuais». «Não se trata de fazer analogia entre casamentos, mas, ao fazer a distinção, respeitar a humanidade de cada pessoa e tratá-los com respeito e compaixão», disse o sacerdote.

O Cardeal Francesco Coccopalmerio acrescentou que é preciso que essa distinção fique clara. «Não rejeitamos os casais homossexuais, mas dizer que abençoamos esse tipo de união, por uma questão de lógica, não podemos dizer, pois não faz parte do nosso modo de ver a doutrina cristã», referiu o prelado.

Texto: Ricardo Perna
Fotos: News.va e l'Osservatore Romano

8 de outubro de 2014

Papa não quer decisões para as «pessoas aplaudirem», mas sim «processos» que deem «frutos»


D. Victor Fernández, reitor da Universidade Católica Argentina, afirmou hoje aos jornalistas que o Papa não pretende que o Sínodo «produza decisões para as pessoas aplaudirem, mas que inicie processos, mais do que forçar decisões, e que esses processos produzam os frutos no tempo adequado». Esta foi uma resposta dada aos jornalistas que perguntavam por decisões ou hipóteses concretas a serem debatidas nas congregações gerais do Sínodo que decorre no Vaticano.

Questionado sobre a forma como a lei da gradualidade pode ser aplicada a casos concretos na Igreja, D. Fernández explicou que «o ideal que temos e que não devemos desistir choca com a realidade concreta das pessoas» e deu o exemplo da poligamia, um dos assuntos muito debatidos na aula sinodal, em virtude da intervenção, hoje, de muitos bispos africanos. «Em situações como a poligamia, que não podemos aceitar por causa da dignidade da mulher que defendemos, é preciso entender o que é possível fazer. O homem não pode simplesmente mandar embora as outras mulheres, que vão ser discriminadas e abandonadas, pelo que é preciso entender como abordar esta questão», sustentou.

O bispo argentino confirmou que o ambiente na sala é de respeito por todos, coisa que, aliás, o Papa tinha pedido. «Podemos falar o que quisermos, que o Cardeal Müller [Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé] não virá atrás de nós», gracejou o prelado, que voltou a referir a necessidade de defender a indissolubilidade do matrimónio. «Não podemos retirar a indissolubilidade do matrimónio, pois a mensagem de que o vínculo apenas se quebra com a morte é uma bela imagem. A maior parte dos padres sinodais concorda com a ideia, mas outros insistem no realismo de acompanhar o sofrimento dos outros, porque também Jesus chegava a todos», disse aos jornalistas.

Outro dos convidados no briefing diário foi D. Ignatius Ayau Kaigama, arcebispo de Jos, na Nigéria, país que recentemente aprovou uma lei que criminalizava a homossexualidade, e que foi apoiada pela Igreja. Questionado sobre isso, o prelado acusou os media de «apenas verem uma parte da questão». «A Igreja Católica respeita os seres humanos. Nós acreditamos que o casamento é entre homem e mulher, e tudo o resto está errado. Falámos a favor disso, o nosso governo aprovou uma lei que apoiámos, mas foi muito mal entendida. Nós dissemos que apoiavámos o conceito de casamento entre homem e mulher, não apoiámos a criminalização dos homossexuais, e os media apenas apanharam essa parte, e esqueceram que somos ferozes defensores dos direitos humanos, e que a Igreja Católica está na frente desse combate. Nós defenderíamos qualquer homossexual que esteja injustamente na prisão ou sofra violência», garantiu D. Kaigama.

Um dos assuntos debatidos foi ainda a forma como os países desenvolvidos procuram impor a sua realidade cultural aos países africanos, em troca de fundos monetários que cada vez interessam menos aos interesses dos responsáveis desses países. «Somos confrontados com pessoas que nos dizem que nos dão dinheiro se limitarmos os nascimentos, mas quem diz que crescemos demais? Quem diz que precisamos de limitar nascimentos? Nós queremos é educação e bons cuidados, não preservativos ou outros métodos contracetivos…», garantiu o bispo nigeriano.
«Estão a oferecer-nos as coisas erradas, e esperam que aceitemos, só porque somos pobres. Mas a pobreza não é uma questão financeira, e nós não somos pobres no nosso pensamento. Por isso dizemos “Não”, questionamos, e é isso que fazemos em África agora», assegurou o prelado de forma veemente.

Igreja não quer ser farol, mas sim tocha

Sobre os dias de ontem à tarde e esta manhã, o Pe. Lombardi, um dos três porta-vozes encarregues de passar uma síntese dos assuntos aos jornalistas, referiu que os temas mais falados foram a crise na família, a necessidade da «oração e da espiritualidade na vida familiar», a simplificação dos processos de nulidade (sem adiantar pormenores) e um testemunho que trazia uma imagem «positiva» da realidade dos sacerdotes casados nas igrejas orientais, por oposição ao debate da manhã de ontem sobre as dificuldades que esses sacerdotes encontravam.

O sacerdote italiano referiu uma alegoria utilizada no sínodo para descrever a ação da Igreja no terreno. «A Igreja não é farol, uma luz estática que não se mexe, mas sim uma tocha, que caminha com o povo, que está no seu meio a iluminar o caminho», ilustrou.

O Pe. Rosica, outro dos porta-vozes, falou de um ambiente «que não é catastrófico», ao contrário do que o relato das várias dificuldades poderia fazer supor. «Finanças, Migrações, todos os problemas relatados foram encarados com a postura “o que podemos fazer quanto a isto?”, não com uma imagem derrotista, e isto foi algo que me impressionou ao assistir aos trabalhos», referiu o sacerdote.

Os bispos abordaram a questão dos matrimónios civis também numa perspetiva inclusiva. «é preciso tomar atenção aos elementos dos casamentos civis que já existem e que possam conduzir as pessoas ao matrimónio canónico. Em vez de criticar a sua opção, devemos procurar elementos, ou sementes, que existam naquelas relações que os possam trazer até à igreja», referiram os bispos nas suas intervenções, apontando a «linguagem da misericórdia» que João XXIII falava como caminho a seguir na abordagem a estas pessoas.

Sobre os jovens e os problemas que enfrentam hoje com as suas referências, os bispos refletiram sobre a importância que as redes sociais têm hoje na formação da personalidade do jovem. «É preciso estar presente lá, para evitar o possível efeito destrutivo que essas referências lhes podem dar», referiram alguns bispos nas suas intervenções.

Os trabalhos desta tarde vão debater o tema das situações pastorais difíceis. Este será o dia mais esperado por muitas pessoas, pois debater-se-ão os temas dos recasados, das novas formas de família, dos processos de nulidade… poderá acompanhar todas as notícias no seu site www.sinododafamilia.familiacrista.com

7 de outubro de 2014

Igreja quer distinguir culpados e inocentes nas situações de separação



«O desafio deste Sínodo é o de tentar trazer de volta ao mundo de hoje, que em muitos aspetos se parece com os primeiros dias do Cristianismo, a beleza da mensagem cristã sobre o casamento e a família, sublinhando a alegria que dão, mas, ao mesmo tempo, responder, de uma forma verdadeira e caridosa, aos muitos problemas que têm impacto na família hoje em dia e incentivando que a verdadeira liberdade moral não é fazer o que cada um quer ou viver orientado pelos sentimentos individualistas, mas só é alcançada quando se chega à verdade». Foi assim que o cardeal Péter Erdò resumiu, nas conclusões do relatório preliminar que entregou hoje aos participantes do Sínodo para a Família, o desafio que é colocado à Igreja nos dias de hoje nesta temática da família.

O Relatio ante disceptationem, que congrega as respostas enviadas por todo o mundo aos Lineamenta, e todos os discursos que os participantes no sínodo já fizeram chegar à secretaria do sínodo, faz o ponto de situação da família e a da pastoral familiar da Igreja em todo o mundo. Não de uma forma quantitativa, mas de forma qualitativa podemos perceber quais os principais aspetos que serão discutidos neste Sínodo. Não é um texto de novidades, até porque retrata a realidade, mas é possível perceber, desde logo, qual a linha de pensamento da Igreja em muitos dos assuntos que irão ser abordados nos trabalhos sinodais.

O Cardeal Erdò define a família como «escola de humanidade», porque «desenvolve» a pessoa, «escola de relações sociais», porque ajuda a pessoa a desenvolver as suas competências sociais, e como «escola de santidade», na qual ajuda pais e filhos no seu caminho até à sua própria «santidade». Neste sentido, e apesar das «dificuldades que hoje encontra», a família «não é um modelo ultrapassado, já que temos indicação de que muitos jovens têm um desejo renovado de formar família».

O relatório admite que os católicos não têm conhecimento dos «aspetos específicos da doutrina e do Magistério da Igreja sobre o casamento e a família», e que muitas vezes «os ensinamentos [da Igreja] sobre o casamento e a família não são postos em prática». No entanto, e de forma algo surpreendente considerando a ideia anterior, o Cardeal Erdò defende que a «grande maioria dos crentes e teólogos» não coloca em causa estes princípios, e que os mesmos, «tendo em conta a forma como foram apresentados no Concílio Vaticano II e sumarizados no Instrumentum Laboris, gozam de um amplo consenso entre os católicos praticantes.

Nas questões da indissolubilidade do matrimónio, as declarações do cardeal são ainda mais surpreendentes, considerando a realidade pastoral europeia. Péter Erdò escreve no relatório que a proposta da Igreja «não é questionada e é observável na prática pastoral da Igreja com pessoas cujo casamento falhou e que procuram um novo começo». O prelado diz que isto é visível pelo testemunho de muitos casamentos felizes, e que, apesar do crescimento de situações sérias e irregulares, este testemunho positivo não pode ser ignorado.

Por isso, diz o cardeal, «o que está em discussão neste Sínodo de natureza pastoral não são questões doutrinais, mas de carácter prático – que são, mesmo assim, inseparáveis dos fundamentos da Verdade.

Sobre a questão da homossexualidade, «dois aspetos emergem da Instrumentum Laboris», segundo o Cardeal Péter Erdò. «Há um consenso alargado que não pode haver discriminação contra pessoas com uma orientação homossexual», e há «uma noção clara entre todos os batizados – e em todas as conferências episcopais – que não é possível equiparar as relações homossexuais ao casamento entre o homem e a mulher ou sequer considerar válida a ideologia das teorias de género».

Para o relator deste Sínodo, «seria desejável que o Sínodo, partindo das bases da fé, pudesse olhar para além dos católicos que pratica a sua fé e, considerando a complexa situação da sociedade, tratasse as dificuldades culturais e sociais que hoje pesam na vida familiar». «A família está a tornar-se rapidamente na última realidade humana num mundo determinado exclusivamente pelas finanças e pela tecnologia. Uma nova cultura da famíia pode ser o ponto de partida para uma civilização humana renovada», considera o cardeal.


Algumas (novas) ideias para os recasados
O problema da quebra no matrimónio é sentido por muitas dos que responderam ao inquérito, e deverá ser um assunto presente nas intervenções dos padres sinodais. O cardeal Erdò diz que esse é um problema que deriva da «influência da cultura existente», em que muitos «se reservam ao direito de não observarem a fidelidade conjugal, a divorciarem-se e recasarem, ou a não serem abertos à vida». Em função disso, e «apesar das palavras explícitas da liturgia que os noivos proferem, muitos celebram o sacramento do matrimónio sem uma noção clara de assumirem, perante o Senhor, um compromisso incondicionais e para toda a vida de doação ao outro».

Sobre as situações irregulares em que muitos católicos vivem, o cardeal Péter Erdò diz que é preciso «pensar na melhor forma de acompanhar as pessoas que se veem nessas situações, para que não se sintam excluídas da vida da Igreja». «As pessoas divorciadas e recasadas pertencem à Igreja. Precisam e têm o direito de receber cuidados da parte dos seus pastores. São convidados a ouvir a palavra de Deus, a participar na liturgia e na oração, e a se envolverem em trabalhos caritativos». Mais do que isto seria colocar em causa a indissolubilidade do matrimónio, e tal não se afigura possível, como já foi referido acima peloa cardeal.

No entanto, há aqui uma novidade, ou pelo menos o tornar público de uma reflexão que já vem sendo feita por alguns teólogos. «No que diz respeito aos divorciados que estão civilmente casados, muitos afirmam que é preciso fazer uma distinção entre aquele que é culpado pela separação e a parte que é inocente. O cuidado pastoral da Igreja deve estender-se a cada um de uma forma particular», diz o cardeal Erdò. Este é um assunto sobre o qual já muitos prelados, entre os quais o presidente do Conselho Pontifício para a Família, D. Vincenzo Paglia, e o cardeal Saraiva Martins, prefeito emérito para a Congregação para a Causa dos Santos, se tinham pronunciado. Coloca-se aqui a hipótese de admitir a morte do vínculo, que permitiria a essa «parte inocente» iniciar um novo vínculo válido aos olhos da Igreja, pelo que este será um assunto a seguir com atenção.

Muito ênfase foi também dado pelo Cardeal Erdò à questão da nulidade, prova de que foram muitos os que se terão pronunciado sobre esse assunto. «A verificação da existência de causas para a nulidade do vínculo matrimonial deve ser feita em diálogo pastoral, evitando qualquer forma de processo burocrático ou com interesse económico. Se tudo for feito na busca séria da verdade, o processo de nulidade pode ser, verdadeiramente, uma experiência de libertação», diz o cardeal no seu relatório.
A isto dirá também respeito as sugestões já lançadas de flexibilização dos processos de nulidade. «A obrigação de duas sentenças que confirmem a nulidade» pode ser algo a rever, diz, «desde que o processo não signifique que isto passe a ser o divórcio da Igreja».

Aliás, o Cardeal Erdò defende que «a prevalência, na sociedade, de uma mentalidade propícia ao divórcio, incentivada pela facilidade com que ele é concedido pelos tribunais civis, leva a que as pessoas celebrem o casamento canónico já a pensar que poderão deixá-lo se ocorrer alguma dificuldade. Esta mentalidade, mesmo que não conheçam os trâmites canónicos, pode provocar que um matrimónio seja inválido», defende o prelado.

Ainda sobre os divorciados, muitos participantes no questionário referiram a realidade ortodoxa, que permite uma segunda ou terceira união. «Examinar este assunto é necessário para evitar interpretações duvidosas e conclusões que não estejam suficientemente bem fundadas», avisou.

As discussões sobre este relatório tiveram início ontem e deverão durar toda a semana, até que seja elaborado, no próximo sábado, o relatório post disceptationem. Pode acompanhar tudo pelo site da Família Cristã em www.sinododafamilia.familiacrista.com

Texto: Ricardo Perna
Foto: News.va