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26 de outubro de 2015

Presidente delegado do Sínodo confirma que discernimento «pode chegar até à comunhão» de recasados



O arcebispo da Aparecida, no Brasil, o Cardeal Raymundo Damasceno, declarou ontem à Família Cristã e à Agência Ecclesia que o caminho de discernimento que os casais divorciados recasados fazem com o seu confessor ou orientador espiritual pode «chegar até à comunhão e à confissão». «No contacto com um ou com outro casal que deseje ser acompanhado», e depois de «um discernimento sobre a sua situação», «quem sabe, num caso ou noutro, chegar até à comunhão e à confissão», confirmou o cardeal, em declarações proferidas em Roma, no final da missa conclusiva do Sínodo dos Bispos, que decorreu em Roma nas passadas três semanas.

O cardeal brasileiro explica que o «Sínodo não tomou nenhuma decisão» geral sobre o assunto, antes determinando que cada caso seja avaliado individualmente. «O Sínodo fala muito do discernimento, porque cada caso é um caso. Não podemos generalizar as situações dos casais que vivem uma segunda união, porque cada um tem uma situação muito concreta, muito especial, com todas as circunstâncias que rodeiam a vida dessa pessoa», explicou o prelado.

Neste sentido, o cardeal diz que o Sínodo apela a «um discernimento sério, objetivo, com uma consciência bem formada, aberta também à vontade de Deus, para que, quem sabe, se possa chegar a uma conclusão mediante a decisão de um confessor ou de um orientador espiritual, que possa acompanhar o casal nessa situação, se assim o desejar». «O documento do Sínodo está marcado por uma dimensão da misericórdia, da ternura da Igreja, sobretudo com aquelas famílias mais sofridas e que estão em situações mais difíceis, como é o caso das famílias dos migrantes, de quem sofre pobreza extrema, ou violência e perseguição, e as pessoas que vivem situações especiais na sua vida matrimonial», sustentou.

Nesta situação estão «pessoas que não foram felizes na sua primeira união matrimonial, se separaram, contraíram uma segunda união, e aí estão, muitas delas participando na vida da Igreja nas nossas comunidades, com a limitação do acesso à comunhão e à confissão», mas também muitas que «talvez nem procurem a Igreja para resolver essa situação que estão a viver». É a essas que o Sínodo quer chegar e integrar. «É importante a integração dos casais nas nossas comunidades, abrindo espaços para eles e possibilitando, evitando qualquer tipo de escândalo, a possibilidade de participar nos ministérios e se integrarem na vida da comunidade», pede.

O prelado brasileiro, que dirigiu os trabalhos do Sínodo, fez um balanço muito positivo da reunião sinodal, explicando que a metodologia «possibilitou um maior número de encontros por grupos de trabalho, e isso facilitou a participação» de todos num documento «consultivo» que, sabem, é um apoio para as decisões que o Papa irá tomar. «São estudos e propostas que os padres sinodais oferecem ao Papa. Cabe agora a ele tomar alguma decisão no sentido de publicar alguma exortação pós-sinodal ou qualquer outro tipo de documento, para que então as conclusões possam tornar-se efetivas nas nossas dioceses e nas nossas paróquias», conclui.





Texto: Ricardo Perna (com Octávio Carmo)
Fotos: Ricardo Perna

24 de outubro de 2015

Família: Relatório final propõe prática do «Discernimento» nas comunidades


O cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, disse hoje no Vaticano que o Sínodo dos Bispos sobre a família propõe critérios de «discernimento» sobre situações como as dos divorciados em segunda união. Em conferência de imprensa, o presidente da Conferência Episcopal da Áustria referiu que o relatório final da assembleia, com votação marcada para esta tarde, «dá critérios não só para a questão do acesso aos Sacramentos mas para o acompanhamento de situações que o Catecismo chama irregulares».

 Especificamente sobre os divorciados que voltaram a casar civilmente, os participantes falaram com «com grande atenção», sem tocar a questão do acesso à Comunhão de forma «direta», mas com «a palavra chave discernimento». «Não há preto e branco, sim ou não», acrescentou. Esta apresentação traz «critérios fundamentais» para o «discernimento das situações» que são em muitos casos «tremendamente diferentes», sem as «julgar». «A própria palavra do Papa João Paulo II na Familiaris Consortio, diz que é obrigatório procurar a verdade e pede que os pastores exerçam o discernimento, porque as situações são diversas. Nisto, o Papa Francisco, como bom jesuíta que é, quer que este discernimento permita perceber a situação de cada pessoa», referiu o cardeal.

O cardeal Raymundo Damasceno Assis, presidente-delegado do Sínodo 2015, também confirmou aos jornalistas esta preocupação com o «discernimento», porque «cada situação é muito própria, muito concreta». «A dimensão da ternura e da misericórdia está no documento final. A preocupação é integrar as pessoas na comunidade eclesial, seja qual for a sua situação. Uma atenção muito especial pelas famílias em situações difíceis: migrações, pobreza extrema, a violência familiar, o problema dos meninos de rua, os divorciados recasados e tantas outras situações que encontramos nas famílias no mundo. A igreja quer estar próxima dessas famílias, muito atenta», refere o cardeal, acrescentando que, depois, é preciso discernir sobre as diferentes situações.

«Dentro desta integração, dá-se um processo de discernimento de cada situação, muito própria, muito concreta, para que as famílias possam participar nos mais diferentes âmbitos da paróquia. Isto faz com que possamos acompanhar melhor as situações de cada família, e fazer um discernimento que pode levar a uma comunhão plena com a Igreja», não especificando se esta comunhão plena seria possível de alcançar também pelos que estão divorciados recasados, apesar de os ter incluido no grupo daqueles que deverão ser acolhidos pela Igreja.

Para D. Christoph Schönborn, o essencial deste processo é o «grande sim à família» que foi dado pela Igreja Católica, após ter debatido o tema durante dois anos, «um facto notável para o nosso tempo». «O êxito deste Sínodo para mim é um grande sim à família, que não é um modelo ultrapassado», insistiu. «Toda uma biblioteca de livros foi publicada» sobre a família e a teologia, acrescentou o cardeal.

Para o cardeal austríaco, filho de pais divorciados, «não há rede mais segura, em tempos difíceis, do que a família, mesmo a família ferida, recomposta». Ainda em relação ao relatório final, um «documento de consenso», D. Christoph Schönborn adiantou que não haverá «muito sobre a homossexualidade neste documento», admitindo que «alguns ficarão desiludidos». O tema é «abordado sobre o aspeto da família, em que se faz a experiência de ter um familiar que é homossexual». O arcebispo de Viena realçou que este é um «tema demasiado delicado» para alguns «contextos culturais» e que, para a Igreja, a definição da família é «muito clara», exigindo a relação «homem e mulher», «fiel» e «aberta à vida». Esta definição não exclui «situações de recomposição familiar», mas permanece sempre como o «núcleo» do ensinamento católico.

O cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida (Brasil), elogiou a metodologia «diferente» desta assembleia sinodal, em que se deu muita importância aos trabalhos de grupo, com participação «muito maior» de todos, ajudando a encontrar o maior consenso possível. O mesmo responsável precisou, por outro lado, que a «descentralização» na experiência da vida da Igreja, sobretudo na América Latina, não significou, de forma alguma, «nacionalizar ou continentalizar» a Igreja Católica.


O Cardeal Schönborn concordou. «A nova metodologia é uma das grandes novidades deste sínodo. Sentimo-nos bem no final, em grande parte graças à nova metodologia, porque permite a todos exprimirem-se com calma. Nestes 50 anos de sínodo, é um verdadeiro progresso», concluiu.

A votação do documento final será esta tarde, após a qual o Papa Francisco irá concluir os trabalhos com uma mensagem.


Texto: Ricardo Perna/Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna