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25 de outubro de 2015

Acolher e discernir: a Igreja ao encontro da Família


Após três semanas de discussão e reflexão, o Sínodo dos bispos aprovou o relatório final que será entregue ao Papa como base de reflexão para que possa decidir o caminho que a Igreja fará com a Família para que esta possa ser, «na sua vocação e missão», um «tesouro da Igreja». Os 94 pontos do relatório foram aprovados pela maioria de 2/3 necessária à sua publicação como parte do relatório, o que reflete o que vários participantes foram dizendo à comunicação social durante os dias de trabalho, e que contradizia a alegada divisão que era noticiada por alguns órgãos de comunicação social.

O consenso foi conseguido mesmo em matérias mais sensíveis, como o acompanhamento dos divorciados recasados e aos casais em situações irregulares ou de rutura, que mereceram mais votos contra.

O Papa abordou essa questão no seu discurso final, quando falava na necessidade de compreender que as sensibilidades das diferentes culturas e realidades de todo o mundo levavam por vezes a entender de forma diferente o mesmo assunto, o que se traduz naturalmente numa riqueza de partilha e em eventuais discordâncias em algumas soluções.

Pastoral do discernimento com casais em situações de rutura ou irregulares 
Este caminho sinodal de dois anos resultou em duas perspetivas que podem marcar o futuro da Igreja nos próximos anos em relação à família: acolher e discernir. O acolhimento tem sido a grande bandeira já desde o sínodo do ano passado. Os participantes defenderam na altura, como defendeu este Sínodo, a necessidade de mudar a linguagem da Igreja, e torná-la mais positiva, não excluindo ninguém do seu seio.

No seu discurso, o Papa avisava que a Igreja não pertence apenas aos «justos e santos, mas é também pertença dos «pobres em espírito e dos pecadores a espera de perdão». Durante estas três semanas, os participantes do Sínodo pediram que a Igreja tivesse uma linguagem mais «positiva», que não afastasse ninguém.

Esse é o primeiro passo do acolhimento, mas o Sínodo foi mais longe. «A Igreja deve formar os seus membros – sacerdotes, religiosos e leigos – na “arte do acompanhamento”, diz o documento, que reafirma a necessidade de se falar do «sacramento do matrimónio» que, «como união fiel e indissolúvel entre um homem e uma mulher chamados a acolherem-se reciprocamente e a acolherem a vida, é uma grande graça para a família humana».


Nunca deixando em vista este fim último, e tanto o Sínodo como o Papa foram bem claros na necessidade de reafirmar a Doutrina da Igreja sobre o casamento e a família, o relatório pede uma atenção especial a todas as situações irregulares. O texto que vai ser agora entregue ao Papa refere que é missão dos padres «acompanhar as pessoas no caminho do discernimento segundo o ensinamento da Igreja e as orientações do bispo».

Na votação final, 178 dos 265 participantes que votaram (mais um voto do que os necessários para a maioria de dois terços), aprovaram o número 85, em que se apela a um «exame de consciência» das pessoas em causa sobre a forma como trataram os seus filhos ou como viveram a «crise conjugal». O documento questiona ainda se houve «tentativas de reconciliação», qual a situação do «cônjuge abandonado» e quais as consequências da nova relação «sobre o resto da família e a comunidade dos fiéis». «Uma reflexão sincera pode reforçar a misericórdia de Deus, que não é negada a ninguém», diz o documento.

Este relatório não aborda diretamente a possibilidade de acesso aos sacramentos dos divorciados recasados, que é neste momento negada pela Igreja Católica. Sobre isso, os participantes apresentam critérios de reflexão, recordando que há «condicionamentos» que podem anular ou diminuir a responsabilidade de uma ação. «Por isso, mesmo apoiando uma norma geral, é necessário reconhecer que a responsabilidade em relação a determinadas ações ou decisões não é a mesma em todos os casos», e nesse sentido nem «as consequências dos atos realizados são necessariamente as mesmas em todos os casos», pelo que é essencial o «discernimento pastoral» que tem de acompanhar cada situação.

O texto cita o ensinamento de São João Paulo II na Familiaris Consortio: «Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforçaram por salvar o primeiro matrimónio e foram injustamente abandonados e aqueles que por sua grave culpa destruíram um matrimónio canonicamente válido». «Há ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjetivamente certos em consciência de que o precedente matrimónio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido», acrescentava o Papa polaco, na sua exortação apostólica sobre a família.

A grande novidade, que abre a porta ao acesso dos divorciados recasados aos sacramentos que lhes eram até aqui negados, surge no ponto 86 do relatório. «A conversa com o sacerdote, no foro interno, contribui para a formação de um julgamento correto sobre o que dificulta a possibilidade de uma  mais plena participação na vida da Igreja e as medidas que podem promovê-la e fazê-la crescer», diz o relatório. A ideia de plena participação na Igreja inclui o acesso a sacramentos como a confissão e a comunhão, embora o documento não especifique claramente esta questão, deixando tudo na consciência do pecador e do sacerdote que o acompanha.

Preparação para o matrimónio mais efetiva 
Outro dos pontos fortes do relatório é a necessidade de uma preparação para o matrimónio mais efetiva, exigente, longa no tempo e, acima de tudo, inserida na vivência da comunidade paroquial. «A pastoral dos noivos deve inserir-se no empenho geral da comunidade cristã de apresentarem de modo adequado e convincente a mensagem evangélica sobre a dignidade da pessoa, a sua liberdade e o respeito pelos seus direitos», refere o relatório.

Para além disso, o relatório sugere que os agentes pastorais locais promovam a «integração da família na comunidade paroquial, sobretudo na formação cristã em vista aos sacramentos». Para isso, alertam que é importante que os sacerdotes sejam formados, a partir do seminário, a serem «apóstolos da família». O texto conclusivo do Sínodo valoriza a dimensão familiar na preparação do clero e dos religiosos, defendendo em particular uma «maior presença feminina na formação sacerdotal».

Os bispos apresentam depois os primeiros anos de casamento como um «período vital e delicado» para os casais católicos, o que exige um «acompanhamento pastoral que continue após a celebração do sacramento», com o compromisso de todas as paróquias e a ajuda de «casais especialistas», associações ou movimentos.

A este respeito, recorda-se que as dificuldades em ter filhos podem levar «rapidamente» a uma separação, pelo que as comunidades católicas devem oferecer um «apoio afetuoso e discreto». Aos padres é pedido também que acompanhem as famílias em situações de «emergência», provocadas por «casos de violência doméstica e de abusos sexuais».



A Família na sociedade
Grande parte dos 94 pontos postos a votação dizem respeito ao contexto sociocultural em que a família se vê envolvida na sociedade de hoje nas diversas partes do mundo, com os seus respetivos desafios. O Sínodo dos Bispos deixa uma mensagem de solidariedade às vítimas de violência doméstica e de maus-tratos, além de reafirmar «tolerância zero» para casos de abusos sexuais. «A prevenção e a resposta aos casos de violência familiar exigem uma colaboração estreita com a justiça para agir contra os responsáveis e proteger adequadamente as vítimas», refere o relatório final.

Os «grandes valores» do matrimónio e da família cristã como respostas aos anseios da humanidade num tempo de «individualismo» e «hedonismo». «A família baseada sobre o matrimónio do homem e da mulher é o lugar magnífico e insubstituível do amor pessoal que transmite a vida», refere o documento. Partindo de uma análise do contexto cultural e religioso em que vivem as famílias, face a uma mudança «antropológica» em que surge o desafio da ideologia do género, que «nega a diferença e a reciprocidade natural do homem e da mulher», o relatório analisa em seguida as situações dos vários elementos dos agregados familiares, com atenção aos idosos e criança, aos viúvos e aos solteiros.

São apontados alguns «desafios particulares», como a poligamia, o casamento entre católicos e fiéis de outras confissões cristãs ou religiões, a secularização ou a «desconfiança» dos jovens em relação ao matrimónio, e a família é apresentada como o «porto seguro», a «célula fundamental» da sociedade numa época de fragmentação.

O relatório final do Sínodo dos Bispos contesta ainda as políticas e os sistemas económicos contrários às famílias, em particular as que vivem em situações de pobreza e exclusão. «A hegemonia crescente da lógica do mercado, que mortifica os espaços e os tempos de uma verdadeira vida familiar, concorre para agravar discriminações, pobrezas, exclusões e violência», alerta o documento.

Os participantes dirigem-se às autoridades políticas para exigir que estas se empenhem «seriamente» na defesa da família, um «bem social primário», com políticas que a «apoiem e encorajem». «A acumulação de riqueza nas mãos de poucos e o desvio de recursos destinados ao projeto familiar agravam a situação de pobreza de famílias em muitas regiões do mundo», adverte o relatório.

Depois de todo este debate, falta agora saber a vontade do Papa. Francisco pediu uma abertura da Igreja ao acolhimento, e o Sínodo embarcou nessa nova missão de acolher verdadeiramente a todos, sem não esquecer a doutrina ou a tradição da Igreja. O verdadeiro desafio começa agora.



Texto: Ricardo Perna (com Octávio Carmo)
Fotos: Ricardo Perna

12 de outubro de 2015

Bispos podem pedir um novo Sínodo para o próximo ano


À medida que avançam os trabalhos no Sínodo dos Bispos sobre a Família, que decorre em Roma, começa a levantar-se a hipótese de um terceiro Sínodo sobre a família, a ser marcado no próximo ano.

A novidade foi revelada em primeira mão à Família Cristã por D. José Ornelas, bispo eleito de Setúbal e antigo superior geral dos dehonianos, que revelou que «já se fala de uma terceira etapa no sínodo», que pode passar por um novo sínodo, pedido pelos participantes na assembleia que decorre em Roma. «Começam a circular vozes de um terceiro Sínodo, no próximo ano, que possa ser ainda mais objetivo, pois a discussão tem levantado muitas questões que ainda estão a ser estudadas», afirmou o prelado.

Antes da sua partida para Roma, já D. Manuel Clemente dizia à Família Cristã que não se sabia se o Papa iria ficar por aqui na reflexão sobre a família. «E vamos ver se as coisas acabam por aqui. Depois do sínodo, ou o Papa acha que a matéria não está ainda suficientemente aprofundada e encontra outra maneira de continuarmos a refletir sobre isto, ou acha que já tem elementos suficientes para, como é normal acontecer, fazer um documento final que proponha à Igreja e ao mundo», dizia na altura o Cardeal-Patriarca.

Para além disso, também várias passagens dos relatórios dos círculos menores, entregues no final da semana passada, deixam a entender que os próximos 15 dias podem ser «insuficientes» para completar todo o trabalho que é necessário até ao fim do Sínodo, o que pode confirmar que este Sínodo não será a última etapa antes da exortação que o Papa deverá fazer para finalizar todo o trabalho iniciado em outubro de 2013.

D. José Ornelas refere que «o Sínodo não é um Concílio, é um órgão consultivo, mas o Papa tem todo a razão em dizer “vamos pensar e escutar o sentir da Igreja». Neste sentido, será de esperar que, nos próximos dias, se possa perceber se esta é uma possibilidade que se concretiza ou não.

Bíblia é o «livro de instruções da Humanidade» 
Sobre as questões que estão a ser debatidas no Sínodo, D. José Ornelas espera «muito». «Eu nunca participei num sínodo, mas o que tenho ouvido, de pessoas muito próximas que têm participado, é “a gente faz uma discussão, etc, mas nem chega a ser uma discussão, fazem-se uns discursos, apresentam-se ideias e depois o Papa faz uma mensagem”. O Papa Francisco mudou a metodologia, dando mais peso às discussões. Além disso, envolveu muito mais pessoas e a generalidade da Igreja. Isto é caminhar em Sínodus, não pode ser só uns tipos que se reúnem em Roma. Tem de ser um diálogo da própria Igreja, e foi a primeira vez que, para um Sínodo, se interpelou o povo de Deus», refere D. José Ornelas.

Um Sínodo que tenha em atenção os anseios das pessoas e que permita combater a «arrogância» do Ocidente. «Não nos esqueçamos que a conceção de matrimónio que temos no mundo ocidental é diferente noutras culturas, e a arrogância que temos muitas vezes de dizer que nós é que temos a verdadeira imagem do homem, da mulher, é uma arrogância da qual os outros se riem, porque ainda pensamos que somos o umbigo do mundo, e não é verdade», defende.

Afirmando que «temos de estar abertos a outras possibilidades», D. José diz que a «forma de compreendermos e fazermos agir» as verdades que são eternas no nosso mundo «tem de ser adequada, e sempre foram ao longo dos séculos, e a Igreja tem sido mestra nessa adaptação». Essa adequação passa por ter bem claro «o ponto de vista do Evangelho». «O Evangelho é um aprofundamento daquilo que é ser homem e mulher neste mundo. É isso que o Evangelho nos leva a descobrir», porque se não «aceitarmos que o mundo é um mistério que tem uma autorrevelação que é preciso entender», há certas coisas que a Igreja diz que «não está nas nossas mãos», para justificar nada fazer, e isso é muito perigoso. «Nós estamos com capacidades de intervenção novas, mesmo a nível das raízes da vida, e se não temos a sabedoria de entender as coisas, corremos o risco de fazer grandes borradas», avisa.

É neste sentido que D. José Ornelas defende que o que é disciplina pode ser mexido e atualizado. «Deus conta com o Homem para aperfeiçoar este mundo, e por isso lhes deus responsabilidade, as chaves da casa. «O carácter normativo da Bíblia é o livro de instruções da Humanidade e deste mundo. Ali estão os princípios, mas a adequação desses princípios e o desenvolvimento técnico é como a lei e a sua regulamentação. A disciplina tem de ser adaptada ao tempo, e entender a mente do Papa», pediu o prelado.

Acesso aos sacramentos é questão de disciplina 
Considerando que é necessário fazer um «upgrade» à Igreja, que não coloque em causa do Evangelho, mas que adeque a Igreja os dias de hoje, D. José Ornelas usa o exemplo dos divorciados recasados para explicar melhor este upgrade. «A questão da família não deverá sofrer nenhuma alteração, não é porque é uma leizinha, mas porque é uma proposta de felicidade para os casais. Mas o divórcio, por exemplo. No contexto bíblico em que aparece esta discussão, a mulher não era tida nem achada no assunto, e por isso Jesus diz “não, vocês não podem simplesmente repudiar uma mulher”, e já Moisés o tinha feito, permitindo que dessem o libelo. Porque naquela altura o homem separava-se da mulher mas não a tornava livre de se casar com outro homem, ficava como sua escrava, não como mulher. Isso não, e Moisés disse “faça-se justiça”, e pôs o homem e a mulher em paridade», sustenta.


Mas isto não significa que não haja projetos que falham. «As pessoas entram num projeto que era para durar, mas não durou. A vida é uma história, mas se essa história teve percalços e se está a reanimar agora, deve ter formas de expressão dentro da Igreja. Vamos simplesmente abençoar mais um matrimónio? Não, eles não são o mesmo matrimónio, mas são uma outra forma de viver em Igreja», e é preciso «encontrar resposta» para isso.

Resposta essa que pode estar na própria Bíblia. «Quando falha, Jesus diz “a não ser em caso de” e usa o grego porneia, uma palavra com muitas aceções», que a Igreja Ortodoxa entende de forma a permitir uma segunda união, válida aos olhos da Igreja. «A Igreja Ortodoxa, que é outro pulmão da Igreja, tem uma solução diferente, que tem de ser estudada. Não para dizer quem está certo ou errado, mas para ver quais são as soluções, dentro da tradição da Igreja e da Evangelho, que nos pode servir também a nós para encontrarmos caminhos novos.

Até porque a comunhão dos divorciados recasados «é uma questão de disciplina», segundo D. José. «Aos bispos [portugueses], o Papa dizia que temos de ver a incongruência de certas coisas. Temos um tipo que é um grande distribuidor de droga, arrependeu-se, a gente perdoou-lhe, vem à comunhão e ninguém faz problema. Mas se for um que está a procurar viver honestamente e a reconstruir a sua vida, já temos problema... Temos de encontrar formas novas, na busca de soluções que sejam verdadeiramente fiéis ao Evangelho, mas que sejam Boa notícia para estas pessoas. Não pode ser só “não podem”, tem de ser estudada uma forma de chegar a estas pessoas», defende.

O mesmo se passa em relação à poligamia, um problema do continente africano que o antigo superior geral dos dehonianos conhece bem de perto. «Eu vivi isso muitas vezes em missão. A poligamia, sabemos. Mas não podemos chegar e dizer “olha, tu tens 3 ou 4 mulheres, agora escolhe uma”. E as outras? O que se faz a essas mulheres? Temos de ter atenção para não cometermos injustiças que, sendo um bem para alguém, são um mal para outra. As pessoas têm de ser postas no centro da discussão dos problemas, não os princípios», conclui.

Texto: Ricardo Perna
Fotos: News.va e Ricardo Perna

6 de outubro de 2015

Comunhão aos divorciados é questão de doutrina ou disciplina?


A conferência de imprensa desta manhã, no Vaticano, fez um resumo dos trabalhos realizados até ao momento e deixou algumas pistas sobre o que serão os trabalhos dos próximos tempos. A começar, a surpresa de sabermos que o Papa interveio esta manhã no sentido de «orientar os trabalhos». Francisco disse aos mais de 400 participantes que «a doutrina católica sobre o Matrimónio não foi colocada em questão» na assembleia extraordinária de 2014, referiu o padre Federico Lombardi, em conferência de imprensa.

O Papa, que tinha aberto a primeira reunião geral, esta segunda-feira, com um discurso, voltou a falar esta manhã a pedir que os membros da 14ª assembleia evitem deixar-se «condicionar» ou «reduzir o horizonte de trabalho neste Sínodo», como se o único problema «fosse o da Comunhão aos divorciados, recasados ou não». Um sinal claro de que o debate estaria a centralizar-se apenas nesta questão, o que levou o Papa a intervir.

Questionado pelos jornalistas sobre se existiu uma intenção de forçar esta discussão por parte dos oradores, o arcebispo de Ontário, no Canadá, D. Paul-André Durocher, explicou que o problema estava na metodologia utilizada neste sínodo, que era nova para todos. «Não estávamos habituados a ter de trabalhar com base num documento, na Instrumentum Laboris, e isso provocou algumas dúvidas», disse o arcebispo, mas um documento idêntico sempre serviu de base a todos os Sínodos anteriores.

Nas duas congregações gerais, foram ouvidos 72 oradores, provenientes de todos os continentes, e foram vários os temas abordados, incluindo este da comunhão aos recasados, como já tínhamos dito. Apesar de não fazer parte do resumo dado pelos porta-vozes do Vaticano, os jornalistas questionaram os bispos presentes na conferência de imprensa. D. Claudio Maria Celli afirmou que a questão não estava fechada com o relatório e a intervenção do Cardeal Erdö, como não estava nenhuma outra questão. «Se a discussão sinodal sobre divorciados e recasados acabasse ontem com a apresentação do Cardeal Erdö, então o que estávamos aqui a fazer todo este tempo?», questionou em tom de brincadeira.

D. Paul-André Durocher concorda que «a apresentação do Cardeal Erdö foi uma parte do caminho», e foi dizendo que esta é uma questão que não está fechada. Há uma «diferença de opiniões» sobre se a Comunhão aos divorciados recasados é uma questão de «doutrina» ou de «disciplina», e essa reflexão «poderá ser feita agora nas reuniões dos círculos menores», disse aos jornalistas. «Vamos ser honestos: é uma questão de doutrina ou disciplina? Acho que é uma das questões que serão debatidas nos círculos menores, mais para a frente. Se quiser procurar o que é doutrina, compra o volume grande de Denzinger e vê o que está lá escrito…», disse, adiantando também que este não é o único assunto que irá ser tratado no Sínodo. «Não quero parecer que estou a levar este tema com leveza, mas o Papa disse-nos que este é apenas um assunto entre muitos», avisou o arcebispo do Canadá.

Absolvição geral por causa do Ano da Misericórdia? 
As intervenções destes dois dias ficaram também marcadas por outros assuntos. Foram muitos os que referiram a «necessidade de uma preparação para o matrimónio mais longa e que vá para além da celebração», disse o Pe. Thomas Rosica. Para além disso, referiu o Pe. Lombardi, alguns oradores falaram na «necessidade de formação do sacerdote para poder acompanhar os casais na preparação para o matrimónio», pois é preciso «mudar a linguagem».

A proposta mais surpreendente terá sido a de um orador, que sugeriu que fosse aplicado, neste Ano da Misericórdia, uma absolvição geral a todos os cristãos, como forma de «entusiasmar as pessoas a voltarem para casa, para a Igreja», disse o sacerdote, que informou que era apenas uma proposta levantada para reflexão, nada mais. O Pe. Thomas Rosica disse ainda que alguns oradores de língua inglesa tinham referido a necessidade de a Igreja ser como um GPS para os cristãos. «Quando a estrada falha, temos de descobrir novos caminhos para as pessoas, como um GPS», foi uma das ideias lançadas.

Sobre as pessoas com inclinação homossexual, «que são nosso sangue», os oradores referiram a necessidade de «não ter pena deles, mas antes reconhecê-los pelo que eles são: nossos irmãos». Falando da emancipação das mulheres, alguns dos oradores levantaram a ideia de que, apesar das coisas boas que a emancipação trouxe, as mulheres não se podiam esquecer «das responsabilidades delas perante a família, não esquecendo a maternidade», sendo que esses oradores referiram também a necessidade de «erradicar» o domínio que o homem exerce sobre as mulheres em alguns países.

Os participantes nas congregações de língua espanhola referiram a necessidade de encontrar «ferramentas» para auxiliar os casais, antes de se preocuparem com a questão da indissolubilidade. «Não podemos falar de indissolubilidade do matrimónio se não houver ferramentas para apoiar os casais na sua caminhada», disseram os bispos na sua intervenção.

Foi ainda referido, com maior ênfase pelos bispos africanos, o problema da poligamia, que afeta muitas comunidades em África, com muitas pessoas que se querem converter ao Cristianismo impedidas de o fazer pois têm muitas mulheres a seu cargo. A situação é complicada, pois se essas mulheres forem rejeitadas pelo homem, ficarão sozinhas sem qualquer possibilidade de se juntarem a mais alguém, pois essas sociedades discriminam essas pessoas.

Finalmente, um orador pediu ao Sínodo que se pronunciasse claramente sobre o que fazer com as pessoas que aparecem para se batizar, mas já são casadas pelo civil. A Igreja obriga ao casamento pela Igreja, o que levanta dificuldades, e o sínodo foi convidado a refletir sobre o tema e a encontrar caminhos de ajuda para essas situações.

Pode continuar a acompanhar todas as incidências do Sínodo no blogue especial que a Família Cristã criou para o efeito em http://www.sinododafamilia.blogspot.pt

Texto: Ricardo Perna
Fotos: l'Osservatore Romano

30 de setembro de 2015

Segundas uniões são «um assunto que precisa de ser estudado à luz dessa [dos dias de hoje] realidade»


D. Joseph Coutts, presidente da Conferência Episcopal do Paquistão, esteve no primeiro Sínodo, o ano passado, mas não estará neste, em virtude terem escolhido outros participantes para enviar como representantes do seu país, na vontade de «dar lugar a bispos mais novos», referiu o prelado. Mas isso não o impede de ter a sua opinião sobre alguns dos assuntos que vão estar em cima da mesa no Sínodo que se inicia no próximo dia 4.


Quais são os assuntos mais importantes que o Paquistão quer levar ao Sínodo de outubro?
A coisa boa é que o processo todo dos sínodos permite a participação de todos os países. Assim, se as nossas questões não forem abordadas, o problema não está no sínodo, está connosco, a falha será nossa. Divórcio e recasamento é um problema para nós, mas de uma forma diferente da Europa. Num país como o Paquistão, onde a taxa de literacia é pouco acima de 50%, os cristãos estão organizados, mas aparecem sempre uma série de pastores evangelistas que criam igrejas próprias com nomes muito bonitos, e isso confunde os cristãos que não têm formação.
Depois, o nosso governo reconhece o casamento religioso como válido, não é preciso casamento civil. Portanto, se um cristão quiser deixar a sua mulher, é possível que possam mudar-se apenas de cidade, pagar algum dinheiro a um destes pastores, que celebra o casamento sem saber que outro casamento já existe, e tudo fica legalizado. Sei que aqui isso não acontece, mas para nós é algo que sucede muito.

E, na sua opinião, as segundas uniões não são possíveis dentro da Igreja Católica? 
O processo, mesmo que o casamento tenha falhado e haja bom motivo para o anular, é tão longo que se encontram atalhos. Isto é uma teologia que ainda não desenvolvemos. Nós pomos as coisas do casamento num pedestal ideal que exige fidelidade até ao fim, e nem sempre é possível ao ser humano viver segundo esse ideal para sempre. O mesmo acontece no celibato dos sacerdotes. Mas aí é possível pedir dispensa do celibato, mas é mais difícil conseguir a anulação de um casamento. Há outras igrejas cristãs, como os ortodoxos, que têm outras práticas, pelo que penso que é um assunto que precisa de ser estudado à luz dessa realidade. Entretanto, o ponto que o Papa fala é o da misericórdia. Cristo representa o amor e a misericórdia de Deus, não apenas o cumprimento de leis que temos de obedecer.

As pessoas precisam de uma aproximação mais misericordiosa? 
Sim, precisam. Mas como vamos fazê-lo, sem tornar isto uma regra? É por isso que o Sínodo será muito duro. No final, espero que estas questões tenham resposta, embora saiba que não será fácil. Até porque estas questões vão levantar alguma fricção, como fez Jesus no seu tempo, quando perdoou as pessoas ou se sentou com pecadores.

Alguns dos participantes queixaram-se que as suas necessidades foram deixadas de lado no Sínodo ou na comunicação social, pelo menos.
Acho que isso aconteceu, de alguma forma. Mas os problemas do Mundo Ocidental são muito diferentes dos nossos. A poligamia em África é um deles. Podem ter uma família grande, que vive feliz numa grande casa, e depois temos de dizer ao chefe tribal que quer ser batizado que ele tem de mandar para casa 3 das 4 mulheres que tem. De acordo com a cultura deles, isso não era problema, e agora temos de dividir a família, e isso abriu-nos os olhos. Nos países asiáticos e em alguns africanos há a ideia de que a homossexualidade e o casamento é algo que não pode existir. Não é comum para nós, mas isso é diferente de aceitar pessoas que são homossexuais. Mas usar o termo casamento para nós também não é aceitável de todo.

Teme algum Cisma na Igreja por causa disto? 
Não creio. Depois do Vaticano II, as mudanças começaram a chegar e nós tínhamos um cardeal cuja lema era “sem mudança”, mas mesmo ele acabou por ir mudando. Haverá tensões, mas não vejo em que possa resultar dali uma divisão séria.
Temos de estudar bem os assuntos e saber bem o que queremos, porque não podemos dar a impressão de que estamos simplesmente a deitar à rua tradições que estão aqui há milhares de anos, mas sim olhar para elas sob uma nova luz, uma luz mais abrangente e, se essa luz sugerir mudanças, então elas devem ser feitas.