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29 de outubro de 2015

Cardeal-Patriarca pede «apostolado familiar nas comunidades» e rejeita comunhão aos recasados


D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) afirmou hoje em conferência de imprensa no Patriarcado de Lisboa que é preciso «investir muito mais» do que até agora na formação e preparação para o matrimónio. «Temos de investir muito mais nas áreas da preparação do matrimónio e na nulidade. Se estamos num debate grande e diferenciado em que queremos que a Igreja se assuma como família de famílias, temos de investir muito mais nisto», afirmou aos jornalistas presentes.

Questionado sobre se a CEP irá uniformizar os procedimentos em todo o país com algum documento base, o seu presidente diz que haverá «indicações», mas que a solução não vira das instituições, mas sim das próprias famílias. «A esperança está no apostolado familiar nas comunidades, sujos resultados serão muito melhores que uma intervenção institucional a nível nacional. Elas é que podem fazer esse acompanhamento da melhor forma, com princípios gerais de elucidação e acompanhamento que sirvam de exemplo aos mais novos», referiu o prelado.

Reafirmando que a proposta católica é «para quem deseje aceitá-la», D. Manuel Clemente rejeitou que o documento final do Sínodo tenha trazido grandes mudanças. «O projeto católico é uma das propostas existentes na nossa sociedade. Haverá outras, e os casais poderão escolher, mas a nossa proposta é clara e está bem definida», referiu quando questionado que mudanças poderia haver para os divorciados recasados, uma das áreas mais mediáticas do último Sínodo. «O sacramento não pode contrariar outro sacramento, e se há uma união sacramental, não pode participar na comunhão», defende o presidente da CEP.

Isto não significa, no entanto, que o resto da vida comunitária paroquial e de ministérios esteja negada a estes casais. «Dependendo da sua caminhada e testemunho, podemos questionar, como o fizeram o Papa Francisco e o Papa Bento XVI enquanto eram bispos, se não haverá espaço para estes casais nos diferentes ministérios da paróquia, e porque não até podendo assumir as responsabilidades de padrinhos nos batizados. É preciso analisar a situação de cada um e responder em conformidade», disse.

Considerando que «o critério familiar tem de ser o critério de pastoral» a partir de agora, D. Manuel Clemente a família tem de «ser a base de tudo o que se faz na pastoral». «Se estamos num ambiente em que a problemática familiar se põe desta forma, temos de tirar conclusões práticas para o acompanhamento das famílias», disse, acrescentando que «tudo passa pela colaboração dos leigos com os sacerdotes» em cada comunidade.

Situação política deve resolver-se à luz do bem comum 
No final da conferência de imprensa, D. Manuel aceitou comentar a situação política do país, e retomou o que já tinha dito em entrevista à Família Cristã antes das eleições. «Para os cristãos, que existem em todas as forças políticas do nosso país, e para todos os que se declaram admiradores das palavras do Papa Francisco, pedimos que tomem em conta o que o Papa tem dito, a Doutrina Social da Igreja e a última encíclica papal, que fala da ecologia integral», sustentou.

«Se há pessoas que se dizem católicas, então levem isso até à consequência da sua ação partidária», pediu, relembrando os quatro pilares sobre os quais considera que a política deverá assentar a sua ação. «Há princípios que são nossos e que não abdicamos: o respeito pela vida e dignidade humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade. Na conjugação destas quatro rodas, o carro anda bem», assegurou.

Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna

24 de outubro de 2015

«Deixámos tudo nas mãos, na cabeça e sobretudo no grande coração do Papa Francisco»


D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa e um dos delegados da Conferência Episcopal Portuguesa, fez, em primeira mão para a Família Cristã e a Agência Ecclesia, um balanço deste Sínodo e do relatório acabado de aprovar. À saída da aula sinodal, o prelado mostrava-se muito «satisfeito» com o resultado dos trabalhos das últimas três semanas e com o consenso que foi possível alcançar na aula sinodal em relação a todos os pontos do relatório final.

Satisfeito com o resultado destas três semanas de trabalho? 
Muito satisfeito. No complemento do que aconteceu o ano passado, os temas foram tratados com mais incidência na missão da família na Igreja e na sociedade, mas com muita serenidade. Eu estive nos dois sínodos e reparei nisso, como a generalidade dos meus colegas também repararam, sobretudo os que tinham estado o ano passado, porque, na primeira vez, alguns dos temas tratados aqui, a este nível, e numa assembleia com o Santo Padre, apareciam de forma meio inusitada, e causavam perplexidade e debates intensos e acalorados, por vezes. Desta vez foi tudo tratado com muita serenidade, quer no plenário, quer nos trabalhos de grupo. As questões já foram vistas com outra naturalidade, e isso deve-se muito à feliz ideia do Santo Padre de não ter querido resolver o assunto numa só assembleia sinodal, mas nestas duas fases. Isto começou com uma consulta ao povo de Deus, depois uma assembleia sinodal, os resultados da primeira assembleia voltaram às dioceses, depois voltaram aqui e foram aprofundados no sentido mais de projeção da realidade da família na sociedade e na igreja... toda esta sequência permitirá agora ao Santo Padre pegar nas reflexões e nos resultados, nas propostas desta assembleia, e ver que tratamento lhe há-de dar. Todos ficamos à espera que, como sucessor de Pedro, nos confirme na fé a nós e às famílias cristãs.

Havia a ideia de que a assembleia estava dividida em muitos assuntos, e que não havia forma de resolver os problemas levantados... 
O burburinho que por aí houve não correspondia ao que se passou na aula sinodal, nem nos trabalhos de grupo, nem nas conversas de corredores, nada... Este foi um exercício de sinodalidade, um caminho que se faz em conjunto, e que o Papa quer que se torne habitual na vida da Igreja a todos os níveis. Ainda agora foram os 50 anos do Sínodo dos Bispos e ele sublinhava muito este aspeto de caminharmos em conjunto nos diversos patamares da vida da Igreja, das famílias às comunidades, aos movimentos, às dioceses, as conferências episcopais, aqui em Roma... este tipo de vivência eclesial, que o Papa exprime como sinodalidade, vai ficar e de certa maneira vai transpor para a Igreja aquilo que é mais espontâneo nas famílias, onde todas as pessoas conversam frequentemente, partilham uma vida muito próxima e comum nas famílias, homens, mulheres, pais e filhos. Que isto se projete também na história da Igreja num exercício conjunto de vida e de procura é o que se espera.

E a Família, como fica, depois deste Sínodo? 
Essa poderia ser a primeira nota a retirar, a família. Como o Papa disse no discurso final, não saímos daqui a dizer e a pensar “família” como quando esta reflexão começou. Com a ajuda das várias famílias aqui presentes, responsáveis de movimentos familiares leigos e leigas, e até um bebé que de vez em quando chorava na aula sinodal e nos lembrava a realidade familiar em todas as suas faces, enfim, com tudo isto, vamos muito mais enriquecidos para as igrejas que servimos nas nossas dioceses com uma reflexão conjunta e que sublinha o papel real da família na Igreja e na sociedade. E com uma consequência prática muito forte: se isto é assim, temos de dar muito mais importância às famílias, à preparação para o matrimónio, ao acompanhamento das famílias cristãs, mesmo aquelas que vivem em rutura, para vermos o que podemos consertar com a ajuda de todos.

E naquelas em que já não é possível consertar nada? 
Naquelas em que já não seja possível recuperar a situação anterior, continuar a considerá-los, como são, nossos irmãos e irmãs, batizados que têm o seu lugar na comunidade cristã. O aspeto muitas vezes frisado de saber se acedem ou não à comunhão sacramental não foi demasiado frisado como foi o ano passado, porque a comunhão eclesial não passa necessariamente por aí, dada a ligação que esse aspeto tem a uma ordem de Cristo aqui citada muitas vezes, que foi «não separe o Homem aquilo que Deus uniu». É preciso ter uma atenção redobrada da parte da Igreja a saber se Deus uniu mesmo, ou seja, se foi válido aquele sacramento, e daí a importância do Motu proprio do Papa no mês passado, que fez com que nós encaremos, nas dioceses, de forma, não digo mais fácil, mas mais simplificada todos esses casos. Porque se realmente a família é assim tão importante, vamos dar-lhe a importância que ela tem, quer na preparação, quer no acompanhamento daqueles que já não vivem a família como a começaram dantes. Para todos uma atenção redobrada, porque o seu papel é indispensável para a Igreja e para a sociedade.

O documento dá indicações claras às igrejas sobre como proceder perante as situações irregulares, e na necessidade do discernimento e de julgar caso a caso. Até onde pode ir essa distinção? Até à comunhão, em alguns casos? 
A comunhão sacramental tem a ver com a validade do vínculo, e saber se houve ou não houve, e a atenção a esse nexo é que fica aqui mais vincada e mais redobrada. Depois o acompanhamento caso a caso, quando o Sínodo falou nisso, é para verificar o que o Papa João Paulo II já disse há 30 anos na Familiaris Consortio. Temos de ter muita atenção porque os casos não são todos iguais, e às vezes uma expressão forte pode encobrir situações muito diversas. É o que estamos a fazer e o que vamos continuar a fazer.

Mas pode chegar a permitir, em casos pontuais, o acesso à comunhão de alguns desses casais, em casos específicos, com um caminho penitencial próprio? 
Está sempre em ligação com o vínculo, de saber se houve ou não houve. Por isso, a atenção mais pessoal a cada caso pode permitir constatar se houve ou não houve vínculo. Muitas vezes constata-se que não houve vínculo matrimonial e abre-se a porta à comunhão.

D. Manuel Clemente e D.Antonino Dias, os dois delegados da Conferência Episcopal Portuguesa ao Sínodo

Do relatório, o que destaca ser mais importante levar para a Igreja em Portugal? 
O novo protagonismo que a família cristã tem de ter na comunidade para depois se projetar na sociedade. A sociedade portuguesa, como a generalidade das cidades do chamado mundo ocidental, é muito individualizada. As pessoas já não vivem naqueles núcleos familiares garantidos e tradicionais, ou por procura de trabalho, ou porque nem as próprias casas permitem que lá vivam famílias grandes ou porque o ambiente não valoriza muito a constituição de famílias numerosas. É preciso reforçar o papel da família na vida da Igreja, para ela ser sinal, testemunho e fermento de um reforço da família na sociedade. As famílias cristãs são famílias da nossa sociedade. Reforçado o seu papel e a consciência do que valem, também depois isso pode e deve transferir-se para a sociedade no sentido de a tornar mais familiar, mais próxima, mais vizinha, mais solidária entre gerações, todos. Isso aprende-se na família e se queremos fazer uma sociedade humana temos de começar por aqui. 

Algumas pessoas temiam um relatório pouco prático, em relação a diversas matérias. Sente que é um relatório que aponta caminhos práticos e concretos, onde o Papa se poderá basear para definir o papel da família na Igreja para os próximos tempos? 
Creio que sim, e foi isso mesmo que pedimos ao Papa. Com estas reflexões vindas dos grupos, que contêm sensibilidades que são distintas, conforme os continentes, as regiões e as culturas, pedimos que nos dê orientações mais concretas e mais práticas. Pediu-nos para refletir a nós e a toda a Igreja, que o fez com todos os milhares de respostas que aqui chegaram, pelo que agora deixámos isto tudo nas mãos, na cabeça e sobretudo no grande coração do Papa Francisco, e esperamos que nos diga como é que vai ser.



Texto e fotos: Ricardo Perna

23 de outubro de 2015

Sínodo pode ser o «início de uma nova Igreja»


O relatório final do Sínodo dos Bispos, que vai ser votado este sábado, é visto como um documento conciliador que congrega as várias visões da assembleia para as apresentar ao Papa, propondo uma nova relação Igreja-Família. Segundo o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, foram feitas 1.355 propostas de alteração ao Instrumentum Laboris, ao longo das três semanas de encontro, num esforço que foi recebido com «satisfação» pela assembleia.

O responsável disse em conferência de imprensa que as reações gerais em relação ao texto proposto vão no sentido de o considerar «muito satisfatório» e mais «organizado». O cardeal Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz (Santa Sé), disse aos jornalistas que faltam «pequenos detalhes» para que o documento, com votação marcada para a tarde de sábado, seja algo com que «todos possam concordar».

D. Luc Van Looy, bispo de Gent (Bélgica), falou num Sínodo «pastoral», que se preocupou com as famílias a partir de três palavras-chave: «Escuta, acompanhamento e integração». «Se a Igreja fosse isto, o Sínodo, teríamos o fim do julgar as pessoas, de uma Igreja que julga em todas as situações, antes uma Igreja acolhe, que caminha com, que escuta, que fala com clareza» e com «ternura» sobre todas as situações da família, precisou. «Poderia ser o início de uma nova Igreja», prosseguiu.

O cardeal Peter Turkson falou de um «Sínodo emblemático» na vida da Igreja e considerou natural que haja «pontos de vista diferentes» quando se discute «uma instituição humana básica», que é a família. O prelado ganês rejeitou, por outro lado, que a homossexualidade seja vista como um «tabu» pelos prelados africanos, face ao que acontece em países islâmicos ou na Rússia. A esse respeito, pediu «tempo de crescimento» para os países que têm «dificuldade» na compreensão desta realidade, sublinhando que entre 1971 e 1975 estudou nos EUA, numa altura em que os livros de psicologia apresentavam a homossexualidade como uma «anormalidade», algo que mudou. «Encorajamos os nossos a não criminalizar este fenómeno e pedimos aos outros que não vitimem as pessoas que têm problemas com esta situação», prosseguiu.


O cardeal Cyprien Lacroix, arcebispo do Quebeque (Canadá), elogiou por sua vez a experiência de universalidade, de «escutar todos», com partilha de testemunhos das várias famílias no Sínodo. «Volto a casa com muito mais esperança do quando cheguei», confessou. O cardeal canadiano rejeitou a ideia de «receitas milagrosas» para todos os problemas, sublinhando a importância do «acompanhamento» das famílias pela Igreja.

No dia em que foi anunciado que o Sínodo dos Bispos vai aprovar uma declaração sobre as famílias do Médio Oriente, D. Luc Van Looy mostrou-se preocupado com os refugiados e deslocados que chegam à sua diocese, recordando ainda «as famílias que estão nos campos de refugiados». «Como se vive a vida familiar nestas situações?», questionou.

Um Sínodo à sul-americana
A manhã no Sínodo foi mais longa que o normal neste Sínodo. Os trabalhos terminaram mais tarde que o habitual, e havia semblantes carregados à saída da aula sinodal. Apesar disso, em declarações à Família Cristã e à Ecclesia, o arcebispo de Mérida, na Venezuela, D. Baltazar Porras, dizia que estamos «no momento mais belo do relatório final». «O projeto reflete bem o que se passou dentro da aula sinodal. A partilha dos diversos pontos de vista é o que podemos oferecer ao Papa e ao mundo, e é uma porta que se abre para lidar com muitas situações complicadas com que a família se depara», declarou.

Após elogiar a presença «fraterna e próxima» do Papa nos trabalhos sinodais, D. Baltazar Porras espera que a votação de amanhã, sábado, possa ser «unânime». «As convergências são mais do que as divergências, porque o espírito que tem estado esta semana é a preocupação pastoral e a experiência que, vindos de todas as partes do mundo, trazemos para aqui», afirmou.

Neste sentido, elogia também a metodologia trazida para o Sínodo pelo Papa, uma metodologia sul-americana. «O método deste Sínodo é muito mais parecido com a forma como trabalhamos na América Latina, e essa é marca do Papa Francisco, porque ele foi relator principal na Aparecida [5ª Conferência do Episcopado Latino-americano de 2007] e sempre teve este espírito de abertura, respeito uns pelos outros e podermos falar com liberdade. Isso percebemos estes dias», disse.



Texto: Ricardo Perna/Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna


5 de outubro de 2015

Relatório inicial reforça indissolubilidade, pede acompanhamento dos casais, mas esquece África

© Foto Lusa
Os trabalhos do Sínodo Ordinário sobre a família iniciaram-se verdadeiramente hoje, com a leitura do relatório inicial, que faz um ponto de situação sobre as opiniões e reflexões levadas a cabo no anterior sínodo, juntamente com os contributos que, durante ste ano, foram chegando ao Vaticano em resposta à Lineamenta que foi enviada para todos os fiéis e que resultou na construção da Instrumentum Laboris, documento que irá orientar os trabalhos sinodais.

A leitura do documento na aula sinodal ficou a cargo do Cardeal Péter Erdö, o relator geral do Sínodo. Dividido em três partes, o relatório traz um retrato do que foi a escuta dos fiéis sobre a família, o discernimento da vocação familiar e a missão da família hoje. Começando desde logo por afirmar que «o movimento migratório está a desintegrar as famílias ou é uma dificuldade para que venha a ser formada. Em muitas partes do mundo os jovens pais deixam os seus filhos em casa e procuram trabalho no estrangeiro», refere o relatório.

Defendendo que a família «oferece uma possibilidade de desenvolvimento humano que é insubstituível», os relatos dos fiéis falam de uma realidade onde o casamento é cada vez menor porque as pessoas se ligam cada vez menos aos compromissos. Neste sentido, é preciso anunciar «um verdadeiro caminho para a felicidade», como Paulo o fazia, já que o matrimónio é «um objetivo da existência humana». Neste sentido, «as famílias cristãs são chamadas a testemunhar o Evangelho com a sua vida de acordo com o próprio Evangelho, através de um anúncio missionário. Os cônjuges reforçam a sua fé e passam-na aos seus filhos, mas também as crianças e outros membros da família são chamados a compartilhar sua fé».

É neste sentido que o relatório reforça o valor da indissolubilidade do matrimónio, um dos aspetos que mais irá ser debatido neste sínodo, admitindo a «exigência» desta condição. «Os Evangelhos e São Paulo também confirmam que o repúdio da sua esposa, praticado em primeiro lugar entre o povo de Israel, não pode tornar possível um novo casamento para qualquer das partes. Esta afirmação é tão incomum e tão exigente manteve-se presente ao longo dos séculos na tradição disciplinar da Igreja, constituindo um elemento ainda a tal ponto que, entre os povos convertidos que se converteram ao Cristianismo, a monogamia e a indissolubilidade do casamento tornou-se uma matéria disciplinar».

Sobre este tema, o relatório fala da necessidade de criar uma «comunidade de amigos verdadeiros», que podem surgir dos grupos de casais que se juntam para acompanhar os casais recém-casados. «Pertencer a um grupo dessa natureza, pode amadurecer a fé do casal, especialmente se essas comunidades de famílias se reunirem regularmente, lerem a Sagrada Escritura, orarem juntos e fizerem crescer a sua fé à luz do ensinamento da Igreja, especialmente através do Catecismo da Igreja Católica».

Poder fazer este caminho de acompanhamento é um «desafio» para bispos e sacerdotes e podem exigir «novas formas de catequese e testemunho, em plena fidelidade à verdade revelada por Cristo», mesmo que isso possa implicar, segundo o relatório, um afastamento de algumas pessoas. «Se falamos do fundo do nosso coração, se não houvermos desistido de prestar contas a nós mesmos em primeiro lugar de nossa fé, então podemos falar aos outros com convicção e coragem. Se dizemos francamente aos outros aquilo em que acreditamos, não devemos ter medo de não sermos compreendidos, porque também somos filhos de nosso tempo. Assim, embora nem todos aceitem a proposta, o anúncio vai ser compreensível para todos», pode ler-se.

© Foto Lusa

Escutar todas as situações, mas sem colocar em causa indissolubilidade do matrimónio
Sobre o problema dos casais divorciados e recasados, o relatório pede a criação de «centros de escuta», com grupos de pessoas que possam ajudar, por um lado, a tentar a reconciliação e o perdão de pessoas divorciadas que ainda não iniciaram uma nova relação, e por outro possam acompanhar as crianças que são vítimas dessas situações. Estes centro serviriam também para orientar alguns no sentido de compreender o novo processo de nulidade matrimonial criado pelo Papa Francisco há dias.

Admitindo que a questão do acesso à comunhão e à confissão «é um assunto que requer profunda reflexão», o relatório reafirma que estas questões não são proibições, mas sim «exigência intrínsecas no contexto do testemunho da Igreja». No entanto, mesmo com essas limitações, o relatório refere que os divorciados recasados «são orientados no sentido de aumentar a sua integração na vida da comunidade cristã, tendo em conta a diversidade das situações iniciais».

O relatório, que, conforme foi referido na conferência de imprensa que se seguiu à leitura do relatório, é «um ponto de partida para a reflexão e não o final», afirma ainda que a opção ortodoxa, que permite uma segunda união, «não pode ser avaliada adequadamente usando apenas a estrutura conceptual desenvolvida no Ocidente no segundo milénio. Deve-se ter em mente a grande diferença sobre os tribunais institucionais da Igreja, bem como o respeito especial para com o direito dos Estados, que por vezes pode tornar-se crítica, se as leis estaduais são separadas da verdade do matrimónio, de acordo com o plano do Criador», numa referência clara ao facto dos estados permitirem várias uniões válidas civilmente.

© Foto Lusa
Finalmente, o relatório volta a falar sobre a abertura à vida e aos métodos de planeamento familiar, assumindo-se mais uma vez de forma paradoxalmente estranha. Se, por um lado, afirma que a vida em plenitude leva a «sugerir um ensino adequado sobre os métodos naturais para a procriação responsável», também por outro lado aconselha a que, conforma explica a encíclica Humanae Vitae, se «respeite a dignidade da pessoa na avaliação moral dos métodos de regulação da natalidade». Este respeito, por enquanto, não chega para permitir a utilização de métodos artificiais, o que, de alguma forma, leva a questionar se este respeito pela escolha existe verdadeiramente.

Uma grande surpresa foi a ausência de referências no relatório a questões mais próximas da igreja africana, como a questão da poligamia. Questionados sobre isso, os prelados presentes na conferência de imprensa afirmaram que essa foi «uma escolha vossa [dos cristãos]». O cardeal Erdö afirmou que os bispos esperam com grande expetativa «o contributo dos bispos africanos» que já no Sínodo passado deram um bom contributo, sem no entanto explicar o porquê da omissão destes assuntos do relatório inicial.

É sobre este relatório que se irão desenrolar os trabalhos na próxima semana, com intervenções dos vários prelados presentes na aula sinodal, entre os quais D. Manuel Clemente, que afirmou, em entrevista à Família Cristã, que iria pedir a «reorganização da igreja em chave familiar» na sua intervenção.

Pode acompanhar o trabalho do Sínodo no blogue que a Família Cristã criou em http://sinododafamilia.blogspot.pt

Texto: Ricardo Perna

30 de setembro de 2015

«Na Igreja celebramos o casamento, mas depois não acompanhamos as famílias»


D. António Francisco dos Santos, bispo do Porto, falou à Família Cristã sobre o Sínodo que agora se inicia, revelando que espera decisões concretas da parte do Papa. Para o prelado do Porto, a principal preocupação está na integração dos casais na comunidade, num caminho que se inicia na preparação para o matrimónio, que deve ser mais exigente, e continua depois do matrimónio, num acompanhamento que as comunidades ainda não dão aos seus casais.

O Papa tem tentado chamar a atenção para a família, marcando estes dois sínodos e dedicando as suas catequeses semanais a esta temática. É uma estratégia que está a resultar? As pessoas estão, de facto, a olhar mais para a família? 
Eu penso que foi uma pedagogia muito própria do Papa Francisco, que eu admiro. Ajudou-nos a compreender que a decisão do Sínodo sobre a Família era uma decisão dele, rezada junto de Deus. Ao chegar, o Papa Francisco trazia esta preocupação e este sonho de colocar a igreja disponível para refletir sobre a família. Foi uma pedagogia nova, pois ele quis realizar o Sínodo em dois momentos. Primeiro numa assembleia extraordinário, em que quis auscultar todo o mundo, independentemente de serem cristãos ou não. Procurou que aí se afirmasse e revelasse o que o mundo e a sociedade pensa da família, não apenas a igreja. Agora, com esta segunda fase, ele procurou devolver essa reflexão às nossas dioceses para que lhe digamos aquilo que pensamos e sonhamos para a família.

Mas a estratégia de facto levou as pessoas a discutir mais a família? 
Teve frutos práticos em três vertentes: valorizámos a família no que de melhor e mais sagrado tem, que é fonte de vida, espaço do amor e escola da educação e igreja doméstica; veio dizer à humanidade inteira, que deu grande atenção à decisão do Papa, que a família é importante, e nós na sociedade muitas vezes não damos essa importância e desvalorizamos aquilo que ela mais precisa, que é o respeito e ajuda de todos nós; em terceiro lugar veio dizer que a ação pastoral tem de ser diferente. Precisamos de ter mais atenção quer à preparação das famílias, quer ao acompanhamento depois da celebração dos sacramentos. Muitas vezes a igreja tem esquecido esse acompanhamento espiritual, humano, de integração na comunidade, de ajuda nos momentos difíceis.
A Igreja tem de fazer aí um imenso caminho. Há muito trabalho feito, valorizemo-lo, mas há ainda um grande caminho para andar, e muita forma diferente de acompanhamento e acolhimento, e mesmo de valorização dos movimentos de espiritualidade familiar, ao qual não temos dado tanta atenção como deveríamos ter dado.

No relatório final do Sínodo extraordinário, falou-se da necessidade das famílias serem sujeitos de evangelização, em vez de meros objetos de evangelização. As famílias já compreenderam esta urgência de se “chegarem à frente”? 
Eu creio que esse é um dos dados mais valiosos do relatório final e uma das descobertas que quem está mais atenta à vida das igrejas diocesanas há muito o fez, mas que nem sempre deu a visibilidade e importância e até a capacidade institucional necessária. Nós setorizamos demasiado a pastoral. Fizemos catequese para as crianças, pastoral de saúde para os doentes, serviço social aos idosos, tivemos algum acompanhamento nos movimentos de casais, mas nem nas comunidades promovíamos momentos em que toda a família podia estar reunida. Ultimamente a catequese deu-se conta que o melhor caminho é valorizar a catequese familiar, e a pastoral deu-se conta que, mais do que setorizar iniciativas, temos de valorizar a família no seu todo.
Esta é hoje uma realidade palpável e só não vê isso quem não quer, e por isso é necessário que todos nos mobilizemos para isso. A minha experiência dos anos mais recentes diz-me que sempre que fizemos propostas para a família, os resultados foram mais eficientes, sólidos e continuados no tempo. Em Portugal este é um caminho obrigatório para a Igreja.

Parece-lhe mais importante que do Sínodo saiam contributos para o Papa mais na área da prevenção (preparação para o matrimónio, formação dos sacerdotes, planeamento familiar), ou na área dos paliativos (nulidade, comunhão dos recasados, etc)?
Todos esperamos muito do Sínodo, e é bom que o façamos, pois foi nesse sentido que o Papa o propôs. Esperamos muito em todas as vertentes, e é normal que esperemos caminhos novos. Embora esta exportação apostólica não seja pós-sinodal, o Papa ensinou-nos a não fazermos apenas grandes reflexões pastorais, mas a abrir caminhos de propostas concretas. Aquilo que espero do Sínodo é que, com o contributo de todos nós, que tem sido muito responsável da parte de todos nós, bispos, sacerdotes e todas as bases, os padres sinodais tenham todas as possibilidades de, com o caminho já feito, darem ao Santo Padre o verdadeiro pensar da Igreja. O Santo Padre dar-nos-á depois caminhos novos e propostas concretas que nos vão ajudar a preparar a família a ser família, a ajudar a família a viver feliz, como família cristã, e ao mesmo tempo a ir ao encontro das situações mais difíceis, que é preciso ajudar.

Precisamos de uma preparação para o matrimónio mais exigente?
Penso que há experiências em algumas dioceses em Portugal onde a preparação começa com mais tempo. Há outro elemento que é importante: que a preparação seja feita na comunidade, não apenas no cartório paroquial, ou com uma equipa em reuniões com o sacerdote.
Mas precisamos é de acompanhar depois do matrimónio. Penso que a lacuna maior da pastoral da Igreja na relação com as famílias não foi na preparação, foi no acompanhamento dos novos casais e das famílias no seu todo. A comunidade precisa de se responsabilizar pela celebração do casamento. Na preparação para o casamento, precisamos de implicar a comunidade paroquial no acompanhamento destes casais, para que eles sejam parte integrante da vida da comunidade. O que tem faltado muito na Igreja é que nós celebramos o casamento mas depois não acompanhamos as famílias, não as sentimos inseridas. Preocupamo-nos com os crismandos, e que os crismados devem ficar integrados nas atividades da Igreja. Porque é que não fazemos o mesmo com quem celebra o sacramento do matrimónio? É um sacramento de integração na vida comunitária…

E como é que esse acompanhamento pode ser feito? 
Pode ser feito não colando apenas a preparação do matrimónio com a cerimónia. Temos de preparar os casais de noivos para a vida da comunidade. Muitos destes casais só os encontramos quando trazem os filhos para o batismo ou a catequese, e portanto nós temos a possibilidade de integrar os jovens casais na vida da comunidade, porque a comunidade é que evangeliza.

Uma integração pré-matrimónio ou pós? 
A integração deve ser feita durante a preparação para o matrimónio, para que eles possam descobrir como vão viver a sua vida matrimonial e familiar integrados naquela comunidade que os recebeu e os preparou para o matrimónio.


Isso implicará uma preparação mais estendida no tempo? 
Sim, mais estendida no tempo e mais aberta à comunidade. A dimensão da descoberta da comunidade onde se vão fixar, que nem sempre é a comunidade onde se casam, é muito importante. Estive com alguns casais que me diziam “estou há cinco anos nesta comunidade, venho todos os fins-de-semana à missa, temos três crianças que vão iniciar a catequese e nunca ninguém me perguntou quem eu era, de onde era e porque estava ali”. As comunidades têm de se abrir a este acolhimento dos casais novos. Nas áreas urbanas é difícil, mas é possível, porque se a preparação para o casamento leva as pessoas a descobrirem a comunidade onde vão estar inseridas, a partir daí é possível que a comunidade valorize o dom de uma nova família que vem ali ao seu encontro.

Mas falamos em participação nos serviço da paróquia, apresentação na eucaristia, o quê exatamente? 
De tudo isso. A minha experiência de sacerdote era, ao longo do primeiro ano, fazer um acompanhamento que lhes permitisse alguma privacidade, para se adaptarem à realidade da família, terem tempo para criarem uma certa autonomia, mas também tempo para descobrirem que a comunidade onde eles vivem têm espaços que estão livres para a sua missão, e muitos deles foram integrando-se na catequese, nas atividades de cariz social, na liturgia. Há muitos casais novos que se valorizaram muito através da participação na liturgia, ou noutras instâncias. Quantos foram integrados no conselho pastoral, na preparação do casamento de outros, ou até na constituição de equipas de casais. Mas sobretudo fazê-lo integrando-se na comunidade. Creio que as famílias jovens cristãs precisam de saber que o fazem numa envolvência de aconchego, integração e necessidade pastoral da comunidade que os recebe.

«Estamos [Igreja] ainda muito longe de dar as respostas que os casais merecem»

E isso é a chave para evitar as situações de sofrimento no futuro? 
É sobretudo a certeza de que não estão sós. Nos momentos felizes partilham a felicidade, e nos momentos de dor, rutura, e provação, sabem que encontrarão sempre membros da comunidade que estão ao lado deles para os ouvir e acolher. Eu creio que a dimensão da preparação para o matrimónio precisa desta vertente nova de saberem que todo o caminho que fazemos como cristãos não o fazemos como ilhas isoladas, mas que o fazem integrados numa comunidade paroquial, vicarial e diocesana. Precisamos de dar aos jovens casais esta descoberta da realidade da comunidade em si. O valor da comunidade não está suficientemente afirmado na preparação para o matrimónio, e é necessário que naquela comunidade saibam quantos casamentos ali se realizaram, e que têm ali um espaço para viverem como família cristã. É um contributo necessário não apenas para eles, mas no bem que podem fazer ao outro.


Há espaço na doutrina para ponderar a possibilidade de um acesso dos divorciados e recasados à comunhão, passando por um processo penitencial, como alguns avançaram no sínodo do ano passado? 
Nessa perspetiva, o Santo Padre pediu-nos que disséssemos o que pensávamos. Sabemos que há famílias que passam por situações de grandes provações. Aguardamos que o Papa nos diga também aquilo que ele pensa e nos propõe. Da nossa parte, devemos estar disponíveis para caminhar em Igreja, sentindo que muitas vezes o problema, posto desta forma só com a comunhão, é ver as coisas apenas por um lado. Mas também não nos devemos esquecer no sofrimento que estas famílias têm de não poderem comungar e de não poderem participar em pleno. As situações são muito diferenciadas e cada um tem o seu percurso de vida, e é importante que a Igreja saiba caminhar com cada família, com cada pessoa de modo muito personalizado, e isso tem-nos faltado. Estabelecemos normas, e elas são importante, mas elas não nos devem dispensar de fazer um caminho com essas pessoas.

Um caminho que pode levar a ponderar essa possibilidade, em circunstâncias específicas?
Pode levar-nos, em algumas circunstâncias específicas, a ajudá-los a perceber, em primeiro lugar e como dizia o Papa, da validade do seu casamento. Temos de ajudar a valorizar isso, e há situações em que precisamos de ajudar na questão da validade do mesmo. Depois há um processo espiritual para as outras situações, a aguardamos com serenidade aquilo que o Espírito Santo e o Papa irão dizer à Igreja, pois é isso que sempre se fez na Igreja desde o Concílio de Jerusalém. Esta espera não nos livre de acompanharmos todos os dias os casais que sofrem e de acolher os que não podem receber esses sacramentos. Estamos ainda muito longe de dar as respostas que os casais merecem.