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21 de setembro de 2015

Cardeal Patriarca quer «reorganizar a Igreja em chave familiar»



D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa, falou à Família Cristã sobre as suas expectativas antes de iniciar o Sínodo da Família, onde o prelado será um dos dois representantes dos bispos português, em conjunto com D. Antonino Dias, bispo de Portalegre e Castelo Branco.

Este Sínodo é o culminar de dois anos intensos sobre a família. Esta “estratégia”, quase de marketing, do Papa Francisco, que procurava colocar a família no centro das atenções de crentes e não crentes, resultou?
Eu creio que sim, e vou explicar porquê. Porque foi um processo eclesial propriamente dito, e um processo desses envolve o mais possível os membros da Igreja. Sendo que, esta assembleia sinodal, e é bom que se tenha isso em conta, é distinta da anterior, que era sobre os desafios à família. Esta será sobre a missão da família na Igreja e na sociedade. Será muito mais projetiva, já que não se pode dizer muito mais sobre o que se disse no ano passado, e o que saiu naquela série de proposições que foram votadas e que o Papa quis que fossem manifestas as votações que cada proposição tinha tido, até para se poder aquilatar quais os pontos em que há consenso geral e mais problemáticos, mas sobre isso haverá pouco a dizer. Agora neste contexto o que esperamos das famílias, dentro da visão cristã da família, que é aquela em que Jesus se apresenta, não nos vão pedir outra, que não somos a ONU, somos a Igreja Católica. E é bom insistir nisto, porque parece que às vezes há uma certa expetativa algo despistada. Esperam que a Igreja apresente linha de atuação da família que não tenham em conta aquilo que a define e valida como Igreja, que é a proposta que está. Naturalmente que tem de ser aprofundada, atualizada e aplicada com aquilo que é de hoje, mas que é a proposta que está.

Quais são as preocupações que a Igreja portuguesa vai levar?
Em primeiro lugar, a necessidade de preparar e acompanhar, ao longo da vida, as famílias cristãs. Levar por diante um processo matrimonial, paternal e agora com avós, à luz do Evangelho, tem de ser preparado, consciencializado, e tem de ser acompanhado. Não pode ficar reduzido a uns meses antes, em que aparece um casal que se quer casar, faz-se um curso de preparação para o matrimónio com meia dúzia, ou às vezes nem isso, e pronto, “estão casados, agora aguentem-se”, para falar mal e depressa. Não é isto. Trata-se de algo tão importante na ordem sacramental, em que o próprio Deus está incluído, que requer muita consciência, muita preparação e muito acompanhamento. Porque uma vida tem crises a ultrapassar e superar, e sozinhos é muito difícil, para não dizer impossível. A grande questão que se põe é como que nós, comunidades cristãos, vamos, nas nossas famílias, paróquias, comunidades e movimentos, preparar e apoiar o matrimónio cristão. Isto vai levar, e a minha intervenção vai ser nesse sentido, a uma reorganização da vida cristã em chave familiar.


E como se fará essa reorganização?
Isto é importante para a Igreja, que nem sempre vive assim. Mesmo em casos de militância, falamos do homem ou da mulher, mas não sabemos se é casado, se é viúvo, se tem filhos… há aqui uma relação familiar que tem de estar muito mais presente na comunidade cristã, para que ela seja, como já pedia o Papa João Paulo II, uma família de famílias, e não em termos individuais. E se a Igreja conseguir avançar para uma organização em chave familiar, isto pode ser um grande estímulo para a sociedade, que também não vive assim. A nossa sociedade vive, infelizmente, e desfaz-se mais do que se constrói, em torno de duas abstrações: o indivíduo, que é o ser sem relações, e o termo massas, que é o ser sem rosto. Reparamos que é assim na vida profissional, até na desportiva, em que se contam mais as pessoas individuais, ou as massas, mas sem entrar em linha de conta com a rede familiar.

E como é que conseguiríamos organizar a Igreja e a sociedade em chave familiar? 
Bom, começamos pela Igreja, que é aquilo que nos compete. De resto, participamos como cidadãos. No que diz respeito à Igreja… bom, pelo exemplo é mais fácil. Olhamos para uma paróquia e dizemos que tem 2 ou 3 mil praticantes dominicais, e fazemos censos e estatísticas. Não é muito mais interessante dizer “eu nesta paróquia tenho 253 famílias”? Em que a base e a estruturação, a vida sacramental, o batismo dos filhos que já provieram do matrimónio dos pais, a iniciação cristã, conta muito mais com a base familiar, do que com a abstração individual. Quantas famílias são? Mesmo que depois haja algum individual que por esta ou aquela razão não tem família, e se inclui também. E aqui toca-se um ponto doutrinal: nós somos cristãos porquê? Como todos os religiosos, acreditamos em Deus, certo. Não estamos cá por acaso nem sozinho, acreditamos que alguém nos precede e nos espera, como as pessoas de todas as religiões. Mas isto é ser religioso, no sentido de estar ligado a Deus. Mas ser cristão é outra coisa: é dentro deste fundo comum, que compartilhamos com todas as pessoas crentes, nós situamos a nossa relação com Deus na pessoa de Jesus Cristo. E eu disse pessoa, não indivíduo. Porque Jesus teve mãe, um pai adotivo, parentes que são referenciados no Evangelho, Jesus vive 30 anos em contexto familiar e de trabalho, numa terra, com vizinhos. Nós não falamos em abstrações. Quando um cristão pensa em Deus e como Deus se revela, pensa numa família, que foi a família de Nazaré, que aliás foi emigrante à força no Egito. Pensamos na carpintaria de Nazaré, naquele contexto local em que foi bem recebido umas vezes e outras não. Pensamos na sinagoga, pois Jesus era um judeu praticante e não ia à missa ao domingo, mas sim à sinagoga ao sábado. Há um contexto local, familiar, de vizinhança, que nós cristãos acreditamos que é a própria revelação de Deus. E por isso a família não é algo acessório

Mas se sabem assim tão bem, porque é que ainda não vivemos nessa chave familiar?
Temos de viver mais, temos de ser operativos e viver mais. Mas julgo que é porque ainda somos subsidiários dessas abstrações. Pensamos em indivíduos mais ou menos sem relação, ou pensamos em massas. Mas essa não é a maneira evangélica de pensar as coisas, não foi essa a Revelação cristã. E mais! Lemos os textos do Novo Testamento, que dizem respeito as primeiras comunidades cristãs, e verificamos que elas também têm chave familiar. É muito interessante ver S. Paulo dizer que batizou a casa de fulano, a família de fulano. A primeira referência de Paulo à Europa é a família da Lídia que ele encontrou e foi a sua casa. Quando Paulo fala a Timóteo, não lhe fala da fé, diz-lhe “não te esqueças da fé que recebeste da tua mãe Eunice e da tua avó Loíde”. Não podia haver igrejas, como temos agora, e a comunidade funcionava em casa deste e daquele. O casal importante de Aquila e Priscila onde funcionavam as comunidades.

Este motu proprio sobre a nulidade matrimonial vem colocar mais responsabilidade sobre os ombros dos bispos, com a criação do processo breve. Não sei se o Papa terá falado convosco sobre o motu proprio, mas o que é que ele traz de novo?
Na linha de coisas que tinham sido pedidas e insistidas na última assembleia sinodal, que se facilite o que pode ser facilitado. Atenção que o sacramento é uma coisa séria, e portanto quando de uma maneira consciente, responsável e livre um homem e uma mulher se aceitam como esposas perante Deus, nós, Igreja, não temos qualquer espécie de poder ou autoridade para interferir. Agora o que podemos e devemos é não só preparar esse momento, e daí a tal aplicação muito maior na formação para o matrimónio cristão, para as pessoas perceberem do que se trata e tenham uma base experimental onde isso possa assentar, e depois verificar se isso aconteceu assim. E é em relação a estas circunstâncias que se facilita o processo, no sentido de ser só numa instância, e de não precisar de ir a outra diocese para confirmação – sempre com o direito a apelarem os que não ficarem satisfeitos – com mais envolvimento do bispo diocesano, dispensando algumas formalidades quando os casos são muito evidentes. Tudo no sentido da verdade do que aconteceu e na respetiva verificação.

Muitos bispos não têm formação em direito canónico, mas o Papa pede que sejam eles a julgar estas situações. Não tem receio que isto possa vulgarizar a declaração de nulidade e criar quase um divórcio religioso? 
Isso, meu amigo, nisto como em todos os casos, é a consciência que cada um tem ou não tem. Se estamos a tratar de algo tão sério como a é a vida sacramental para aqueles que a querem seguir, contamos com a seriedade de consciência de quem realiza o ato sacramental e de quem o acompanha e avalia. Se faltar a esta base, em relação a isto e a tudo… vamos acreditar que tudo seja feito com seriedade, e vamos exigir essa seriedade. Se algum caso muito notório de desrespeito desta seriedade e regras, isso seria verificado e devidamente reprovado… não vejo aqui um problema maior do que noutros setores, é uma base geral de seriedade que vale aqui e vale em tudo.

Acredita que isto possa resolver parte significativa dos casos existentes de divorciados recasados, que sofrem por não poderem comungar ou confessar-se? 
Eu aí nem preciso de achar, porque se trata de verificar o número de verificação da nulidade do alegado casamento que se dão e vermos que os caso é grandíssimo. Até por uma certa experiência empírica de ouvirmos os casos e ouvirmos como é que as pessoas pretensamente se casaram. Infelizmente é assim…

Quanto aos outros, muitos dos defensores de uma maior abertura para com as pessoas em situações irregulares, têm-se socorrido de declarações do Papa em que ele pede uma maior abertura para dizer que ele vai mudar tudo. Mas acolher essas pessoas significa aceitar as suas situações? 
O acolhimento refere-se às pessoas. Cada batizado tem o seu lugar nesta casa da família dos filhos de Deus. No que diz respeito à prática sacramental, temos de entendê-la como um todo, pois os sacramentos não vivem independentes uns dos outros. Pelo Batismo entra-se em casa. Mas enfim, mesmo não estando nós em condições dessa vida sacramental plena, estamos sempre em condições para uma vida sacramental que o nosso estado de batizado nos habilita.

Não depreende, portanto, das palavras do Papa que ele está a declarar que vai aceitar essas situações irregulares dentro da Igreja? 
Com certeza que não. Não devemos fazer avaliações subjetivas, e a situação, não sendo a que propomos, é a que existe, e a pessoa está antes, durante e depois de tudo isso.

Acha possível que, dentro da doutrina, nomeadamente em casos pontuais, ou em situações em que o cônjuge é abandonado e o parceiro não deixa qualquer solução de reconciliação... 
A Igreja, em toda a sua moral e aplicação moral, inclusive na vida sacramental, já faz esse raciocínio. A proposta é o que é, a apreciação caso a caso das circunstâncias faz-se a outro nível mais pessoal e interpessoal, porque é aí que se deve fazer…

E aí é possível estabelecer diferenças para as situações que são diferentes? 
Isso com certeza.

Porque temos pessoas que nunca viverão de forma completa, ou fora da comunhão da Igreja, ou fora da alegria de uma vida familiar plena... 
Sim… trata-se de vermos como devemos conjugar cada vez melhor a verdade sacramental com a vida de cada um e as circunstâncias subjetivas e objetivas. Temos de ver tudo isso sem pôr em causa nenhum dos termos.

E adequando as coisas a cada pessoa e cada caso? 
Isso é o que já acontece, e quem está dentro da igreja sabe que é isso que se faz.



Outra das questões que tem sido debatida foi a necessidade de melhorar a preparação para o matrimónio, e promover o acompanhamento posterior dos casais. Uma preparação mais exigente, e mais espaçada no tempo, é necessária? 
 Isso já está dito, até por João Paulo II, que dizia que a preparação para o matrimónio começa na casa dos pais e na catequese. Porque isto trata-se da educação para uma vida em função do outro, e isto é uma educação longa, que começa em casa, com a noção de que há o menino, mas há a menina, a avó, o parente que está doente e precisa de atenção, a refeição que aparece na mesa mas que é preciso colaborar. Coisas tão simples que vão educando no sentido da atenção ao outro, uma dai que está descentrada em si e centrada em Deus e nos outros que mais precisam. E essa é a grande preparação para uma comunhão real e de compromisso como é o caso do compromisso matrimonial. A preparação significa uma preparação para viver não a seu bel-prazer, mas em função dos outros.

Mas muitos casais que chegam à preparação imediata não vêm nessas condições… Deve essa preparação imediata ser mais exigente no sentido de acompanhar os casais?
Tornar as coisas claras, para os casais saberem ao que se estão a comprometer, sacramentalmente, envolvendo o próprio Deus nesse ato, com certeza. Agora estas são as disposições gerais, e depois temos o caso a caso, em que há pessoas que aprendem mais depressa que outras. Há uma meta a atingir, mas depois temos de ver caso a caso.

Mas há paróquias que têm apenas um encontro, ou nenhum, e depois…
E depois, o depois é que é importante. Saber como se sustenta a vida matrimonial. Por exemplo, há bocadinho, quando falávamos da reorganização comunitária em chave familiar. Nós reparamos que muitas das nossas celebrações dão uma importância muito grande ao sufrágio dos defuntos, “missa por alma”, como se diz. Damos igual relevo às comemorações matrimoniais? “hoje é o aniversário deste e daquele casal na nossa paróquia”, fazemos isto? E nem precisamos de esperar pelos 25 anos, fazem dois, fazem três… damos suficiente relevo ao compromisso matrimonial na nossa vida paroquial? É algo que parece simples, mas é muito importante. Eu conheço párocos que, todos os anos, tendo as direções dos casais, enviam uma felicitação a quem faz anos de matrimónio. Coisas simples mas que dão à vida matrimonial um acompanhamento e uma atenção como deve ser.

Um acompanhamento da comunidade… 
Da comunidade, precisamente, comunitário. Há tentativas nesse sentido, mas ainda falta muito. Qual é o lugar que nós damos à celebração do batismo que insere na família dos filhos de Deus aquela criança que os pais trazem à comunidade? Vemos isso com gosto, a nossa família cristã a crescer? A mesma coisa para os avós, que dão à comunidade cristã uma atenção prioritária e permanente ao primeiro núcleo que é o da igreja doméstica. Manter constantemente a referência matrimonial e familiar no âmago da comunidade cristã. Da família igreja doméstica à família dos filhos de Deus.

Coincidência ou não, começam a aparecer medidas mais efetivas de apoio à natalidade em Portugal, e este ano o número de nascimentos parece estar em curva ascendente, como não se via há uns anos. Estamos a preocupar-nos mais com a família? 
Um movimento no qual devemos estar todos atentos e ativos. O matrimónio, mesmo que não seja sacramental, não é um exclusivo cristão. Nós colocamos a pessoa de Jesus Cristo no seu centro. Paulo diz que quem casa, casa-se no Senhor, e isto tem uma envolvência. Há muita inspiração cristã na sociedade portuguesa, e esse é um dos pontos em que fazemos o reconhecimento feliz que há incidência. O Patriarcado está também a viver um tempo sinodal.

De que forma pode o Sínodo de Lisboa ser enriquecido pelo Sínodo de Roma? 
Bom, isso só saberei no final do sínodo em Roma (risos). Mas quase que adianto que, estando este caminho sinodal de Lisboa a refletir sobre as variadas reflexões do Papa Francisco na Evangelii Gaudium, está a fazê-lo projetando-se para o futuro. Esse futuro passará certamente por este revigoramente comunitário, esse revigoramento comunitário passará certamente pela presença mais forte das famílias nas nossa comunidades cristãs, e aí conjugam-se muito as duas coisas.

18 de outubro de 2014

Relatório final do Sínodo não reúne consenso em pontos polémicos

O Vaticano apresentou hoje em conferência de imprensa o relatório final da assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos, que debateu os temas da família, o qual sublinha a “verdade” da indissolubilidade do casamento, recusando outros tipos de união.

O documento, publicado pela sala de imprensa da Santa Sé, refere que o único “vínculo nupcial” na Igreja Católica é o sacramento do Matrimónio e que “qualquer rutura do mesmo é contra a vontade de Deus”. O Sínodo assume a necessidade de “discernir os caminhos para renovar a Igreja e a sociedade no seu compromisso pela Igreja fundada sobre o matrimónio”, a “união indissolúvel entre o homem e a mulher”.
Os participantes sustentam que “os grandes valores do matrimónio e da família cristã” são a resposta aos anseios da existência humana face ao “individualismo” e “hedonismo”.

 O documento sintetiza as duas semanas de debate, com intervenções em sessões gerais e discussões em grupos linguísticos em que se discutiu muito a relação entre doutrina e misericórdia.
Jesus, “colocou em prática a doutrina ensinada, manifestando assim o verdadeiro significado da misericórdia”, pode ler-se, antes de se referir que "a maior misericórdia é dizer a verdade com amor".

A reflexão sobre casamentos civis, divorciados e recasados na Igreja deixa uma mensagem de “amor” para com a “pessoa pecadora” e diz que esta participa “de forma incompleta” na vida eclesial.
“Trata-se de acolher e acompanhar estas pessoas com paciência e delicadeza”, pode ler-se.

O documento retoma as observações sobre a necessidade de fazer “escolhas pastorais corajosas” na ação da Igreja junto das “famílias feridas”, em particular junto de quem “viveu injustamente” a separação e o divórcio.

O relatório final do Sínodo de 2014 foi votado ponto a ponto, em cada um dos seus 62 números, que reuniu 470 propostas dos chamados ‘círculos menores’. As votações sobre cada número foram divulgadas pelo Vaticano, por decisão do Papa, revelando que os parágrafos 52 (acesso dos divorciados recasados à Comunhão), 53 (comunhão espiritual a divorciados) e 55 (homossexuais) não chegaram a uma maioria de dois terços dos 183 padres sinodais presentes; o parágrafo 41 (matrimónios civis e uniões de facto) mereceu 54 votos contra.

 Em relação ao acesso à Comunhão e à Penitência pelos divorciados em segunda união, tema sobre o qual se gerou divisão entre os participantes, alguns “argumentaram em favor da disciplina atual [que impede o acesso aos sacramentos]” e outros propõem um “acolhimento não-generalizado”.
Este foi o ponto em que houve mais votos contra (74), no qual se pede que seja aprofundada a questão, “tendo presente a distinção entre situação objetiva de pecado e circunstâncias atenuantes”.

O texto apresenta dois números sobre a situação dos homossexuais, com críticas às “pressões” sobre os membros da Igreja por causa da sua doutrina nesta matéria e às leis que instituem uniões entre pessoas do mesmo sexo. 62 pessoas votaram contra um número no qual se afirma que “os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito e delicadeza”.

O relatório do Sínodo alude ainda às propostas para tornar “mais acessíveis e ágeis”, de preferência “gratuitos”, os procedimentos para o reconhecimento de casos de nulidade matrimonial, realçando que alguns participantes se mostraram “contrários” a mudanças.

Os vários pontos apelam à valorização dos métodos naturais de planeamento natural e da adoção, condenando a mentalidade “antinatalista”; recordam a reflexão sobre a família nos documentos da Igreja e pedem liberdade de educação para os pais.

O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, sublinhou que este não é um documento “doutrinal” e que vai servir de base para a preparação para a assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, com três semanas de trabalho, em outubro de 2015.

Texto: Agência Ecclesia
Foto: News.va

13 de outubro de 2014

Sínodo quer acolher recasados, homossexuais e pôr famílias a dar fomação ao clero


O Relatio Post Disceptationem, que congrega as propostas e pontos de vista que os participantes no sínodo discutiram durante as congregações gerais da semana passada, foi hoje publicado. Pede para que a Igreja mude para uma linguagem mais «inclusiva», reconhece a possibilidade de aceitar casais em união de facto ou relações entre pessoas do mesmo sexo (sem as considerar matrimónio), e não inclui qualquer intenção de discutir a aceitação dos métodos contracetivos.

O cardeal Peter Erdò, auxiliado por mais seis cardeais nomeados sábado pelo Papa Francisco, terminou o relatório sobre as propostas e ideias lançadas pelos participantes no Sínodo sobre a Família, relatório este que vai agora servir de base para os círculos menores que se irão reunir esta semana para debater todos os aspetos deste relatório de uma forma setorial e mais aprofundada, em vista à elaboração de uma proposta final, o Relatio Synodi, que será entregue ao Papa Francisco e anunciado como base de trabalho para preparar a assembleia ordinária do sínodo no próximo ano.

O relatório aparece dividido em três áreas: a «escuta», em que se resumem as ideias trazidas sobre a realidade da família nos dias de hoje; o «olhar», em que se reflete na realidade tendo como ponto de partida Cristo e a Revelação; e a «discussão», que procura perceber como, «sob a luz de Jesus Cristo, a Igreja e a sociedade podem renovar o seu compromisso para com a família».

Os pontos de novidade prendem-se com a última parte do relatório, por sinal a mais extensa. Dos 58 pontos apresentados, 35 são na parte das propostas a apresentar. Antes disso, relevo apenas para o entendimento que a aula sinodal tem de que, apesar de não questionar a indissolubilidade, o matrimónio pode ser entendido à luz da lei da gradualidade. «Através da lei da gradualidade, típica da pedagogia divina, é possível interpretar a ligação nupcial em termos de continuidade e novidade, em vista à Criação e à redenção. Pois até Jesus afirmou a indissolubilidade da união entre homem e mulher, mas reconheceu a validade da decisão de Moisés que permitiu que alguns se separassem das suas mulheres pois os seus corações tinham sido endurecidos (Mt 19,8)». Não colocando em causa o princípio base, a Igreja coloca a hipótese de receber casais em situações irregulares, restando saber até que ponto irá esse acolhimento.

No ponto 22, o cardeal Edrò refere que é preciso «aceitar as realidades do casamento civil e das uniões de facto, respeitando as diferenças». «Quando uma união atinge um nível de estabilidade através de um vínculo público, é caracterizada por uma afeição profunda, responsabilização mútua na educação dos filhos, e capacidade para superar dificuldades, isso pode ser visto como uma semente a ser alimentada e orientada num caminho em vista ao matrimónio», refere o prelado, resumindo esta foi uma das ideias mais difundidas pelos oradores do Sínodo. Perante a lei da gradualidade, que tem sido tão falada no Sínodo, «não é prudente pensar em soluções únicas ou inspiradas numa lógica de “tudo ou nada”».

Divorciados e recasados e o «caminho penitencial» de volta aos sacramentos
Refletindo sobre a temática dos divorciados a recasados, o cardeal Erdò escreve no relatio post disceptationem que «é preciso respeitar o sofrimento de todos os que passaram por um divórcio ou separação injustos». Existe, desde logo, abertura a mudanças nos processos de nulidade, conforme já tinha sido avançado ao longo dos dias, não colocando em causa a doutrina, mas flexibilizando todo o processo. «Entre as propostas estava o abandono da segunda confirmação do tribunal; a possibilidade de estabelecer um processo administrativo mais rápido sob responsabilidade do bispo diocesano; um processo sumário que poderia ser usado em casos de nulidade; dar peso ao aspeto da fé naqueles que serão admitidos ao casamento no que diz respeito à validade do sacramento do matrimónio». Nunca encarando estas questões como facilitadoras de separações, mas antes como «uma procura da verdade» acerca da validade do sacramento, a Igreja pondera assim diminuir o número de divorciados recasados, aumentando o número de declarações de nulidade.

Além disto, o relatio pede que haja uma nova «linguagem» na abordagem às pessoas divorciadas recasadas. «É de evitar qualquer linguagem que os faça sentir discriminados», diz o documento. Quanto à questão do acesso aos sacramentos, o relatio confirma que a aula sinodal esteve e está dividida quanto a esta matéria. «Alguns argumentaram a favor das regulações presentes por causa da sua fundação teológica, outros estavam a favor de uma maior abertura em circunstância muito específicas quando se lidem com situações que não se podem resolver sem criar novas injustiças e mais sofrimento», diz o cardeal. Nessa linha, adianta o relatório, «o acesso aos sacramentos, para alguns casos, pode ser dado após a realização de um caminho penitencial – sob a responsabilidade do bispo diocesano». «Esta não seria uma solução para todos, mas fruto do discernimento aplicado caso a caso, de acordo com a lei da gradualidade, que diferencia o estado do pecado, o estado de graça e as circunstâncias atenuantes», pode ler-se no documento.

Até porque, questionaram os pares sinodais nas suas intervenções, «se a comunhão espiritual é possível, porque não deixá-los tomar parte no sacramento?» Neste sentido, o relatio aponta a necessidade de «um estudo mais aprofundado» sobre o assunto.

Métodos contracetivos fora de equação
Apesar das intervenções de casais que deram testemunho sobre a possibilidade de uma abertura à vida com a utilização de métodos contracetivos, o relatio não incluiu nenhuma referência a essa possibilidade, ficando por saber se o irão fazer agora nos círculos menores.

O aumento do conhecimento sobre os métodos naturais (e o desenvolvimento dos mesmos, que permitem ter uma taxa de eficácia semelhante ou superior à dos métodos contracetivos) facilita que essa proposta faça cada vez mais sentido, pelo que os bispos limitaram-se a reforçar que «a abertura à vida é um requisito intrínseco de um casamento de amor», e a recomendar um «ensinamento adequado dos métodos naturais», reforçando a ideia, passada por alguns dos oradores, de que a visão do planeamento familiar natural carecia de muita informação aos fiéis, mais do que mudanças. O relatio sugere o retorno à mensagem de Paulo VI na Humanae Vitae que «sublinhava a necessidade de respeitar a dignidade da pessoa na avaliação moral dos métodos de controlo da natalidade».

Famílias poderão dar formação ao clero
As propostas passam por um anúncio mais eficaz do «evangelho da Família», não só pelos sacerdotes, mas pelas próprias famílias. «Evangelizar é uma responsabilidade de todo o povo de Deus. Sem o testemunho alegre de esposos e famílias, esse anúncio, mesmo que correto, arrisca-se a ser mal entendido ou ultrapassado pelo oceano de palavras que é característico da nossa sociedade». Os pares sinodais exortaram as famílias a serem «agentes ativos» de pastoral da família.

Isto pressupõe, segundo relator-geral do Sínodo, uma «conversão missionária». «Não podemos parar num anúncio meramente teórico e que não se relaciona com os problemas das pessoas», diz o prelado no seu relatório. Esta exigência deve estar também na preparação para o matrimónio, mas sem «criar dificuldades e sem complicar os ciclos de formação». Apesar de sugerir «um enraizamento da preparação para o matrimónio nos sacramentos de iniciação cristã» e de pedir «programas específicos de preparação para o matrimónio que sejam verdadeiras experiências de participação na vida eclesial e que estudem de perto os aspetos mais relevantes da vida familiar», fica por saber como é possível conceber isto sem mexer nos ciclos de formação, que o cardeal Erdò e a sua equipa sugeriram não ser «complicados».

Onde há novidade é no ponto 32, que insiste na necessidade da formação do clero e dos agentes pastorais, e quer implicar as próprias famílias nesse processo de formação, algo até hoje poucas vezes sugerido, principalmente no que diz respeito aos membros do clero. Para além disso, o documento reforça a necessidade de um acompanhamento dos casais pós-matrimónio, através da ajuda de casais mais experientes, «liturgias adequadas, práticas devocionais e eucaristias celebradas para as famílias», aspetos que foram elencados pelos padres sinodais como passíveis de «favorecer a evangelização dentro da família».

Homossexuais acolhidos nas comunidades
O relatio questiona a capacidade de cada comunidade receber e valorizar «as dádivas e qualidades» que os homossexuais «têm para oferecer às comunidades cristãs». «São as nossas comunidades capazes de aceitar e valorizar a sua orientação sem colocarem em causa a doutrina católica sobre a família e o matrimónio?», questiona o documento.

O relatório reafirma que «uniões entre pessoas do mesmo sexo não podem ser consideradas ao mesmo nível que o matrimónio entre um homem e uma mulher», e deixam críticas a quem pretende impor o contrário. «Não é aceitável que se pressione a Igreja ou os seus pastores ou que se faça depender financiamentos internacionais com base na introdução de regulações baseadas na ideologia de género», avisa o cardeal Erdò no seu relatório.

Com base neste relatório, os bispos irão agora trabalhar em círculos menores, aprofundando todos estes temas, a fim de que, no final da semana, seja elaborado e apresentado ao Papa o Relatio Synodi, o documento que servirá para concluir os trabalhos deste Sínodo e preparar o caminho para o Sínodo do próximo ano, que foi convocado hoje oficialmente pelo Papa Francisco para o Vaticano, de 4 a 25 de outubro de 2015.

Texto: Ricardo Perna
Foto: News.va

12 de outubro de 2014

Balanço do Sínodo sobre a Família

A primeira semana da Assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispo sobre a Família foi intensa e vai a bom ritmo. Os 253 participantes, entre cardeais, bispos, presbíteros e leigos tiveram oportunidade de «falar claro», como pediu o Papa Francisco. Para que através de «um confronte sincero, aberto e fraterno assumamos com responsabilidade pastoral as interrogações que as mudanças desta época nos trazem».

Este é um acontecimento decisivo e importantíssimo para toda a Igreja e para todas as famílias. Só é pena que as televisões, rádios e jornais generalistas lhe estejam a dar tão pouca cobertura. Sabemos que não são esperadas para já respostas revolucionárias aos temas mais controversos, pois trata-se de um percurso em dois tempos.

Porém, o facto de o Papa pedir que toda a Igreja durante dois anos se junte e reflita sobre a família em colegialidade, é já uma grande novidade e é a primeira vez na história da Igreja que isto acontece. Várias têm sido as abordagens e reflexões aos temas tratados. Basta elencar alguns deles para sentirmos a seriedade e riqueza deste acontecimento eclesial. O Card. Erdó começou logo por sublinhar que a família «está ameaçada por factores desagregadores como o divórcio, o aborto, a violência, a pobreza, os abusos, o pesadelo da precariedade, os desequilíbrios causados pelas migrações». Os padres sinodais também referiram que a Eucaristia «não é o sacramento dos perfeitos, mas daqueles que estão em caminho». Por isso, partilham que não é necessária «uma escolha entre a doutrina e a misericórdia, mas o início de uma pastoral iluminada, para encorajar sobre tudo as famílias em dificuldades, que muitas vezes sentem de não pertencerem à Igreja».

A questão da pobreza, da precaridade do trabalho, o desemprego, a falta de dinheiro e uma habitação decente também foram abordadas no sínodo, sublinhando como aspectos que põem em crise as famílias. Para isso sugeriu-se a importância de uma «ecologia humana» que ajude a minimizar os efeitos negativos da globalização económica, valorizando a Doutrina Social da Igreja. Testemunhou-se também como o fundamentalismo religioso, sobretudo islâmico, impede os cristãos de serem cidadãos com os mesmos direitos que os muçulmanos e com problemas sérios onde existem matrimónios mistos.

Um aspecto curioso é o quase desaparecimento da língua latina e a adopção do italiano como língua “oficial” neste sínodo. Do latim ficaram apenas os nomes dos documentos: Relatio ante e post disceptationem; e Relatio Synodi. A tão esperada questão da comunhão aos divorciados recasados foi bem debatida e das 85 intervenções surgiram duas “linhas” oficialmente reconhecidas: a primeira diz que não é possível admitir aos sacramentos os divorciados recasados; a segunda quer ver através da misericórdia as situações vividas por estes católicos e discernir como abordar as várias situações sem negar a doutrina fundamental, mas encontrar novas formas de pastoral. Onde os bispos poderão ter um papel mais activos nas condições da fé e na vida destas pessoas.

Também se falou sobre a necessidade de uma pastoral para os homossexuais, assente na escuta e na criação de grupos de acolhimento nas paróquias. Fazendo ver que a Igreja não é uma alfândega que deixa de fora os maus e só acolhe os bons, mas é uma casa onde existem famílias sem problemas e famílias em crise. O Card. Coccopalmerio chegou a dizer que é necessário «adoptar a hermenêutica do Papa, que é aquela de salvar a doutrina mas a partir de cada pessoa, da sua situação concreta, necessidades, urgências, sofrimento. Devemos dar uma resposta a pessoas concretas que se encontram em condições graves e urgentes».

Nesta primeira semana do sínodo sublinhou-se ainda o papel importantíssimo dos leigos que «devem ser activos e competente na defesa pública dos valores da vida e da família». Reconhecendo também a urgência de formar adequadamente e permanentemente os sacerdotes e os seminaristas sobre os temas da família. Não ficaram de fora da reflexão o sofrimento de quem perde um familiar, como as pessoas viúvas, os órfãos ou os pais que perdem um filho. Também para estes referiu-se que é fundamental que a Igreja os acompanhe através de grupos de escuta e partilha.

Na segunda semana de trabalhos haverá encontros em círculos menores, divididos por línguas, onde os participantes continuarão a trabalhas estes temas em vista do documento que será aprovado em assembleia e entregue ao Papa. Continuemos a acompanhar este momento tão importante para todos nós com interesse e oração.

Texto: Pe. José Carlos Nunes
Superior regional dos Paulistas
Foto: Ricardo Perna e Salt Light TV 

11 de outubro de 2014

«É necessária uma maior preparação para o Matrimónio»


Diante do alto número de divorciados, é necessária uma preparação maior, personalizada e também severa para o matrimónio, sem medo de ver, eventualmente, uma diminuição no número de casamentos celebrados na Igreja. Este foi um dos aspectos salientados nos trabalhos do Sínodo Extraordinário sobre a Família em andamento no Vaticano. A Rádio Vaticano conversou sobre este tema com o Presidente da Prefeitura dos Assuntos Econômicos da Santa Sé, Cardeal Giuseppe Versaldi:
 
Card. Versaldi: Os problemas existem, e são resolvidos os que dizem respeito às pessoas em dificuldade após o matrimónio, mas eu quis insistir no facto de que é necessário prevenir as dificuldades e sobretudo os sofrimentos das pessoas, tendo portanto, uma maior atenção à preparação do matrimónio. No Ano da Fé, o Papa disse-nos que a fé – também entre os batizados – não pode mais ser pressuposta e, portanto, é necessário realizar um caminho também doutrinal. Eu insisti sobre o acompanhamento pessoal dos casais, em maneira tal que, não por meio de instrumentos jurídicos, mas através de um acompanhamento pastoral e espiritual, se verifique verdadeiramente se a intenção dos esposos é a de serem introduzidos não ao casamento, mas ao Sacramento do Matrimónio, de modo que depois possam gerir as dificuldades na vida matrimonial. Fracassos existirão sempre, mas assim colocamos uma barreira não para impedir o matrimónio, mas para o tornar não só válido, mas também frutuoso. É melhor ser um pouco mais exigente antes, mesmo que diminuam um pouco as celebrações de casamento, mas que sejam pessoas convencidas de encontrar Cristo e não somente de fazer a cerimónia.
 
Para evitar justamente quem se casa como uma etapa social, concentrada mais na cerimônia e no dia do matrimónio. Depois, quando chegam os problemas, encontram-se despreparados...
Supondo este automatismo entre o fato de que alguém é batizado – e portanto se supõe que tenha a fé – e o Matrimónio, que é outro Sacramento. Certo, o Batismo introduz na salvação, porém é um encontro com Cristo e quem se casa, ao invés disto, acreditando não ter necessidade de Cristo - mas somente porque é uma tradição ou até mesmo um ato folclórico -, se casa validamente, mas depois não consegue administrar a fadiga do matrimónio e então pede a nulidade. O paradoxo então é que a Igreja é generosa no início, admitindo a todos, e depois é severa deixando-os com os seus pesos. Isto não está certo!

Seria necessário, então, ter a coragem de dizer “não” a alguns casais que chegam despreparados ao matrimónio?Mais do que dizer “não”, indicar um caminho: não casem já, mas, façamos um caminho. Agora fala-se tanto dos divorciados e dos recasados e de um caminho penitencial, que é sempre penitencial e doloroso; lá seria, ao contrário, um caminho não penitencial, mas de crescimento, de maturação na fé.

Agir na origem…Agir na origem, fazendo também entender que não podem ir ali pedindo o matrimônio, já fixando a data e pressupondo que se trata somente de uma fórmula: “Aceitas aquilo que faz a Igreja?”; “Sim!”. E depois se passa a saber o que existe por trás daquele ‘sim’.... Estamos a discutir tanto sobre como mudar o ‘depois’ e não discutimos tanto sobre como mudar o ‘antes’. Eu fiz um pronunciamento, mas também outros se pronunciaram neste sentido.
 
Há depois o “pós-matrimónio”. Tem quem sugira um acompanhamento também após o matrimónio dos casais, que frequentemente se casam com pressupostos cristãos e de repente se encontram sozinhos....E alí verdadeiramente é a paróquia, a comunidade paroquial, como família de família, e sobretudo os esposos, mais do que os sacerdotes, que devem acompanhar os casados naquele ponto. É importante o acompanhamento dos jovens esposos por parte de quem já tem a experiência, quem sabe mesmo, de crises superadas. Este é outro ponto intermediário: antes de chegar à ‘vexata questio’ “Damos ou não damos a comunhão aos divorciados-recasados?”, o que certamente é um problema, mas quando torna-se um problema muito generalizado, quer dizer que alguma coisa está errada no início. Se não fazemos uma preparação adequada, devemos depois cuidar dos matrimónios fracassados e a Igreja de “hospital de campanha” torna-se um obituário, onde se fazem as autópsias dos matrimónios defuntos”.


Fala-se muito nestes dias de doutrina e misericórdia, quase como se fossem duas realidades distintas. É realmente assim ou doutrina e misericórdia necessariamente devem caminhar juntos?
A misericórdia é a doutrina da Igreja e a doutrina da Igreja é a salvação: “Não vim para condenar, mas para perdoar”. Todavia, o perdão pressupõe o arrependimento.

Entrevista: News.va

Arcebispo Martin defende que Sínodo tem de encontrar nova linguagem para chegar aos jovens

Na conferência de imprensa desta tarde no Vaticano, o pe. Lombardi deu indicação de que hoje não houve trabalhos no Sínodo, uma vez que o relator e o secretário do sínodo estão a preparar o relatório pós-discussão a ser apresentado na segunda-feira.
De acordo com o director da sala de imprensa da Santa Sé, uma parte do dia de ontem foi dedicada a ouvir os representantes de outras comunidades cristãs.

Destas intervenções há a realçar o facto das diferentes comunidades cristãs considerarem que os desafios que se apresentam à Igreja são, em boa parte, comuns a todos os cristãos, tais como a crise económica, a realidade dos meios comunicação, ou a globalização, a guerra, desastres e epidemias.
Os representantes destas comunidades também exprimiram preocupação em encontrar um discurso que consiga chegar aos  jovens e em evitar ser muito moralizador ou muito rígidos.
Os delegados fraternos realçaram também a importância da família como escola de fé e a importância de viver com alegria o Evangelho.

Na conferência de hoje interveio o Monsenhor Diarmuid Martin, arcebispo de Dublin, que realçou a necessidade de haver um “novo tipo de diálogo com a família, uma nova linguagem.” Martin lembrou o Sínodo da família de 1980, em que esteve presente e que analisou a família na sociedade contemporânea. Na altura, o cardeal Ratzinger falou sobre a relação entre a fé, a validade da fé e a validade do matrimónio.
Não havendo dados novos a acrescentar relativamente aos trabalhos do Sínodo, a conferência esteve aberta a questões dos jornalistas.

Abordado sobre o impacto da imigração causada pela crise e guerra nas famílias, Martin afirmou que “o casamento de jovens para obtenção de vistos cria uma cultura de isolamento das pessoas em suas casas o que destrói a família”. Utilizando outro exemplo, Martin referiu a separação entre novos e velhos, os primeiros que partem, os segundos que não estão em condições de o fazer.

Questionado sobre o andamento dos trabalhos e sobre o documento final a ser apresentado, Martin descreveu que o debate tem sido muito aberto e que se têm apresentado diferentes opiniões.
O arcebispo reconheceu que o trabalho deste sínodo é recolher os frutos da consulta e das opiniões e não chegar a conclusões finais. Referiu igualmente a obrigatoriedade de apresentar as opiniões minoritárias que vão surgindo durante o sínodo e não apenas as maioritárias. Toda a gente tem escutado com respeito os argumentos apresentados por todos os lados.
Martin explicou que o documento a entregar ao Papa resultante destes trabalhos será mais uma moldura, do que um documento final e apresentará as propostas e não as conclusões.
O arcebispo irlandês defendeu que o sínodo tem de encontrar uma maneira, através da tal nova linguagem, de explicar aos jovens o que é o compromisso do casamento e que não se pode limitar a repetir o que já foi dito anos atrás.

Respondendo ao porquê desta nova abertura ao debate sobre as declarações de nulidade, Martin concordou que houve uma mudança na cultura em dois aspectos, no antropológico e no teológico, e que o matrimónio é uma realidade eclesial. Martin assegurou que dogma e verdade devem caminhar lado a lado e que é preciso encontrar maneira de fazer com que isso aconteça. No entanto, o arcebispo assegurou que embora podendo haver visões diferentes sobre as matérias deste sínodo, nomeadamente a questão da nulidade, não há dúvida nenhuma para ninguém sobre a indissolubilidade do matrimónio e que isso não pode mudar, pois é algo “estabelecido por Cristo”.

Na conferência interveio também Valerie Duval-Poujol, representante da Aliança Mundial Baptista que se regozijou pela presença da comunidade neste sínodo, pautado por um diálogo “aberto e fraterno”.


No final do encontro director da sala de imprensa da Santa Sé anunciou que o Papa Francisco irá receber o primeiro-ministro da República do Vietname para aprofundar relações bilaterais entre os dois estados, reforçando que esta não é a primeira vez que os dois chefes de estado se encontram.

10 de outubro de 2014

Bispos lamentam que igrejas estejam cheias de «viúvos do divórcio»


Na última conferência de imprensa dedicada às congregações gerais, que terminaram ontem da parte da tarde no Sínodo para a Família que decorre no Vaticano, grande parte das intervenções foram dedicadas ao tema do matrimónio e aos desafios que esta temática apresenta.

Segundo o Pe. Dorantes informou os jornalistas, muitas das intervenções tocaram na questão da misericórdia para com os católicos afetados pelo divórcio. «Um dos padres sinodais recordou que devemos ajoelhar-nos diante do Espírito Santo, pois não somos chefes da misericórdia de Deus, e devemos recordar-nos que a missão que Jesus deixou aos apóstolos foi de evangelizar e curar, e isto significa levar a Boa Nova», referiu o sacerdote que está encarregue de resumir as intervenções em língua espanhola que acontecem na aula sinodal.

A possibilidade de haver um caminho penitencial a poder ser realizado pelos divorciados, nomeadamente aqueles «que são fiéis ao matrimónio mas que a outra pessoa abandonou», foi uma possibilidade levantada pelos oradores da tarde de ontem, à semelhança do que já tinha sido em dias anteriores. «Ontem diversos bispos abordaram este tema de forma intensa. Deram um bom exemplo de como se pode exercitar este caminho, com uma exigência de reflexão sobre as consequências de uma decisão destas para com os filhos, ou de como se colocar perante Deus na situação em que se encontra», disse o Pe. Lombardi, porta-voz do Vaticano.

«É preciso fazer um caminho de reconciliação e abertura. As igrejas estão cheias de viúvos e viúvas do divórcio», lamentou outro dos bispos sinodais que fez ontem a sua intervenção. Alguns bispos apontaram a falta de fé como possível motivo para avaliar a validade do matrimónio. Hipótese semelhante já tinha sido levantada pelo então Papa Bento XVI, quando, em janeiro de 2013, dizia aos membros do Tribunal da Rota Romana que «não se deve prescindir da consideração que se possam verificar casos nos quais, precisamente devido à ausência de fé, o bem dos cônjuges resulte comprometido», disse o então Papa. Apesar de ser um critério que pode levantar questões de subjetividade, não foram adiantadas mais informações sobre as discussões que decorreram daqui, pelo que apenas na relatio post disceptationem se poderá perceber melhor as propostas apresentadas pelos padres sinodais.

Um dos bispos sinodais criticou o «ato social» em que se tornou o matrimónio. «Os pobres veem-no como um ato inalcançável, e muitos jovens veem-se obrigado a unir-se apenas, com a perspetiva de se casarem mais tarde, por causa dessa perspetiva, criticou esse bispo.

Alice Heinzen, uma das leigas convidadas a estar hoje no briefing aos jornalistas, explicou que, para poder fazer com que este caminho penitencial resulte, é preciso muita formação prévia. «Fazer o caminho pela penitência só pode ser possível se houver conhecimento do sacramento e das leis da Igreja. Primeiro há que educar as pessoas, e depois é uma conversão de coração, e por aí ficamos mais próximos do Senhor, pois é aí que encontraremos a felicidade», disse esta leiga americana.

Dar uma «segunda oportunidade» à Humanae Vitae
Leigos querem que Humanae Vitae tenha uma
segunda oportunidade junto dos católicos
Questionada sobre a validade das propostas da Humanae Vitae nos dias de hoje, Alice afirmou que já é tempo dos casais católicos «darem uma segunda oportunidade aos métodos naturais», em virtude dos «recursos», que são «muito mais fortes do que eram na altura da publicação da encíclica». «Há muitas novidades nesse campo e encorajo os media a olharem para isso, porque vem aí muita coisa boa», referiu a leiga.

Jeffrey Heinzen, o marido, que trabalha com a esposa nesta área dos métodos naturais de planeamento familiar, explicou aos jornalistas que, «quando os casais têm uma compreensão da sua relação e da fertilidade entre eles, a confiança passa para outro nível». «Porquê termos casamentos bons, quando podemos ter casamentos fantásticos? O que mais podem desejar os homens do que ter as suas mulheres sempre satisfeitas?», perguntou, provocando risos entre os jornalistas presentes.

Finalmente, os bispos pronunciaram-se também sobre o problema das crianças cujos pais estão divorciados, e do efeito de “bola de pingue-pongue” que sofrem quando são obrigadas a saltar entre a casa do pai e da mãe, e têm de conviver com os novos parceiros que os seus pais arranjam. «Quando estava para vir para o Sínodo, estive com uma criança que está no 5º ano numa escola católica. Disse-lhe que vinha ter com o Papa Francisco e perguntei-lhe o que ele queria que lhe dissesse. “Diga ao Papa que sou filho de pais divorciados, e que a minha mãe tem um namorado novo e o meu pai uma mulher nova. É tudo muito triste”. Esta é a realidade que temos de combater», disse Alice Heinzen.

Segundo os bispos também alertaram a aula sinodal, parte deste combate passa pela formação teológica e antropológica do clero. «Eles devem saber explicar, com argumentos, as questões relacionadas com a família», referiram os bispos durante a congregação geral de ontem de tarde


9 de outubro de 2014

Bispos estão a «tentar encontrar o que é a vontade de Deus»


Os cuidados pastorais a ter com divorciados e recasados, homossexuais e outros casos de uniões irregulares e a promoção de alterações nos processos de nulidade matrimonial foram os tópicos mais em discussão na tarde de ontem e na manhã de hoje. O excesso de intervenções pedidas pelos bispos sinodais levou a que o tema de ontem se estendesse até parte da manhã de hoje, provocando atrasos na discussão do tema previsto para esta manhã, que será apenas concluído da parte da tarde.

A discussão foi «acesa» e «apaixonante», «com todas as cartas na mesa», explicou o Pe. Thomas Rosica, um dos porta-vozes que fazem o resumo diário aos jornalistas, mas sempre envolto num «clima de respeito» por todas as intervenções. O Cardeal Francesco Coccopalmerio, presidente do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos, foi um dos bispos presentes hoje no briefing, e o mais requisitado pelos jornalistas presentes.

No tópico do acolhimento aos divorciados recasados, o Cardeal Coccopalmerio demonstrou a abertura que se tem vivido no sínodo com uma postura aberta ao acolhimento destas pessoas. «Pensem numa mulher que se casou com um homem abandonado injustamente pela sua esposa, com três crianças pequenas. Esta mulher uniu-se a ele, criou as três crianças, deu-lhe a vida e agora dizemos-lhe: “abandona esta união, senão não te damos a Comunhão” O que devo fazer nessa altura?», questionou, sem no entanto esclarecer se concordava que essa pessoa deveria receber os sacramentos que, segundo a lei canónica atual, lhe são negados.

O cardeal italiano afirma que «devemos adotar a hermenêutica do Papa, que é a de guardar a doutrina, mas partir da pessoa individual, do seu sofrimento, e dar uma resposta individual às pessoas concretas que se encontram em situações de gravidade e urgência». Por isso, defende alterações que podem ser muito significativas nos processos de nulidade, nomeadamente no que diz respeito ao envolvimento do bispo diocesano no processo. «Se o defensor é uma pessoa credível, eu bispo, posso declarar que o matrimónio é nulo. E em alguns casos isto poderia tornar o processo mais rápido. Apenas o testemunho de um ou dois dos contraentes - sem prova testemunhal, documental, apenas a palavra. Neste caso, se são “credíveis”, eu bispo desta diocese, posso declarar que este matrimónio é nulo», sustentou o prelado, acrescentando que, «em certos casos, é verdadeiramente importante», que este procedimento avance.

Quanto à questão dos ortodoxos, o Cardeal Coccopalmerio confirma que a questão foi abordada na aula sinodal durante as intervenções, e aceita que se estude e hipótese, mas não está convencido do sucesso dessa abordagem. «Só o primeiro matrimónio ortodoxo é o verdadeiro matrimónio. As outras uniões não são matrimónios, são uniões acompanhadas, bentas, mas não são matrimónios para os ortodoxos. O Sínodo tomou em consideração esta hipótese, e veremos. Creio que o assunto pode ser colocado a estudo nos círculos menores, mas para mim é difícil que se faça isto com sucesso», considerou.

Foram ainda lançadas pelos bispos outras possibilidades de agilizar os processos de nulidade, como a exclusão de uma segunda sentença, a existência da figura do defensor do vínculo, uma maior divulgação desta possibilidade aos fiéis. Tudo olhando na necessidade de encarar cada caso como um caso, sem soluções que sirvam para toda a gente. «O que está a acontecer no Sínodo é que temos uma forma de reflexão indutiva, baseada na experiência das pessoas, que é uma fonte teológica. Estamos a aprender a usar o estudo de caso, ao refletir teologicamente sobre os casos das pessoas. Aprender a fazer isto vai levar tempo, e muitas vozes dizem que não há nenhuma linha que será aplicável a todos os indivíduos», sustentou D. Paul-André Durocher, presidente da Conferência Episcopal do Canadá, o outro convidado no briefing desta manhã.

Impedir «matrimónios turísticos»
Durante as intervenções no sínodo, um dos aspetos mais focados foi a preparação para o matrimónio. O Pe. Dorantes, outro dos porta-vozes, falou da intervenção de um bispo que falou da existência de «matrimónios turísticos», um fenómeno que tinha na sua diocese, onde havia uma igreja que, pela sua beleza, recebia noivos de todo o mundo. «Os sacerdotes que prestavam serviço lá estavam tão desanimados que não faziam qualquer tipo de trabalho pastoral com os noivos, limitavam-se a pedir que os papéis viessem todos em ordem, e nada mais, e os próprios novos encaravam a celebração como mais uma paragem no périplo turístico por aquele país. Acabei por proibir que se realizassem lá essas celebrações, e sugiro que todos os bispos façam o mesmo nas suas dioceses», disse o bispo na sua intervenção.

Este exemplo veio no seguimento de muitos outros padres que, segundo o Pe. Rosica, falaram na necessidade de aprofundar a preparação para o matrimónio, para que este possa ser «apresentado aos jovens desta nova geração de uma forma que seja apelativa para eles», sem perder a exigência necessária.

O Pe. Rosica falou ainda que, apesar de «muitos pretenderem respostas imediatas», «o que foi pedido foram estratégias pastorais a médio e longo prazo, num esforço comum que permita evitar o desmoronar dos valores».

Sobre a questão do acolhimento aos homossexuais, ficou claro para o Pe. Rosica que o sínodo pretende que haja «um cuidado pastoral em relação aos homossexuais». «Não se trata de fazer analogia entre casamentos, mas, ao fazer a distinção, respeitar a humanidade de cada pessoa e tratá-los com respeito e compaixão», disse o sacerdote.

O Cardeal Francesco Coccopalmerio acrescentou que é preciso que essa distinção fique clara. «Não rejeitamos os casais homossexuais, mas dizer que abençoamos esse tipo de união, por uma questão de lógica, não podemos dizer, pois não faz parte do nosso modo de ver a doutrina cristã», referiu o prelado.

Texto: Ricardo Perna
Fotos: News.va e l'Osservatore Romano

7 de outubro de 2014

Igreja quer distinguir culpados e inocentes nas situações de separação



«O desafio deste Sínodo é o de tentar trazer de volta ao mundo de hoje, que em muitos aspetos se parece com os primeiros dias do Cristianismo, a beleza da mensagem cristã sobre o casamento e a família, sublinhando a alegria que dão, mas, ao mesmo tempo, responder, de uma forma verdadeira e caridosa, aos muitos problemas que têm impacto na família hoje em dia e incentivando que a verdadeira liberdade moral não é fazer o que cada um quer ou viver orientado pelos sentimentos individualistas, mas só é alcançada quando se chega à verdade». Foi assim que o cardeal Péter Erdò resumiu, nas conclusões do relatório preliminar que entregou hoje aos participantes do Sínodo para a Família, o desafio que é colocado à Igreja nos dias de hoje nesta temática da família.

O Relatio ante disceptationem, que congrega as respostas enviadas por todo o mundo aos Lineamenta, e todos os discursos que os participantes no sínodo já fizeram chegar à secretaria do sínodo, faz o ponto de situação da família e a da pastoral familiar da Igreja em todo o mundo. Não de uma forma quantitativa, mas de forma qualitativa podemos perceber quais os principais aspetos que serão discutidos neste Sínodo. Não é um texto de novidades, até porque retrata a realidade, mas é possível perceber, desde logo, qual a linha de pensamento da Igreja em muitos dos assuntos que irão ser abordados nos trabalhos sinodais.

O Cardeal Erdò define a família como «escola de humanidade», porque «desenvolve» a pessoa, «escola de relações sociais», porque ajuda a pessoa a desenvolver as suas competências sociais, e como «escola de santidade», na qual ajuda pais e filhos no seu caminho até à sua própria «santidade». Neste sentido, e apesar das «dificuldades que hoje encontra», a família «não é um modelo ultrapassado, já que temos indicação de que muitos jovens têm um desejo renovado de formar família».

O relatório admite que os católicos não têm conhecimento dos «aspetos específicos da doutrina e do Magistério da Igreja sobre o casamento e a família», e que muitas vezes «os ensinamentos [da Igreja] sobre o casamento e a família não são postos em prática». No entanto, e de forma algo surpreendente considerando a ideia anterior, o Cardeal Erdò defende que a «grande maioria dos crentes e teólogos» não coloca em causa estes princípios, e que os mesmos, «tendo em conta a forma como foram apresentados no Concílio Vaticano II e sumarizados no Instrumentum Laboris, gozam de um amplo consenso entre os católicos praticantes.

Nas questões da indissolubilidade do matrimónio, as declarações do cardeal são ainda mais surpreendentes, considerando a realidade pastoral europeia. Péter Erdò escreve no relatório que a proposta da Igreja «não é questionada e é observável na prática pastoral da Igreja com pessoas cujo casamento falhou e que procuram um novo começo». O prelado diz que isto é visível pelo testemunho de muitos casamentos felizes, e que, apesar do crescimento de situações sérias e irregulares, este testemunho positivo não pode ser ignorado.

Por isso, diz o cardeal, «o que está em discussão neste Sínodo de natureza pastoral não são questões doutrinais, mas de carácter prático – que são, mesmo assim, inseparáveis dos fundamentos da Verdade.

Sobre a questão da homossexualidade, «dois aspetos emergem da Instrumentum Laboris», segundo o Cardeal Péter Erdò. «Há um consenso alargado que não pode haver discriminação contra pessoas com uma orientação homossexual», e há «uma noção clara entre todos os batizados – e em todas as conferências episcopais – que não é possível equiparar as relações homossexuais ao casamento entre o homem e a mulher ou sequer considerar válida a ideologia das teorias de género».

Para o relator deste Sínodo, «seria desejável que o Sínodo, partindo das bases da fé, pudesse olhar para além dos católicos que pratica a sua fé e, considerando a complexa situação da sociedade, tratasse as dificuldades culturais e sociais que hoje pesam na vida familiar». «A família está a tornar-se rapidamente na última realidade humana num mundo determinado exclusivamente pelas finanças e pela tecnologia. Uma nova cultura da famíia pode ser o ponto de partida para uma civilização humana renovada», considera o cardeal.


Algumas (novas) ideias para os recasados
O problema da quebra no matrimónio é sentido por muitas dos que responderam ao inquérito, e deverá ser um assunto presente nas intervenções dos padres sinodais. O cardeal Erdò diz que esse é um problema que deriva da «influência da cultura existente», em que muitos «se reservam ao direito de não observarem a fidelidade conjugal, a divorciarem-se e recasarem, ou a não serem abertos à vida». Em função disso, e «apesar das palavras explícitas da liturgia que os noivos proferem, muitos celebram o sacramento do matrimónio sem uma noção clara de assumirem, perante o Senhor, um compromisso incondicionais e para toda a vida de doação ao outro».

Sobre as situações irregulares em que muitos católicos vivem, o cardeal Péter Erdò diz que é preciso «pensar na melhor forma de acompanhar as pessoas que se veem nessas situações, para que não se sintam excluídas da vida da Igreja». «As pessoas divorciadas e recasadas pertencem à Igreja. Precisam e têm o direito de receber cuidados da parte dos seus pastores. São convidados a ouvir a palavra de Deus, a participar na liturgia e na oração, e a se envolverem em trabalhos caritativos». Mais do que isto seria colocar em causa a indissolubilidade do matrimónio, e tal não se afigura possível, como já foi referido acima peloa cardeal.

No entanto, há aqui uma novidade, ou pelo menos o tornar público de uma reflexão que já vem sendo feita por alguns teólogos. «No que diz respeito aos divorciados que estão civilmente casados, muitos afirmam que é preciso fazer uma distinção entre aquele que é culpado pela separação e a parte que é inocente. O cuidado pastoral da Igreja deve estender-se a cada um de uma forma particular», diz o cardeal Erdò. Este é um assunto sobre o qual já muitos prelados, entre os quais o presidente do Conselho Pontifício para a Família, D. Vincenzo Paglia, e o cardeal Saraiva Martins, prefeito emérito para a Congregação para a Causa dos Santos, se tinham pronunciado. Coloca-se aqui a hipótese de admitir a morte do vínculo, que permitiria a essa «parte inocente» iniciar um novo vínculo válido aos olhos da Igreja, pelo que este será um assunto a seguir com atenção.

Muito ênfase foi também dado pelo Cardeal Erdò à questão da nulidade, prova de que foram muitos os que se terão pronunciado sobre esse assunto. «A verificação da existência de causas para a nulidade do vínculo matrimonial deve ser feita em diálogo pastoral, evitando qualquer forma de processo burocrático ou com interesse económico. Se tudo for feito na busca séria da verdade, o processo de nulidade pode ser, verdadeiramente, uma experiência de libertação», diz o cardeal no seu relatório.
A isto dirá também respeito as sugestões já lançadas de flexibilização dos processos de nulidade. «A obrigação de duas sentenças que confirmem a nulidade» pode ser algo a rever, diz, «desde que o processo não signifique que isto passe a ser o divórcio da Igreja».

Aliás, o Cardeal Erdò defende que «a prevalência, na sociedade, de uma mentalidade propícia ao divórcio, incentivada pela facilidade com que ele é concedido pelos tribunais civis, leva a que as pessoas celebrem o casamento canónico já a pensar que poderão deixá-lo se ocorrer alguma dificuldade. Esta mentalidade, mesmo que não conheçam os trâmites canónicos, pode provocar que um matrimónio seja inválido», defende o prelado.

Ainda sobre os divorciados, muitos participantes no questionário referiram a realidade ortodoxa, que permite uma segunda ou terceira união. «Examinar este assunto é necessário para evitar interpretações duvidosas e conclusões que não estejam suficientemente bem fundadas», avisou.

As discussões sobre este relatório tiveram início ontem e deverão durar toda a semana, até que seja elaborado, no próximo sábado, o relatório post disceptationem. Pode acompanhar tudo pelo site da Família Cristã em www.sinododafamilia.familiacrista.com

Texto: Ricardo Perna
Foto: News.va

30 de setembro de 2014

Chegou o momento de discutir a Família



Pensar a família como um todo é pensar o futuro da sociedade. Com esta ideia no pensamento, o Papa Francisco resolveu dedicar o primeiro sínodo do seu pontificado ao tema da família. São vários os assuntos que vão ser debatidos, pois a família toca em diferentes realidades, e aqui mostramos apenas algumas das questões que vão estar em causa. A expetativa é grande, mas não são de esperar grandes decisões no final deste sínodo extraordinário.


Texto Ricardo Perna

O Papa Francisco surpreendeu o mundo, (mais uma vez, dirão alguns), quando, em outubro de 2013, anunciou a realização de um Sínodo sobre a Família. A surpresa não veio do anúncio do Sínodo em si, mas em tudo o que veio depois. Desde logo, a realização de dois sínodos, um com carácter extraordinário, para 2014, outro ordinário, em 2015. No dia do anúncio, o Pe. Lombardi, da sala de imprensa da Santa Sé, explicava que «esta é a forma com que o Papa pretende fazer um caminho de reflexão na unidade da igreja, promovendo a participação responsável do episcopado de todas as partes do mundo». Conhecido por ser um homem de consensos, Francisco mostrou isso mesmo logo em novembro, quando chegou às dioceses de todo o mundo o Lineamenta, o documento preparatório que é habitualmente enviado a todos os bispos. Juntamente com o documento, a indicação expressa de que o mesmo deveria ser distribuído a todos os movimentos, congregações e pessoas individuais interessadas em enviar as suas respostas sobre a realidade da sua igreja local. Apesar de esta intenção teórica estar sempre presente nos sínodos anteriores, foi a primeira vez que ela foi vincada desta forma.

As respostas foram em grande número, e provocaram algum burburinho à medida que as opiniões foram sendo conhecidas, já que muitas iam criticavam a doutrina da Igreja em alguns temas.
No entanto, Francisco conseguiu o que queria: pôs grande parte do mundo crente e não crente a falar sobre a família, os seus desafios, forças e fraquezas. Além disso, criou uma expetativa sobre o sínodo que irá fazer com que as suas conclusões sejam escutadas com a maior das atenções.
Este sínodo que se inicia a dia 5 deste mês vai servir para ouvir os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo falar sobre a realidade local da igreja relacionada com os temas da família. Vai ser uma reunião global essencialmente de auscultação, da qual não são esperadas nenhumas conclusões definitivas, sejam elas pastorais ou doutrinais. O Papa quer consolidar o conhecimento da realidade da igreja nos diferentes países do globo, complementando as respostas que recebeu do questionário mundial com as opiniões, de viva voz, dos presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, que lhe trarão a experiência pastoral de cada país e as dificuldades específicas de cada região do globo.

Muitas pessoas aguardam este sínodo de outubro com a expetativa de que saiam respostas claras, e esse poderá ser o principal risco de todo este entusiasmo que rodeia o encontro, já que não se afigura plausível que, com um novo sínodo daqui a um ano, desta reunião saiam grandes decisões.
Outra dúvida é saber se Francisco irá promover mudanças doutrinais ou pastorais dentro da Igreja. Apesar de ser olhado por todos como um progressista, a verdade é que o Papa não tem “inovado” a doutrina da Igreja como alguns setores da Igreja esperavam, antes tem inovado pela prática pastoral e pela abordagem aberta e próxima das pessoas. Por isso, a dúvida sobre eventuais mudanças doutrinais mantém-se e apenas poderá ser esclarecida depois dos Sínodos. Certo é que Francisco pretende que a família volte a ganhar o relevo que os últimos anos lhe foram roubando enquanto célula base da sociedade e da felicidade do ser humano.

Temas sobre os quais o Sínodo se vai debruçar:

Divorciados e recasados
Podendo não ser o mais importante ou que afete mais pessoas, este é o tema de quem toda a gente fala. O sofrimento causado pelo afastamento dos sacramentos de todos os divorciados recasados é sentido por grande parte da igreja local. A grande dúvida não está na necessidade de acolhimento destas pessoas, mas sim na possibilidade de lhes voltar a dar acesso aos sacramentos, mesmo sabendo que vivem em pecado, segundo a Igreja.
O Cardeal Kasper defende a reintegração destas pessoas, após um período de penitência e reflexão interior, mas muitos apontam a indissolubilidade do matrimónio descrita na Bíblia como algo que inviabiliza esta opção, apesar dos cristãos ortodoxos terem encontrado nos mesmos textos bíblicos uma forma de justificar essa segunda união.
Viver uma vida de abstinência parece dura aos olhos de muita gente, mesmo dentro da igreja, e há ainda quem defenda que, se a pessoa não for a responsável pelo divórcio, tem o “direito” de ser desligada desse vínculo e procurar outra pessoa com quem partilhar a sua vida.

A fé na família
Cultivar a fé na família será o problema mais perene de todos, apesar de ser aquele sobre o qual menos se fala. Cada vez mais a família apresenta um défice na capacidade de educar os seus filhos na fé, e muitas crianças chegam à catequese nas paróquias sem o mínimo de vivência cristã. Esta é uma questão puramente pastoral, sobre a qual o Sínodo irá certamente debruçar-se. A catequese familiar é um movimento que tem conhecido uma expansão grande e pode ser uma opção válida no sentido de envolver os pais na educação cristã dos seus filhos. Esse envolvimento também contribui para que as crianças não abandonem a catequese e na se desliguem da Igreja na idade adulta.
Responsabilizar e formar pode ser a chave para se criarem comunidades católicas maiores e mais empenhadas no futuro.

Processos de nulidade e preparação para o matrimónio

Associado às questões dos divorciados, surge hoje a necessidade de agilizar os processos de nulidade, que visam perceber se a união assumida pelo casal no momento do matrimónio existiu ou não.
O presidente do Tribunal eclesiástico de Lisboa, Pe. Ricardo Ferreira, admite que se possa «abdicar da confirmação do segundo tribunal na generalidade dos casos, e guardar essa opção apenas para quem decida recorrer da sentença preferida pelo tribunal eclesiástico de primeira instância», o que significaria uma diminuição do tempo necessário para o processo que já foi bastante diminuído com o aumento dos recursos humanos nos tribunais). Também a nível dos custos é possível já hoje que estes sejam diminuídos ou anulados no caso de dificuldades financeiras, o que facilitará o acesso de mais pessoas aos mesmos.
Juntamente com a questão da nulidade, está a questão da preparação para o matrimónio. Muitos dos casamentos hoje são nulos por falta de maturidade dos noivos no momento da celebração, e isso é culpa, em grande parte, da fraca formação que é dada a esses noivos. Os cursos de preparação para o matrimónio não chegam a toda a gente, e os sacerdotes não se negam a casar ninguém, mesmo que vejam claramente que não estão preparados ou conscientes do que vão fazer. Isso pode mudar se a Igreja apostar de forma mais clara na obrigatoriedade da formação dos noivos e tiver uma postura mais firme na decisão de celebrar ou não certos matrimónios. Diminuirá o número de casamentos, mas também o número de divórcios e situações dolorosas para as pessoas envolvidas.

Novos conceitos de família
Filhos de pais separados, adultos em situação irregular que prestam serviço na paróquia, uniões de facto, casamento homossexual, adoção homossexual… são várias as matérias que provocam uma mudança no panorama familiar da sociedade contemporânea. A existência destes modelos e o que é possível fazer para os acolher dentro da doutrina da Igreja será certamente um dos temas a debater no sínodo. O Papa já mostrou estar aberto e disponível para acolher todos na Igreja, mas também não se mostrou disponível para mudar a doutrina da Igreja para que isso aconteça. Partirá das pessoas compreender o que se espera de um católico, e da Igreja entender que a realidade mudou e que há que fazer novo entendimento de coisas que poderiam não ser admissíveis em tempos. Sem colocar a doutrina em causa, não se anteveem soluções fáceis, nomeadamente no caso das uniões homossexuais.

24 de setembro de 2014

A nulidade matrimonial no Sínodo


Em janeiro, D. Vincenzo Paglia, presidente do Conselho Pontifício para a Família, afirmava em entrevista à Família Cristã que os processos precisavam de ser mais céleres, a pedido do próprio Papa. Na semana passada, o Papa Francisco nomeou uma comissão para estudar «a reforma do processo canónico de casamento» e reforçou assim a ideia que já se vinha formando de que o Sínodo, agora ou em 2015, irá introduzir alterações aos processos de nulidade matrimonial.

Neste sentido, o que poderá mudar? «Se houver recursos e disponibilidade é possível que todo o processo seja mais célere, mas há prazos que nos obrigam a ir esperando. Há quem especule que a não necessidade de confirmação pode acontecer, mas a necessidade de confirmação é para salvaguardar algum tipo de arbitrariedade. Por mais sério que seja, pode ter escapado ao juiz alguma coisa, e um outro olhar dá-nos mais segurança na confirmação da sentença. Mas há a possibilidade de deixar a confirmação apenas para quem se sinta injustiçado», diz o Pe. Ricardo Ferreira, que adianta outra hipótese, «mais difícil». «Outra solução, mais difícil, seria prescindir da figura do defensor do vínculo, que é quem defende a validade do ato e aponta a fragilidade do processo», considera o sacerdote.

Pedro Vaz Patto, que é juiz, também concorda com a eliminação da obrigatoriedade da segunda instância. «A exigência da confirmação na segunda instância pode ser abolida, porque a esmagadora maioria das decisões são confirmadas. Salvaguardando sempre a possibilidade de uma das partes recorrer, pode eliminar-se a exigência», defende o magistrado.
Um maior investimento em recursos humanos nos tribunais eclesiásticos também contribuirá para diminuir não o tempo do processo, mas o período de espera entre a entrega do libelo e o início da instrução, que é, em alguns casos, o período mais demorado de todo o processo.

No que diz respeito a novos critérios de nulidade que possam ser estudados, o Pe. Ricardo Ferreira não está certo de que possam existir, mas não fecha a porta a essa possibilidade. «O código de direito canónico de 83 é o atualmente em vigor. A própria jurisprudência pode ir encontrando novas práticas que se vão enquadrando nos critérios que temos. Ultimamente o que temos verificado são as situações da falta de liberdade interna, que alguns tribunais consideraram como fator autónomo, mas que já se percebeu que está incluído nos fatores já definidos», indicou o sacerdote, que afirma, no entanto, que, à semelhança do cânone 1095, que foi «introduzido na última revisão», «pode acontecer que, no futuro, as novas revisões levem à criação de novos fatores que permitam perceber a nulidade», conclui.

Ricardo Perna