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29 de outubro de 2015

Cardeal-Patriarca pede «apostolado familiar nas comunidades» e rejeita comunhão aos recasados


D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) afirmou hoje em conferência de imprensa no Patriarcado de Lisboa que é preciso «investir muito mais» do que até agora na formação e preparação para o matrimónio. «Temos de investir muito mais nas áreas da preparação do matrimónio e na nulidade. Se estamos num debate grande e diferenciado em que queremos que a Igreja se assuma como família de famílias, temos de investir muito mais nisto», afirmou aos jornalistas presentes.

Questionado sobre se a CEP irá uniformizar os procedimentos em todo o país com algum documento base, o seu presidente diz que haverá «indicações», mas que a solução não vira das instituições, mas sim das próprias famílias. «A esperança está no apostolado familiar nas comunidades, sujos resultados serão muito melhores que uma intervenção institucional a nível nacional. Elas é que podem fazer esse acompanhamento da melhor forma, com princípios gerais de elucidação e acompanhamento que sirvam de exemplo aos mais novos», referiu o prelado.

Reafirmando que a proposta católica é «para quem deseje aceitá-la», D. Manuel Clemente rejeitou que o documento final do Sínodo tenha trazido grandes mudanças. «O projeto católico é uma das propostas existentes na nossa sociedade. Haverá outras, e os casais poderão escolher, mas a nossa proposta é clara e está bem definida», referiu quando questionado que mudanças poderia haver para os divorciados recasados, uma das áreas mais mediáticas do último Sínodo. «O sacramento não pode contrariar outro sacramento, e se há uma união sacramental, não pode participar na comunhão», defende o presidente da CEP.

Isto não significa, no entanto, que o resto da vida comunitária paroquial e de ministérios esteja negada a estes casais. «Dependendo da sua caminhada e testemunho, podemos questionar, como o fizeram o Papa Francisco e o Papa Bento XVI enquanto eram bispos, se não haverá espaço para estes casais nos diferentes ministérios da paróquia, e porque não até podendo assumir as responsabilidades de padrinhos nos batizados. É preciso analisar a situação de cada um e responder em conformidade», disse.

Considerando que «o critério familiar tem de ser o critério de pastoral» a partir de agora, D. Manuel Clemente a família tem de «ser a base de tudo o que se faz na pastoral». «Se estamos num ambiente em que a problemática familiar se põe desta forma, temos de tirar conclusões práticas para o acompanhamento das famílias», disse, acrescentando que «tudo passa pela colaboração dos leigos com os sacerdotes» em cada comunidade.

Situação política deve resolver-se à luz do bem comum 
No final da conferência de imprensa, D. Manuel aceitou comentar a situação política do país, e retomou o que já tinha dito em entrevista à Família Cristã antes das eleições. «Para os cristãos, que existem em todas as forças políticas do nosso país, e para todos os que se declaram admiradores das palavras do Papa Francisco, pedimos que tomem em conta o que o Papa tem dito, a Doutrina Social da Igreja e a última encíclica papal, que fala da ecologia integral», sustentou.

«Se há pessoas que se dizem católicas, então levem isso até à consequência da sua ação partidária», pediu, relembrando os quatro pilares sobre os quais considera que a política deverá assentar a sua ação. «Há princípios que são nossos e que não abdicamos: o respeito pela vida e dignidade humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade. Na conjugação destas quatro rodas, o carro anda bem», assegurou.

Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna

27 de outubro de 2015

Noção de continuidade ajudou a superar tensões, diz perito português



O Pe. Duarte da Cunha, que acompanhou os trabalhos do Sínodo 2015 como perito nomeado pelo Papa, considera que as três semanas de debate sobre a família realçaram a «continuidade» da doutrina católica, superando tensões. Em entrevista à Família Cristã e à Agência ECCLESIA, o secretário do Conselho das Conferências Episcopais Europeias (CCEE) fala em dois anos de «muita reflexão», desde que o Papa decidiu convocar os bispos de todo o mundo para debater a família, admitindo que «a certa altura houve uma tensão entre o que é novo e o que é antigo». «Todo o processo foi a compreensão desta continuidade, quer desde o Evangelho até agora, do Concílio Vaticano, da Humanae Vitae, da Familiaris Consortio. O que há de aprofundamento e de desenvolvimento, até relativamente aos conceitos e de mudança da realidade sociológica, não está em contradição com aquilo que é a continuidade», precisa o especialista.

O sacerdote português refere que no ensinamento dos últimos Papas, «com as diferenças necessárias», houve «uma continuidade, quer do amor à família, quer da verdade da família, de conceitos da teologia moral que são sempre válidos, mas que não podem ser sempre ditos da mesma maneira».

Nos trabalhos da 14ª assembleia geral ordinária do Sínodo, este responsável encontrou participantes com um conhecimento concreto da doutrina, como no caso do planeamento familiar natural, contrariando a crítica de estarem apegados a conceitos mas longe da realidade. «Depois há os outros mais aplicados à realidade, mais sensíveis aos problemas e que às vezes aparentemente descuram mais a doutrina. Isto também não é verdade», prosseguiu. No final do Sínodo, o relatório entregue ao Papa foi aprovado por unanimidade, símbolo da unidade e do «bom ambiente» com que decorreram os trabalhos.

O sacerdote português observa que a assembleia sinodal que se concluiu no domingo «exige que a pastoral, a moral, não sejam desligadas da reflexão teológica, doutrinal, sociológica do que é a realidade da família». «Isso foi algo que ao longo do processo dos dois anos às vezes parecia que estava em tensão, daí a insistência: não são duas coisas distintas, coisas separáveis», relata. Para o secretário do CCEE, é necessário compreender que «a moral é sempre consequência do ser» e que, no caso das famílias, as normas se referem à forma como «cada pessoa dentro desta realidade tem relações e dentro dessas relações qual é o comportamento». «A moral só se compreende, não porque se olha para a regras que são importantes, mas porque olhando para as relações reais, se percebe qual é o ideal, o que se deve fazer, o que Deus recomenda. Depois também se percebe que há coisas que são objetivamente más, não se podem fazer», explica.

Dos pontos conclusivos, o padre Duarte da Cunha realça a preocupação com a formação de «comunidades de famílias» que sejam também o lugar onde se prepara para o casamento, «que os noivos sejam preparados para o casamento integrando uma equipa de casais da paróquia ou da associação». Outro aspeto que não era «tão evidente» está relacionado com o «dinamismo da família» como sujeito da pastoral do setor. «Também há uma mudança da perspetiva da família, não só como tema moral mas também como dinâmica de amor, de misericórdia», conclui.

Texto: Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna

26 de outubro de 2015

Presidente delegado do Sínodo confirma que discernimento «pode chegar até à comunhão» de recasados



O arcebispo da Aparecida, no Brasil, o Cardeal Raymundo Damasceno, declarou ontem à Família Cristã e à Agência Ecclesia que o caminho de discernimento que os casais divorciados recasados fazem com o seu confessor ou orientador espiritual pode «chegar até à comunhão e à confissão». «No contacto com um ou com outro casal que deseje ser acompanhado», e depois de «um discernimento sobre a sua situação», «quem sabe, num caso ou noutro, chegar até à comunhão e à confissão», confirmou o cardeal, em declarações proferidas em Roma, no final da missa conclusiva do Sínodo dos Bispos, que decorreu em Roma nas passadas três semanas.

O cardeal brasileiro explica que o «Sínodo não tomou nenhuma decisão» geral sobre o assunto, antes determinando que cada caso seja avaliado individualmente. «O Sínodo fala muito do discernimento, porque cada caso é um caso. Não podemos generalizar as situações dos casais que vivem uma segunda união, porque cada um tem uma situação muito concreta, muito especial, com todas as circunstâncias que rodeiam a vida dessa pessoa», explicou o prelado.

Neste sentido, o cardeal diz que o Sínodo apela a «um discernimento sério, objetivo, com uma consciência bem formada, aberta também à vontade de Deus, para que, quem sabe, se possa chegar a uma conclusão mediante a decisão de um confessor ou de um orientador espiritual, que possa acompanhar o casal nessa situação, se assim o desejar». «O documento do Sínodo está marcado por uma dimensão da misericórdia, da ternura da Igreja, sobretudo com aquelas famílias mais sofridas e que estão em situações mais difíceis, como é o caso das famílias dos migrantes, de quem sofre pobreza extrema, ou violência e perseguição, e as pessoas que vivem situações especiais na sua vida matrimonial», sustentou.

Nesta situação estão «pessoas que não foram felizes na sua primeira união matrimonial, se separaram, contraíram uma segunda união, e aí estão, muitas delas participando na vida da Igreja nas nossas comunidades, com a limitação do acesso à comunhão e à confissão», mas também muitas que «talvez nem procurem a Igreja para resolver essa situação que estão a viver». É a essas que o Sínodo quer chegar e integrar. «É importante a integração dos casais nas nossas comunidades, abrindo espaços para eles e possibilitando, evitando qualquer tipo de escândalo, a possibilidade de participar nos ministérios e se integrarem na vida da comunidade», pede.

O prelado brasileiro, que dirigiu os trabalhos do Sínodo, fez um balanço muito positivo da reunião sinodal, explicando que a metodologia «possibilitou um maior número de encontros por grupos de trabalho, e isso facilitou a participação» de todos num documento «consultivo» que, sabem, é um apoio para as decisões que o Papa irá tomar. «São estudos e propostas que os padres sinodais oferecem ao Papa. Cabe agora a ele tomar alguma decisão no sentido de publicar alguma exortação pós-sinodal ou qualquer outro tipo de documento, para que então as conclusões possam tornar-se efetivas nas nossas dioceses e nas nossas paróquias», conclui.





Texto: Ricardo Perna (com Octávio Carmo)
Fotos: Ricardo Perna

25 de outubro de 2015

Vaticano é a «casa de todos», diz bispo moçambicano


O arcebispo de Maputo, D. Francisco Chimoio, mostrou-se satisfeito com o desenrolar do Sínodo dos Bispos sobre as famílias e espera que os trabalhos ofereçam força e coragem às famílias católicas. “Queremos ajudar as famílias a ser cada vez mais fortes”, declarou o prelado moçambicano, em declarações à Agência ECCLESIA e Família Cristã, em Roma.

O arcebispo, que participou nos trabalhos da 14ª assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre a família, elogiou as famílias “corajosas” que dão o melhor de si próprias face às dificuldades do seu quotidiano, com “amor, transparência e responsabilidade”. Após o final deste percurso de reflexão, o “grande trabalho” é acompanhar todas as famílias, para as “alertar e fortalecer”. D. Francisco Chimoio deixa críticas à ideologia do género, que “mina as bases da família”, antes de reconhecer que o debate sobre o acesso dos divorciados recasados à Comunhão causou alguma tensão, sublinhando que os bispos nunca “colocaram em questão a doutrina”. “Eu, como bispo, não posso dizer a um cristão ou a uma cristã, sabendo que não está em graça, que vá comungar”, observou.

Para o arcebispo de Maputo é necessário «acompanhar». «Não se pode apontar o dedo a ninguém, não se pode desprezar alguém só porque falhou», mas «acompanhar não é dizer que está tudo bem: é dizer a verdade, porque é esta que salva». O responsável mostrou-se impressionado com a situação em que muitos católicos vivem, por todo o mundo, e diz que também por isso o Sínodo «foi um momento de graça».

Além das perseguições religiosas e do fundamentalismo, muitos cristãos enfrentam os ataques do laicismo, «uma onda que há de passar com o tempo, porque não é possível que as pessoas se sintam felizes longe da presença de Deus». Em Moçambique começam a sentir-se os desafios do «materialismo e do relativismo» potenciados pela globalização, para além dos problemas levantados pelos casamentos de muitas mulheres com muçulmanos e deixam de fazer parte da comunidade cristã. «É um grande desafio que temos», admite D. Francisco Chimoio.

Nos trabalhos da assembleia sinodal, o prelado moçambicano abordou a dimensão «missionária» das famílias, que podem dar um «impulso» à ação da Igreja Católica, a começar pelos próprios filhos, na sua iniciação à fé. O responsável fala do Sínodo como um «encontro de irmãos» e descarta uma «regionalização» da Igreja Católica, evidenciando a centralidade da figura do Papa, «um pastor para todos». «É saudável isto, porque senão não temos unidade. Esta é a casa de todos, o Vaticano é a casa de todos», referiu, sublinhando que os bispos não trabalham «sozinhos».

D. Francisco Chimoio abordou ainda a nova responsabilidade que as dioceses assumem com a criação dos chamados «processos breves» em relação a uma eventual declaração de nulidade matrimonial. «Não vai ser um trabalho simples», admite.

Texto: Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna

Papa rejeita fé pré-programada que ignora sofrimento alheio


O Papa alertou hoje no Vaticano para a tentação de uma “fé pré-programada” que ignora o sofrimento alheio em função da sua própria agenda. "Uma fé que não sabe radicar-se na vida das pessoas, permanece árida e, em vez de oásis, cria outros desertos", disse, na homilia da Missa conclusiva do Sínodo dos Bispos sobre a família, na Basílica de São Pedro.

Francisco partiu do relato da cura de um cego, por Jesus, para recordar que perante o sofrimento de Bartimeu “nenhum dos discípulos para”, mas “continuam a caminhar, avançam como se nada fosse”. “Se Bartimeu é cego, eles são surdos: o seu problema não é problema deles. Esse pode ser o nosso risco: face aos problemas contínuos, o melhor é seguir em frente, sem deixar-se perturbar”, advertiu. 

Neste contexto, a homilia falou numa “fé pré-programada”, em que cada um já tem a sua agenda própria, “ onde tudo está previsto”. “Sabemos para onde ir e quanto tempo gastar; todos devem respeitar os nossos ritmos e qualquer inconveniente perturba-nos. Corremos o risco de nos tornarmos como «muitos» do Evangelho que perdem a paciência e repreendem Bartimeu”, precisou.

Em vez de rejeitar quem incomoda, Jesus quer “incluir, sobretudo quem está relegado para a margem e grita por Ele”. O Papa aludiu depois à falta de “abertura do coração” e ao fim de aspetos da vida espiritual como “a admiração, a gratidão e o entusiasmo”, longe do “coração” de Deus, que “se inclina para quem está ferido”. “Esta é a tentação duma «espiritualidade da miragem»: podemos caminhar através dos desertos da humanidade não vendo aquilo que realmente existe, mas o que nós gostaríamos de ver”, prosseguiu.


Perante os “irmãos sinodais”, cardeais, patriarcas, arcebispos, bispos e padres que participaram na 14ª assembleia geral do Sínodo, o Papa elogiou o caminho que todos fizeram “juntos”. “Sem nos deixarmos jamais ofuscar pelo pessimismo e pelo pecado, procuremos e vejamos a glória de Deus que resplandece no homem vivo”, apelou.

Francisco defendeu que, tal como na cura do cego, os cristãos devem ir ter com quem sofre para dizer-lhes “coragem”, “tem confiança, anima-te” e “levanta-te”. “Os seus limitam-se a repetir as palavras encorajadoras e libertadoras de Jesus, conduzindo diretamente a Ele sem fazer sermões. A isto são chamados os discípulos de Jesus, também hoje, especialmente hoje: pôr o homem em contacto com a Misericórdia compassiva que salva”, observou.

A menos de dois meses do início do Jubileu da Misericórdia, um Ano Santo extraordinária convocado pelo Papa, Francisco disse que as situações de “miséria e de conflitos” são para Deus “ocasiões de misericórdia”. “Hoje é tempo de misericórdia”, sustentou.

Após a homilia, na apresentação das ofertas, uma família com uma filha em cadeiras de rodas foi ao altar, um dia depois de o Sínodo dos Bispos ter manifestado o seu apoio a todas as pessoas com deficiência.

Texto: Octávio Carmo (Agência Ecclesia)
Fotos: Ricardo Perna

24 de outubro de 2015

Papa encerra Sínodo afirmando que Igreja não existe para condenar


O Papa encerrou hoje no Vaticano os trabalhos do Sínodo dos Bispos sobre a família e disse que as últimas três semanas abriram «novos horizontes» na vida da Igreja, que recusam uma linguagem condenatória». «Procuramos abrir os horizontes para superar qualquer hermenêutica conspiratória ou perspetiva fechada, para defender e difundir a liberdade dos filhos de Deus, para transmitir a beleza da Novidade cristã, por vezes coberta pela ferrugem duma linguagem arcaica ou simplesmente incompreensível», declarou Francisco, numa intervenção à porta fechada, posteriormente publicada pela sala de imprensa da Santa Sé.

Perante 265 participantes com direito a voto, entre eles D. Manuel Clemente e D. Antonino Dias, de Portugal, o Papa declarou que «o primeiro dever da Igreja não é aplicar condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus». «A experiência do Sínodo fez-nos compreender melhor também que os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão», precisou.


Francisco apresentou uma reflexão sobre o que deve significar para a Igreja «encerrar este Sínodo dedicado à família», que desde 2013 incluiu questionários às comunidades católicas, uma reunião extraordinária de bispos (2014) e a 14ª assembleia geral ordinária, que se conclui oficialmente este domingo, com a Missa na Basílica de São Pedro.

O fim deste percurso, afirmou o Papa, não significa que se esgotaram todos os temas, mas que estes foram debatidos «à luz do Evangelho, da tradição e da história bimilenária da Igreja», sem «cair na fácil repetição do que é indiscutível ou já se disse», «sem medo e sem esconder a cabeça na areia». «Seguramente não significa que encontrámos soluções exaustivas para todas as dificuldades e dúvidas que desafiam e ameaçam a família», admitiu.

Francisco falou da reunião de bispos e outros representantes das comunidades católicas como uma prova da «vitalidade da Igreja Católica», num «período histórico de desânimo e de crise social, económica, moral e de prevalecente negatividade». «Testemunhámos a todos que o Evangelho continua a ser, para a Igreja, a fonte viva de novidade eterna, contra aqueles que querem “endoutriná-lo” como pedras mortas para as jogar contra os outros», defendeu. O Sínodo desafia a Igreja e a sociedade a compreender a importância da «instituição da família e do Matrimónio entre homem e mulher», fundado sobre «a unidade e a indissolubilidade».

Francisco lamentou que alguns «corações fechados que, frequentemente, se escondem mesmo por detrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções para se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas», e avisou que a Igreja não pertence apenas aos «justos e santos, mas é também pertença dos «pobres em espírito e dos pecadores a espera de perdão».

Noutra passagem do discurso, o Papa critica os que se opuseram à dinâmica sinodal «com métodos não totalmente benévolos», sustentado que esta assembleia nunca quis entrar nas questões dogmáticas, «bem definidas pelo Magistério da Igreja». Após três semanas de encontros com responsáveis de todo o mundo, o pontífice argentino recordou que aquilo que parece «normal» para um bispo de determinado continente pode ser «quase um escândalo» para outro. «O desafio que temos pela frente é sempre o mesmo: anunciar o Evangelho ao homem de hoje, defendendo a família de todos os ataques ideológicos e individualistas», disse ainda, advertindo para os perigos do relativismo ou de «demonizar os outros».

Em conclusão, Francisco sustenta que, para a Igreja, encerrar o Sínodo significa «voltar realmente a “caminhar juntos” para levar a toda a parte do mundo, a cada diocese, a cada comunidade e a cada situação a luz do Evangelho, o abraço da Igreja e o apoio da misericórdia de Deus».

O Sínodo termina amanhã, oficialmente, com a missa presidida pelo Papa na Basílica de S. Pedro.

Texto: Ricardo Perna/Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna

Sínodo 2015: Bispos alertam para crise humana no Médio Oriente e condenam tráfico de armas



Os participantes no Sínodo dos Bispos que decorre no Vaticano publicaram hoje uma declaração de apoio às populações vítimas da guerra no Médio Oriente e outras regiões, condenando o tráfico de armas. «As nossas vozes unem-se ao grito de tantos inocentes: basta de violência, basta de terrorismo, basta de destruição, basta de perseguições! Que cessem imediatamente as hostilidades e o tráfico de armas», assinala o texto, distribuído aos jornalistas pela sala de imprensa da Santa Sé.

Os participantes na assembleia sinodal denunciam o uso de armas de destruição em massa, assassinatos «indiscriminados», decapitações, raptos, tráfico de mulheres, perseguições religiosas e étnicas, bem como a destruição de lugares de culto e de património cultural. «Atrocidades incontáveis obrigaram milhares de famílias a fugir das suas próprias casas e a procurar refúgio noutro lugar, muitas vezes em condições de extrema precariedade», pode ler-se. A declaração sustenta que a paz no Médio Oriente não vai chegar de «escolhas impostas pela força», mas de «decisões políticas que respeitem as particularidades culturais e religiosas» de cada país.

O documento apresenta uma palavra de agradecimento aos países que estão a acolher refugiados do Médio Oriente, ajudando pessoas que há vários anos são «vítimas de atrocidades indescritíveis». «Estamos convencidos de que a paz é possível e de que é possível parar a violência que na Síria, no Iraque, em Jerusalém e em toda a Terra Santa atinge todos os dias cada vez mais famílias e civis inocentes e agrava a crise humana», referem os participantes no Sínodo. Neste contexto «dramático» há violações «contínuas» dos princípios fundamentais da dignidade humana e dos direitos humanos, como a liberdade religiosa.

Os signatários pedem a «libertação de todas as pessoas sequestradas» nestas guerras, alargando a sua preocupação a outras partes do mundo, em especial a África e a Ucrânia.

Texto: Octávio Carmo (Agência Ecclesia)
Foto: Ricardo Perna

Família: Relatório final propõe prática do «Discernimento» nas comunidades


O cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, disse hoje no Vaticano que o Sínodo dos Bispos sobre a família propõe critérios de «discernimento» sobre situações como as dos divorciados em segunda união. Em conferência de imprensa, o presidente da Conferência Episcopal da Áustria referiu que o relatório final da assembleia, com votação marcada para esta tarde, «dá critérios não só para a questão do acesso aos Sacramentos mas para o acompanhamento de situações que o Catecismo chama irregulares».

 Especificamente sobre os divorciados que voltaram a casar civilmente, os participantes falaram com «com grande atenção», sem tocar a questão do acesso à Comunhão de forma «direta», mas com «a palavra chave discernimento». «Não há preto e branco, sim ou não», acrescentou. Esta apresentação traz «critérios fundamentais» para o «discernimento das situações» que são em muitos casos «tremendamente diferentes», sem as «julgar». «A própria palavra do Papa João Paulo II na Familiaris Consortio, diz que é obrigatório procurar a verdade e pede que os pastores exerçam o discernimento, porque as situações são diversas. Nisto, o Papa Francisco, como bom jesuíta que é, quer que este discernimento permita perceber a situação de cada pessoa», referiu o cardeal.

O cardeal Raymundo Damasceno Assis, presidente-delegado do Sínodo 2015, também confirmou aos jornalistas esta preocupação com o «discernimento», porque «cada situação é muito própria, muito concreta». «A dimensão da ternura e da misericórdia está no documento final. A preocupação é integrar as pessoas na comunidade eclesial, seja qual for a sua situação. Uma atenção muito especial pelas famílias em situações difíceis: migrações, pobreza extrema, a violência familiar, o problema dos meninos de rua, os divorciados recasados e tantas outras situações que encontramos nas famílias no mundo. A igreja quer estar próxima dessas famílias, muito atenta», refere o cardeal, acrescentando que, depois, é preciso discernir sobre as diferentes situações.

«Dentro desta integração, dá-se um processo de discernimento de cada situação, muito própria, muito concreta, para que as famílias possam participar nos mais diferentes âmbitos da paróquia. Isto faz com que possamos acompanhar melhor as situações de cada família, e fazer um discernimento que pode levar a uma comunhão plena com a Igreja», não especificando se esta comunhão plena seria possível de alcançar também pelos que estão divorciados recasados, apesar de os ter incluido no grupo daqueles que deverão ser acolhidos pela Igreja.

Para D. Christoph Schönborn, o essencial deste processo é o «grande sim à família» que foi dado pela Igreja Católica, após ter debatido o tema durante dois anos, «um facto notável para o nosso tempo». «O êxito deste Sínodo para mim é um grande sim à família, que não é um modelo ultrapassado», insistiu. «Toda uma biblioteca de livros foi publicada» sobre a família e a teologia, acrescentou o cardeal.

Para o cardeal austríaco, filho de pais divorciados, «não há rede mais segura, em tempos difíceis, do que a família, mesmo a família ferida, recomposta». Ainda em relação ao relatório final, um «documento de consenso», D. Christoph Schönborn adiantou que não haverá «muito sobre a homossexualidade neste documento», admitindo que «alguns ficarão desiludidos». O tema é «abordado sobre o aspeto da família, em que se faz a experiência de ter um familiar que é homossexual». O arcebispo de Viena realçou que este é um «tema demasiado delicado» para alguns «contextos culturais» e que, para a Igreja, a definição da família é «muito clara», exigindo a relação «homem e mulher», «fiel» e «aberta à vida». Esta definição não exclui «situações de recomposição familiar», mas permanece sempre como o «núcleo» do ensinamento católico.

O cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida (Brasil), elogiou a metodologia «diferente» desta assembleia sinodal, em que se deu muita importância aos trabalhos de grupo, com participação «muito maior» de todos, ajudando a encontrar o maior consenso possível. O mesmo responsável precisou, por outro lado, que a «descentralização» na experiência da vida da Igreja, sobretudo na América Latina, não significou, de forma alguma, «nacionalizar ou continentalizar» a Igreja Católica.


O Cardeal Schönborn concordou. «A nova metodologia é uma das grandes novidades deste sínodo. Sentimo-nos bem no final, em grande parte graças à nova metodologia, porque permite a todos exprimirem-se com calma. Nestes 50 anos de sínodo, é um verdadeiro progresso», concluiu.

A votação do documento final será esta tarde, após a qual o Papa Francisco irá concluir os trabalhos com uma mensagem.


Texto: Ricardo Perna/Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna

23 de outubro de 2015

«O Estado Islâmico não é forte, só tem força por causa da nossa fraqueza»



O patriarca sírio Gregório III Laham, líder greco-melquita de Antioquia, considera importante que haja «voz única em favor da justiça, da paz, da amizade», que possa ajudar a resolver os conflitos no Médio Oriente. «Um dia são os norte-americanos que combatem, no outro são os russos, é inútil. O Estado Islâmico não é forte, só tem força por causa da nossa fraqueza. Não são as bombas que o vão destruir, nem as armas dos russos ou dos americanos, mas uma aliança internacional, com força moral para combater esta ideologia», considerou o patriarca, em declarações à Família Cristã, no final dos trabalhos desta manhã no Sínodo dos Bispos que decorre no Vaticano.

O prelado sírio considera que «a primeira chave para a paz no Médio Oriente e no mundo inteiro é, verdadeiramente, uma solução consensual, com uma aliança internacional que resolva a crise na Síria, a guerra», mas não esqueceu a questão israelo-palestiniana. «Um segundo ponto é a justiça para os palestinianos, a solução do conflito israelo-palestino», considerou.

Gregório III diz que «não é possível, é injusto que haja colonatos judaicos na Cisjordânia», e que o problema reside na «incapacidade» da comunidade internacional. «O problema de todo este mal-estar é a incapacidade da comunidade internacional», acusa.

A sala de imprensa informou hoje que o Sínodo dos Bispos irá publicar uma nota sobre os cristão no Médio Oriente, até porque «hoje», diz o prelado, «é preciso insistir sobre a importância do Médio Oriente para o futuro de todo o mundo». «Estamos muito reconhecidos por termos conseguido obter uma declaração do Sínodo em favor dos cristãos no Médio Oriente», disse.

Neste seguimento, Gregório III pede que haja «uma voz comum da Igreja, com um documento do Papa que seja assinado também pelo patriarca ortodoxo (Bartolomeu I), pelos anglicanos, pelos luteranos, pelo Conselho Ecuménico das Igrejas». «Esta voz una da Igreja tem de ser enviada aos responsáveis do mundo inteiro, para que haja uma voz comum política», considera.


O problema dos milhares de refugiados que continuam a chegar à costa europeia merece uma atenção especial por parte do patriarca sírio, que considera que é um problema com consequências graves para a Europa e para o Médio Oriente. «É um problema duplamente grave para nós, porque perdemos os nossos médicos, os nossos professores, os nossos académicos que são equilibrados, abertos, cristãos e muçulmanos», e para a Europa, que «não está preparada para este tsunami da presença não-europeia, de cristãos que precisam de atenção pastoral, e de muçulmanos que querem preencher o vazio do laicismo».

Isto pode, no entender do Patriarca Gregório III, «provocar islamofobia e também cristianofobia, o que levará a um choque de civilizações», avisa o prelado.

Texto: Ricardo Perna/Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna

Sínodo pode ser o «início de uma nova Igreja»


O relatório final do Sínodo dos Bispos, que vai ser votado este sábado, é visto como um documento conciliador que congrega as várias visões da assembleia para as apresentar ao Papa, propondo uma nova relação Igreja-Família. Segundo o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, foram feitas 1.355 propostas de alteração ao Instrumentum Laboris, ao longo das três semanas de encontro, num esforço que foi recebido com «satisfação» pela assembleia.

O responsável disse em conferência de imprensa que as reações gerais em relação ao texto proposto vão no sentido de o considerar «muito satisfatório» e mais «organizado». O cardeal Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz (Santa Sé), disse aos jornalistas que faltam «pequenos detalhes» para que o documento, com votação marcada para a tarde de sábado, seja algo com que «todos possam concordar».

D. Luc Van Looy, bispo de Gent (Bélgica), falou num Sínodo «pastoral», que se preocupou com as famílias a partir de três palavras-chave: «Escuta, acompanhamento e integração». «Se a Igreja fosse isto, o Sínodo, teríamos o fim do julgar as pessoas, de uma Igreja que julga em todas as situações, antes uma Igreja acolhe, que caminha com, que escuta, que fala com clareza» e com «ternura» sobre todas as situações da família, precisou. «Poderia ser o início de uma nova Igreja», prosseguiu.

O cardeal Peter Turkson falou de um «Sínodo emblemático» na vida da Igreja e considerou natural que haja «pontos de vista diferentes» quando se discute «uma instituição humana básica», que é a família. O prelado ganês rejeitou, por outro lado, que a homossexualidade seja vista como um «tabu» pelos prelados africanos, face ao que acontece em países islâmicos ou na Rússia. A esse respeito, pediu «tempo de crescimento» para os países que têm «dificuldade» na compreensão desta realidade, sublinhando que entre 1971 e 1975 estudou nos EUA, numa altura em que os livros de psicologia apresentavam a homossexualidade como uma «anormalidade», algo que mudou. «Encorajamos os nossos a não criminalizar este fenómeno e pedimos aos outros que não vitimem as pessoas que têm problemas com esta situação», prosseguiu.


O cardeal Cyprien Lacroix, arcebispo do Quebeque (Canadá), elogiou por sua vez a experiência de universalidade, de «escutar todos», com partilha de testemunhos das várias famílias no Sínodo. «Volto a casa com muito mais esperança do quando cheguei», confessou. O cardeal canadiano rejeitou a ideia de «receitas milagrosas» para todos os problemas, sublinhando a importância do «acompanhamento» das famílias pela Igreja.

No dia em que foi anunciado que o Sínodo dos Bispos vai aprovar uma declaração sobre as famílias do Médio Oriente, D. Luc Van Looy mostrou-se preocupado com os refugiados e deslocados que chegam à sua diocese, recordando ainda «as famílias que estão nos campos de refugiados». «Como se vive a vida familiar nestas situações?», questionou.

Um Sínodo à sul-americana
A manhã no Sínodo foi mais longa que o normal neste Sínodo. Os trabalhos terminaram mais tarde que o habitual, e havia semblantes carregados à saída da aula sinodal. Apesar disso, em declarações à Família Cristã e à Ecclesia, o arcebispo de Mérida, na Venezuela, D. Baltazar Porras, dizia que estamos «no momento mais belo do relatório final». «O projeto reflete bem o que se passou dentro da aula sinodal. A partilha dos diversos pontos de vista é o que podemos oferecer ao Papa e ao mundo, e é uma porta que se abre para lidar com muitas situações complicadas com que a família se depara», declarou.

Após elogiar a presença «fraterna e próxima» do Papa nos trabalhos sinodais, D. Baltazar Porras espera que a votação de amanhã, sábado, possa ser «unânime». «As convergências são mais do que as divergências, porque o espírito que tem estado esta semana é a preocupação pastoral e a experiência que, vindos de todas as partes do mundo, trazemos para aqui», afirmou.

Neste sentido, elogia também a metodologia trazida para o Sínodo pelo Papa, uma metodologia sul-americana. «O método deste Sínodo é muito mais parecido com a forma como trabalhamos na América Latina, e essa é marca do Papa Francisco, porque ele foi relator principal na Aparecida [5ª Conferência do Episcopado Latino-americano de 2007] e sempre teve este espírito de abertura, respeito uns pelos outros e podermos falar com liberdade. Isso percebemos estes dias», disse.



Texto: Ricardo Perna/Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna


22 de outubro de 2015

Papa cria Congregação para a Família, Leigos e Vida


O Papa Francisco acaba de anunciar, no início dos trabalhos da tarde das congregações gerais do Sínodo dos Bispos, a criação de uma congregação novo na Cúria Romana. Este organismo da Santa Sé vai substituir o Conselho Pontifício para a Família, o Conselho Pontifício para os Leigos e a Academia Pontifícia para a Vida, que não será absorvida, mas ficará dependente do novo organismo, e visa dar mais importância às questões da família dentro do governo central da Igreja Católica.

O anúncio foi feito logo após a oração que marca o início dos trabalhos, e vem na sequência de uma proposta feita pelo Conselho de Cardeais em setembro. O Papa anunciou ainda a criação de uma comissão para redigir os estatutos da nova Congregação.

À saída da aula sinodal, D. Vincenzo Paglia, presidente do Conselho Pontifício para a Família, um dos organismos que irá ser fundido na nova Congregação, mostrou-se «muito satisfeito» com a notícia, em declarações à Família Cristã. «Era uma notícia que já esperávamos, mas que nos deixa a todos muito satisfeitos», afirmou.

Em Portugal os leigos e a família já estavam unidos numa só Comissão Episcopal do Laicado e Família, criada em 2005 e que é presidida atualmente pelo bispo de Portalegre e Castelo Branco, D. Antonino Dias, um dos delegados da Conferência Episcopal Portuguesa no Sínodo que está a decorrer em Roma.

Os trabalhos desta tarde ficam também marcados pela entrega do relatório final aos participantes com direito a voto no Sínodo. Estes deverão fazer amanhã, sexta-feira, as suas propostas da alteração aos pontos do relatório, e proceder à votação, ponto por ponto, no sábado à tarde.

(notícia atualizada às 17h42 com as declarações de D. Vincenzo Paglia e com a informação sobre os trabalhos da parte da tarde)

Texto: Ricardo Perna
Foto: Ricardo Perna

Relatório final do Sínodo vai ser apresentado hoje aos participantes


O relatório final do Sínodo dos Bispos sobre a família está pronto e vai começar hoje a ser debatido pela assembleia, anunciou o cardeal Oswald Gracias, um dos responsáveis pela elaboração do texto. «Estou muito confiante, tenho uma ideia muito clara de que temos – há muitas opiniões – fazer um texto que expresse as preocupações de todos e dê orientações pastorais que sejam aceitáveis para todos», disse o presidente da Federação das Conferências Episcopais Asiáticas e arcebispo de Bombaim (Índia), em conferência de imprensa.

O responsável revelou que a comissão responsável pelo relatório, com dez elementos, recebeu uma visita breve do Papa, para «agradecer pelo trabalho», encorajar os participantes e fazer uma referência à «importância da família e da Bíblia». «A doutrina, naturalmente, não será mudada», sustentou o cardeal Gracias, após revelar que existiram 700 a 800 propostas de alterações dos grupos de trabalho, em cinco línguas, e o prelado foi avisando que o relatório final não deverá conter questões muito específicas, antes dar «indicações gerais» sobre os caminhos a seguir. «Acho que ainda não encontrámos soluções... mas pelo menos já começámos a falar dos problemas», disse o cardeal.

Apesar dos relatórios intermédios terem citado a Familiaris Consortio, o documento de 1984 elaborado por João Paulo II sobre a família, D. Oswald Gracias (na foto) considera que os 30 anos que separam o documento da atualidade levantam «novos desafios» que é preciso enfrentar. «O mundo mudou, os desafios são novos. Não esperamos que o texto seja o mesmo de há 30 anos, mas acho que será referido o documento. A ideia do Sínodo é como enfrentamos os problemas de hoje, mantendo a doutrina e a fé», afirmou.
O esforço de organização e redação do relatório final ultrapassou o tempo estabelecido, pelo que foi preciso acrescentar uma manhã de trabalho sobre as emendas. O texto, que é apresentado esta tarde aos participantes, procurou captar «qual era o sentido da assembleia», para tentar apresentar uma visão «equilibrada», sem querer propor «todas as respostas». «Este Sínodo não está a fazer doutrina, mas procura uma aproximação pastoral», com um discurso mais geral, acrescentou o cardeal indiano. 

Para já, o relatório final tem menos de 100 parágrafos que os participantes vão discutir também na manhã de sexta-feira, antes de serem votados um a um numa votação global do texto, este sábado. «Ainda estamos no caminho da busca», acrescentou o responsável. Segundo D. Oswald Gracias, o Sínodo tem debatido a necessidade de «descentralização», para enfrentar temas específicos, situações particulares, embora a Igreja «seja una». «As conferências episcopais podem estudar as questões» para encontrar «soluções pastorais», precisou.

O encontro com os jornalistas contou ainda com a presença de D. José H. Gómez, arcebispo de Los Angeles (EUA), o qual admitiu que gostaria de ver mais desenvolvidos temas como «imigração», a «educação» ou a situação dos «indocumentados». Para o prelado, há necessidade de aprofundar as propostas de «espiritualidade», para que o Sínodo ajude as famílias a encontrar novas maneiras de serem «membros ativos da Igreja».

D. Soane Patita Paini Mafi, de Tonga, o mais jovem membro do Colégio Cardinalício, falou dos desafios que se colocam aos «valores tradicionais familiares» face um período de transição, de globalização, com os desafios do «individualismo» e das «migrações».


Texto: Ricardo Perna (com Octávio Carmo, Agência Ecclesia)
Fotos: Ricardo Perna

20 de outubro de 2015

Preparação para o Matrimónio vai ser «chave» deste Sínodo


O cardeal Wilfrid Napier, arcebispo de Durban (África do Sul) e presidente-delegado do Sínodo dos Bispos, apontou hoje a preparação para o Matrimónio como uma das “chaves” das propostas que a assembleia vai fazer ao Papa, este sábado. Segundo este responsável, as propostas dos participantes visam promover “um processo durante o qual um jovem tem a oportunidade de identificar a sua vocação”. A esta preocupação, soma-se a do acompanhamento “pós-matrimonial”, em particular nos primeiros anos de casamento, contando com a ajuda de católicos que possam “adotar um jovem casal” e ajudá-los a superar as dificuldades.

O cardeal sul-africano elogiou a “fidelidade à doutrina” que guiou os trabalhos e falou num sentimento de “otimismo”, estimulado também pela liderança do Papa. Segundo D. Wilfrid Napier, Francisco atendeu às preocupações que foram manifestadas desde a reunião extraordinária do último ano, incluindo na carta dos 13 cardeais, no início desta assembleia geral ordinária. O responsável voltou hoje a referir que os trabalhos estavam a ser “levados numa certa direção” em 2014, o que desapareceu este ano, dado que foi possível “trabalhar juntos nos vários temas, como uma equipa”. A reflexão em curso, acrescentou, faz “parte do processo que começou no Conclave de 2013, quando os cardeais sublinhavam a necessidade de reforma da Igreja”, que exige os “bons fundamentos” da família.

Durante a conferência de imprensa promovida pela Santa Sé, para abordar o andamento dos trabalhos sinodais, foram apresentadas várias observações sobre a reforma dos processos de nulidade matrimonial. O cardeal Lluís Martínez Sistach, arcebispo de Barcelona (Espanha) e perito em Direito Canónico, entende que a reforma promovida pelo Papa “harmoniza plenamente a fidelidade à indissolubilidade e a misericórdia da Igreja”, porque “agiliza o processo”, “soluciona muitos problemas de consciência” e permite que estas pessoas possam “refazer a sua vida”. O chamado processo “breve” passará sempre para o processo ordinário caso não seja possível chegar à verdade “objetiva e imediata”.

Qualquer separação tem “muitas consequências negativas”, sublinhou o cardeal Lluís Martínez Sistach, para quem este Sínodo colocou em relevo aspetos “muito importantes”, como a finalidade do Matrimónio, a fim de “evitar separações”. A este respeito, também o arcebispo de Barcelona insistiu na preparação “remota” para o casamento, desde a adolescência, bem como a preparação “próxima e imediata”, que muitas vezes se confronta com a falta de “formação religiosa” e o afastamento da Igreja, por parte dos noivos.

O cardeal Alberto Suárez Inda, arcebispo de Morelia (México), assumiu por sua vez que os bispos têm uma “maior responsabilidade” por assumirem um papel de “juízes misericordiosos”. O encontro com os jornalistas abordou outras questões específicas, como as migrações ou a coabitação antes do matrimónio, que no caso africano pode resultar de dificuldades ligadas ao “dote”. “Que este Sínodo dê uma grande ênfase às Igrejas locais, para que estas assegurem que há cada vez mais casamentos muito bons”, com o ensinamento sobre o Sacramento e o que a Igreja espera do Matrimónio, pediu o cardeal Wilfrid Napier. Este responsável concluiu a sua intervenção com uma consideração sobre a falta de dimensão "profética" numa assembleia mais centrada na atenção "pastoral".

Texto: Agência Ecclesia
Foto: @holyseepress