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5 de outubro de 2015

Relatório inicial reforça indissolubilidade, pede acompanhamento dos casais, mas esquece África

© Foto Lusa
Os trabalhos do Sínodo Ordinário sobre a família iniciaram-se verdadeiramente hoje, com a leitura do relatório inicial, que faz um ponto de situação sobre as opiniões e reflexões levadas a cabo no anterior sínodo, juntamente com os contributos que, durante ste ano, foram chegando ao Vaticano em resposta à Lineamenta que foi enviada para todos os fiéis e que resultou na construção da Instrumentum Laboris, documento que irá orientar os trabalhos sinodais.

A leitura do documento na aula sinodal ficou a cargo do Cardeal Péter Erdö, o relator geral do Sínodo. Dividido em três partes, o relatório traz um retrato do que foi a escuta dos fiéis sobre a família, o discernimento da vocação familiar e a missão da família hoje. Começando desde logo por afirmar que «o movimento migratório está a desintegrar as famílias ou é uma dificuldade para que venha a ser formada. Em muitas partes do mundo os jovens pais deixam os seus filhos em casa e procuram trabalho no estrangeiro», refere o relatório.

Defendendo que a família «oferece uma possibilidade de desenvolvimento humano que é insubstituível», os relatos dos fiéis falam de uma realidade onde o casamento é cada vez menor porque as pessoas se ligam cada vez menos aos compromissos. Neste sentido, é preciso anunciar «um verdadeiro caminho para a felicidade», como Paulo o fazia, já que o matrimónio é «um objetivo da existência humana». Neste sentido, «as famílias cristãs são chamadas a testemunhar o Evangelho com a sua vida de acordo com o próprio Evangelho, através de um anúncio missionário. Os cônjuges reforçam a sua fé e passam-na aos seus filhos, mas também as crianças e outros membros da família são chamados a compartilhar sua fé».

É neste sentido que o relatório reforça o valor da indissolubilidade do matrimónio, um dos aspetos que mais irá ser debatido neste sínodo, admitindo a «exigência» desta condição. «Os Evangelhos e São Paulo também confirmam que o repúdio da sua esposa, praticado em primeiro lugar entre o povo de Israel, não pode tornar possível um novo casamento para qualquer das partes. Esta afirmação é tão incomum e tão exigente manteve-se presente ao longo dos séculos na tradição disciplinar da Igreja, constituindo um elemento ainda a tal ponto que, entre os povos convertidos que se converteram ao Cristianismo, a monogamia e a indissolubilidade do casamento tornou-se uma matéria disciplinar».

Sobre este tema, o relatório fala da necessidade de criar uma «comunidade de amigos verdadeiros», que podem surgir dos grupos de casais que se juntam para acompanhar os casais recém-casados. «Pertencer a um grupo dessa natureza, pode amadurecer a fé do casal, especialmente se essas comunidades de famílias se reunirem regularmente, lerem a Sagrada Escritura, orarem juntos e fizerem crescer a sua fé à luz do ensinamento da Igreja, especialmente através do Catecismo da Igreja Católica».

Poder fazer este caminho de acompanhamento é um «desafio» para bispos e sacerdotes e podem exigir «novas formas de catequese e testemunho, em plena fidelidade à verdade revelada por Cristo», mesmo que isso possa implicar, segundo o relatório, um afastamento de algumas pessoas. «Se falamos do fundo do nosso coração, se não houvermos desistido de prestar contas a nós mesmos em primeiro lugar de nossa fé, então podemos falar aos outros com convicção e coragem. Se dizemos francamente aos outros aquilo em que acreditamos, não devemos ter medo de não sermos compreendidos, porque também somos filhos de nosso tempo. Assim, embora nem todos aceitem a proposta, o anúncio vai ser compreensível para todos», pode ler-se.

© Foto Lusa

Escutar todas as situações, mas sem colocar em causa indissolubilidade do matrimónio
Sobre o problema dos casais divorciados e recasados, o relatório pede a criação de «centros de escuta», com grupos de pessoas que possam ajudar, por um lado, a tentar a reconciliação e o perdão de pessoas divorciadas que ainda não iniciaram uma nova relação, e por outro possam acompanhar as crianças que são vítimas dessas situações. Estes centro serviriam também para orientar alguns no sentido de compreender o novo processo de nulidade matrimonial criado pelo Papa Francisco há dias.

Admitindo que a questão do acesso à comunhão e à confissão «é um assunto que requer profunda reflexão», o relatório reafirma que estas questões não são proibições, mas sim «exigência intrínsecas no contexto do testemunho da Igreja». No entanto, mesmo com essas limitações, o relatório refere que os divorciados recasados «são orientados no sentido de aumentar a sua integração na vida da comunidade cristã, tendo em conta a diversidade das situações iniciais».

O relatório, que, conforme foi referido na conferência de imprensa que se seguiu à leitura do relatório, é «um ponto de partida para a reflexão e não o final», afirma ainda que a opção ortodoxa, que permite uma segunda união, «não pode ser avaliada adequadamente usando apenas a estrutura conceptual desenvolvida no Ocidente no segundo milénio. Deve-se ter em mente a grande diferença sobre os tribunais institucionais da Igreja, bem como o respeito especial para com o direito dos Estados, que por vezes pode tornar-se crítica, se as leis estaduais são separadas da verdade do matrimónio, de acordo com o plano do Criador», numa referência clara ao facto dos estados permitirem várias uniões válidas civilmente.

© Foto Lusa
Finalmente, o relatório volta a falar sobre a abertura à vida e aos métodos de planeamento familiar, assumindo-se mais uma vez de forma paradoxalmente estranha. Se, por um lado, afirma que a vida em plenitude leva a «sugerir um ensino adequado sobre os métodos naturais para a procriação responsável», também por outro lado aconselha a que, conforma explica a encíclica Humanae Vitae, se «respeite a dignidade da pessoa na avaliação moral dos métodos de regulação da natalidade». Este respeito, por enquanto, não chega para permitir a utilização de métodos artificiais, o que, de alguma forma, leva a questionar se este respeito pela escolha existe verdadeiramente.

Uma grande surpresa foi a ausência de referências no relatório a questões mais próximas da igreja africana, como a questão da poligamia. Questionados sobre isso, os prelados presentes na conferência de imprensa afirmaram que essa foi «uma escolha vossa [dos cristãos]». O cardeal Erdö afirmou que os bispos esperam com grande expetativa «o contributo dos bispos africanos» que já no Sínodo passado deram um bom contributo, sem no entanto explicar o porquê da omissão destes assuntos do relatório inicial.

É sobre este relatório que se irão desenrolar os trabalhos na próxima semana, com intervenções dos vários prelados presentes na aula sinodal, entre os quais D. Manuel Clemente, que afirmou, em entrevista à Família Cristã, que iria pedir a «reorganização da igreja em chave familiar» na sua intervenção.

Pode acompanhar o trabalho do Sínodo no blogue que a Família Cristã criou em http://sinododafamilia.blogspot.pt

Texto: Ricardo Perna

13 de outubro de 2014

Sínodo quer acolher recasados, homossexuais e pôr famílias a dar fomação ao clero


O Relatio Post Disceptationem, que congrega as propostas e pontos de vista que os participantes no sínodo discutiram durante as congregações gerais da semana passada, foi hoje publicado. Pede para que a Igreja mude para uma linguagem mais «inclusiva», reconhece a possibilidade de aceitar casais em união de facto ou relações entre pessoas do mesmo sexo (sem as considerar matrimónio), e não inclui qualquer intenção de discutir a aceitação dos métodos contracetivos.

O cardeal Peter Erdò, auxiliado por mais seis cardeais nomeados sábado pelo Papa Francisco, terminou o relatório sobre as propostas e ideias lançadas pelos participantes no Sínodo sobre a Família, relatório este que vai agora servir de base para os círculos menores que se irão reunir esta semana para debater todos os aspetos deste relatório de uma forma setorial e mais aprofundada, em vista à elaboração de uma proposta final, o Relatio Synodi, que será entregue ao Papa Francisco e anunciado como base de trabalho para preparar a assembleia ordinária do sínodo no próximo ano.

O relatório aparece dividido em três áreas: a «escuta», em que se resumem as ideias trazidas sobre a realidade da família nos dias de hoje; o «olhar», em que se reflete na realidade tendo como ponto de partida Cristo e a Revelação; e a «discussão», que procura perceber como, «sob a luz de Jesus Cristo, a Igreja e a sociedade podem renovar o seu compromisso para com a família».

Os pontos de novidade prendem-se com a última parte do relatório, por sinal a mais extensa. Dos 58 pontos apresentados, 35 são na parte das propostas a apresentar. Antes disso, relevo apenas para o entendimento que a aula sinodal tem de que, apesar de não questionar a indissolubilidade, o matrimónio pode ser entendido à luz da lei da gradualidade. «Através da lei da gradualidade, típica da pedagogia divina, é possível interpretar a ligação nupcial em termos de continuidade e novidade, em vista à Criação e à redenção. Pois até Jesus afirmou a indissolubilidade da união entre homem e mulher, mas reconheceu a validade da decisão de Moisés que permitiu que alguns se separassem das suas mulheres pois os seus corações tinham sido endurecidos (Mt 19,8)». Não colocando em causa o princípio base, a Igreja coloca a hipótese de receber casais em situações irregulares, restando saber até que ponto irá esse acolhimento.

No ponto 22, o cardeal Edrò refere que é preciso «aceitar as realidades do casamento civil e das uniões de facto, respeitando as diferenças». «Quando uma união atinge um nível de estabilidade através de um vínculo público, é caracterizada por uma afeição profunda, responsabilização mútua na educação dos filhos, e capacidade para superar dificuldades, isso pode ser visto como uma semente a ser alimentada e orientada num caminho em vista ao matrimónio», refere o prelado, resumindo esta foi uma das ideias mais difundidas pelos oradores do Sínodo. Perante a lei da gradualidade, que tem sido tão falada no Sínodo, «não é prudente pensar em soluções únicas ou inspiradas numa lógica de “tudo ou nada”».

Divorciados e recasados e o «caminho penitencial» de volta aos sacramentos
Refletindo sobre a temática dos divorciados a recasados, o cardeal Erdò escreve no relatio post disceptationem que «é preciso respeitar o sofrimento de todos os que passaram por um divórcio ou separação injustos». Existe, desde logo, abertura a mudanças nos processos de nulidade, conforme já tinha sido avançado ao longo dos dias, não colocando em causa a doutrina, mas flexibilizando todo o processo. «Entre as propostas estava o abandono da segunda confirmação do tribunal; a possibilidade de estabelecer um processo administrativo mais rápido sob responsabilidade do bispo diocesano; um processo sumário que poderia ser usado em casos de nulidade; dar peso ao aspeto da fé naqueles que serão admitidos ao casamento no que diz respeito à validade do sacramento do matrimónio». Nunca encarando estas questões como facilitadoras de separações, mas antes como «uma procura da verdade» acerca da validade do sacramento, a Igreja pondera assim diminuir o número de divorciados recasados, aumentando o número de declarações de nulidade.

Além disto, o relatio pede que haja uma nova «linguagem» na abordagem às pessoas divorciadas recasadas. «É de evitar qualquer linguagem que os faça sentir discriminados», diz o documento. Quanto à questão do acesso aos sacramentos, o relatio confirma que a aula sinodal esteve e está dividida quanto a esta matéria. «Alguns argumentaram a favor das regulações presentes por causa da sua fundação teológica, outros estavam a favor de uma maior abertura em circunstância muito específicas quando se lidem com situações que não se podem resolver sem criar novas injustiças e mais sofrimento», diz o cardeal. Nessa linha, adianta o relatório, «o acesso aos sacramentos, para alguns casos, pode ser dado após a realização de um caminho penitencial – sob a responsabilidade do bispo diocesano». «Esta não seria uma solução para todos, mas fruto do discernimento aplicado caso a caso, de acordo com a lei da gradualidade, que diferencia o estado do pecado, o estado de graça e as circunstâncias atenuantes», pode ler-se no documento.

Até porque, questionaram os pares sinodais nas suas intervenções, «se a comunhão espiritual é possível, porque não deixá-los tomar parte no sacramento?» Neste sentido, o relatio aponta a necessidade de «um estudo mais aprofundado» sobre o assunto.

Métodos contracetivos fora de equação
Apesar das intervenções de casais que deram testemunho sobre a possibilidade de uma abertura à vida com a utilização de métodos contracetivos, o relatio não incluiu nenhuma referência a essa possibilidade, ficando por saber se o irão fazer agora nos círculos menores.

O aumento do conhecimento sobre os métodos naturais (e o desenvolvimento dos mesmos, que permitem ter uma taxa de eficácia semelhante ou superior à dos métodos contracetivos) facilita que essa proposta faça cada vez mais sentido, pelo que os bispos limitaram-se a reforçar que «a abertura à vida é um requisito intrínseco de um casamento de amor», e a recomendar um «ensinamento adequado dos métodos naturais», reforçando a ideia, passada por alguns dos oradores, de que a visão do planeamento familiar natural carecia de muita informação aos fiéis, mais do que mudanças. O relatio sugere o retorno à mensagem de Paulo VI na Humanae Vitae que «sublinhava a necessidade de respeitar a dignidade da pessoa na avaliação moral dos métodos de controlo da natalidade».

Famílias poderão dar formação ao clero
As propostas passam por um anúncio mais eficaz do «evangelho da Família», não só pelos sacerdotes, mas pelas próprias famílias. «Evangelizar é uma responsabilidade de todo o povo de Deus. Sem o testemunho alegre de esposos e famílias, esse anúncio, mesmo que correto, arrisca-se a ser mal entendido ou ultrapassado pelo oceano de palavras que é característico da nossa sociedade». Os pares sinodais exortaram as famílias a serem «agentes ativos» de pastoral da família.

Isto pressupõe, segundo relator-geral do Sínodo, uma «conversão missionária». «Não podemos parar num anúncio meramente teórico e que não se relaciona com os problemas das pessoas», diz o prelado no seu relatório. Esta exigência deve estar também na preparação para o matrimónio, mas sem «criar dificuldades e sem complicar os ciclos de formação». Apesar de sugerir «um enraizamento da preparação para o matrimónio nos sacramentos de iniciação cristã» e de pedir «programas específicos de preparação para o matrimónio que sejam verdadeiras experiências de participação na vida eclesial e que estudem de perto os aspetos mais relevantes da vida familiar», fica por saber como é possível conceber isto sem mexer nos ciclos de formação, que o cardeal Erdò e a sua equipa sugeriram não ser «complicados».

Onde há novidade é no ponto 32, que insiste na necessidade da formação do clero e dos agentes pastorais, e quer implicar as próprias famílias nesse processo de formação, algo até hoje poucas vezes sugerido, principalmente no que diz respeito aos membros do clero. Para além disso, o documento reforça a necessidade de um acompanhamento dos casais pós-matrimónio, através da ajuda de casais mais experientes, «liturgias adequadas, práticas devocionais e eucaristias celebradas para as famílias», aspetos que foram elencados pelos padres sinodais como passíveis de «favorecer a evangelização dentro da família».

Homossexuais acolhidos nas comunidades
O relatio questiona a capacidade de cada comunidade receber e valorizar «as dádivas e qualidades» que os homossexuais «têm para oferecer às comunidades cristãs». «São as nossas comunidades capazes de aceitar e valorizar a sua orientação sem colocarem em causa a doutrina católica sobre a família e o matrimónio?», questiona o documento.

O relatório reafirma que «uniões entre pessoas do mesmo sexo não podem ser consideradas ao mesmo nível que o matrimónio entre um homem e uma mulher», e deixam críticas a quem pretende impor o contrário. «Não é aceitável que se pressione a Igreja ou os seus pastores ou que se faça depender financiamentos internacionais com base na introdução de regulações baseadas na ideologia de género», avisa o cardeal Erdò no seu relatório.

Com base neste relatório, os bispos irão agora trabalhar em círculos menores, aprofundando todos estes temas, a fim de que, no final da semana, seja elaborado e apresentado ao Papa o Relatio Synodi, o documento que servirá para concluir os trabalhos deste Sínodo e preparar o caminho para o Sínodo do próximo ano, que foi convocado hoje oficialmente pelo Papa Francisco para o Vaticano, de 4 a 25 de outubro de 2015.

Texto: Ricardo Perna
Foto: News.va

10 de outubro de 2014

Bispos lamentam que igrejas estejam cheias de «viúvos do divórcio»


Na última conferência de imprensa dedicada às congregações gerais, que terminaram ontem da parte da tarde no Sínodo para a Família que decorre no Vaticano, grande parte das intervenções foram dedicadas ao tema do matrimónio e aos desafios que esta temática apresenta.

Segundo o Pe. Dorantes informou os jornalistas, muitas das intervenções tocaram na questão da misericórdia para com os católicos afetados pelo divórcio. «Um dos padres sinodais recordou que devemos ajoelhar-nos diante do Espírito Santo, pois não somos chefes da misericórdia de Deus, e devemos recordar-nos que a missão que Jesus deixou aos apóstolos foi de evangelizar e curar, e isto significa levar a Boa Nova», referiu o sacerdote que está encarregue de resumir as intervenções em língua espanhola que acontecem na aula sinodal.

A possibilidade de haver um caminho penitencial a poder ser realizado pelos divorciados, nomeadamente aqueles «que são fiéis ao matrimónio mas que a outra pessoa abandonou», foi uma possibilidade levantada pelos oradores da tarde de ontem, à semelhança do que já tinha sido em dias anteriores. «Ontem diversos bispos abordaram este tema de forma intensa. Deram um bom exemplo de como se pode exercitar este caminho, com uma exigência de reflexão sobre as consequências de uma decisão destas para com os filhos, ou de como se colocar perante Deus na situação em que se encontra», disse o Pe. Lombardi, porta-voz do Vaticano.

«É preciso fazer um caminho de reconciliação e abertura. As igrejas estão cheias de viúvos e viúvas do divórcio», lamentou outro dos bispos sinodais que fez ontem a sua intervenção. Alguns bispos apontaram a falta de fé como possível motivo para avaliar a validade do matrimónio. Hipótese semelhante já tinha sido levantada pelo então Papa Bento XVI, quando, em janeiro de 2013, dizia aos membros do Tribunal da Rota Romana que «não se deve prescindir da consideração que se possam verificar casos nos quais, precisamente devido à ausência de fé, o bem dos cônjuges resulte comprometido», disse o então Papa. Apesar de ser um critério que pode levantar questões de subjetividade, não foram adiantadas mais informações sobre as discussões que decorreram daqui, pelo que apenas na relatio post disceptationem se poderá perceber melhor as propostas apresentadas pelos padres sinodais.

Um dos bispos sinodais criticou o «ato social» em que se tornou o matrimónio. «Os pobres veem-no como um ato inalcançável, e muitos jovens veem-se obrigado a unir-se apenas, com a perspetiva de se casarem mais tarde, por causa dessa perspetiva, criticou esse bispo.

Alice Heinzen, uma das leigas convidadas a estar hoje no briefing aos jornalistas, explicou que, para poder fazer com que este caminho penitencial resulte, é preciso muita formação prévia. «Fazer o caminho pela penitência só pode ser possível se houver conhecimento do sacramento e das leis da Igreja. Primeiro há que educar as pessoas, e depois é uma conversão de coração, e por aí ficamos mais próximos do Senhor, pois é aí que encontraremos a felicidade», disse esta leiga americana.

Dar uma «segunda oportunidade» à Humanae Vitae
Leigos querem que Humanae Vitae tenha uma
segunda oportunidade junto dos católicos
Questionada sobre a validade das propostas da Humanae Vitae nos dias de hoje, Alice afirmou que já é tempo dos casais católicos «darem uma segunda oportunidade aos métodos naturais», em virtude dos «recursos», que são «muito mais fortes do que eram na altura da publicação da encíclica». «Há muitas novidades nesse campo e encorajo os media a olharem para isso, porque vem aí muita coisa boa», referiu a leiga.

Jeffrey Heinzen, o marido, que trabalha com a esposa nesta área dos métodos naturais de planeamento familiar, explicou aos jornalistas que, «quando os casais têm uma compreensão da sua relação e da fertilidade entre eles, a confiança passa para outro nível». «Porquê termos casamentos bons, quando podemos ter casamentos fantásticos? O que mais podem desejar os homens do que ter as suas mulheres sempre satisfeitas?», perguntou, provocando risos entre os jornalistas presentes.

Finalmente, os bispos pronunciaram-se também sobre o problema das crianças cujos pais estão divorciados, e do efeito de “bola de pingue-pongue” que sofrem quando são obrigadas a saltar entre a casa do pai e da mãe, e têm de conviver com os novos parceiros que os seus pais arranjam. «Quando estava para vir para o Sínodo, estive com uma criança que está no 5º ano numa escola católica. Disse-lhe que vinha ter com o Papa Francisco e perguntei-lhe o que ele queria que lhe dissesse. “Diga ao Papa que sou filho de pais divorciados, e que a minha mãe tem um namorado novo e o meu pai uma mulher nova. É tudo muito triste”. Esta é a realidade que temos de combater», disse Alice Heinzen.

Segundo os bispos também alertaram a aula sinodal, parte deste combate passa pela formação teológica e antropológica do clero. «Eles devem saber explicar, com argumentos, as questões relacionadas com a família», referiram os bispos durante a congregação geral de ontem de tarde


9 de outubro de 2014

Humanae Vitae «carece de praticidade» nos dias de hoje


Os trabalhos no Sínodo dos Bispos desta manhã abriram com o testemunho de Hermelinda e Arturo, um casal brasileiro responsável pelo Movimento das Equipas de Nossa Senhora no Brasil. «A abertura dos cônjuges à vida» foi o tema desta manhã, e o casal trouxe um testemunho não só da sua experiência enquanto casal, mas da experiência dos casais que fazem parte do movimento das equipas de Nossa Senhora no Brasil, e deixaram críticas não aos princípios defendidos pela Humanae Vitae, mas à sua aplicação prática, afirmando que é possível aplicar os princípios «orientados à transmissão da vida e ao serviço do amor conjugal» utilizando outros métodos que não os naturais.

O casal veio, assim, contradizer o que o cardeal André Vingt-Trois havia proferido momentos antes, na abertura dos trabalhos. O cardeal-arcebispo de Paris, D. André Vingt-Trois, lamentou que muitos casais católicos tenham perdido a noção de «pecado» no uso de contracetivos, rejeitados pelo magistério da Igreja.«Há casais que muitas vezes não julgam que o uso de métodos anticoncetivos seja um pecado e, como tal, tendem a não fazer disso uma matéria de Confissão e assim receber a Comunhão sem problemas», declarou o presidente da Conferência Episcopal Francesa, introduzindo a congregação geral desta manhã. «Muitos são os que têm dificuldade em compreender a diferença entre os métodos naturais de regulação da fertilidade e a contraceção», sustentou o cardeal Vingt-Trois, um dos três presidentes-delegados desta assembleia sinodal.

Na sua intervenção, o casal brasileiro começou por elogiar o «ato sexual», «querido e abençoado por Deus», e defendeu que «o prazer que dele decorre contribui para a alegria de viver e para a estruturação sadia da personalidade». «Os casais que fazem amor são os que expressam com o corpo o que lhes vai ao coração. Para chegar à harmonia, é preciso saber cultivar o desejo e até mesmo um erotismo sadio. É preciso continuar apaixonados e estar atentos um ao outro», defenderam Hermelinda e Arturo.

Ambos falaram da necessidade dos casais «quererem espaçar o nascimento dos filhos» e da opção não só pelos métodos naturais preconizados pela Igreja que muitos casais tomam. Temos de admitir sem medo que muitos casais católicos, mesmo os que procuram viver seriamente o seu matrimónio, não se sentem obrigados a usar apenas os métodos naturais», afirmou o casal, que adiantou que, «geralmente, não são questionados pelos confessores» sobres esta matéria.

O casal afirma que, apesar de os casais estarem «abertos à vida e rejeitarem o aborto», não percebem «nas pregações e atendimentos espirituais» dos sacerdotes a «insistência na doutrina da Humanae Vitae». Consideram, para além disso, que, «na cultura atual», os métodos naturais «carecem de praticidade». «Casais, principalmente jovens, vivem um ritmo de vida que não lhes permite praticar esses métodos, uma vez que exigem tempo para treino, e tempo é produto raro no mundo em que vivemos. E o pior: por ser superficialmente explicado e, por isso mesmo, mal utilizado, o método natural ganha a fama injusta de ser inseguro e assim muitas vezes ineficiente. Portanto, mais uma vez com sinceridade admitimos que não é seguido pela maioria dos casais católicos», referiu o casal aos bispos presentes na aula sinodal.

Por estas razões, os casais com os quais trabalham, «na sua maioria, não descartam o uso de outros métodos contracetivos» e não os consideram «um problema moral», até porque as relações continuam a ser «orientadas à transmissão da vida» e «ao serviço do amor conjugal». Por isso, o casal pediu aos bispos que se apressem «em dar aos padres e aos fiéis as grandes linhas de uma pedagogia pastoral que ajude a adotar e a observar os princípios acordados pela Humanae Vitae». «Se pelo menos os casais encontrassem luz e suporte junto ao clero já seria um grande alento! Muitas vezes os conselhos contraditórios só agravam sua confusão», observou o casal no final da sua intervenção.

Pode continuar a acompanhar todos os trabalhos do Sínodo em www.sinododafamilia.familiacrista.com

Texto: Ricardo Perna
Foto. News.va

18 de setembro de 2014

Conhece a proposta da Igreja para a sua família?




Muitos acham que a Igreja é contra o preservativo e a pílula apenas e só porque é antiquada. E se lhe disséssemos que há razões fundamentadas para esta oposição, e alternativas bem mais eficazes que o velho método do calendário? Se está a levantar o sobrolho neste momento, abanou a cabeça ou fez um esgar de espanto e incredulidade, continue a ler que vai valer a pena. 

texto Ricardo Perna

Desde o início da história da Igreja que se fala da importância da família e do número grande de filhos. Fosse por necessidades económicas, fosse por não haver métodos de planeamento familiar eficazes, as famílias ao longo da história apresentavam sempre um grande número de filhos. Não se conhecendo bem a realidade, considerava-se que o homem era o portador da vida e a mulher o terreno fértil onde a sua “semente” era plantada. Isto reforçou as teorias que apontavam como errado certos atos sexuais, como a masturbação, ou algumas posições nas relações sexuais que levavam ao desperdício dessa “semente”.

O crescimento da sociedade e a evolução da ciência permitiu que no final do séc. XIX se descobrisse que a mulher tinha um período fértil e que ela também participava no processo de geração de vida, não apenas o homem. Baseado nesta descoberta, foi pedido às mulheres que procurassem fazer um calendário dos seus períodos férteis e os definissem a partir daí. «A técnica foi útil para muitos casais, mas o ciclo da mulher é variável e influenciado por fatores externos, pelo que o método mostrou-se muito falível», diz-nos Mary Anne d’Avillez, enfermeira que se dedica ao trabalho na área do planeamento familiar.

É dentro de uma sociedade que começa a pensar nas questões do planeamento familiar e da necessidade de planear o futuro da família, fosse porque vivam em zonas urbanas, em casas mais pequenas, ou porque a mulher começava a ganhar uma maior independência, ou porque havia uma mentalidade mais individualista que começou a ganhar forma com o maio de 68 em França, que surge um dos documentos mais polémicos e incompreendidos da Igreja nas últimas décadas: a Encíclica Humanae vitae. «Quando as questões à volta do planeamento familiar se colocaram, no âmbito de buscar uma paternidade responsável, o Papa Paulo VI propôs uma comissão de estudo inovadora naqueles tempos, porque incluía o testemunho de casais de leigos», conta o Pe. José Manuel Pereira de Almeida, coordenador da Comissão Nacional da Pastoral da Saúde.

Pe. José Manuel Pereira de Almeida
Coordenador Nacional da Pastoral da Saúde
Esta encíclica pretendia regular todas as questões relacionadas com o matrimónio e o planeamento familiar, mas as suas ideias e propostas nunca foram plenamente conhecidas, mesmo nos dias de hoje. Criaram-se muitos mitos à volta desta encíclica e do entendimento da Igreja sobre o planeamento familiar. Que as relações sexuais depois do casamento são apenas para procriar é logo o primeiro. O ponto 12 da encíclica fala no duplo significado da relação sexual do casal, o «significado unitivo e o significado procriador». «Na verdade, pela sua estrutura íntima, o ato conjugal, ao mesmo tempo que une profundamente os esposos, torna-os aptos para a geração de novas vidas, segundo leis inscritas no próprio ser do homem e da mulher», pode ler-se no documento. Aliás, a noção de que o ato sexual serve apenas para o prazer do casal, seguros de que não estarão a procriar, aparece mais à frente, no ponto 16. «A Igreja é a primeira a elogiar e a recomendar a intervenção da inteligência, numa obra que tão de perto associa a criatura racional com o seu Criador. […] Se, portanto, existem motivos sérios para distanciar os nascimentos, que derivem ou das condições físicas ou psicológicas dos cônjuges, ou de circunstâncias exteriores, a Igreja ensina que então é lícito ter em conta os ritmos naturais imanentes às funções geradoras, para usar do matrimónio só nos períodos infecundos e, deste modo, regular a natalidade.» Apesar de estar clara a posição da Igreja, as pessoas não a conhecem.

Mas o que significa então ter em conta «os ritmos naturais» do ser humano para o casal poder expressar o seu amor um pelo outro através da relação sexual sem correr o risco de engravidar? Na altura, a única proposta existente era o chamado método do calendário, ou das contas, já referido acima, e isso não foi muito bom. O Pe. José Manuel considera que ainda hoje se faz sentir o peso de uma encíclica que teve «má publicidade», por culpa própria. «Quando a Humanae vitae é aprovada, a proposta que a Igreja tinha era a abstinência periódica regulada por um ciclo com contas feitas aos 28 dias. Essa proposta, que não era nada eficaz, temo que tenha sido uma proposta tão fora das expectativas das pessoas, e com resultados falíveis, que as pessoas disseram “bem, isto é um peso que nos colocam a nós em que eles não estão a ajudar nem com um dedo”, e isso criou resistência ao documento por parte dos casais na altura», considera o sacerdote.

Ciente de que a proposta da Igreja tinha falhas nesta área, Paulo VI pediu a médicos e cientistas católicos que procurassem respostas, sem saber que a solução já estava a ser pesquisada na Austrália. John Billings e a esposa eram um casal de médicos a quem o seu pároco pediu que auxiliassem as mulheres da paróquia a utilizarem o método do calendário, na sequência da Encíclica Humanae vitae. Ao verem os resultados tão fracos que obtinham com aquele método, John Billings fez uma investigação profunda e percebeu que a mulher produzia um muco que se revelava em determinadas alturas do mês. Nesse sentido, pediu a 100 mulheres que se disponibilizassem para registarem diariamente a observação desse muco e recolherem urina, a fim de se fazerem análises hormonais. «Ao fim de seis meses, compararam as observações das mulheres com o resultado das análises e viram que havia uma correlação entre o aparecimento do muco fértil e o seu desaparecimento e os períodos de fertilidade. Isso era um sinal direto do que se estava a passar no aparelho reprodutor», explica-nos Mary Anne d’Avillez. Este método revelou-se tão eficaz que a Organização Mundial de Saúde (OMS) pediu ao Dr. Billings que patenteasse o método, a fim de evitar réplicas mal fundamentadas, e assim surgiu um método que, não sendo contracetivo, permite regular os nascimentos à medida dos desejos do casal.

Mary Anne d'Avillez
Para além deste, surgiu mais tarde o método sintotérmico, que alia o método Billings à medição diária da temperatura corporal para um diagnóstico complementar. Estes métodos são diferentes dos métodos hormonais ou do preservativo uma vez que os outros métodos são contra a conceção, impedem que ela aconteça ao colocarem uma barreira, no caso do preservativo ou dos dispositivos intrauterinos, ou ao provocarem alterações hormonais na mulher, no caso da pílula. Além disto, respeitam os ritmos do corpo, não introduzem alterações hormonais nas mulheres nem acarretam os riscos para a saúde que vêm descritos na bula da pílula. A aplicação do método Billings é simples, pois apenas necessita de uma observação diária da mulher, e não depende, ao contrário do que se pensa, da regularidade dos ciclos menstruais da mulher, mas carece de instrução para garantir uma aplicação correta. «Esse mito da regularidade tem a ver com o método das contas, que para aqui não interessa nada. A mulher tem de definir como é o seu período infértil, e conhecer o seu corpo. Inicialmente isso pode parecer complicado, mas a certa altura torna-se automático perceber estas diferenças, torna-se parte da rotina diária», defende Mary Anne d’Avillez, que dá formações nesta área. «Os casais que pretendem utilizar estes métodos têm uma primeira sessão de esclarecimento, levam para casa um gráfico que preenchem, e depois vêm a consultas de acompanhamento uma vez por mês durante mais três meses, em que ela traz o gráfico e percebemos se as medições e observações foram bem feitas. Só aí é que consideramos o casal autónomo. Um casal que venha depois reclamar que o método falhou mas nunca veio às consultas de acompanhamento não tem razão, porque quem falhou foram eles, e não o método», sustenta a enfermeira.

Mas se são tão eficazes, porque é que raramente se ouve falar destes métodos? «Há um lobby muito grande dos laboratórios. Repare: é uma mulher saudável que vai tomar um medicamento todos os dias durante anos, portanto estudos a longo prazo sobre os efeitos desses métodos contracetivos não se conhecem muitos e há silêncio nessa matéria, o que é logo um pouco suspeito», critica Mary Anne d’Avillez. O facto é que, dentro da própria Igreja, há silêncio sobre esta matéria. «Há hoje questões de omissão, é verdade. Há pouca preparação geral, e por isso temos de fazer formação, quer de formadores, quer das pessoas, sacerdotes e casais leigos», reconhece o Pe. José Manuel Pereira de Almeida, para quem a Igreja «precisa de compreender a realidade, acompanhar a mentalidade dos tempos novos, sem nunca deixar de perceber que a proposta que fazemos tem uma sabedoria secular que lhe dá credibilidade, mesmo sobre o ponto de vista sacramental».

Mary Anne d’Avillez defende que o CPM deveria abordar obrigatoriamente as questões do planeamento familiar. «É um assunto que deveria fazer parte dos CPM, mas muitos dos casais que estão a dar os CPM não o fazem, e por isso não falam disso», critica esta responsável, para quem a «ignorância» existente é a razão pela qual as pessoas não aderem, não a falta de eficácia do procedimento. Entender as realidades dos casais é o caminho a seguir, para o Pe. José Manuel. «Teremos de pensar na reproposta de uma vida a dois. Sem invasão da vida íntima de cada casal, porque não se deve fazer algo só porque a Igreja diz, mas sim porque o casal percebe que é o melhor bem», afirma o sacerdote, que acrescenta que a Igreja não tem visão limitada das coisas. «Não somos adoradores do método natural, longe disso, apesar de reconhecermos que é a melhor opção para a generalidade dos casos. Mas se o marido está emigrado e apenas vê a mulher poucos dias num ano, ou se por qualquer razão se veem impedidos de estarem sempre juntos, é legítimo que se compreenda essas realidades. O importante é que na base de tudo não esteja uma mentalidade contracetiva, que está ligada ao relativismo e ao individualismo dos dias de hoje, mas uma postura de abertura à vida que o casal deve ter. A criança é, hoje, o último eletrodoméstico a adquirir no caminho de estabilidade do casal, e isso é que está errado», considera o coordenador da Pastoral da Saúde.

São tempos novos, estes. E por isso a resposta da Igreja deve ser adequada. E para isso contribuem os documentos da Igreja, que propõem uma vida em casal estável, responsável, onde a família cresce à medida dos desejos e possibilidades do casal, numa dinâmica em sintonia com o Evangelho. Estão os católicos disponíveis para conhecer e viver esta realidade?

Contactos para quem quer saber mais 
Todas as informações relativas ao método Billings estão disponíveis no sítio Web www.woomb.org. Em Portugal, os interessados podem contactar:

Movimento de Defesa da Vida
planfam@mdvida.pt
217 994 530

Associação Família e Sociedade
info@familiaesociedade.org
213 138 350