Os participantes no Sínodo dos Bispos que decorre no Vaticano publicaram hoje uma declaração de apoio às populações vítimas da guerra no Médio Oriente e outras regiões, condenando o tráfico de armas. «As nossas vozes unem-se ao grito de tantos inocentes: basta de violência, basta de terrorismo, basta de destruição, basta de perseguições! Que cessem imediatamente as hostilidades e o tráfico de armas», assinala o texto, distribuído aos jornalistas pela sala de imprensa da Santa Sé.
Os participantes na assembleia sinodal denunciam o uso de armas de destruição em massa, assassinatos «indiscriminados», decapitações, raptos, tráfico de mulheres, perseguições religiosas e étnicas, bem como a destruição de lugares de culto e de património cultural. «Atrocidades incontáveis obrigaram milhares de famílias a fugir das suas próprias casas e a procurar refúgio noutro lugar, muitas vezes em condições de extrema precariedade», pode ler-se.
A declaração sustenta que a paz no Médio Oriente não vai chegar de «escolhas impostas pela força», mas de «decisões políticas que respeitem as particularidades culturais e religiosas» de cada país.
O documento apresenta uma palavra de agradecimento aos países que estão a acolher refugiados do Médio Oriente, ajudando pessoas que há vários anos são «vítimas de atrocidades indescritíveis». «Estamos convencidos de que a paz é possível e de que é possível parar a violência que na Síria, no Iraque, em Jerusalém e em toda a Terra Santa atinge todos os dias cada vez mais famílias e civis inocentes e agrava a crise humana», referem os participantes no Sínodo.
Neste contexto «dramático» há violações «contínuas» dos princípios fundamentais da dignidade humana e dos direitos humanos, como a liberdade religiosa.
Os signatários pedem a «libertação de todas as pessoas sequestradas» nestas guerras, alargando a sua preocupação a outras partes do mundo, em especial a África e a Ucrânia.
O patriarca sírio Gregório III Laham, líder greco-melquita de Antioquia, considera importante que haja «voz única em favor da justiça, da paz, da amizade», que possa ajudar a resolver os conflitos no Médio Oriente. «Um dia são os norte-americanos que combatem, no outro são os russos, é inútil. O Estado Islâmico não é forte, só tem força por causa da nossa fraqueza. Não são as bombas que o vão destruir, nem as armas dos russos ou dos americanos, mas uma aliança internacional, com força moral para combater esta ideologia», considerou o patriarca, em declarações à Família Cristã, no final dos trabalhos desta manhã no Sínodo dos Bispos que decorre no Vaticano.
O prelado sírio considera que «a primeira chave para a paz no Médio Oriente e no mundo inteiro é, verdadeiramente, uma solução consensual, com uma aliança internacional que resolva a crise na Síria, a guerra», mas não esqueceu a questão israelo-palestiniana. «Um segundo ponto é a justiça para os palestinianos, a solução do conflito israelo-palestino», considerou.
Gregório III diz que «não é possível, é injusto que haja colonatos judaicos na Cisjordânia», e que o problema reside na «incapacidade» da comunidade internacional. «O problema de todo este mal-estar é a incapacidade da comunidade internacional», acusa.
A sala de imprensa informou hoje que o Sínodo dos Bispos irá publicar uma nota sobre os cristão no Médio Oriente, até porque «hoje», diz o prelado, «é preciso insistir sobre a importância do Médio Oriente para o futuro de todo o mundo». «Estamos muito reconhecidos por termos conseguido obter uma declaração do Sínodo em favor dos cristãos no Médio Oriente», disse.
Neste seguimento, Gregório III pede que haja «uma voz comum da Igreja, com um documento do Papa que seja assinado também pelo patriarca ortodoxo (Bartolomeu I), pelos anglicanos, pelos luteranos, pelo Conselho Ecuménico das Igrejas». «Esta voz una da Igreja tem de ser enviada aos responsáveis do mundo inteiro, para que haja uma voz comum política», considera.
O problema dos milhares de refugiados que continuam a chegar à costa europeia merece uma atenção especial por parte do patriarca sírio, que considera que é um problema com consequências graves para a Europa e para o Médio Oriente. «É um problema duplamente grave para nós, porque perdemos os nossos médicos, os nossos professores, os nossos académicos que são equilibrados, abertos, cristãos e muçulmanos», e para a Europa, que «não está preparada para este tsunami da presença não-europeia, de cristãos que precisam de atenção pastoral, e de muçulmanos que querem preencher o vazio do laicismo».
Isto pode, no entender do Patriarca Gregório III, «provocar islamofobia e também cristianofobia, o que levará a um choque de civilizações», avisa o prelado.
O relatório final do Sínodo dos Bispos, que vai ser votado este sábado, é visto como um documento conciliador que congrega as várias visões da assembleia para as apresentar ao Papa, propondo uma nova relação Igreja-Família.
Segundo o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, foram feitas 1.355 propostas de alteração ao Instrumentum Laboris, ao longo das três semanas de encontro, num esforço que foi recebido com «satisfação» pela assembleia.
O responsável disse em conferência de imprensa que as reações gerais em relação ao texto proposto vão no sentido de o considerar «muito satisfatório» e mais «organizado».
O cardeal Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz (Santa Sé), disse aos jornalistas que faltam «pequenos detalhes» para que o documento, com votação marcada para a tarde de sábado, seja algo com que «todos possam concordar».
D. Luc Van Looy, bispo de Gent (Bélgica), falou num Sínodo «pastoral», que se preocupou com as famílias a partir de três palavras-chave: «Escuta, acompanhamento e integração». «Se a Igreja fosse isto, o Sínodo, teríamos o fim do julgar as pessoas, de uma Igreja que julga em todas as situações, antes uma Igreja acolhe, que caminha com, que escuta, que fala com clareza» e com «ternura» sobre todas as situações da família, precisou. «Poderia ser o início de uma nova Igreja», prosseguiu.
O cardeal Peter Turkson falou de um «Sínodo emblemático» na vida da Igreja e considerou natural que haja «pontos de vista diferentes» quando se discute «uma instituição humana básica», que é a família.
O prelado ganês rejeitou, por outro lado, que a homossexualidade seja vista como um «tabu» pelos prelados africanos, face ao que acontece em países islâmicos ou na Rússia.
A esse respeito, pediu «tempo de crescimento» para os países que têm «dificuldade» na compreensão desta realidade, sublinhando que entre 1971 e 1975 estudou nos EUA, numa altura em que os livros de psicologia apresentavam a homossexualidade como uma «anormalidade», algo que mudou. «Encorajamos os nossos a não criminalizar este fenómeno e pedimos aos outros que não vitimem as pessoas que têm problemas com esta situação», prosseguiu.
O cardeal Cyprien Lacroix, arcebispo do Quebeque (Canadá), elogiou por sua vez a experiência de universalidade, de «escutar todos», com partilha de testemunhos das várias famílias no Sínodo. «Volto a casa com muito mais esperança do quando cheguei», confessou.
O cardeal canadiano rejeitou a ideia de «receitas milagrosas» para todos os problemas, sublinhando a importância do «acompanhamento» das famílias pela Igreja.
No dia em que foi anunciado que o Sínodo dos Bispos vai aprovar uma declaração sobre as famílias do Médio Oriente, D. Luc Van Looy mostrou-se preocupado com os refugiados e deslocados que chegam à sua diocese, recordando ainda «as famílias que estão nos campos de refugiados». «Como se vive a vida familiar nestas situações?», questionou.
Um Sínodo à sul-americana
A manhã no Sínodo foi mais longa que o normal neste Sínodo. Os trabalhos terminaram mais tarde que o habitual, e havia semblantes carregados à saída da aula sinodal. Apesar disso, em declarações à Família Cristã e à Ecclesia, o arcebispo de Mérida, na Venezuela, D. Baltazar Porras, dizia que estamos «no momento mais belo do relatório final». «O projeto reflete bem o que se passou dentro da aula sinodal. A partilha dos diversos pontos de vista é o que podemos oferecer ao Papa e ao mundo, e é uma porta que se abre para lidar com muitas situações complicadas com que a família se depara», declarou.
Após elogiar a presença «fraterna e próxima» do Papa nos trabalhos sinodais, D. Baltazar Porras espera que a votação de amanhã, sábado, possa ser «unânime». «As convergências são mais do que as divergências, porque o espírito que tem estado esta semana é a preocupação pastoral e a experiência que, vindos de todas as partes do mundo, trazemos para aqui», afirmou.
Neste sentido, elogia também a metodologia trazida para o Sínodo pelo Papa, uma metodologia sul-americana. «O método deste Sínodo é muito mais parecido com a forma como trabalhamos na América Latina, e essa é marca do Papa Francisco, porque ele foi relator principal na Aparecida [5ª Conferência do Episcopado Latino-americano de 2007] e sempre teve este espírito de abertura, respeito uns pelos outros e podermos falar com liberdade. Isso percebemos estes dias», disse.