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29 de outubro de 2015

Cardeal-Patriarca pede «apostolado familiar nas comunidades» e rejeita comunhão aos recasados


D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) afirmou hoje em conferência de imprensa no Patriarcado de Lisboa que é preciso «investir muito mais» do que até agora na formação e preparação para o matrimónio. «Temos de investir muito mais nas áreas da preparação do matrimónio e na nulidade. Se estamos num debate grande e diferenciado em que queremos que a Igreja se assuma como família de famílias, temos de investir muito mais nisto», afirmou aos jornalistas presentes.

Questionado sobre se a CEP irá uniformizar os procedimentos em todo o país com algum documento base, o seu presidente diz que haverá «indicações», mas que a solução não vira das instituições, mas sim das próprias famílias. «A esperança está no apostolado familiar nas comunidades, sujos resultados serão muito melhores que uma intervenção institucional a nível nacional. Elas é que podem fazer esse acompanhamento da melhor forma, com princípios gerais de elucidação e acompanhamento que sirvam de exemplo aos mais novos», referiu o prelado.

Reafirmando que a proposta católica é «para quem deseje aceitá-la», D. Manuel Clemente rejeitou que o documento final do Sínodo tenha trazido grandes mudanças. «O projeto católico é uma das propostas existentes na nossa sociedade. Haverá outras, e os casais poderão escolher, mas a nossa proposta é clara e está bem definida», referiu quando questionado que mudanças poderia haver para os divorciados recasados, uma das áreas mais mediáticas do último Sínodo. «O sacramento não pode contrariar outro sacramento, e se há uma união sacramental, não pode participar na comunhão», defende o presidente da CEP.

Isto não significa, no entanto, que o resto da vida comunitária paroquial e de ministérios esteja negada a estes casais. «Dependendo da sua caminhada e testemunho, podemos questionar, como o fizeram o Papa Francisco e o Papa Bento XVI enquanto eram bispos, se não haverá espaço para estes casais nos diferentes ministérios da paróquia, e porque não até podendo assumir as responsabilidades de padrinhos nos batizados. É preciso analisar a situação de cada um e responder em conformidade», disse.

Considerando que «o critério familiar tem de ser o critério de pastoral» a partir de agora, D. Manuel Clemente a família tem de «ser a base de tudo o que se faz na pastoral». «Se estamos num ambiente em que a problemática familiar se põe desta forma, temos de tirar conclusões práticas para o acompanhamento das famílias», disse, acrescentando que «tudo passa pela colaboração dos leigos com os sacerdotes» em cada comunidade.

Situação política deve resolver-se à luz do bem comum 
No final da conferência de imprensa, D. Manuel aceitou comentar a situação política do país, e retomou o que já tinha dito em entrevista à Família Cristã antes das eleições. «Para os cristãos, que existem em todas as forças políticas do nosso país, e para todos os que se declaram admiradores das palavras do Papa Francisco, pedimos que tomem em conta o que o Papa tem dito, a Doutrina Social da Igreja e a última encíclica papal, que fala da ecologia integral», sustentou.

«Se há pessoas que se dizem católicas, então levem isso até à consequência da sua ação partidária», pediu, relembrando os quatro pilares sobre os quais considera que a política deverá assentar a sua ação. «Há princípios que são nossos e que não abdicamos: o respeito pela vida e dignidade humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade. Na conjugação destas quatro rodas, o carro anda bem», assegurou.

Texto: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna

19 de outubro de 2014

«A família é a melhor maneira de anunciar Jesus Cristo»


O Pe. Duarte da Cunha esteve hoje nas Jornadas da Pastoral Familiar para falar sobre o Sínodo dos Bispos aos participantes nas jornadas. O sacerdote português, que é secretário-geral do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), faz uma avaliação positiva do relatório final, que considera «uma manta de retalhos cheia de coisas importantes». «É o resultado dos assuntos debatidos pelos bispos, é um texto de trabalho, não final, que é preciso ser lido e relido, mas também complementado com outros textos que devem ser usados», considerou.

Segundo o sacerdote, «as verdades da família foram reafirmadas e apreciadas sempre com a preocupação de perceber como anunciar hoje essas verdades». «É uma das insistências do Papa Francisco. É preciso acompanhar as famílias para se poder anunciar o Evangelho da família», defendeu o Pe. Duarte da Cunha.

Falando aos jornalistas no final da conferência, o secretário-geral da CCEE considerou que a «tónica no acolhimento» esteve presente nas intervenções e «é explícita» em todo o relatório final do Sínodo, lançando «desafios de empenho aos agentes pastorais».

Quanto às questões mais sensíveis, o Pe. Duarte da Cunha não acha que tenha havido novidade. «Surgiu a necessidade de a Igreja passar a sua mensagem de uma forma mais acolhedora, e isso é bom, mas no conteúdo nada mudou. Tudo o que foi dito já havia sido dito antes», sustentou o sacerdote português, que não considera possível grandes alterações em relação a divorciados recasados ou em relação aos homossexuais. «Dar a comunhão aos divorciados a recasados não resolve o problema. Aliás, nos países em que isso se defende com maior vigor, a pastoral de acompanhamento que é feita é tão pouca que se transforma numa pastoral de indiferença, e não é isso que é o acolhimento», garantiu o Pe. Duarte da Cunha.

Quanto aos homossexuais, é «essencial que haja acolhimento e que ninguém se sinta discriminado n Igreja», diz o sacerdote, mas sem com isso obrigar a que a Igreja mude o seu ponto de vista sobre essas questões. «As nossas comunidades sempre tiveram pessoas com tendências homossexuais, que fazem o seu caminho, por vezes com sofrimento, mas lidando com as suas tendências, da mesma forma que um heterossexual também lida com as suas questões, e isso já se fazia antes», garantiu o Pe. Duarte da Cunha.

Os desafios do próximo ano, em vista ao Sínodo
Na conferência proferida esta manhã, o Pe. Duarte da Cunha referiu três pontos como sendo os desafios do próximo ano, em vista à preparação do sínodo ordinário de 2015. «É importante olharmos para a antropologia do ser humano e da família. Temos de compreender a pessoa humana como única, mas integrada numa rede social», disse o sacerdote, argumentando que a noção de imediato na sociedade é impeditiva da constituição de família. «Quando deixamos de desejar o eterno e apenas queremos gozar o presente, somos incapazes de construir uma família», disse o Pe. Duarte da Cunha.

Um segundo aspeto é o de repensar e recuperar a teologia do matrimónio. «O que o torna único, como se prepara, como se vive, como se põe a render as graças, quais são elas. O que faz desse consentimento único e o que isso implica. Há um diálogo entre o homem que oferece a graça e Deus que a recebe. Os sacramentos não são só futuro, são presente que acontece. O casamento indissolúvel é-o porque Deus assim o torna, e não se pode desfazer», considerou o sacerdote.

Depois destas questões, surge a necessidade de pensar nas questões deixadas pelo relatório final do Sínodo, que será utilizado como Lineamenta do sínodo do próximo ano, de pensar na teologia do amor. «Há uma confusão generalizada sobre o que é o amor. O que se fala nos filmes e nas novelas não é o mesmo que a Madre Teresa falava. Quando Jesus Cristo diz “amai-vos como Eu vos amei”, ou seja, deem a vossa vida pela pessoa com quem estão, amar é dar tudo e dar-se a si mesmo», disse.  

Isto porque, defende o sacerdote, o amor não é apenas dar sem esperar nada receber. «Diz-se que o amor deve ser gratuito, sem esperar nada contra, mas o amor perfeito é um querer ser amado. Amar e ser amado não podem ser duas coisas separadas, têm de estar juntas. O amor verdadeiro é um amor que suplica. Amor gera amor. Amor não é apenas dom, é comunhão», exortou o Pe. Duarte da Cunha.

Nesta linha de ideias, o Pe. Duarte da Cunha encerrou os trabalhos defendendo a importância da Pastoral Familiar para a Igreja e para o homem. «A primeira razão pela qual vale a pena o empenho na família é pela nossa própria família. Isto não é egoísta, mas é pôr o nosso interesse no centro. Se estou empenhado em viver melhor a minha vida, os meus irmãos recebem eco desse empenho e isso é bom para eles», defendeu.

Depois, há a questão da caridade e da evangelização. «Não posso estar ao lado de pessoas que passam problemas e ser indiferente, tenho de ter caridade», afirmou, acrescentando que «a família é a melhor maneira de anunciar Jesus Cristo, é ali que tudo começa». «Onde há famílias cristãs, é mais provável que haja filhos cristãos», concluiu, avisando que as famílias não são somente objeto de evangelização, mas sobretudo «sujeitos de evangelização como seu testemunho».

Texto e Fotos: Ricardo Perna

8 de outubro de 2014

Um olhar sobre o Sínodo extraordinário dos Bispos

Estamos a viver a Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, cujo tema é: «Os Desafios da Família no Contexto da Evangelização». Esta é uma etapa intermédia na caminhada Sinodal. O trabalho desta assembleia é conduzido pelo Instrumentum Laboris, que reúne as numerosas respostas do Povo de Deus ao Documento Preparatório.

O setor da Pastoral da Família de Lisboa acompanha este Sínodo com muita atenção, pedindo ao Senhor que o Espírito Santo conduza os trabalhos sinodais de forma a que seja um verdadeiro tempo de caminho eclesial. Tal como afirmou o Papa Francisco, na Saudação aos padres sinodais, é preciso que no Sínodo se fale claro, ou seja que se diga tudo o que se pensa com ousadia e, ao mesmo tempo, que se ouça com humildade e acolha com coração aberto aquilo que dizem os irmãos, fazendo-o com tranquilidade e paz.

Um dos desafios deste Sínodo, tal como indica o tema que preside a estes dois anos de caminhada, é conseguir propor ao nosso mundo o atrativo da mensagem cristã a respeito do matrimónio e da família, sublinhando a alegria que dá a vida em Cristo. Diante dos problemas e dificuldades que tocam a existência da família dos nossos dias, é fundamental que as respostas da Igreja sejam impregnadas de caridade. É importante que este Sínodo não fique apenas com umas ideias bonitas, como disse o Papa, nem que se centre apenas em alguns aspectos da moral cristã, mas que seja abrangente, que fale de todas as realidades da vida familiar, de forma a que se possam descobrir novos caminhos de evangelização. Numa sociedade por vezes tão adversa à vida familiar, cabe à Igreja a proximidade com vida familiar, de forma a que, acompanhando as famílias, possa ser um porto seguro, uma referência, uma orientação.

Assim, enquanto setor da Pastoral da Família, a nossa grande expetativa é que este sínodo traga um renovado entusiasmo por este setor da pastoral, que não é mais um setor entre tantos outros, é aquele que mais toca a vida das pessoas, pois a grande referência da cada pessoa é sempre a família. É preciso implantar uma autêntica Pastoral Familiar nas nossas comunidades cristãs; é preciso trabalhar numa séria e longa preparação para o matrimónio e para a vida familiar, que comece no seio da vida familiar, na catequese, nos grupos de jovens; é preciso que os casais cristãos conheçam a beleza da vocação a que são chamados; em suma, é preciso que as famílias se redescubram como Igrejas domésticas, como santuários de vida e amor.

Queira Deus que este Sínodo possa trazer um novo impulso à Pastoral da Família.

Texto: Pe. Rui Pedro Trigo Carvalho