Monsenhor Vítor Feytor Pinto, ordenado presbítero há 59 anos, esteve quase
três décadas como coordenador nacional da Pastoral da Saúde, fala com abertura
sobre a necessidade de integrar a sexualidade num projeto de vida. E sublinha
não só a importância da família e da escola para orientar os jovens, mas também
da Igreja na educação para a sexualidade: «A Igreja tem um papel fulcral, mas
não é com “isto é pecado e aquilo não é pecado” – não é assim. É: “Como é que
tu cultivas a tua dignidade humana?”– este é que é o ponto-chave.» Palavras que
ficam a fazer eco.
Tem acompanhado muitos jovens casais
em preparação para o casamento e famílias. Que dúvidas é que eles têm
partilhado consigo sobre a sexualidade humana?
O problema da aprendizagem afetivo-sexual é fulcral nos jovens. Um jovem não
pode limitar-se a fazer experiências. Tem de ter uma riqueza enorme de
descobrir um valor fundamental para a sua vida que é precisamente o mistério da
sexualidade humana. Para a maior parte das pessoas, a sexualidade consiste em
quê? Na atividade sexual – e não é nada disso. O Papa João Paulo II, num documento
notável que se chama
Familiaris Consortio
no n.º 37, define a sexualidade desta maneira: é o dinamismo integral da pessoa
humana que a leva a realizar-se plenamente num projeto de vida. A maneira de
viver a sexualidade no campo da genitalidade ou da afetividade é sempre
dependente do projeto que tenho. Se tenho um projeto sacerdotal, eu vivo a
minha sexualidade de determinada maneira; se sou casado, vivo a sexualidade
doutra maneira; se estou a preparar-me para o casamento, vivo ainda a
sexualidade doutra maneira. Os jovens perguntavam-me muito o que podiam e não
podiam fazer numa perspetiva de poder ou não poder fazer, de pecado ou de
graça. Tínhamos de ter uma visão completamente diferente disso…
Pegando nas dúvidas dos jovens,
pergunto-lhe: o que os jovens podem e não podem fazer?
Têm de descobrir o respeito pela própria dignidade e a dignidade do outro
que os levará a utilizar todo o seu corpo na construção de um projeto. Eu tenho
a minha mão que posso usar bem ou mal. Posso fazer uma festa a uma criança, mas
posso dar uma bofetada ou um murro – é o uso bom ou mau das minhas mãos. Então,
em vez de perguntar «O que posso fazer e o que não posso?», questionar antes:
«Como é que eu com dignidade vou utilizar o meu corpo mesmo ao nível da
genitalidade? De que maneira é que com dignidade vou utilizar o corpo do outro?
Como é que vou criar a relação? Como é que estabeleço os mecanismos da
comunicação? Que respeito faço pela progressividade do encontro que me pode levar
a um compromisso recíproco?»
O que a Igreja está a fazer no
sentido de trabalhar a sexualidade? Ainda tem muitos passos a dar?
Ainda tem muitíssimos passos a dar. A primeira coisa é perder o medo de
falar sobre este problema, porque é o valor mais belo que o Senhor nos deu, a
par da inteligência. É com a nossa inteligência e a nossa liberdade que vamos orientar
todos os nossos comportamentos também na utilização do corpo. Portanto, temos de
aprofundar o tema. Temos tido medo de falar destes problemas. Temos de
redescobrir o conceito de sexualidade. A partir do conceito, perceber que há
valores que tenho sempre de respeitar e de promover em mim e no outro – e nunca
posso profanar a nossa relação, porque a nossa relação é sempre divina. A nossa
relação entre humanos é sempre um grito de amor que Deus colocou nos nossos
corações. Eu tenho de saber viver com este elemento e tenho de saber
trabalhá-lo. Tenho de ajudar os mais novos e os mais velhos a sentirem a
importância do seu corpo e a sua capacidade de amar para utilizarem estes
valores maravilhosos em projetos de fecundidade: fecundidade física, psicológica,
social, cultural… A sexualidade não se limita ao mistério do nosso corpo – a sexualidade
envolve toda a nossa vida. É todo o nosso dinamismo de comunicação e relação.
Muitas vezes pensamos que questionar
um padre sobre esta matéria não tem sentido, uma vez que não está vocacionado
para falar sobre o tema. E isto provoca alguma inquietação. Tem sentido isso
por parte de alguns casais: mas por que carga de água é que vou perguntar ao
senhor padre sobre esta situação?
Muitos padres não têm preparação para isso. Ponto final parágrafo. É por
isso que nestas áreas como noutras tem de haver sacerdotes que se especializam
para poderem orientar bem aqueles que os procuram. Mas atenção: nenhum padre
tem direito de dizer faz isto ou faz aquilo ou não faças isto nem aquilo. A
orientação de padre – próxima da intervenção psicológica enriquecida com a
matriz da relação com Deus – é dizer: «Tens este campo, tens esta abertura,
procura descobrir o caminho que é o teu ou o sentido dos valores que são
essenciais à tua relação com o outro.» Tantas e tantas vezes, nós, sacerdotes,
dizemos não podes fazer isto, não podes fazer aquilo e até há cientificamente
razões para o fazer. O científico está muitas vezes colado ao mistério da
caridade. E a prioridade absoluta nos cristãos é o amor. Há todo aqui um
trabalho que nos obriga a iluminar os casais, as pessoas que têm problemas, para
que saibam por si resolver os seus problemas. Esta história de eu substituir o
outro na solução do problema é um erro terrível. Nós temos de dizer: «O caminho
está aberto, tem esta alternativa e esta. Repare nos valores daqui, repare nos
contravalores dali.» A própria pessoa é que decide.
É importante referir a maternidade e
paternidade responsáveis. Com os métodos naturais defendidos pela Igreja isso é,
por si só, válido?
Nós temos 18 ou 20 métodos, não posso dizer só são validos os naturais, até
porque eu discordo muito deste título “naturais”.
Qual é o título que defende?
Gosto muito de dizer os métodos de auto-observação.
Os métodos de auto-observação permitem ao homem e à mulher conhecerem toda a
sua riqueza fisiológica, e a partir dela orientar o quadro da sua fecundidade.
Portanto, os métodos de auto-observação para mim são muito melhores do que
métodos naturais.
Nós temos 18 ou 20 métodos; temos o dever de, no caso
de uma orientação de casais, lhes dar a conhecer tudo. Dizer de cada um deles
os valores e contravalores. Quando chegamos também aos de auto-observação dizer
os valores e contravalores e pedir ao casal que aprofunde e depois fazer escolhas
válidas e não escolhas que possam, de alguma maneira, tocar a sua dignidade.
Poderá haver alguma abertura da
Igreja para a utilização da pílula e do preservativo entre os casais?
Eu não gosto nada de aprofundar o problema assim. Lembro-me sempre de uma
história muito bonita de um professor de Ética notável que, quando se celebrou
os 40 anos da
Humanae Vitae, a certa
altura disse assim: quando um documento oficial não é respeitado na vida da
grande maioria das pessoas para quem ele é dirigido, provavelmente o que está
errado não é o comportamento das pessoas, é a própria letra do documento. É
muito interessante isto ter sido dito assim. De facto, eu tenho a sensação de
que a rigidez de dizer “só os métodos naturais” – com esta afirmação tão dura –
pode dar origem a que os casais não se preocupem mais com o fazer o estudo de
todos os processos para ver qual é aquele que se adapta melhor ao seu estado de
vida, à realidade que está a viver, e aos valores cristãos que marcam a sua
vida. Aí, eu tenho de citar o Papa João Paulo II, no artigo 3.º, dos Direitos
da Família diz assim: Pertence ao casal que tem direito ao amor definir o
número de filhos e o intervalo entre cada um deles, tendo em consideração as
condições da sociedade, as condições da família, a saúde, o equilíbrio
psicológico do casal e a opinião dos filhos já nascidos e, a partir disso,
então faz a opção no quadro dos valores éticos fundamentais, excluindo, no
entanto, o aborto, a contraceção e a esterilização. Isto é muito claro, a única
coisa que é discutível nesta expressão é o que é a contraceção. E esta é a
grande discussão entre os técnicos de saúde.
E o que é a contraceção, do seu ponto
de vista?
Do meu ponto de vista, contraceção é mesmo contrariar por antecipação a
fecundidade. Mas atenção: pode haver muitos momentos em que isto seja
obrigatório para garantir a saúde da mulher. Portanto, não é apenas a palavra
contraceção que podemos utilizar. Temos de verificá-la e ver se cada método que
está a ser recomendado clinicamente pela medicina é contracetivo ou é, ao
contrário, terapêutico. É um problema muito interessante…
Daqui já se deduzem alguns caminhos
abertos…
Penso que sim. Penso que nisto a Igreja está suficientemente aberta. Julgo
que este sínodo dos bispos vai ser muito importante até nestes aspetos. É
engraçado que eu acompanhei à distância em 1968 a publicação da
Humanae Vitae. E houve até um grande
amigo meu, morreu com 94 anos, Abbé Caffarel, o processo de beatificação dele está
em curso, e ele sugeriu à Santa Sé que uma equipa de casais das equipas de
Nossa Senhora se pronunciasse sobre este tema. Curiosamente pronunciaram-se,
mas depois a sua opinião não teve o acolhimento que era necessário ter tido.
Portanto, era um tema que estava ainda muito em dificuldade em ser discutido.
Estamos à distância de quase 50 anos. E, portanto, estamos no princípio desta
abertura. Eu julgo que agora com os sínodos dos bispos, quer o de 2014 quer o
de 2015, também neste campo vamos ter alguma abertura.
A quem compete a educação para a
sexualidade?
A primeira responsável pela educação da sexualidade na criança é a família. A
família não pode de, forma nenhuma, cultivar a permissividade pelo silêncio, a
ver o que é que acontece. A família pode ir abrindo a porta, com conversas
entre casais ou até com algum técnico que a possa ajudar. Mas depois tem de
haver complementaridade. Na escola há o grande mundo da relação. Muitos jovens têm
as primeiras experiências físicas na escola com um silêncio total do corpo dos
professores. Por outro lado, a informação que é dada é só uma informação
meramente biológica – sem mais nada –, como se dá também para a procriação dos
animais ou de outra espécie qualquer. Aqui há um défice muito profundo. Há um
problema, de facto, de apoiar a educação da sexualidade, que tem sempre a dupla
componente: genitalidade e afetividade. A simples regulação dos mecanismos não
é educação para a sexualidade. Isso é uma informação mecânica que depois os
jovens usam a seu bel-prazer, conforme as reações que vão tendo. Depois, o terceiro
elemento é a Igreja. Na nossa catequese no Campo Grande fazemos educação da
sexualidade. A Igreja tem um papel fulcral, mas não é com «isto é pecado e aquilo
não é pecado» – não é assim. É: «Como é que tu cultivas a tua dignidade humana?»
– este é que é o ponto-chave.
Entrevista: Sílvia
Júlio
Fotos: Ricardo Perna e Paulo Paiva