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9 de outubro de 2014

Humanae Vitae «carece de praticidade» nos dias de hoje


Os trabalhos no Sínodo dos Bispos desta manhã abriram com o testemunho de Hermelinda e Arturo, um casal brasileiro responsável pelo Movimento das Equipas de Nossa Senhora no Brasil. «A abertura dos cônjuges à vida» foi o tema desta manhã, e o casal trouxe um testemunho não só da sua experiência enquanto casal, mas da experiência dos casais que fazem parte do movimento das equipas de Nossa Senhora no Brasil, e deixaram críticas não aos princípios defendidos pela Humanae Vitae, mas à sua aplicação prática, afirmando que é possível aplicar os princípios «orientados à transmissão da vida e ao serviço do amor conjugal» utilizando outros métodos que não os naturais.

O casal veio, assim, contradizer o que o cardeal André Vingt-Trois havia proferido momentos antes, na abertura dos trabalhos. O cardeal-arcebispo de Paris, D. André Vingt-Trois, lamentou que muitos casais católicos tenham perdido a noção de «pecado» no uso de contracetivos, rejeitados pelo magistério da Igreja.«Há casais que muitas vezes não julgam que o uso de métodos anticoncetivos seja um pecado e, como tal, tendem a não fazer disso uma matéria de Confissão e assim receber a Comunhão sem problemas», declarou o presidente da Conferência Episcopal Francesa, introduzindo a congregação geral desta manhã. «Muitos são os que têm dificuldade em compreender a diferença entre os métodos naturais de regulação da fertilidade e a contraceção», sustentou o cardeal Vingt-Trois, um dos três presidentes-delegados desta assembleia sinodal.

Na sua intervenção, o casal brasileiro começou por elogiar o «ato sexual», «querido e abençoado por Deus», e defendeu que «o prazer que dele decorre contribui para a alegria de viver e para a estruturação sadia da personalidade». «Os casais que fazem amor são os que expressam com o corpo o que lhes vai ao coração. Para chegar à harmonia, é preciso saber cultivar o desejo e até mesmo um erotismo sadio. É preciso continuar apaixonados e estar atentos um ao outro», defenderam Hermelinda e Arturo.

Ambos falaram da necessidade dos casais «quererem espaçar o nascimento dos filhos» e da opção não só pelos métodos naturais preconizados pela Igreja que muitos casais tomam. Temos de admitir sem medo que muitos casais católicos, mesmo os que procuram viver seriamente o seu matrimónio, não se sentem obrigados a usar apenas os métodos naturais», afirmou o casal, que adiantou que, «geralmente, não são questionados pelos confessores» sobres esta matéria.

O casal afirma que, apesar de os casais estarem «abertos à vida e rejeitarem o aborto», não percebem «nas pregações e atendimentos espirituais» dos sacerdotes a «insistência na doutrina da Humanae Vitae». Consideram, para além disso, que, «na cultura atual», os métodos naturais «carecem de praticidade». «Casais, principalmente jovens, vivem um ritmo de vida que não lhes permite praticar esses métodos, uma vez que exigem tempo para treino, e tempo é produto raro no mundo em que vivemos. E o pior: por ser superficialmente explicado e, por isso mesmo, mal utilizado, o método natural ganha a fama injusta de ser inseguro e assim muitas vezes ineficiente. Portanto, mais uma vez com sinceridade admitimos que não é seguido pela maioria dos casais católicos», referiu o casal aos bispos presentes na aula sinodal.

Por estas razões, os casais com os quais trabalham, «na sua maioria, não descartam o uso de outros métodos contracetivos» e não os consideram «um problema moral», até porque as relações continuam a ser «orientadas à transmissão da vida» e «ao serviço do amor conjugal». Por isso, o casal pediu aos bispos que se apressem «em dar aos padres e aos fiéis as grandes linhas de uma pedagogia pastoral que ajude a adotar e a observar os princípios acordados pela Humanae Vitae». «Se pelo menos os casais encontrassem luz e suporte junto ao clero já seria um grande alento! Muitas vezes os conselhos contraditórios só agravam sua confusão», observou o casal no final da sua intervenção.

Pode continuar a acompanhar todos os trabalhos do Sínodo em www.sinododafamilia.familiacrista.com

Texto: Ricardo Perna
Foto. News.va

6 de outubro de 2014

Papa pede que cardeais «falem com ousadia e escutem com humildade»


O Papa Francisco abriu hoje, pela manhã, os trabalhos do Sínodo da Família. Dirigindo-se aos bispos presentes, o Santo Padre agradeceu o trabalho de todos quantos colaboraram até à data na preparação do evento e elogiou o espírito sinodal que esteve presente desde o início.

Francisco afirmou que «a sinodalidade é uma grande responsabilidade, pois é preciso trazer os problemas da Igreja para os ajudar a caminhar segundo o Evangelho que é a família», e por isso estabeleceu algumas condições de base para este Sínodo, para as quais pediu a atenção dos cardeais. «Uma condição de base é falar claro. Que ninguém diga que “sobre este assunto não se pode falar”. Um cardeal escreveu-me uma vez a dizer que havia assuntos sobre os quais os cardeais não falavam, por causa do que diria o Papa. Isto não é sinodalidade, pois temos de dizer tudo aquilo que achamos que o Senhor quer que digamos», considerou o Papa.

«Depois», acrescentou, «é preciso falar com ousadia e escutar com humildade e de coração aberto» o que dizem os irmãos. «Com estas duas condições se faz a sinodalidade. Por isso, peço que o façam com tranquilidade e paz, porque o Sínodo faz-se sempre cum Petro et sub Petro [com a presença e sob a presidência do Papa], garantia para todos e custódia da fé», referiu Francisco.

Os trabalhos da manhã para os participantes no Sínodo tiveram início com a oração de laudes. Na ressonância da leitura, o Cardeal Lluís Sistach, bispo de Barcelona, afirmou que o trabalho dos bispos «deve ser verdadeiramente evangelizador». «Que os fiéis possam receber a Boa Nova  a partir de evangelizadores cheios de alegria em Cristo, e não tristes», pediu o prelado.

O Cardeal Sistach pediu que os bispos consigam «manter o sentimento do Bom Pastor, que larga as suas 99 ovelhas para ir atrás da que se perdeu, numa altura em que em algumas zonas diminuem os fiéis, e a postura do Bom Samaritano, que se dedica ao outro». «Neste Sínodo, falaremos das maravilhas da Família, e, como bons pastores e bons samaritanos, façamos conforme a indicação de Paulo, de tudo fazer por amor a Cristo», concluiu.

Depois deste prelado, foi a vez do Cardeal Vingt-Trois, arcebispo de Paris, pedir «que o trabalho que hoje iniciamos aqui possa ajudar a Igreja a andar para a frente na sua missão». «A missão pastoral não é a de dificultar a vida às famílias, mas apoiar no aprofundamento e na procura da verdade sobre a vida», defendeu o cardeal francês, já que, adiantou, «o futuro da família está no coração das preocupações das pessoas de hoje».

«É preciso perceber que este será um caminho que terá de ser feito não só aqui, mas depois em todo o tempo entre as duas sessões do Sínodo. Não vamos procurar encontrar resultados para problemas tão graves em apenas duas semanas», pediu o cardeal Vingt-Trois.

Os trabalhos iniciaram com a intervenção do Cardeal Baldisseri, que fez uma contextualização do caminho sinodal feito desde a convocação do Sínoco no ano passado, deu algumas indicação práticas, e pediu também que o espírito sinodal permita que os participantes procurem a Verdade num clima de diálogo e partilha. Os trabalhos da manhã iniciaram depois desta intervenção. Os temas sobre os quais os bispos se irão debruçar são «O desígnio de Deus sobre matrimónio e família» e o «Conhecimento e receção da Sagrada Escritura e dos documentos da Igreja sobre matrimónio e família».

Hoje será ainda entregue o relatório preliminar do Sínodo. Poderá continuar a acompanhar todos os trabalhos do Sínodo em www.sinododafamilia.familiacrista.com