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14 de outubro de 2015

Grupos de trabalho pedem intervenção «documento magisterial» do Papa sobre o casamento


Os grupos de trabalho do Sínodo dos Bispos que decorre no Vaticano publicaram hoje novos relatórios, em que multiplicam observações sobre a necessidade de uma “intervenção magisterial” para clarificar a posição da Igreja sobre família e casamento. “O anúncio do Evangelho da família exige hoje uma intervenção magisterial que possa tornar mais coerente e possa simplificar a atual doutrina teológica-canónica sobre o casamento”, pode ler-se nos documentos, divulgados pela sala de imprensa da Santa Sé.

Os textos, em cinco línguas (francês, inglês, italiano, espanhol e alemão) deixam várias propostas tendo em vista a redação do documento final da assembleia sinodal, presidida pelo Papa Francisco, após nove das 13 sessões de debate previstas nos chamados ‘círculos menores’. Vários participantes esperam que exista, no final dos trabalhos, um “documento magisterial” e alguns propõem que após a assembleia se abra um período de “paciente busca comum” teológica e pastoral sobre a família. Um dos textos alerta para a necessidade de apresentar as “razões canónicas” para a anulação dos matrimónios canónicos. “Temos de ser realistas sobre os problemas matrimoniais e não apenas encorajar simplesmente as pessoas a permanecer juntas”, assinala-se, antes de recordar a “violência contra as mulheres”.

Outro relatório pede “misericórdia para os filhos que sofrem as consequências da violência familiar, o abandono, o divórcio dos seus pais”. Noutra passagem, o divórcio é colocado ao lado da poligamia e da submissão da mulher como um dos frutos do “pecado”, que desviou a humanidade do plano de Deus, de matrimónio “indissolúvel” e de “igualdade” entre homem e mulher. A este respeito, o grupo alemão pede “prudência e sabedoria” na aplicação “justa e equitativa” da palavra de Jesus sobre a indissolubilidade do casamento, frisando que não se procuram “exceções” à Palavra de Deus. Várias propostas rejeitam a linguagem excessivamente “jurídica” sobre o casamento, pedindo antes que se apresente a proposta da Igreja como “graça, bênção, uma aliança de amor”, um “dom de Deus”.

Os participantes lamentam a falta de uma “teologia da família”, por causa da centralização do debate no casamento e na moral, que leva a “repetir coisas óbvias, sem ideias chave e mobilizadoras”. Tendo em vista o texto final do Sínodo 2015, pede-se que se use uma linguagem “clara e simples” que evite “ambiguidades e equívocos”, superando “falsas oposições”.

Os relatórios sublinham a importância do “contexto cultural” na vivência familiar, apelando a um maior espaço para o ensinamento bíblico sobre a família e à apresentação da proposta cristã de forma concreta e não como um “ideal abstrato”.

Entre as preocupações apresentadas, está a necessidade de não fazer “leituras simplistas” de fenómenos complexos, como a diminuição do número de casamentos ou o surgimento de outras formas de união, particularmente entre os mais jovens, para os quais se sugere a criação de um percurso de “iniciação” ao matrimónio.

Texto: Agência Ecclesia
Foto: News.va

17 de novembro de 2014

Papa confirmou participação no Encontro Mundial das Famílias e rejeita família «ideológica»

O Papa Francisco disse hoje no Vaticano que a Igreja Católica rejeita uma família construída com base em ideologias que ignoram a «complementaridade» de um pai e de uma mãe na educação dos filhos. «As crianças têm o direito de crescer numa família, com um pai e uma mãe, capazes de criar um ambiente idóneo para o seu desenvolvimento e o seu amadurecimento afetivo», declarou, perante os participantes num colóquio inter-religioso sobre a complementaridade homem-mulher, promovido pela Congregação para a Doutrina da Fé (Santa Sé), noticia a Agência Ecclesia.

Francisco aproveitou esta ocasião para confirmar a participação no 8.º Encontro Mundial das Famílias que vai decorrer em setembro de 2015, na cidade norte-americana de Filadélfia. A intervenção alertou para a «armadilha» de se qualificar a família a partir de conceitos de natureza ideológica, com um valor limitado do ponto de vista histórico e antropológico.
«Não se pode falar hoje de família conservadora ou de família progressista: a família é família. Não a deixemos qualificar assim com este ou outros conceitos, de natureza ideológica. A Família é por si mesma, tem uma força própria», precisou o Papa.

Francisco elogiou a escolha do tema da «complementaridade» para este colóquio internacional, considerando que o conceito está «na base do matrimónio e da família». Neste contexto, o Papa alertou para a «crise» provocado por uma «cultura do provisório», que leva cada vez mais pessoas a evitarem o compromisso do casamento. «Esta revolução dos costumes e da moral içou, por muitas vezes, a bandeira da ‘liberdade’, mas na verdade trouxe devastação espiritual e material a muitíssimos seres humanos, especialmente aos mais vulneráveis», lamentou.

Francisco disse ser claro que o declínio da cultura do matrimónio está associado a uma série de problemas sociais, que atingem em particular as crianças e os idosos, sublinhando que «a família continua a ser o fundamento da convivência e a garantia contra a desintegração social».
«O compromisso definitivo para a solidariedade, a fidelidade e o amor fecundo responde aos anseios mais profundos do coração humano», referiu.

O Papa concluiu com votos de que este encontro possa servir como inspiração para «todos os que procuram apoiar e reforçar a união do homem e da mulher no matrimónio como um bem único, natural, fundamental e belo para as pessoas, as famílias, as comunidades e a sociedade».

29 de outubro de 2014

«Há necessidade de que se desenvolva uma nova fraternidade entre todas as famílias»


 

D. Vincenzo Paglia é o presidente do Conselho Pontifício para a Família. Em exclusivo para a Família Cristã, faz um balanço do Sínodo sobre a Família e pede que todas as famílias e comunidades se envolvam no processo de reflexão que agora se inicia, em vista do Sínodo ordinário do próximo ano.

Qual é a sua avaliação do Sínodo que se passou em Roma?
Direi que foi um acontecimento absolutamente extraordinário. E num certo sentido foi importante não apenas para a Igreja mas para todas as famílias do mundo. Poderia dizer que, sobre as costas daqueles 191 padres sinodais, realmente existia uma preocupação por todas as famílias do planeta; não somente pelas crentes, mas por todas. E eu creio que a sapiência e o olhar preventivamente avançado do Papa Francisco, que quis este longo percurso de reflexão de toda a Igreja sobre a família, deu os seus frutos. Foi um debate animado, livre, franco, em que se tocaram muitos temas – outros deverão ser ainda examinados – todavia o itinerário que se abriu no encerramento do Sínodo extraordinário é um itinerário de grande responsabilidade, além de grande interesse.

Qual será, no decurso do próximo ano, o trabalho do Conselho Pontifício para a Família sobre a Relatio Synodi, em vista à preparação do Sínodo ordinário de 2015?
O Conselho Pontifício para a Família, obviamente, está particularmente interessado na reflexão e na realização de debates múltiplos, plurais, a todos os níveis, sobre cada temática discutida durante este Sínodo. Não foi por acaso que o Sínodo quis “caminhar em conjunto”. Apesar de ter sido muito aberto, tem, todavia, que se favorecer indispensavelmente uma ulterior abertura de tal modo que as temáticas que ali foram tocadas sejam debatidas em todos os níveis. Houve debates que tiveram um caráter mais teológico, outros uma relação mais imediata com a vida pastoral, mas indubitavelmente todos somos chamados a meter no centro da nossa atenção não somente as teorias, mas também a vizinhança de todas as famílias, em relação às sãs e às feridas; às que caminham e às que coxeiam. Porque é importante que todas as famílias – mesmo as que ainda não estão marcadas pela plenitude do sacramento, ou até pela robustez de um caminho – apressem o passo e se unam numa simpatia comum de tal modo que o que já está bem amadureça plenamente. Há, pois, a necessidade de que se desenvolva uma nova fraternidade entre todas as famílias, entre as famílias crentes, entre as famílias crentes e as não-crentes, porque se volta a descobrir com clareza que a família é um património comum para toda a humanidade. 

A preparação para o matrimónio foi um dos temas discutidos no Sínodo. Como podemos integrar a pastoral do matrimónio na pastoral juvenil, catequética, privilegiando a preparação remota exigida pela Familiaris Consortio?
Todos os padres sinodais sublinharam a importância da preparação ao matrimónio, até porque o matrimónio não é uma festa, e nem é sequer um dia em que é festejado, mas é uma escolha de vida: neste sentido trata-se de fazer redescobrir que a escolha de um se casar é um chamamento, uma vocação. Ninguém se casa só para si mesmo mas para criar uma família, e para que esta família incida na sociedade e na criação. Isto significa que a preparação ao matrimónio não pode ser nem apressada nem muito menos superficial, bem pelo contrário, em minha opinião, deve representar uma ocasião para uma compreensão renovada, seja da fé, seja da vida matrimonial e familiar. Não basta por isso contentar-se com um amor romântico ou um “gostamos um do outro, ponto final”. Na realidade deve-se redescobrir a alta e difícil vocação de ser esposos, pais e promotores de ligações sociais. 

Pensa que a formação imediata ao matrimónio deva ser mais exigente?
É indispensável uma ligação dos nubentes – destes jovens que querem assumir a vida matrimonial – com a comunidade cristã. Não é possível conceber um matrimónio e uma família sem uma ligação com a comunidade cristã de referência: esta é uma das indispensáveis acentuações que devem ser promovidas. Com demasiada frequência a família anda por conta própria, como também muitas vezes a paróquia, ou a comunidade cristã, anda por conta própria. Por isso acontece que se prepara sem viver a vida da comunidade e se inicia a vida de uma nova família num ambiente onde da comunidade paroquial, ou da comunidade cristã, não se sabe nada, e nem sequer se conhece.

Em sua opinião, é justo que as dioceses exijam que os seus sacerdotes devam recusar fazer o casamento dum homem e duma mulher se estes não estiverem bem conscientes do sacramento?
Este vazio deve absolutamente ser ultrapassado e neste sentido a proposta evangélica da família não deve abaixar-se, mas deve ser sempre alta. O problema não é, se assim posso dizer, abaixar a meta, mas deve-se reforçar o acompanhamento com ela, e isto comporta um envolvimento de todos: dos esposos, dos operadores pastorais, e da própria comunidade cristã, que acolhe e acompanha cada jovem família.
É evidente então que o sacerdote ou o grupo pastoral que acolhe os jovens nubentes devam fazer crescer neles a consciência. Portanto é sempre uma perda, é uma derrota deixar cair esta questão. Nunca mandar ninguém para trás. A mecha que ainda fumega não seja apagada, mas reavivada e reativada para se tornar uma chama ardente. Por isso eu sou completamente contrário a mandar para trás, pelo contrário, deveríamos ser despachados para trás nós se não formos capazes de ajudar. 

Além da questão da preparação, muitos falaram da necessidade do acompanhamento dos casais, estejam eles em crise ou não. Como fazer isto?
Eu creio que aqui devemos redescobrir uma grande sapiência. Infelizmente muitos matrimónios, tantas famílias, rompem-se porque estão sozinhos, abandonados. Por isso nós devemos estar perto destas pessoas antes da crise, mais ainda durante a crise, e acompanhá-las esperando que obviamente tudo se resolva. Se depois sucedem fraturas devemos estar ao lado e compreender. E onde se descobre que o matrimónio não existiu, deve-se obviamente facilitar os procedimentos de nulidade, sem que isso porém signifique um alegre cancelamento. 

Como podem os sacerdotes ajudar nesta tarefa?
Estar perto dos matrimónios que se fraturam é um dos grandes desafios que o Sínodo pediu para enfrentar e que sobretudo o Papa Francisco quer que todos os pastores e compreendam. E a vizinhança faz encontrar também caminhos, se não de solução, certamente de acompanhamento. É uma arte acompanhar todos; é uma arte ainda mais sofisticada a de acompanhar os feridos. Quanto tempo é preciso para ter um doutoramento em medicina, para operar, para ajudar a manter a saúde? Eu creio que o mesmo seja necessário para acompanhar, para fazer crescer bem, para curar quando as doenças do espírito enfraquecem ou fraturam coexistências que deveriam reencontrar um novo vigor e uma nova primavera.

Entrevista: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e News.va

27 de outubro de 2014

Papa pede preparação mais exigente para o matrimónio


O Papa Francisco afirmou sábado aos peregrinos do movimento de Schöenstatt que se deslocaram ao Vaticano para comemorar os 100 anos da fundação do movimento que «a família cristã e o sacramento do matrimónio nunca foram tão atacados como agora, direta ou indiretamente», em virtude da cultura contemporânea da «cultura do deitar fora», ou relativismo. «Não se pode reduzir o sacramento do matrimónio a um rito social. O casamento é para sempre», lembrou, ressalvando «que na sociedade, hoje, é comum a cultura do provisório».

Neste âmbito, Francisco falou sobre a importância da preparação para o matrimónio, e, ao contrário dos bispos que, reunidos em Sínodo, afirmaram não ser conveniente «complicar os ciclos de formação», o Papa referiu que «a primeira coisa é não confundir casamento com festa, simplificando assim o rito». «Fazer o curso de preparação ao sacramento com duas aulas é um nosso pecado de omissão», completou o Santo Padre.

Neste sentido, Francisco afirmou ainda aos 7 mil peregrinos presentes na sala Paulo VI no Vaticano que a missão da Igreja é ajudar «corpo a corpo», não fazendo «proselitismo», mas acompanhando. «A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração», disse, citando Bento XVI.

Questionado sobre o casamento e que conselho ele pode oferecer para aqueles que não se sentem bem-vindos na Igreja, o Papa Francisco destacou a necessidade dos sacerdotes ficarem perto de cada uma das ovelhas do seu rebanho «sem se escandalizarem com o que acontece dentro da família». Francisco contou que um bispo, durante o recente Sínodo sobre a família, perguntou se os padres estão conscientes do que as crianças sentem e os danos psicológicos causados ​​quando os seus pais se separam, observando ainda como, por vezes, o pai que se está a separar permanece a viver em casa a tempo parcial com as crianças, no que ele descreveu como uma «nova e totalmente destrutiva» forma de coabitação.

Texto e foto: Ricardo Perna

18 de outubro de 2014

Relatório final do Sínodo não reúne consenso em pontos polémicos

O Vaticano apresentou hoje em conferência de imprensa o relatório final da assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos, que debateu os temas da família, o qual sublinha a “verdade” da indissolubilidade do casamento, recusando outros tipos de união.

O documento, publicado pela sala de imprensa da Santa Sé, refere que o único “vínculo nupcial” na Igreja Católica é o sacramento do Matrimónio e que “qualquer rutura do mesmo é contra a vontade de Deus”. O Sínodo assume a necessidade de “discernir os caminhos para renovar a Igreja e a sociedade no seu compromisso pela Igreja fundada sobre o matrimónio”, a “união indissolúvel entre o homem e a mulher”.
Os participantes sustentam que “os grandes valores do matrimónio e da família cristã” são a resposta aos anseios da existência humana face ao “individualismo” e “hedonismo”.

 O documento sintetiza as duas semanas de debate, com intervenções em sessões gerais e discussões em grupos linguísticos em que se discutiu muito a relação entre doutrina e misericórdia.
Jesus, “colocou em prática a doutrina ensinada, manifestando assim o verdadeiro significado da misericórdia”, pode ler-se, antes de se referir que "a maior misericórdia é dizer a verdade com amor".

A reflexão sobre casamentos civis, divorciados e recasados na Igreja deixa uma mensagem de “amor” para com a “pessoa pecadora” e diz que esta participa “de forma incompleta” na vida eclesial.
“Trata-se de acolher e acompanhar estas pessoas com paciência e delicadeza”, pode ler-se.

O documento retoma as observações sobre a necessidade de fazer “escolhas pastorais corajosas” na ação da Igreja junto das “famílias feridas”, em particular junto de quem “viveu injustamente” a separação e o divórcio.

O relatório final do Sínodo de 2014 foi votado ponto a ponto, em cada um dos seus 62 números, que reuniu 470 propostas dos chamados ‘círculos menores’. As votações sobre cada número foram divulgadas pelo Vaticano, por decisão do Papa, revelando que os parágrafos 52 (acesso dos divorciados recasados à Comunhão), 53 (comunhão espiritual a divorciados) e 55 (homossexuais) não chegaram a uma maioria de dois terços dos 183 padres sinodais presentes; o parágrafo 41 (matrimónios civis e uniões de facto) mereceu 54 votos contra.

 Em relação ao acesso à Comunhão e à Penitência pelos divorciados em segunda união, tema sobre o qual se gerou divisão entre os participantes, alguns “argumentaram em favor da disciplina atual [que impede o acesso aos sacramentos]” e outros propõem um “acolhimento não-generalizado”.
Este foi o ponto em que houve mais votos contra (74), no qual se pede que seja aprofundada a questão, “tendo presente a distinção entre situação objetiva de pecado e circunstâncias atenuantes”.

O texto apresenta dois números sobre a situação dos homossexuais, com críticas às “pressões” sobre os membros da Igreja por causa da sua doutrina nesta matéria e às leis que instituem uniões entre pessoas do mesmo sexo. 62 pessoas votaram contra um número no qual se afirma que “os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito e delicadeza”.

O relatório do Sínodo alude ainda às propostas para tornar “mais acessíveis e ágeis”, de preferência “gratuitos”, os procedimentos para o reconhecimento de casos de nulidade matrimonial, realçando que alguns participantes se mostraram “contrários” a mudanças.

Os vários pontos apelam à valorização dos métodos naturais de planeamento natural e da adoção, condenando a mentalidade “antinatalista”; recordam a reflexão sobre a família nos documentos da Igreja e pedem liberdade de educação para os pais.

O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, sublinhou que este não é um documento “doutrinal” e que vai servir de base para a preparação para a assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, com três semanas de trabalho, em outubro de 2015.

Texto: Agência Ecclesia
Foto: News.va

16 de outubro de 2014

Círculos menores em contra-corrente com Relatio Post Disceptationem


Após a entrega das propostas da alteração à Relatio Post Disceptationem (RPD), é possível perceber que o documento final terá muitas alterações em relação ao texto apresentado pelo Cardeal Péter Erdò e por D. Bruno Forte. Eram 10 os grupos menores, divididos por línguas: 3 italianos, 3 ingleses, 2 franceses e 2 espanhois.

De um modo geral, parece claro, pela leitura dos relatórios de cada círculo, que foram publicados hoje pela Sala de Imprensa da Santa Sé nas línguas originais em que foram entregues, que existe uma vontade grande em mudar o sentido em que estava orientado o documento intermédio. Muitos dos grupos declararam mesmo a sua surpresa pelo impacto mediático que o documento teve, ou se quer pela sua publicação sem aprovação da parte dos padres sinodais. Esta publicação nada teve de surpreendente, conforme um dos grupos reconheceu, já que é o procedimento habitual em todos os sínodos, mas as repercussões desta divulgação ultrapassaram todas as expetativas, como tem sido reconhecido por alguns dos cardeais que têm ido à sala de imprensa falar com os jornalistas.

São várias as ideias que saltam à vista nos relatórios dos grupos. Os dois círculos de língua francesa concordam num aspeto que mais nenhum refere: a importância de dar autonomia às conferências episcopais na abordagem pastoral de alguns problemas. Se o círculo moderado pelo Cardeal Robert Sarah pede mesmo «autonomia para as igrejas locais encontrarem soluções para as preocupações pastorais que têm», o círculo menor moderado pelo Cardeal Schönborn coloca a questão de como «permitir que as conferências nacionais, regionais ou continentais tenham autonomia para resolver certas situações, sob o princípio da subsidariedade, sem colocar em causa a catolicidade ou a universalidade da Igreja?»

Este círculo questiona ainda como «conjugar doutrina e disciplina, visão dogmática e aproximação pastoral», perguntando «como conjugar o amor da verdade e da caridade pastoral de uma forma que não choque o filho mais novo ou o filho mais velho da famosa parábola relatada por Lucas?», e nessa linha propõem um estudo aprofundado da validade teológica da comunhão espiritual. «Se for credenciada, que seja mais divulgada junto dos fiéis», propõe este grupo de bispos.

Os círculos de língua francesa elogiam ainda a encíclica Humanae Vitae e denunciam a «discriminação» que alguns homossexuais sofrem, «por vezes dentro da Igreja», rejeitando, no entanto, quaisquer práticas homossexuais ou o casamento homossexual. Uma posição, aliás, que é comum a todos os círculos menores, sendo que muitos criticam a forma como a questão foi colocada no RPD.

Grupos de língua inglesa mais conservadores
A questão da necessidade da mudança de linguagem na Igreja parece unânime, já que apenas um dos círculos refere a necessidade de incluir no documento termos como "pecado", "adultério" e "conversão", enquanto quase todos os outros referem a necessidade de chegar às pessoas com uma linguagem mais «positiva».

Muitos são os círculos que referem a necessidade de mudar a II parte do relatório, tornando mais virado para Cristo e para o Magistério da Igreja e o Evangelho. «É um documento pastoral, mas que não pode ser afastado da doutrina da Igreja», referiu o grupo moderado pelo Cardeal Raymond Burke, um conservador.

No que diz respeito às questões mais polémicas, constantes nas propostas da alteração da pastoral da Igreja, três dos grupos mantêm o apoio à teoria que permite que os divorciados e recasados façam um caminho pastoral de aproximação aos sacramentos, enquanto que dois dos grupos se manifestam claramente contra esta possibilidade. É importante «estudar caminhos pelos quais, em circunstâncias particulares, um divorciado recasado possa ter acesso aos sacramentos», refere um dos círculos.

A necessidade de aposta na formação do clero é colocada em relevo por um dos círculos menores, mas nenhum se refere à maior necessidade de formação antes do matrimónio, dando indicação de que o referido no RPD satisfez os bispos sinodais. O acompanhamento pós-matrimónio, também já contemplado no RPD, merece referência de um dos círculos, que pede uma maior aposta nesta área.

Finalmente, a lei da gradualidade. Alguns dos bispos receiam que leve a uma «preguiça pastoral», e que envie uma mensagem errada aos católicos que cumprem os preceitos e os ensinamentos da Igreja Católica, receando um efeito de contágio. «Se dermos a entender que certos estilos de vida são aceitáveis, então pais preocupados poderão facilmente dizer "porque é que estamos a tentar tanto encorajar os nosso filhos a viver o Evangelho e a abraçar os ensinamentos da Igreja?"», avisam estes bispos.

Neste sentido, alguns bispos falam na necessidade de avaliar a lei da gradualidade, mas não admitem que seja aprovada a gradualidade da lei, ou seja, admitem que há elementos positivos nas uniões irregulares, mas não querem conceber que tais situações venham a ser reconhecidas pela Igreja, o que poderia acontecer, por exemplo, com o acesso aos sacramentos dos divorciados e recasados, ou de quem viva em união de facto.

Dois dos círculos menores falaram sobre a necessidade de incluir no Relatio Synodi referências à adoção, uma área que nem sempre é referida pela Igreja Católica, lembrando a beleza desta opção, a ser tomada «por pais sem filhos ou pais que já tenham filhos biológicos».

Estas propostas vão agora ser reunidas e, juntamente com o RPD, serão compiladas no Relatio Synodi, o documento que será apresentado ao Papa Francisco e anunciado como base de trabalho para o próximo Sínodo, que irá decorrer daqui a um ano. Nada do que sair no documento serão decisões, antes propostas de reflexão, conforme os responsáveis do Vaticano não se têm cansado de dizer nos últimos dias, procurando evitar a polémica que a publicação do RPD teve.


Texto: Ricardo Perna
Foto: News.va


Cardeal Schönborn fala de «um Sínodo autêntico»


Depois de dias de tensão, a conclusão dos trabalhos nos círculos menores do Sínodo da família que decorre no Vaticano trouxe também uma visão mais calma dos documentos de trabalho. Hoje os bispos entregaram as suas propostas para «alteração e aprofundamento» do Relatio Post Disceptationem, a fim de que seja preparada a mensagem final da Assembleia Sinodal e o Relatio Synodi, o documento de trabalho que concluirá este sínodo e lançará as bases de trabalho para o sínodo de 2015.

O Cardeal Christoph Schönborn foi hoje o convidado para vir falar aos jornalistas, e convidado por um deles a adjetivar este Sínodo que caminha para o final, destacou a sua autenticidade. «Um Sínodo autêntico, que se está a desenvolver num sentido muito positivo, porque é um caminho de conjunto», definiu o cardeal austríaco de Viena, Áustria. O prelado declarou-se «surpreendido» com o interesse que o Sínodo está a despertar nas pessoas, mas reconhece que o tema assim obriga. «Poucos temas nos tocam tanto como o tema da família», reconheceu o cardeal. «Todos temos pais, irmãos, primos, tios, etc, e todos sabemos que quando temos problemas, o nosso primeiro recurso é a família», acrescentou.

Defendendo a necessidade de «alargamento da visão da família», o cardeal reconhece que é normal haver «tensões» no Sínodo. «Há vários aspetos a considerar: todos sabemos a doutrina, mas todos conhecemos também a misericórdia de Jesus. Como unir as duas é a questão permanente da Igreja, aqui e a nível local, na paróquia, onde é preciso encontrar um equilíbrio entre a força da doutrina e a pastoral», afirma. E dá o exemplo da indissolubilidade. «A indissolubilidade foi ensinada por Jesus não como uma imposição, mas como uma proposta de caminho de vida, não é um ideal, é um caminho real», diz, reconhecendo de seguida a existência de situações irregulares, que conheceu na primeira pessoa. «Os meus pais eram divorciados, conheço a realidade, não é a ideal, mas é uma realidade. A Igreja fala destas situações porque são verdade, mas fá-lo com compaixão e como um convite a um caminho de fé», sustenta o prelado.

Quanto a perspetivas de mudanças no Catecismo da Igreja Católica, cuja mais recente edição o cardeal Schönborn foi secretário, o prelado não se mostra confiante. «Não creio que haja necessidade de mudanças, mas pode haver desenvolvimentos. Há 50 anos atrás, o fenómeno das uniões de facto era impensável e por isso não foram mencionadas no catecismo, mas hoje são uma realidade que é preciso contemplar», exemplificou, afirmando que, também aqui, a Igreja precisa de dar uma resposta. «São uma desinstitucionalização da família, e devemos enfrentar este novo desafio de encontrar uma palavra para dar nestas situações. A proposta que fizemos foi no sentido de ver esta gradualidade, não da lei, mas da vivência da lei, passo a passo», revelou o cardeal austríaco.

Quanto à questão do acolhimento dos homossexuais, cuja polémica se agravou com a emenda que o Vaticano fez da tradução inglesa do relatório preliminar, para um termo mais leve de avaliação da realidade homossexual, e não tanto de aceitação, como sugeria a primeira versão do documento, o cardeal Schönborn não tem dúvidas sobre como enfrentar a realidade. «Primeiro olhamos para a pessoa, não para a sua orientação sexual. Quando o catecismo fala de acolhimento, é um comportamento básico, todos os seres humanos têm uma dignidade antes de qualquer outra coisa. Mas isto não significa, nem significará, que a Igreja pode dizer que o respeito pela vida humana signifique o respeito por todos os comportamentos humanos», avisou.

«O dom fundamental da criação de Deus é a relação entre homem e mulher, e o catecismo é muito claro. O sentimento da homossexualidade não tem nada a ver com pecado, mas as relações homossexuais não podem ser aceites, pois a Igreja não pode mudar de forma fundamental para aceitar isto. Com todo o respeito pela situação, e sem saber o que estará no documento final, posso prever que será acolhimento, que é elementar», afirmou o cardeal Schönborn.

O Pe. Lombardi, porta-voz da Santa Sé, anunciou na conferência de imprensa que serão disponibilizados os textos de resumo entregues pelos círculos menores. «Em virtude de ter ido publicado o relatório preliminar, a maioria concordou que também estes documentos devem ser publicados», informou o sacerdote jesuíta.

O porta-voz aproveitou o encontro com os jornalistas para transmitir um recado do cardeal Muller, que desmentia categoricamente todas as declarações negativas que tinham sido postas a circular na comunicação social sobre o relatório preliminar atribuídas a si, e para informar que o Papa Francisco tinha decidido incluir na comissão que prepara o Relatio Synodi o cardeal sul-africano Wilfrid Napier e o arcebispo australiano de Melbourne Dennis Hart. A inclusão do cardeal africano, não sendo possível confirmar tal situação, acaba por ir contra as declarações do cardeal Kasper reproduzidas ontem pela agência de notícias ZENIT, onde afirmava que os bispos africanos de países de maioria muçulmana não poderiam ser ouvidos sobre algumas das matérias, tendo em conta a realidade que vivam nos seus países.

Texto: Ricardo Perna
Foto: News.va

9 de outubro de 2014

«A nossa espiritualidade tem de ser sexuada»

Monsenhor Vítor Feytor Pinto, ordenado presbítero há 59 anos, esteve quase três décadas como coordenador nacional da Pastoral da Saúde, fala com abertura sobre a necessidade de integrar a sexualidade num projeto de vida. E sublinha não só a importância da família e da escola para orientar os jovens, mas também da Igreja na educação para a sexualidade: «A Igreja tem um papel fulcral, mas não é com “isto é pecado e aquilo não é pecado” – não é assim. É: “Como é que tu cultivas a tua dignidade humana?”– este é que é o ponto-chave.» Palavras que ficam a fazer eco.

Tem acompanhado muitos jovens casais em preparação para o casamento e famílias. Que dúvidas é que eles têm partilhado consigo sobre a sexualidade humana?
O problema da aprendizagem afetivo-sexual é fulcral nos jovens. Um jovem não pode limitar-se a fazer experiências. Tem de ter uma riqueza enorme de descobrir um valor fundamental para a sua vida que é precisamente o mistério da sexualidade humana. Para a maior parte das pessoas, a sexualidade consiste em quê? Na atividade sexual – e não é nada disso. O Papa João Paulo II, num documento notável que se chama Familiaris Consortio no n.º 37, define a sexualidade desta maneira: é o dinamismo integral da pessoa humana que a leva a realizar-se plenamente num projeto de vida. A maneira de viver a sexualidade no campo da genitalidade ou da afetividade é sempre dependente do projeto que tenho. Se tenho um projeto sacerdotal, eu vivo a minha sexualidade de determinada maneira; se sou casado, vivo a sexualidade doutra maneira; se estou a preparar-me para o casamento, vivo ainda a sexualidade doutra maneira. Os jovens perguntavam-me muito o que podiam e não podiam fazer numa perspetiva de poder ou não poder fazer, de pecado ou de graça. Tínhamos de ter uma visão completamente diferente disso…

Pegando nas dúvidas dos jovens, pergunto-lhe: o que os jovens podem e não podem fazer?
Têm de descobrir o respeito pela própria dignidade e a dignidade do outro que os levará a utilizar todo o seu corpo na construção de um projeto. Eu tenho a minha mão que posso usar bem ou mal. Posso fazer uma festa a uma criança, mas posso dar uma bofetada ou um murro – é o uso bom ou mau das minhas mãos. Então, em vez de perguntar «O que posso fazer e o que não posso?», questionar antes: «Como é que eu com dignidade vou utilizar o meu corpo mesmo ao nível da genitalidade? De que maneira é que com dignidade vou utilizar o corpo do outro? Como é que vou criar a relação? Como é que estabeleço os mecanismos da comunicação? Que respeito faço pela progressividade do encontro que me pode levar a um compromisso recíproco?»


O que a Igreja está a fazer no sentido de trabalhar a sexualidade? Ainda tem muitos passos a dar?
Ainda tem muitíssimos passos a dar. A primeira coisa é perder o medo de falar sobre este problema, porque é o valor mais belo que o Senhor nos deu, a par da inteligência. É com a nossa inteligência e a nossa liberdade que vamos orientar todos os nossos comportamentos também na utilização do corpo. Portanto, temos de aprofundar o tema. Temos tido medo de falar destes problemas. Temos de redescobrir o conceito de sexualidade. A partir do conceito, perceber que há valores que tenho sempre de respeitar e de promover em mim e no outro – e nunca posso profanar a nossa relação, porque a nossa relação é sempre divina. A nossa relação entre humanos é sempre um grito de amor que Deus colocou nos nossos corações. Eu tenho de saber viver com este elemento e tenho de saber trabalhá-lo. Tenho de ajudar os mais novos e os mais velhos a sentirem a importância do seu corpo e a sua capacidade de amar para utilizarem estes valores maravilhosos em projetos de fecundidade: fecundidade física, psicológica, social, cultural… A sexualidade não se limita ao mistério do nosso corpo – a sexualidade envolve toda a nossa vida. É todo o nosso dinamismo de comunicação e relação.

Muitas vezes pensamos que questionar um padre sobre esta matéria não tem sentido, uma vez que não está vocacionado para falar sobre o tema. E isto provoca alguma inquietação. Tem sentido isso por parte de alguns casais: mas por que carga de água é que vou perguntar ao senhor padre sobre esta situação?
Muitos padres não têm preparação para isso. Ponto final parágrafo. É por isso que nestas áreas como noutras tem de haver sacerdotes que se especializam para poderem orientar bem aqueles que os procuram. Mas atenção: nenhum padre tem direito de dizer faz isto ou faz aquilo ou não faças isto nem aquilo. A orientação de padre – próxima da intervenção psicológica enriquecida com a matriz da relação com Deus – é dizer: «Tens este campo, tens esta abertura, procura descobrir o caminho que é o teu ou o sentido dos valores que são essenciais à tua relação com o outro.» Tantas e tantas vezes, nós, sacerdotes, dizemos não podes fazer isto, não podes fazer aquilo e até há cientificamente razões para o fazer. O científico está muitas vezes colado ao mistério da caridade. E a prioridade absoluta nos cristãos é o amor. Há todo aqui um trabalho que nos obriga a iluminar os casais, as pessoas que têm problemas, para que saibam por si resolver os seus problemas. Esta história de eu substituir o outro na solução do problema é um erro terrível. Nós temos de dizer: «O caminho está aberto, tem esta alternativa e esta. Repare nos valores daqui, repare nos contravalores dali.» A própria pessoa é que decide.

É importante referir a maternidade e paternidade responsáveis. Com os métodos naturais defendidos pela Igreja isso é, por si só, válido?
Nós temos 18 ou 20 métodos, não posso dizer só são validos os naturais, até porque eu discordo muito deste título “naturais”.

Qual é o título que defende?
Gosto muito de dizer os métodos de auto-observação. Os métodos de auto-observação permitem ao homem e à mulher conhecerem toda a sua riqueza fisiológica, e a partir dela orientar o quadro da sua fecundidade. Portanto, os métodos de auto-observação para mim são muito melhores do que métodos naturais.
Nós temos 18 ou 20 métodos; temos o dever de, no caso de uma orientação de casais, lhes dar a conhecer tudo. Dizer de cada um deles os valores e contravalores. Quando chegamos também aos de auto-observação dizer os valores e contravalores e pedir ao casal que aprofunde e depois fazer escolhas válidas e não escolhas que possam, de alguma maneira, tocar a sua dignidade.

Poderá haver alguma abertura da Igreja para a utilização da pílula e do preservativo entre os casais?
Eu não gosto nada de aprofundar o problema assim. Lembro-me sempre de uma história muito bonita de um professor de Ética notável que, quando se celebrou os 40 anos da Humanae Vitae, a certa altura disse assim: quando um documento oficial não é respeitado na vida da grande maioria das pessoas para quem ele é dirigido, provavelmente o que está errado não é o comportamento das pessoas, é a própria letra do documento. É muito interessante isto ter sido dito assim. De facto, eu tenho a sensação de que a rigidez de dizer “só os métodos naturais” – com esta afirmação tão dura – pode dar origem a que os casais não se preocupem mais com o fazer o estudo de todos os processos para ver qual é aquele que se adapta melhor ao seu estado de vida, à realidade que está a viver, e aos valores cristãos que marcam a sua vida. Aí, eu tenho de citar o Papa João Paulo II, no artigo 3.º, dos Direitos da Família diz assim: Pertence ao casal que tem direito ao amor definir o número de filhos e o intervalo entre cada um deles, tendo em consideração as condições da sociedade, as condições da família, a saúde, o equilíbrio psicológico do casal e a opinião dos filhos já nascidos e, a partir disso, então faz a opção no quadro dos valores éticos fundamentais, excluindo, no entanto, o aborto, a contraceção e a esterilização. Isto é muito claro, a única coisa que é discutível nesta expressão é o que é a contraceção. E esta é a grande discussão entre os técnicos de saúde.

E o que é a contraceção, do seu ponto de vista?
Do meu ponto de vista, contraceção é mesmo contrariar por antecipação a fecundidade. Mas atenção: pode haver muitos momentos em que isto seja obrigatório para garantir a saúde da mulher. Portanto, não é apenas a palavra contraceção que podemos utilizar. Temos de verificá-la e ver se cada método que está a ser recomendado clinicamente pela medicina é contracetivo ou é, ao contrário, terapêutico. É um problema muito interessante…

Daqui já se deduzem alguns caminhos abertos…
Penso que sim. Penso que nisto a Igreja está suficientemente aberta. Julgo que este sínodo dos bispos vai ser muito importante até nestes aspetos. É engraçado que eu acompanhei à distância em 1968 a publicação da Humanae Vitae. E houve até um grande amigo meu, morreu com 94 anos, Abbé Caffarel, o processo de beatificação dele está em curso, e ele sugeriu à Santa Sé que uma equipa de casais das equipas de Nossa Senhora se pronunciasse sobre este tema. Curiosamente pronunciaram-se, mas depois a sua opinião não teve o acolhimento que era necessário ter tido. Portanto, era um tema que estava ainda muito em dificuldade em ser discutido. Estamos à distância de quase 50 anos. E, portanto, estamos no princípio desta abertura. Eu julgo que agora com os sínodos dos bispos, quer o de 2014 quer o de 2015, também neste campo vamos ter alguma abertura.

A quem compete a educação para a sexualidade?
A primeira responsável pela educação da sexualidade na criança é a família. A família não pode de, forma nenhuma, cultivar a permissividade pelo silêncio, a ver o que é que acontece. A família pode ir abrindo a porta, com conversas entre casais ou até com algum técnico que a possa ajudar. Mas depois tem de haver complementaridade. Na escola há o grande mundo da relação. Muitos jovens têm as primeiras experiências físicas na escola com um silêncio total do corpo dos professores. Por outro lado, a informação que é dada é só uma informação meramente biológica – sem mais nada –, como se dá também para a procriação dos animais ou de outra espécie qualquer. Aqui há um défice muito profundo. Há um problema, de facto, de apoiar a educação da sexualidade, que tem sempre a dupla componente: genitalidade e afetividade. A simples regulação dos mecanismos não é educação para a sexualidade. Isso é uma informação mecânica que depois os jovens usam a seu bel-prazer, conforme as reações que vão tendo. Depois, o terceiro elemento é a Igreja. Na nossa catequese no Campo Grande fazemos educação da sexualidade. A Igreja tem um papel fulcral, mas não é com «isto é pecado e aquilo não é pecado» – não é assim. É: «Como é que tu cultivas a tua dignidade humana?» – este é que é o ponto-chave.

Entrevista: Sílvia Júlio
Fotos: Ricardo Perna e Paulo Paiva