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5 de outubro de 2015

Relatório inicial reforça indissolubilidade, pede acompanhamento dos casais, mas esquece África

© Foto Lusa
Os trabalhos do Sínodo Ordinário sobre a família iniciaram-se verdadeiramente hoje, com a leitura do relatório inicial, que faz um ponto de situação sobre as opiniões e reflexões levadas a cabo no anterior sínodo, juntamente com os contributos que, durante ste ano, foram chegando ao Vaticano em resposta à Lineamenta que foi enviada para todos os fiéis e que resultou na construção da Instrumentum Laboris, documento que irá orientar os trabalhos sinodais.

A leitura do documento na aula sinodal ficou a cargo do Cardeal Péter Erdö, o relator geral do Sínodo. Dividido em três partes, o relatório traz um retrato do que foi a escuta dos fiéis sobre a família, o discernimento da vocação familiar e a missão da família hoje. Começando desde logo por afirmar que «o movimento migratório está a desintegrar as famílias ou é uma dificuldade para que venha a ser formada. Em muitas partes do mundo os jovens pais deixam os seus filhos em casa e procuram trabalho no estrangeiro», refere o relatório.

Defendendo que a família «oferece uma possibilidade de desenvolvimento humano que é insubstituível», os relatos dos fiéis falam de uma realidade onde o casamento é cada vez menor porque as pessoas se ligam cada vez menos aos compromissos. Neste sentido, é preciso anunciar «um verdadeiro caminho para a felicidade», como Paulo o fazia, já que o matrimónio é «um objetivo da existência humana». Neste sentido, «as famílias cristãs são chamadas a testemunhar o Evangelho com a sua vida de acordo com o próprio Evangelho, através de um anúncio missionário. Os cônjuges reforçam a sua fé e passam-na aos seus filhos, mas também as crianças e outros membros da família são chamados a compartilhar sua fé».

É neste sentido que o relatório reforça o valor da indissolubilidade do matrimónio, um dos aspetos que mais irá ser debatido neste sínodo, admitindo a «exigência» desta condição. «Os Evangelhos e São Paulo também confirmam que o repúdio da sua esposa, praticado em primeiro lugar entre o povo de Israel, não pode tornar possível um novo casamento para qualquer das partes. Esta afirmação é tão incomum e tão exigente manteve-se presente ao longo dos séculos na tradição disciplinar da Igreja, constituindo um elemento ainda a tal ponto que, entre os povos convertidos que se converteram ao Cristianismo, a monogamia e a indissolubilidade do casamento tornou-se uma matéria disciplinar».

Sobre este tema, o relatório fala da necessidade de criar uma «comunidade de amigos verdadeiros», que podem surgir dos grupos de casais que se juntam para acompanhar os casais recém-casados. «Pertencer a um grupo dessa natureza, pode amadurecer a fé do casal, especialmente se essas comunidades de famílias se reunirem regularmente, lerem a Sagrada Escritura, orarem juntos e fizerem crescer a sua fé à luz do ensinamento da Igreja, especialmente através do Catecismo da Igreja Católica».

Poder fazer este caminho de acompanhamento é um «desafio» para bispos e sacerdotes e podem exigir «novas formas de catequese e testemunho, em plena fidelidade à verdade revelada por Cristo», mesmo que isso possa implicar, segundo o relatório, um afastamento de algumas pessoas. «Se falamos do fundo do nosso coração, se não houvermos desistido de prestar contas a nós mesmos em primeiro lugar de nossa fé, então podemos falar aos outros com convicção e coragem. Se dizemos francamente aos outros aquilo em que acreditamos, não devemos ter medo de não sermos compreendidos, porque também somos filhos de nosso tempo. Assim, embora nem todos aceitem a proposta, o anúncio vai ser compreensível para todos», pode ler-se.

© Foto Lusa

Escutar todas as situações, mas sem colocar em causa indissolubilidade do matrimónio
Sobre o problema dos casais divorciados e recasados, o relatório pede a criação de «centros de escuta», com grupos de pessoas que possam ajudar, por um lado, a tentar a reconciliação e o perdão de pessoas divorciadas que ainda não iniciaram uma nova relação, e por outro possam acompanhar as crianças que são vítimas dessas situações. Estes centro serviriam também para orientar alguns no sentido de compreender o novo processo de nulidade matrimonial criado pelo Papa Francisco há dias.

Admitindo que a questão do acesso à comunhão e à confissão «é um assunto que requer profunda reflexão», o relatório reafirma que estas questões não são proibições, mas sim «exigência intrínsecas no contexto do testemunho da Igreja». No entanto, mesmo com essas limitações, o relatório refere que os divorciados recasados «são orientados no sentido de aumentar a sua integração na vida da comunidade cristã, tendo em conta a diversidade das situações iniciais».

O relatório, que, conforme foi referido na conferência de imprensa que se seguiu à leitura do relatório, é «um ponto de partida para a reflexão e não o final», afirma ainda que a opção ortodoxa, que permite uma segunda união, «não pode ser avaliada adequadamente usando apenas a estrutura conceptual desenvolvida no Ocidente no segundo milénio. Deve-se ter em mente a grande diferença sobre os tribunais institucionais da Igreja, bem como o respeito especial para com o direito dos Estados, que por vezes pode tornar-se crítica, se as leis estaduais são separadas da verdade do matrimónio, de acordo com o plano do Criador», numa referência clara ao facto dos estados permitirem várias uniões válidas civilmente.

© Foto Lusa
Finalmente, o relatório volta a falar sobre a abertura à vida e aos métodos de planeamento familiar, assumindo-se mais uma vez de forma paradoxalmente estranha. Se, por um lado, afirma que a vida em plenitude leva a «sugerir um ensino adequado sobre os métodos naturais para a procriação responsável», também por outro lado aconselha a que, conforma explica a encíclica Humanae Vitae, se «respeite a dignidade da pessoa na avaliação moral dos métodos de regulação da natalidade». Este respeito, por enquanto, não chega para permitir a utilização de métodos artificiais, o que, de alguma forma, leva a questionar se este respeito pela escolha existe verdadeiramente.

Uma grande surpresa foi a ausência de referências no relatório a questões mais próximas da igreja africana, como a questão da poligamia. Questionados sobre isso, os prelados presentes na conferência de imprensa afirmaram que essa foi «uma escolha vossa [dos cristãos]». O cardeal Erdö afirmou que os bispos esperam com grande expetativa «o contributo dos bispos africanos» que já no Sínodo passado deram um bom contributo, sem no entanto explicar o porquê da omissão destes assuntos do relatório inicial.

É sobre este relatório que se irão desenrolar os trabalhos na próxima semana, com intervenções dos vários prelados presentes na aula sinodal, entre os quais D. Manuel Clemente, que afirmou, em entrevista à Família Cristã, que iria pedir a «reorganização da igreja em chave familiar» na sua intervenção.

Pode acompanhar o trabalho do Sínodo no blogue que a Família Cristã criou em http://sinododafamilia.blogspot.pt

Texto: Ricardo Perna

14 de outubro de 2014

Relatório preliminar «não é o pensamento» do Sínodo


A conferência de imprensa do Sínodo da Família desta manhã foi dominada por questões relacionadas com o mal estar demonstrado pelos bispos após a leitura do Relatio post disceptationem, da autoria do cardeal Péter Erdò. Os bispos demonstraram discordância com alguns dos pontos do Relatio, mas o pior mesmo foram as notícias que surgiram na comunicação social. Aliás, o primeiro ponto de ordem foi feito pelo Pe. Lombardi, em nome da Secretaria geral do Sínodo. «A secretaria-geral do Sínodo informa que os grupos linguísticos, em círculos menores, estão reunidos para aprofundar o documento de trabalho que, recordam, é um “work in progress” e apenas isso», disse o Pe. Lombardi a abrir os trabalhos, mostrando-se «surpreso» com a quantidade de jornalistas ali presentes.

O cardeal Wilfrid Napier mostrou de forma mais clara o seu descontentamento. «Este documento é do Cardeal Erdò, não é um documento do Sínodo. Nós estamos a trabalhar no documento, e só depois do nosso trabalho é que será o nosso documento, o do Sínodo», disse aos jornalistas, acrescentando que as notícias veículas pelos meios de comunicação social em todo o mundo colocaram «pressão» sobre os padres sinodais. «A mensagem saiu, e agora os padres sinodais estão numa posição difícil. Diz-se que este é o pensamento do Sínodo, mas isso não é verdade, pois o Sínodo não tomou essas posições. Tudo o que fizermos agora será encarado como “controle de danos”, mas essa não é a verdade», lamentou o cardeal sul-africano.

Apesar disso, o cardeal sul-africano mostrou-se satisfeito que «as pessoas quisessem saber o que estava em causa aqui no Sínodo». «O risco é apenas que se criem demasiadas expetativas, quando isto é apenas um documento de trabalho. As frases que são colocadas no relatio podem induzir a que o sínodo já está a decidir coisas, mas isso não é real», criticou o cardeal Napier, numa referência velada ao autor do relatório, o cardeal Erdò.

Questionado sobre se o relatório preliminar tinha visões pessoais e não do sínodo, o cardeal Napier afastou qualquer possibilidade desse aspeto. «Não tenho razões para crer que haja pessoas no sínodo que estejam mais interessadas na sua visão que na visão do sínodo, e sei que o documento final vai refletir a visão da Igreja», disse o cardeal.

Sobre o assunto, o Pe. Lombardi enfatizou que não tinha havido críticas ao documento, que recolhia as opiniões de uma semana de trabalho sinodal. «Alguns bispos, nas suas intervenções, afirmaram a necessidade de ajustar este ou aquele ponto, mas no geral todos elogiaram o documento produzido», referiu o porta-voz.

O cardeal Fernando Filoni, italiano, referiu aos jornalistas que no seu grupo de houve «perplexidade» com a repercussão que o relatório preliminar teve na comunicação social. «Parecia que eram já as decisões da Igreja ou o Papa a falar, quando é apenas um documento de trabalho», reforçou o cardeal italiano.

O prelado aludiu ainda à necessidade das pessoas perceberem que o Sínodo não vai «resolver problemas». «As expetativas são más se pensarem que aqui se vão resolver problemas. Não pode ser “amanhã damos a solução para todos os problemas”, o que se deve dizer é que a Igreja tem todos estes problemas no centro das suas atenções», afirmou aos jornalistas.

Para além de questões relacionadas com o mal estar do relatório dentro da aula sinodal, que dominaram a conferência de imprensa, o cardeal Napier teve ainda oportunidade para explicar como o círculo menor de que é moderador abordou a realidade da família nos dias de hoje. «Falámos sobre a família como tendo as flutuações de um dia: de manhã, quando tudo é fantástico, de tarde, quando as dores começam a sentir-se, e de noite, quando os problemas surgem e temos de lidar com os problemas. Parece que os problemas não vão terminar, mas é preciso levar uma mensagem de esperança de que uma nova manhã irá surgir», lembrou o cardeal sul-africano.

Referindo-se à missão de cada família, este prelado defendeu que, hoje, também a família tem de ser missionária. «No passado a Missão era reservada a religiosos, mas a novidade é que a família compreendeu que pode ser não apenas objeto da evangelização, mas também agentes da evangelização, e hoje temos famílias que saem, depois de um período de formação, para a missão. E isto é muito rico, porque para além do anúncio da doutrina, há a riqueza do testemunho», disse o cardeal Napier.


Texto: Ricardo Perna
Foto: News.va

13 de outubro de 2014

Sínodo quer acolher recasados, homossexuais e pôr famílias a dar fomação ao clero


O Relatio Post Disceptationem, que congrega as propostas e pontos de vista que os participantes no sínodo discutiram durante as congregações gerais da semana passada, foi hoje publicado. Pede para que a Igreja mude para uma linguagem mais «inclusiva», reconhece a possibilidade de aceitar casais em união de facto ou relações entre pessoas do mesmo sexo (sem as considerar matrimónio), e não inclui qualquer intenção de discutir a aceitação dos métodos contracetivos.

O cardeal Peter Erdò, auxiliado por mais seis cardeais nomeados sábado pelo Papa Francisco, terminou o relatório sobre as propostas e ideias lançadas pelos participantes no Sínodo sobre a Família, relatório este que vai agora servir de base para os círculos menores que se irão reunir esta semana para debater todos os aspetos deste relatório de uma forma setorial e mais aprofundada, em vista à elaboração de uma proposta final, o Relatio Synodi, que será entregue ao Papa Francisco e anunciado como base de trabalho para preparar a assembleia ordinária do sínodo no próximo ano.

O relatório aparece dividido em três áreas: a «escuta», em que se resumem as ideias trazidas sobre a realidade da família nos dias de hoje; o «olhar», em que se reflete na realidade tendo como ponto de partida Cristo e a Revelação; e a «discussão», que procura perceber como, «sob a luz de Jesus Cristo, a Igreja e a sociedade podem renovar o seu compromisso para com a família».

Os pontos de novidade prendem-se com a última parte do relatório, por sinal a mais extensa. Dos 58 pontos apresentados, 35 são na parte das propostas a apresentar. Antes disso, relevo apenas para o entendimento que a aula sinodal tem de que, apesar de não questionar a indissolubilidade, o matrimónio pode ser entendido à luz da lei da gradualidade. «Através da lei da gradualidade, típica da pedagogia divina, é possível interpretar a ligação nupcial em termos de continuidade e novidade, em vista à Criação e à redenção. Pois até Jesus afirmou a indissolubilidade da união entre homem e mulher, mas reconheceu a validade da decisão de Moisés que permitiu que alguns se separassem das suas mulheres pois os seus corações tinham sido endurecidos (Mt 19,8)». Não colocando em causa o princípio base, a Igreja coloca a hipótese de receber casais em situações irregulares, restando saber até que ponto irá esse acolhimento.

No ponto 22, o cardeal Edrò refere que é preciso «aceitar as realidades do casamento civil e das uniões de facto, respeitando as diferenças». «Quando uma união atinge um nível de estabilidade através de um vínculo público, é caracterizada por uma afeição profunda, responsabilização mútua na educação dos filhos, e capacidade para superar dificuldades, isso pode ser visto como uma semente a ser alimentada e orientada num caminho em vista ao matrimónio», refere o prelado, resumindo esta foi uma das ideias mais difundidas pelos oradores do Sínodo. Perante a lei da gradualidade, que tem sido tão falada no Sínodo, «não é prudente pensar em soluções únicas ou inspiradas numa lógica de “tudo ou nada”».

Divorciados e recasados e o «caminho penitencial» de volta aos sacramentos
Refletindo sobre a temática dos divorciados a recasados, o cardeal Erdò escreve no relatio post disceptationem que «é preciso respeitar o sofrimento de todos os que passaram por um divórcio ou separação injustos». Existe, desde logo, abertura a mudanças nos processos de nulidade, conforme já tinha sido avançado ao longo dos dias, não colocando em causa a doutrina, mas flexibilizando todo o processo. «Entre as propostas estava o abandono da segunda confirmação do tribunal; a possibilidade de estabelecer um processo administrativo mais rápido sob responsabilidade do bispo diocesano; um processo sumário que poderia ser usado em casos de nulidade; dar peso ao aspeto da fé naqueles que serão admitidos ao casamento no que diz respeito à validade do sacramento do matrimónio». Nunca encarando estas questões como facilitadoras de separações, mas antes como «uma procura da verdade» acerca da validade do sacramento, a Igreja pondera assim diminuir o número de divorciados recasados, aumentando o número de declarações de nulidade.

Além disto, o relatio pede que haja uma nova «linguagem» na abordagem às pessoas divorciadas recasadas. «É de evitar qualquer linguagem que os faça sentir discriminados», diz o documento. Quanto à questão do acesso aos sacramentos, o relatio confirma que a aula sinodal esteve e está dividida quanto a esta matéria. «Alguns argumentaram a favor das regulações presentes por causa da sua fundação teológica, outros estavam a favor de uma maior abertura em circunstância muito específicas quando se lidem com situações que não se podem resolver sem criar novas injustiças e mais sofrimento», diz o cardeal. Nessa linha, adianta o relatório, «o acesso aos sacramentos, para alguns casos, pode ser dado após a realização de um caminho penitencial – sob a responsabilidade do bispo diocesano». «Esta não seria uma solução para todos, mas fruto do discernimento aplicado caso a caso, de acordo com a lei da gradualidade, que diferencia o estado do pecado, o estado de graça e as circunstâncias atenuantes», pode ler-se no documento.

Até porque, questionaram os pares sinodais nas suas intervenções, «se a comunhão espiritual é possível, porque não deixá-los tomar parte no sacramento?» Neste sentido, o relatio aponta a necessidade de «um estudo mais aprofundado» sobre o assunto.

Métodos contracetivos fora de equação
Apesar das intervenções de casais que deram testemunho sobre a possibilidade de uma abertura à vida com a utilização de métodos contracetivos, o relatio não incluiu nenhuma referência a essa possibilidade, ficando por saber se o irão fazer agora nos círculos menores.

O aumento do conhecimento sobre os métodos naturais (e o desenvolvimento dos mesmos, que permitem ter uma taxa de eficácia semelhante ou superior à dos métodos contracetivos) facilita que essa proposta faça cada vez mais sentido, pelo que os bispos limitaram-se a reforçar que «a abertura à vida é um requisito intrínseco de um casamento de amor», e a recomendar um «ensinamento adequado dos métodos naturais», reforçando a ideia, passada por alguns dos oradores, de que a visão do planeamento familiar natural carecia de muita informação aos fiéis, mais do que mudanças. O relatio sugere o retorno à mensagem de Paulo VI na Humanae Vitae que «sublinhava a necessidade de respeitar a dignidade da pessoa na avaliação moral dos métodos de controlo da natalidade».

Famílias poderão dar formação ao clero
As propostas passam por um anúncio mais eficaz do «evangelho da Família», não só pelos sacerdotes, mas pelas próprias famílias. «Evangelizar é uma responsabilidade de todo o povo de Deus. Sem o testemunho alegre de esposos e famílias, esse anúncio, mesmo que correto, arrisca-se a ser mal entendido ou ultrapassado pelo oceano de palavras que é característico da nossa sociedade». Os pares sinodais exortaram as famílias a serem «agentes ativos» de pastoral da família.

Isto pressupõe, segundo relator-geral do Sínodo, uma «conversão missionária». «Não podemos parar num anúncio meramente teórico e que não se relaciona com os problemas das pessoas», diz o prelado no seu relatório. Esta exigência deve estar também na preparação para o matrimónio, mas sem «criar dificuldades e sem complicar os ciclos de formação». Apesar de sugerir «um enraizamento da preparação para o matrimónio nos sacramentos de iniciação cristã» e de pedir «programas específicos de preparação para o matrimónio que sejam verdadeiras experiências de participação na vida eclesial e que estudem de perto os aspetos mais relevantes da vida familiar», fica por saber como é possível conceber isto sem mexer nos ciclos de formação, que o cardeal Erdò e a sua equipa sugeriram não ser «complicados».

Onde há novidade é no ponto 32, que insiste na necessidade da formação do clero e dos agentes pastorais, e quer implicar as próprias famílias nesse processo de formação, algo até hoje poucas vezes sugerido, principalmente no que diz respeito aos membros do clero. Para além disso, o documento reforça a necessidade de um acompanhamento dos casais pós-matrimónio, através da ajuda de casais mais experientes, «liturgias adequadas, práticas devocionais e eucaristias celebradas para as famílias», aspetos que foram elencados pelos padres sinodais como passíveis de «favorecer a evangelização dentro da família».

Homossexuais acolhidos nas comunidades
O relatio questiona a capacidade de cada comunidade receber e valorizar «as dádivas e qualidades» que os homossexuais «têm para oferecer às comunidades cristãs». «São as nossas comunidades capazes de aceitar e valorizar a sua orientação sem colocarem em causa a doutrina católica sobre a família e o matrimónio?», questiona o documento.

O relatório reafirma que «uniões entre pessoas do mesmo sexo não podem ser consideradas ao mesmo nível que o matrimónio entre um homem e uma mulher», e deixam críticas a quem pretende impor o contrário. «Não é aceitável que se pressione a Igreja ou os seus pastores ou que se faça depender financiamentos internacionais com base na introdução de regulações baseadas na ideologia de género», avisa o cardeal Erdò no seu relatório.

Com base neste relatório, os bispos irão agora trabalhar em círculos menores, aprofundando todos estes temas, a fim de que, no final da semana, seja elaborado e apresentado ao Papa o Relatio Synodi, o documento que servirá para concluir os trabalhos deste Sínodo e preparar o caminho para o Sínodo do próximo ano, que foi convocado hoje oficialmente pelo Papa Francisco para o Vaticano, de 4 a 25 de outubro de 2015.

Texto: Ricardo Perna
Foto: News.va

7 de outubro de 2014

Igreja quer distinguir culpados e inocentes nas situações de separação



«O desafio deste Sínodo é o de tentar trazer de volta ao mundo de hoje, que em muitos aspetos se parece com os primeiros dias do Cristianismo, a beleza da mensagem cristã sobre o casamento e a família, sublinhando a alegria que dão, mas, ao mesmo tempo, responder, de uma forma verdadeira e caridosa, aos muitos problemas que têm impacto na família hoje em dia e incentivando que a verdadeira liberdade moral não é fazer o que cada um quer ou viver orientado pelos sentimentos individualistas, mas só é alcançada quando se chega à verdade». Foi assim que o cardeal Péter Erdò resumiu, nas conclusões do relatório preliminar que entregou hoje aos participantes do Sínodo para a Família, o desafio que é colocado à Igreja nos dias de hoje nesta temática da família.

O Relatio ante disceptationem, que congrega as respostas enviadas por todo o mundo aos Lineamenta, e todos os discursos que os participantes no sínodo já fizeram chegar à secretaria do sínodo, faz o ponto de situação da família e a da pastoral familiar da Igreja em todo o mundo. Não de uma forma quantitativa, mas de forma qualitativa podemos perceber quais os principais aspetos que serão discutidos neste Sínodo. Não é um texto de novidades, até porque retrata a realidade, mas é possível perceber, desde logo, qual a linha de pensamento da Igreja em muitos dos assuntos que irão ser abordados nos trabalhos sinodais.

O Cardeal Erdò define a família como «escola de humanidade», porque «desenvolve» a pessoa, «escola de relações sociais», porque ajuda a pessoa a desenvolver as suas competências sociais, e como «escola de santidade», na qual ajuda pais e filhos no seu caminho até à sua própria «santidade». Neste sentido, e apesar das «dificuldades que hoje encontra», a família «não é um modelo ultrapassado, já que temos indicação de que muitos jovens têm um desejo renovado de formar família».

O relatório admite que os católicos não têm conhecimento dos «aspetos específicos da doutrina e do Magistério da Igreja sobre o casamento e a família», e que muitas vezes «os ensinamentos [da Igreja] sobre o casamento e a família não são postos em prática». No entanto, e de forma algo surpreendente considerando a ideia anterior, o Cardeal Erdò defende que a «grande maioria dos crentes e teólogos» não coloca em causa estes princípios, e que os mesmos, «tendo em conta a forma como foram apresentados no Concílio Vaticano II e sumarizados no Instrumentum Laboris, gozam de um amplo consenso entre os católicos praticantes.

Nas questões da indissolubilidade do matrimónio, as declarações do cardeal são ainda mais surpreendentes, considerando a realidade pastoral europeia. Péter Erdò escreve no relatório que a proposta da Igreja «não é questionada e é observável na prática pastoral da Igreja com pessoas cujo casamento falhou e que procuram um novo começo». O prelado diz que isto é visível pelo testemunho de muitos casamentos felizes, e que, apesar do crescimento de situações sérias e irregulares, este testemunho positivo não pode ser ignorado.

Por isso, diz o cardeal, «o que está em discussão neste Sínodo de natureza pastoral não são questões doutrinais, mas de carácter prático – que são, mesmo assim, inseparáveis dos fundamentos da Verdade.

Sobre a questão da homossexualidade, «dois aspetos emergem da Instrumentum Laboris», segundo o Cardeal Péter Erdò. «Há um consenso alargado que não pode haver discriminação contra pessoas com uma orientação homossexual», e há «uma noção clara entre todos os batizados – e em todas as conferências episcopais – que não é possível equiparar as relações homossexuais ao casamento entre o homem e a mulher ou sequer considerar válida a ideologia das teorias de género».

Para o relator deste Sínodo, «seria desejável que o Sínodo, partindo das bases da fé, pudesse olhar para além dos católicos que pratica a sua fé e, considerando a complexa situação da sociedade, tratasse as dificuldades culturais e sociais que hoje pesam na vida familiar». «A família está a tornar-se rapidamente na última realidade humana num mundo determinado exclusivamente pelas finanças e pela tecnologia. Uma nova cultura da famíia pode ser o ponto de partida para uma civilização humana renovada», considera o cardeal.


Algumas (novas) ideias para os recasados
O problema da quebra no matrimónio é sentido por muitas dos que responderam ao inquérito, e deverá ser um assunto presente nas intervenções dos padres sinodais. O cardeal Erdò diz que esse é um problema que deriva da «influência da cultura existente», em que muitos «se reservam ao direito de não observarem a fidelidade conjugal, a divorciarem-se e recasarem, ou a não serem abertos à vida». Em função disso, e «apesar das palavras explícitas da liturgia que os noivos proferem, muitos celebram o sacramento do matrimónio sem uma noção clara de assumirem, perante o Senhor, um compromisso incondicionais e para toda a vida de doação ao outro».

Sobre as situações irregulares em que muitos católicos vivem, o cardeal Péter Erdò diz que é preciso «pensar na melhor forma de acompanhar as pessoas que se veem nessas situações, para que não se sintam excluídas da vida da Igreja». «As pessoas divorciadas e recasadas pertencem à Igreja. Precisam e têm o direito de receber cuidados da parte dos seus pastores. São convidados a ouvir a palavra de Deus, a participar na liturgia e na oração, e a se envolverem em trabalhos caritativos». Mais do que isto seria colocar em causa a indissolubilidade do matrimónio, e tal não se afigura possível, como já foi referido acima peloa cardeal.

No entanto, há aqui uma novidade, ou pelo menos o tornar público de uma reflexão que já vem sendo feita por alguns teólogos. «No que diz respeito aos divorciados que estão civilmente casados, muitos afirmam que é preciso fazer uma distinção entre aquele que é culpado pela separação e a parte que é inocente. O cuidado pastoral da Igreja deve estender-se a cada um de uma forma particular», diz o cardeal Erdò. Este é um assunto sobre o qual já muitos prelados, entre os quais o presidente do Conselho Pontifício para a Família, D. Vincenzo Paglia, e o cardeal Saraiva Martins, prefeito emérito para a Congregação para a Causa dos Santos, se tinham pronunciado. Coloca-se aqui a hipótese de admitir a morte do vínculo, que permitiria a essa «parte inocente» iniciar um novo vínculo válido aos olhos da Igreja, pelo que este será um assunto a seguir com atenção.

Muito ênfase foi também dado pelo Cardeal Erdò à questão da nulidade, prova de que foram muitos os que se terão pronunciado sobre esse assunto. «A verificação da existência de causas para a nulidade do vínculo matrimonial deve ser feita em diálogo pastoral, evitando qualquer forma de processo burocrático ou com interesse económico. Se tudo for feito na busca séria da verdade, o processo de nulidade pode ser, verdadeiramente, uma experiência de libertação», diz o cardeal no seu relatório.
A isto dirá também respeito as sugestões já lançadas de flexibilização dos processos de nulidade. «A obrigação de duas sentenças que confirmem a nulidade» pode ser algo a rever, diz, «desde que o processo não signifique que isto passe a ser o divórcio da Igreja».

Aliás, o Cardeal Erdò defende que «a prevalência, na sociedade, de uma mentalidade propícia ao divórcio, incentivada pela facilidade com que ele é concedido pelos tribunais civis, leva a que as pessoas celebrem o casamento canónico já a pensar que poderão deixá-lo se ocorrer alguma dificuldade. Esta mentalidade, mesmo que não conheçam os trâmites canónicos, pode provocar que um matrimónio seja inválido», defende o prelado.

Ainda sobre os divorciados, muitos participantes no questionário referiram a realidade ortodoxa, que permite uma segunda ou terceira união. «Examinar este assunto é necessário para evitar interpretações duvidosas e conclusões que não estejam suficientemente bem fundadas», avisou.

As discussões sobre este relatório tiveram início ontem e deverão durar toda a semana, até que seja elaborado, no próximo sábado, o relatório post disceptationem. Pode acompanhar tudo pelo site da Família Cristã em www.sinododafamilia.familiacrista.com

Texto: Ricardo Perna
Foto: News.va