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26 de outubro de 2015

«A indissolubilidade do vínculo não é um jugo, é um dom»


D. Antonino Dias, bispo de Portalegre e Castelo Branco e presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família, foi um dos dois delegados da Conferência Episcopal Portuguesa enviados ao Sínodo. Numa conversa com a Família Cristã e a Agência Ecclesia, faz o balanço deste encontro de gentes e realidades de todo o mundo, e aponta já caminhos para as comunidades diocesanas portuguesas começarem a trabalhar com os resultados desta reflexão feita em Roma.

Foram três semanas de muito trabalho e reflexão, na procura de convergências. Regressa a Portugal com a ideia de uma Igreja que tem de estar ao lado de todas as famílias e acompanhá-las sempre? 
Foi de facto um encontro muito importante e rico no conteúdo e na diversidade de pessoas, culturas e línguas, de experiências em relação à família. O Sínodo não terminou, agora é que começa, quando se vai pôr em prática aquilo que foi aqui falado. O Sínodo todos os debates que se fizeram não foram para ganhar ou perder, mas sempre em busca da verdade e daquilo que será mais conveniente para continuarmos a estar ao lado da família, a promover a família e a abrir perspetivas, caminhos de pastoral. É preciso abrirmos caminhos novos para pôr em prática o que sentimos que ainda é preciso levar à prática. Não é tanto na doutrina, mas mais em como levar a doutrina à prática. Falou-se na preparação mais insistente e permanente para o matrimónio. É uma área onde precisamos de investir muito, porque muita gente aproxima-se do sacramento sem fazer ideia do que isso é. Não podemos supor, temos de formar e as pessoas que tomam essa opção tem de ter ideia da opção que estão a tomar.

O sínodo disse que se deve contar muito com a ajuda de casais e leigos especializados que possam ajudar as comunidades paroquiais a fazer uma espécie de ministério específico de acompanhamento da vida conjugal... 
A preparação para o matrimónio começa em casa, desde pequeninos, pela experiência que os filhos têm da vivência dos pais. Mas depois há todo um acompanhamento que as paróquias e os movimentos fazem, e as famílias sempre foram um apoio muito grande para a formação destas pessoas. Temos de olhar para a família como destinatária da evangelização, que o é, mas sobretudo como protagonista da evangelização. A família tem de assumir a sua quota parte de colaboração neste anúncio do Evangelho da Família, a começar por casa, mas depois abrindo-se à comunidade e prestando um contributo muito importante, experiencial, à própria comunidade. E isso pode ajudar muito os casais novos a valorizar o que é importante no sacramento do matrimónio e na própria família.

Nesta atenção pastoral, o documento final vincou uma atenção especial às famílias feridas por vários aspetos. Há três pontos que foram muito mediatizados, que dizem respeito ao discernimento para com os casais divorciados que voltaram a casar civilmente. É preciso esperar uma clarificação do Papa sobre como é que se pode aplicar este caminho de discernimento no terreno? 
Há muita gente que vai mais à frente, e outra que fica mais para trás. É bom que se coloque tudo sobre a mesa, mas a palavra final pertence ao Santo Padre. Este documento conclusivo dos bispos foi um poaio ao Santo Padre. Ele deu autorização que se publique, mas os padres sinodais pediram que ele publicasse um texto clarificador. Temos de aguardar um pouco, porque está nas mãos dele, e ele fará o discernimento necessário com o seu carisma petrino, e dar-nos-á uma importante mensagem, quando achar oportuno. Isto vai de encontro ao que dizia no início de encontrar novos caminhos pastorais.


É isso que se vai transmitir aos párocos e aos leigos em Portugal? 
Precisamos de despertar os leigos para a necessidade de eles serem evangelizadores. O laicado é um grande gigante adormecido e nós temos de o acordar. Esta nova evangelização de que tanto se fala, ou se faz com os leigos ou não se fará. De facto, os sacerdotes não conseguem fazer tudo e há muitas coisas que não sabem e têm de pedir a colaboração a quem esteja em melhor posição para fazer melhor. É importante que os leigos despertem para isto. É evidente que as famílias feridas que falou, a Igreja sempre teve uma grande sensibilidade para com elas, e procurou, na medida do possível, por vezes não tanto quanto seria necessário, mas sentimos sempre isso, acompanhá-las. Essas situações não são buscadas, são aceites com sofrimento. Não acontecem por capricho, e por isso essas pessoas sofrem. Depois há esse estigma de pensarem que estão fora da Igreja. Não estão, e foi isso que quisemos dizer aqui, inclusive na aula sinodal, que são pessoas que são pertença da igreja na mesma, e têm de ter consciência dessa pertença nessa situação em que se encontram, que será aí o seu caminho de santificação, não com atropelos, mas com o que a Igreja lhes diz: que podem crescer, acompanhar, inserir-se. Penso que a Igreja sempre esteve aberta a isso. Apesar de aqui ou ali ou acolá de vez em quando encontrarem uma porta fechada, mas esse não é o pensar da Igreja.

Este sínodo fica também marcado pelo anúncio oficial da criação da nova congregação para a Família e Leigos. Como é que vê essa nova congregação, e o que é que ela pode trazer de novo à Cúria e ao povo de Deus? 
Acredito que esta situação já fosse apontada há algum tempo, até porque o D. José Policarpo já tinha sentido essa necessidade e juntou as duas matérias numa só em Portugal. Penso que isto é muito bom, porque o apostolado laical e da família não existem um sem o outro, estão interligados.

Que novidades pode trazer ao trabalho da Igreja com a Família? 
Uma ação mais coordenada, com certeza, e mais inserida uma na outra, porque eram dois compartimentos, e pode ser que o trabalho seja mais harmonioso, mais profícuo, pelo menos estou esperançado que sim.

Que tipo de leitura podem e deve as famílias católicas portuguesas começar a fazer a partir deste relatório? 
O relatório é público, e os resultados dependem muito das dioceses e de quem elas têm à frente desta pastoral familiar. Embora aqui se dissesse que toda a pastoral diocesana devia estar imbuída do espírito familiar, tudo depende das estruturas diocesanas. E as estruturas são o que são e o que podem ser, mas é aí que temos de investir. Há muita coisa por onde pegar e desenvolver, porque a maior parte do relatório é pacífico, excetuando dois ou três pontos que têm de ter a resposta do Santo Padre. 

E como é que o presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família gostava que este tema fosse trabalhado pelas instâncias diocesanas em Portugal? 
Penso a prioridade deve ser reestruturar a preparação para o matrimónio. Intensificá-la, melhorá-la e que essa preparação comece também na juventude, não só nos CPM. Isso é bom e útil, mas é pouco, e esse é o grande desafio. As pessoas não podem aproximar-se para celebrar um sacramento se saberem o que implica esse sacramento, e sem essa consciência. E não só o sacramento, mas saberem que têm de fazer da família uma comunidade de vida e de amor. O importante é que as pessoas sejam felizes, e que entendam que a indissolubilidade do vínculo não é um jugo, é um dom, e que saibam valorizar esse dom e o saibam fazer crescer.

Mas nem sempre a preparação remota é possível, e as pessoas chegam à preparação imediata sem saberem o que vão fazer. É preciso dizer às pessoas "Não"? 
Isso era bom, mas vivemos num ambiente que quando se diz a uma pessoa que não está preparada para isto ou para aquilo, elas reagem mal. Portanto, tem de haver aí uma pedagogia muito importante. Cada um fará aquilo que puder dentro das suas dioceses. É importante que aqueles que se preparam para o matrimónio se insiram nas suas comunidades com alegria, com responsabilidade, não para os prejudicar, mas para os ajudar.

O Sínodo falou muito na necessidade da comunidade se envolver na preparação para o matrimónio. Como é que podemos fazer isso? As comunidades têm de acolher publicamente as pessoas, como antigamente? 
A minha diocese não é bem exemplo para isso, porque quando chega uma pessoa nova toda a gente vai querer saber quem são. Mas sim, acho que devemos retomar isso. Quando um casal jovem chega a uma comunidade e se integra na comunidade, socializa logo e é acarinhado e inserido, geram simpatia. Quando um casal vem para uma comunidade, mas vive afastado dela, tem mais dificuldade em se inserir, e nós precisamos dos outros para fazermos a nossa caminhada de fé, ninguém a consegue fazer sozinho, como se costuma dizer. Fazer da comunidade paroquial uma família mais alargada, uma família de famílias, é muito importante.




Texto: Ricardo Perna e Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna

24 de outubro de 2015

«Deixámos tudo nas mãos, na cabeça e sobretudo no grande coração do Papa Francisco»


D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa e um dos delegados da Conferência Episcopal Portuguesa, fez, em primeira mão para a Família Cristã e a Agência Ecclesia, um balanço deste Sínodo e do relatório acabado de aprovar. À saída da aula sinodal, o prelado mostrava-se muito «satisfeito» com o resultado dos trabalhos das últimas três semanas e com o consenso que foi possível alcançar na aula sinodal em relação a todos os pontos do relatório final.

Satisfeito com o resultado destas três semanas de trabalho? 
Muito satisfeito. No complemento do que aconteceu o ano passado, os temas foram tratados com mais incidência na missão da família na Igreja e na sociedade, mas com muita serenidade. Eu estive nos dois sínodos e reparei nisso, como a generalidade dos meus colegas também repararam, sobretudo os que tinham estado o ano passado, porque, na primeira vez, alguns dos temas tratados aqui, a este nível, e numa assembleia com o Santo Padre, apareciam de forma meio inusitada, e causavam perplexidade e debates intensos e acalorados, por vezes. Desta vez foi tudo tratado com muita serenidade, quer no plenário, quer nos trabalhos de grupo. As questões já foram vistas com outra naturalidade, e isso deve-se muito à feliz ideia do Santo Padre de não ter querido resolver o assunto numa só assembleia sinodal, mas nestas duas fases. Isto começou com uma consulta ao povo de Deus, depois uma assembleia sinodal, os resultados da primeira assembleia voltaram às dioceses, depois voltaram aqui e foram aprofundados no sentido mais de projeção da realidade da família na sociedade e na igreja... toda esta sequência permitirá agora ao Santo Padre pegar nas reflexões e nos resultados, nas propostas desta assembleia, e ver que tratamento lhe há-de dar. Todos ficamos à espera que, como sucessor de Pedro, nos confirme na fé a nós e às famílias cristãs.

Havia a ideia de que a assembleia estava dividida em muitos assuntos, e que não havia forma de resolver os problemas levantados... 
O burburinho que por aí houve não correspondia ao que se passou na aula sinodal, nem nos trabalhos de grupo, nem nas conversas de corredores, nada... Este foi um exercício de sinodalidade, um caminho que se faz em conjunto, e que o Papa quer que se torne habitual na vida da Igreja a todos os níveis. Ainda agora foram os 50 anos do Sínodo dos Bispos e ele sublinhava muito este aspeto de caminharmos em conjunto nos diversos patamares da vida da Igreja, das famílias às comunidades, aos movimentos, às dioceses, as conferências episcopais, aqui em Roma... este tipo de vivência eclesial, que o Papa exprime como sinodalidade, vai ficar e de certa maneira vai transpor para a Igreja aquilo que é mais espontâneo nas famílias, onde todas as pessoas conversam frequentemente, partilham uma vida muito próxima e comum nas famílias, homens, mulheres, pais e filhos. Que isto se projete também na história da Igreja num exercício conjunto de vida e de procura é o que se espera.

E a Família, como fica, depois deste Sínodo? 
Essa poderia ser a primeira nota a retirar, a família. Como o Papa disse no discurso final, não saímos daqui a dizer e a pensar “família” como quando esta reflexão começou. Com a ajuda das várias famílias aqui presentes, responsáveis de movimentos familiares leigos e leigas, e até um bebé que de vez em quando chorava na aula sinodal e nos lembrava a realidade familiar em todas as suas faces, enfim, com tudo isto, vamos muito mais enriquecidos para as igrejas que servimos nas nossas dioceses com uma reflexão conjunta e que sublinha o papel real da família na Igreja e na sociedade. E com uma consequência prática muito forte: se isto é assim, temos de dar muito mais importância às famílias, à preparação para o matrimónio, ao acompanhamento das famílias cristãs, mesmo aquelas que vivem em rutura, para vermos o que podemos consertar com a ajuda de todos.

E naquelas em que já não é possível consertar nada? 
Naquelas em que já não seja possível recuperar a situação anterior, continuar a considerá-los, como são, nossos irmãos e irmãs, batizados que têm o seu lugar na comunidade cristã. O aspeto muitas vezes frisado de saber se acedem ou não à comunhão sacramental não foi demasiado frisado como foi o ano passado, porque a comunhão eclesial não passa necessariamente por aí, dada a ligação que esse aspeto tem a uma ordem de Cristo aqui citada muitas vezes, que foi «não separe o Homem aquilo que Deus uniu». É preciso ter uma atenção redobrada da parte da Igreja a saber se Deus uniu mesmo, ou seja, se foi válido aquele sacramento, e daí a importância do Motu proprio do Papa no mês passado, que fez com que nós encaremos, nas dioceses, de forma, não digo mais fácil, mas mais simplificada todos esses casos. Porque se realmente a família é assim tão importante, vamos dar-lhe a importância que ela tem, quer na preparação, quer no acompanhamento daqueles que já não vivem a família como a começaram dantes. Para todos uma atenção redobrada, porque o seu papel é indispensável para a Igreja e para a sociedade.

O documento dá indicações claras às igrejas sobre como proceder perante as situações irregulares, e na necessidade do discernimento e de julgar caso a caso. Até onde pode ir essa distinção? Até à comunhão, em alguns casos? 
A comunhão sacramental tem a ver com a validade do vínculo, e saber se houve ou não houve, e a atenção a esse nexo é que fica aqui mais vincada e mais redobrada. Depois o acompanhamento caso a caso, quando o Sínodo falou nisso, é para verificar o que o Papa João Paulo II já disse há 30 anos na Familiaris Consortio. Temos de ter muita atenção porque os casos não são todos iguais, e às vezes uma expressão forte pode encobrir situações muito diversas. É o que estamos a fazer e o que vamos continuar a fazer.

Mas pode chegar a permitir, em casos pontuais, o acesso à comunhão de alguns desses casais, em casos específicos, com um caminho penitencial próprio? 
Está sempre em ligação com o vínculo, de saber se houve ou não houve. Por isso, a atenção mais pessoal a cada caso pode permitir constatar se houve ou não houve vínculo. Muitas vezes constata-se que não houve vínculo matrimonial e abre-se a porta à comunhão.

D. Manuel Clemente e D.Antonino Dias, os dois delegados da Conferência Episcopal Portuguesa ao Sínodo

Do relatório, o que destaca ser mais importante levar para a Igreja em Portugal? 
O novo protagonismo que a família cristã tem de ter na comunidade para depois se projetar na sociedade. A sociedade portuguesa, como a generalidade das cidades do chamado mundo ocidental, é muito individualizada. As pessoas já não vivem naqueles núcleos familiares garantidos e tradicionais, ou por procura de trabalho, ou porque nem as próprias casas permitem que lá vivam famílias grandes ou porque o ambiente não valoriza muito a constituição de famílias numerosas. É preciso reforçar o papel da família na vida da Igreja, para ela ser sinal, testemunho e fermento de um reforço da família na sociedade. As famílias cristãs são famílias da nossa sociedade. Reforçado o seu papel e a consciência do que valem, também depois isso pode e deve transferir-se para a sociedade no sentido de a tornar mais familiar, mais próxima, mais vizinha, mais solidária entre gerações, todos. Isso aprende-se na família e se queremos fazer uma sociedade humana temos de começar por aqui. 

Algumas pessoas temiam um relatório pouco prático, em relação a diversas matérias. Sente que é um relatório que aponta caminhos práticos e concretos, onde o Papa se poderá basear para definir o papel da família na Igreja para os próximos tempos? 
Creio que sim, e foi isso mesmo que pedimos ao Papa. Com estas reflexões vindas dos grupos, que contêm sensibilidades que são distintas, conforme os continentes, as regiões e as culturas, pedimos que nos dê orientações mais concretas e mais práticas. Pediu-nos para refletir a nós e a toda a Igreja, que o fez com todos os milhares de respostas que aqui chegaram, pelo que agora deixámos isto tudo nas mãos, na cabeça e sobretudo no grande coração do Papa Francisco, e esperamos que nos diga como é que vai ser.



Texto e fotos: Ricardo Perna

30 de setembro de 2015

«A família é pouco eclesial e as comunidades paroquiais pouco familiares»


O presidente do Conselho Pontifício para a Família, D. Vincenzo Paglia, acha que as comunidades fazem pouco para receber as famílias e as famílias pouco se interessam em se integrar na vida das comunidades paroquiais. Usando como exemplo o Evangelho de Lucas, o prelado explica que a melhor forma de levar a misericórdia aos outros é através da família. Tudo no seu novo livro "Uma casa rica de misericórdia", editado pela PAULUS Editora.


O que o levou a relacionar o Evangelho de Lucas com a Família e a Misericórdia?
Como sabe, o Evangelho de S. Lucas é chamado o Evangelho da Misericórdia pelas muitas passagens que mostram precisamente o amor visceral, misericordioso, apaixonado de Deus pelas suas criaturas. Emblemático de tudo isto é aquela parte das famosas três parábolas, precisamente da misericórdia, a que depois se segue a do bom samaritano. Neste contexto, a família inscreve-se num modo extraordinariamente eficaz, seja porque S. Lucas é o único evangelista que apresenta nos dois capítulos do Evangelho da infância de Jesus a família de Nazaré, mas também porque nas páginas de Lucas muitas vezes se fala de Jesus, embora também isto suceda nos outros evangelhos, como membro de uma família. Um exemplo, que vale para tudo, é a relação tão relevante e afetuosa de Jesus com a família de Lázaro, de Marta e de Maria. Por esta razão, pareceu-me bem que o Sínodo da Família, que de algum modo abre o Ano da Misericórdia, pudesse encontrar, precisamente, neste pequeno instrumento do Evangelho de S. Lucas comentado, uma oportunidade para todas as nossas famílias. Porque a misericórdia certamente faz parte essencial da vida, não só da família cristã, mas espero que de todas as famílias humanas.

A família é a base de toda a educação, incluindo a religiosa. É por isso que é tão necessário que a família se mantenha estruturada? 
Ninguém duvidará de que hoje a crise na qual a família se sente se encontra ligada também a uma aceleração de uma cultura secularizada que se afasta da fé. Numa humanidade em que a família se priva da dimensão religiosa, a família cansa-se de viver. E de certa forma encontra ainda maiores dificuldades na educação. É por isso que o Evangelho de S. Lucas, perspetivando a escolha que o próprio Deus fez para educar o seu Filho, teve necessidade da família: de uma mãe como Maria, e de um pai, ainda que putativo, como S. José. E foi extraordinariamente eficaz a síntese que S. Lucas faz a dada altura quando escreve: «Jesus crescia em sabedoria, idade e graça» (Lc 2,52;40). Uma vida como esta que não era, como se disséssemos, uma decoração. Na família de Nazaré realizaram-se muitas das nossas tensões contemporâneas; como por exemplo, a relação entre Maria e S. José no início. Pensemos na fuga para o Egito. Jesus, Maria e S. José tornam-se emigrantes. E depois, pensemos na relação entre pais e Filho na perda e encontro no Templo. Por fim, uma situação de luto quando Maria está sob a Cruz; e por aí adiante. Em suma, a família é realmente o lugar de provação radical bem ativa. E lá onde isto não acontece, aí nós temos que nos encontrar a recolher as tragédias que não tiveram este processo educativo desde a infância.

Muitos pais mandam os filhos à catequese ou à eucaristia, mas ficam em casa. Qual a importância do exemplo dos pais na educação religiosa dos filhos? 
Este é um dos pontos mais importantes da vida da igreja de hoje, em minha opinião. Existe como que uma separação entre a família e a comunidade cristã. Uma fossa, que permanece quando se enviam os filhos para a paróquia. Porquê? A família é pouco eclesial e as comunidades paroquiais pouco familiares. Pelo que, uma torna-se uma espécie de recinto fechado, e a outra torna-se uma realidade funcional, exterior. Neste sentido, ouso brincar um bocadinho afirmando que, neste sentido, é indispensável que os pais levem para a comunidade os seus filhos, desde a idade do berço. Sem esta dimensão, não é possível a evangelização. A brincadeira que me vem à ideia é esta: como o filho entra como membro da família, através do aleitamento, o amor da mãe, a voz do pai e o desvelo dos avós, a evangelização torna-se possível através do odor das velas, o cheiro do incenso, a visão dos que atuam à volta do altar. Se depois é verdade que os primeiros três anos são os que constroem o âmago duma personalidade, compreende-se que de nada vale esconder uma criança desde que nasceu e apenas levá-la aos sete anos para a paróquia para a primeira Comunhão. Temos que recriar intimidade entre família e paróquia. A nós ambas nos servem.

Pede que as famílias leiam juntas o Evangelho de Lucas. Como podem elas arranjar tempo, na sociedade de hoje? 
É o desafio de «rezar sempre», como dizia Jesus. Se vivemos numa sociedade em que a pressa e o caos são de casa, «rezar sempre sem nunca nos cansarmos» significa rezar pelo menos cinco minutos por dia, juntos em família. Neste sentido, o Evangelho de S. Lucas que publicámos, nas edições Paulus em várias línguas, é um instrumento para o que chamarei a lectio divina popular ou familiar. Quando eu era bispo de Terni, uma senhora contou-me, quando então distribuía estes evangelhos nas minhas visitas às famílias da diocese, a sua alegria porque todas as noites antes da ceia liam em família um ou dois versículos do Evangelho com um comentário muito breve. E esta é uma maneira de fazer as famílias discípulas de Jesus. Em suma, aquela Maria, irmã de Marta, ensina-nos que estes cinco minutos poderão ser a «melhor parte» (Lc 10,42) dos nossos dias.


Neste ano da Misericórdia, como podem as famílias exercer essa misericórdia entre elas? 
Eu penso que este Ano de Misericórdia é um pouco como Jesus: anunciou em Nazaré um ano de graça, durante o qual a dimensão do dom, da gratuidade, deve aparecer de muitos modos nas famílias. O Papa Francisco deu-nos aquelas famosas três palavras: desculpa, por favor, obrigado! São três palavras que podem declinar-se durante o Ano da Misericórdia, ou melhor dizendo, a jornada de um Ano de Misericórdia. Claro, tudo isto se deve passar na paróquia, mas também tomá-lo como hábito de vida, na vida ordinária, no trabalho, no mercado, na rua, em todo o lado. Na verdade, trata-se de transformar a vida não apenas vivendo melhor, mas até conduzindo-a mais graciosamente. A gratuidade falta-nos muito nas nossas relações. Tudo se faz como se fosse um comércio: dou-te para que me dês; quanto custa; quanto devo gastar... Precisamos de mais atitudes graciosas, de algo mais de «grátis» nas nossas relações. E a Misericórdia entra nisto, porque Deus opera sempre graciosamente em favor de todos, especialmente em favor dos mais necessitados.

«Na Igreja celebramos o casamento, mas depois não acompanhamos as famílias»


D. António Francisco dos Santos, bispo do Porto, falou à Família Cristã sobre o Sínodo que agora se inicia, revelando que espera decisões concretas da parte do Papa. Para o prelado do Porto, a principal preocupação está na integração dos casais na comunidade, num caminho que se inicia na preparação para o matrimónio, que deve ser mais exigente, e continua depois do matrimónio, num acompanhamento que as comunidades ainda não dão aos seus casais.

O Papa tem tentado chamar a atenção para a família, marcando estes dois sínodos e dedicando as suas catequeses semanais a esta temática. É uma estratégia que está a resultar? As pessoas estão, de facto, a olhar mais para a família? 
Eu penso que foi uma pedagogia muito própria do Papa Francisco, que eu admiro. Ajudou-nos a compreender que a decisão do Sínodo sobre a Família era uma decisão dele, rezada junto de Deus. Ao chegar, o Papa Francisco trazia esta preocupação e este sonho de colocar a igreja disponível para refletir sobre a família. Foi uma pedagogia nova, pois ele quis realizar o Sínodo em dois momentos. Primeiro numa assembleia extraordinário, em que quis auscultar todo o mundo, independentemente de serem cristãos ou não. Procurou que aí se afirmasse e revelasse o que o mundo e a sociedade pensa da família, não apenas a igreja. Agora, com esta segunda fase, ele procurou devolver essa reflexão às nossas dioceses para que lhe digamos aquilo que pensamos e sonhamos para a família.

Mas a estratégia de facto levou as pessoas a discutir mais a família? 
Teve frutos práticos em três vertentes: valorizámos a família no que de melhor e mais sagrado tem, que é fonte de vida, espaço do amor e escola da educação e igreja doméstica; veio dizer à humanidade inteira, que deu grande atenção à decisão do Papa, que a família é importante, e nós na sociedade muitas vezes não damos essa importância e desvalorizamos aquilo que ela mais precisa, que é o respeito e ajuda de todos nós; em terceiro lugar veio dizer que a ação pastoral tem de ser diferente. Precisamos de ter mais atenção quer à preparação das famílias, quer ao acompanhamento depois da celebração dos sacramentos. Muitas vezes a igreja tem esquecido esse acompanhamento espiritual, humano, de integração na comunidade, de ajuda nos momentos difíceis.
A Igreja tem de fazer aí um imenso caminho. Há muito trabalho feito, valorizemo-lo, mas há ainda um grande caminho para andar, e muita forma diferente de acompanhamento e acolhimento, e mesmo de valorização dos movimentos de espiritualidade familiar, ao qual não temos dado tanta atenção como deveríamos ter dado.

No relatório final do Sínodo extraordinário, falou-se da necessidade das famílias serem sujeitos de evangelização, em vez de meros objetos de evangelização. As famílias já compreenderam esta urgência de se “chegarem à frente”? 
Eu creio que esse é um dos dados mais valiosos do relatório final e uma das descobertas que quem está mais atenta à vida das igrejas diocesanas há muito o fez, mas que nem sempre deu a visibilidade e importância e até a capacidade institucional necessária. Nós setorizamos demasiado a pastoral. Fizemos catequese para as crianças, pastoral de saúde para os doentes, serviço social aos idosos, tivemos algum acompanhamento nos movimentos de casais, mas nem nas comunidades promovíamos momentos em que toda a família podia estar reunida. Ultimamente a catequese deu-se conta que o melhor caminho é valorizar a catequese familiar, e a pastoral deu-se conta que, mais do que setorizar iniciativas, temos de valorizar a família no seu todo.
Esta é hoje uma realidade palpável e só não vê isso quem não quer, e por isso é necessário que todos nos mobilizemos para isso. A minha experiência dos anos mais recentes diz-me que sempre que fizemos propostas para a família, os resultados foram mais eficientes, sólidos e continuados no tempo. Em Portugal este é um caminho obrigatório para a Igreja.

Parece-lhe mais importante que do Sínodo saiam contributos para o Papa mais na área da prevenção (preparação para o matrimónio, formação dos sacerdotes, planeamento familiar), ou na área dos paliativos (nulidade, comunhão dos recasados, etc)?
Todos esperamos muito do Sínodo, e é bom que o façamos, pois foi nesse sentido que o Papa o propôs. Esperamos muito em todas as vertentes, e é normal que esperemos caminhos novos. Embora esta exportação apostólica não seja pós-sinodal, o Papa ensinou-nos a não fazermos apenas grandes reflexões pastorais, mas a abrir caminhos de propostas concretas. Aquilo que espero do Sínodo é que, com o contributo de todos nós, que tem sido muito responsável da parte de todos nós, bispos, sacerdotes e todas as bases, os padres sinodais tenham todas as possibilidades de, com o caminho já feito, darem ao Santo Padre o verdadeiro pensar da Igreja. O Santo Padre dar-nos-á depois caminhos novos e propostas concretas que nos vão ajudar a preparar a família a ser família, a ajudar a família a viver feliz, como família cristã, e ao mesmo tempo a ir ao encontro das situações mais difíceis, que é preciso ajudar.

Precisamos de uma preparação para o matrimónio mais exigente?
Penso que há experiências em algumas dioceses em Portugal onde a preparação começa com mais tempo. Há outro elemento que é importante: que a preparação seja feita na comunidade, não apenas no cartório paroquial, ou com uma equipa em reuniões com o sacerdote.
Mas precisamos é de acompanhar depois do matrimónio. Penso que a lacuna maior da pastoral da Igreja na relação com as famílias não foi na preparação, foi no acompanhamento dos novos casais e das famílias no seu todo. A comunidade precisa de se responsabilizar pela celebração do casamento. Na preparação para o casamento, precisamos de implicar a comunidade paroquial no acompanhamento destes casais, para que eles sejam parte integrante da vida da comunidade. O que tem faltado muito na Igreja é que nós celebramos o casamento mas depois não acompanhamos as famílias, não as sentimos inseridas. Preocupamo-nos com os crismandos, e que os crismados devem ficar integrados nas atividades da Igreja. Porque é que não fazemos o mesmo com quem celebra o sacramento do matrimónio? É um sacramento de integração na vida comunitária…

E como é que esse acompanhamento pode ser feito? 
Pode ser feito não colando apenas a preparação do matrimónio com a cerimónia. Temos de preparar os casais de noivos para a vida da comunidade. Muitos destes casais só os encontramos quando trazem os filhos para o batismo ou a catequese, e portanto nós temos a possibilidade de integrar os jovens casais na vida da comunidade, porque a comunidade é que evangeliza.

Uma integração pré-matrimónio ou pós? 
A integração deve ser feita durante a preparação para o matrimónio, para que eles possam descobrir como vão viver a sua vida matrimonial e familiar integrados naquela comunidade que os recebeu e os preparou para o matrimónio.


Isso implicará uma preparação mais estendida no tempo? 
Sim, mais estendida no tempo e mais aberta à comunidade. A dimensão da descoberta da comunidade onde se vão fixar, que nem sempre é a comunidade onde se casam, é muito importante. Estive com alguns casais que me diziam “estou há cinco anos nesta comunidade, venho todos os fins-de-semana à missa, temos três crianças que vão iniciar a catequese e nunca ninguém me perguntou quem eu era, de onde era e porque estava ali”. As comunidades têm de se abrir a este acolhimento dos casais novos. Nas áreas urbanas é difícil, mas é possível, porque se a preparação para o casamento leva as pessoas a descobrirem a comunidade onde vão estar inseridas, a partir daí é possível que a comunidade valorize o dom de uma nova família que vem ali ao seu encontro.

Mas falamos em participação nos serviço da paróquia, apresentação na eucaristia, o quê exatamente? 
De tudo isso. A minha experiência de sacerdote era, ao longo do primeiro ano, fazer um acompanhamento que lhes permitisse alguma privacidade, para se adaptarem à realidade da família, terem tempo para criarem uma certa autonomia, mas também tempo para descobrirem que a comunidade onde eles vivem têm espaços que estão livres para a sua missão, e muitos deles foram integrando-se na catequese, nas atividades de cariz social, na liturgia. Há muitos casais novos que se valorizaram muito através da participação na liturgia, ou noutras instâncias. Quantos foram integrados no conselho pastoral, na preparação do casamento de outros, ou até na constituição de equipas de casais. Mas sobretudo fazê-lo integrando-se na comunidade. Creio que as famílias jovens cristãs precisam de saber que o fazem numa envolvência de aconchego, integração e necessidade pastoral da comunidade que os recebe.

«Estamos [Igreja] ainda muito longe de dar as respostas que os casais merecem»

E isso é a chave para evitar as situações de sofrimento no futuro? 
É sobretudo a certeza de que não estão sós. Nos momentos felizes partilham a felicidade, e nos momentos de dor, rutura, e provação, sabem que encontrarão sempre membros da comunidade que estão ao lado deles para os ouvir e acolher. Eu creio que a dimensão da preparação para o matrimónio precisa desta vertente nova de saberem que todo o caminho que fazemos como cristãos não o fazemos como ilhas isoladas, mas que o fazem integrados numa comunidade paroquial, vicarial e diocesana. Precisamos de dar aos jovens casais esta descoberta da realidade da comunidade em si. O valor da comunidade não está suficientemente afirmado na preparação para o matrimónio, e é necessário que naquela comunidade saibam quantos casamentos ali se realizaram, e que têm ali um espaço para viverem como família cristã. É um contributo necessário não apenas para eles, mas no bem que podem fazer ao outro.


Há espaço na doutrina para ponderar a possibilidade de um acesso dos divorciados e recasados à comunhão, passando por um processo penitencial, como alguns avançaram no sínodo do ano passado? 
Nessa perspetiva, o Santo Padre pediu-nos que disséssemos o que pensávamos. Sabemos que há famílias que passam por situações de grandes provações. Aguardamos que o Papa nos diga também aquilo que ele pensa e nos propõe. Da nossa parte, devemos estar disponíveis para caminhar em Igreja, sentindo que muitas vezes o problema, posto desta forma só com a comunhão, é ver as coisas apenas por um lado. Mas também não nos devemos esquecer no sofrimento que estas famílias têm de não poderem comungar e de não poderem participar em pleno. As situações são muito diferenciadas e cada um tem o seu percurso de vida, e é importante que a Igreja saiba caminhar com cada família, com cada pessoa de modo muito personalizado, e isso tem-nos faltado. Estabelecemos normas, e elas são importante, mas elas não nos devem dispensar de fazer um caminho com essas pessoas.

Um caminho que pode levar a ponderar essa possibilidade, em circunstâncias específicas?
Pode levar-nos, em algumas circunstâncias específicas, a ajudá-los a perceber, em primeiro lugar e como dizia o Papa, da validade do seu casamento. Temos de ajudar a valorizar isso, e há situações em que precisamos de ajudar na questão da validade do mesmo. Depois há um processo espiritual para as outras situações, a aguardamos com serenidade aquilo que o Espírito Santo e o Papa irão dizer à Igreja, pois é isso que sempre se fez na Igreja desde o Concílio de Jerusalém. Esta espera não nos livre de acompanharmos todos os dias os casais que sofrem e de acolher os que não podem receber esses sacramentos. Estamos ainda muito longe de dar as respostas que os casais merecem.

Segundas uniões são «um assunto que precisa de ser estudado à luz dessa [dos dias de hoje] realidade»


D. Joseph Coutts, presidente da Conferência Episcopal do Paquistão, esteve no primeiro Sínodo, o ano passado, mas não estará neste, em virtude terem escolhido outros participantes para enviar como representantes do seu país, na vontade de «dar lugar a bispos mais novos», referiu o prelado. Mas isso não o impede de ter a sua opinião sobre alguns dos assuntos que vão estar em cima da mesa no Sínodo que se inicia no próximo dia 4.


Quais são os assuntos mais importantes que o Paquistão quer levar ao Sínodo de outubro?
A coisa boa é que o processo todo dos sínodos permite a participação de todos os países. Assim, se as nossas questões não forem abordadas, o problema não está no sínodo, está connosco, a falha será nossa. Divórcio e recasamento é um problema para nós, mas de uma forma diferente da Europa. Num país como o Paquistão, onde a taxa de literacia é pouco acima de 50%, os cristãos estão organizados, mas aparecem sempre uma série de pastores evangelistas que criam igrejas próprias com nomes muito bonitos, e isso confunde os cristãos que não têm formação.
Depois, o nosso governo reconhece o casamento religioso como válido, não é preciso casamento civil. Portanto, se um cristão quiser deixar a sua mulher, é possível que possam mudar-se apenas de cidade, pagar algum dinheiro a um destes pastores, que celebra o casamento sem saber que outro casamento já existe, e tudo fica legalizado. Sei que aqui isso não acontece, mas para nós é algo que sucede muito.

E, na sua opinião, as segundas uniões não são possíveis dentro da Igreja Católica? 
O processo, mesmo que o casamento tenha falhado e haja bom motivo para o anular, é tão longo que se encontram atalhos. Isto é uma teologia que ainda não desenvolvemos. Nós pomos as coisas do casamento num pedestal ideal que exige fidelidade até ao fim, e nem sempre é possível ao ser humano viver segundo esse ideal para sempre. O mesmo acontece no celibato dos sacerdotes. Mas aí é possível pedir dispensa do celibato, mas é mais difícil conseguir a anulação de um casamento. Há outras igrejas cristãs, como os ortodoxos, que têm outras práticas, pelo que penso que é um assunto que precisa de ser estudado à luz dessa realidade. Entretanto, o ponto que o Papa fala é o da misericórdia. Cristo representa o amor e a misericórdia de Deus, não apenas o cumprimento de leis que temos de obedecer.

As pessoas precisam de uma aproximação mais misericordiosa? 
Sim, precisam. Mas como vamos fazê-lo, sem tornar isto uma regra? É por isso que o Sínodo será muito duro. No final, espero que estas questões tenham resposta, embora saiba que não será fácil. Até porque estas questões vão levantar alguma fricção, como fez Jesus no seu tempo, quando perdoou as pessoas ou se sentou com pecadores.

Alguns dos participantes queixaram-se que as suas necessidades foram deixadas de lado no Sínodo ou na comunicação social, pelo menos.
Acho que isso aconteceu, de alguma forma. Mas os problemas do Mundo Ocidental são muito diferentes dos nossos. A poligamia em África é um deles. Podem ter uma família grande, que vive feliz numa grande casa, e depois temos de dizer ao chefe tribal que quer ser batizado que ele tem de mandar para casa 3 das 4 mulheres que tem. De acordo com a cultura deles, isso não era problema, e agora temos de dividir a família, e isso abriu-nos os olhos. Nos países asiáticos e em alguns africanos há a ideia de que a homossexualidade e o casamento é algo que não pode existir. Não é comum para nós, mas isso é diferente de aceitar pessoas que são homossexuais. Mas usar o termo casamento para nós também não é aceitável de todo.

Teme algum Cisma na Igreja por causa disto? 
Não creio. Depois do Vaticano II, as mudanças começaram a chegar e nós tínhamos um cardeal cuja lema era “sem mudança”, mas mesmo ele acabou por ir mudando. Haverá tensões, mas não vejo em que possa resultar dali uma divisão séria.
Temos de estudar bem os assuntos e saber bem o que queremos, porque não podemos dar a impressão de que estamos simplesmente a deitar à rua tradições que estão aqui há milhares de anos, mas sim olhar para elas sob uma nova luz, uma luz mais abrangente e, se essa luz sugerir mudanças, então elas devem ser feitas.

21 de setembro de 2015

Cardeal Patriarca quer «reorganizar a Igreja em chave familiar»



D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa, falou à Família Cristã sobre as suas expectativas antes de iniciar o Sínodo da Família, onde o prelado será um dos dois representantes dos bispos português, em conjunto com D. Antonino Dias, bispo de Portalegre e Castelo Branco.

Este Sínodo é o culminar de dois anos intensos sobre a família. Esta “estratégia”, quase de marketing, do Papa Francisco, que procurava colocar a família no centro das atenções de crentes e não crentes, resultou?
Eu creio que sim, e vou explicar porquê. Porque foi um processo eclesial propriamente dito, e um processo desses envolve o mais possível os membros da Igreja. Sendo que, esta assembleia sinodal, e é bom que se tenha isso em conta, é distinta da anterior, que era sobre os desafios à família. Esta será sobre a missão da família na Igreja e na sociedade. Será muito mais projetiva, já que não se pode dizer muito mais sobre o que se disse no ano passado, e o que saiu naquela série de proposições que foram votadas e que o Papa quis que fossem manifestas as votações que cada proposição tinha tido, até para se poder aquilatar quais os pontos em que há consenso geral e mais problemáticos, mas sobre isso haverá pouco a dizer. Agora neste contexto o que esperamos das famílias, dentro da visão cristã da família, que é aquela em que Jesus se apresenta, não nos vão pedir outra, que não somos a ONU, somos a Igreja Católica. E é bom insistir nisto, porque parece que às vezes há uma certa expetativa algo despistada. Esperam que a Igreja apresente linha de atuação da família que não tenham em conta aquilo que a define e valida como Igreja, que é a proposta que está. Naturalmente que tem de ser aprofundada, atualizada e aplicada com aquilo que é de hoje, mas que é a proposta que está.

Quais são as preocupações que a Igreja portuguesa vai levar?
Em primeiro lugar, a necessidade de preparar e acompanhar, ao longo da vida, as famílias cristãs. Levar por diante um processo matrimonial, paternal e agora com avós, à luz do Evangelho, tem de ser preparado, consciencializado, e tem de ser acompanhado. Não pode ficar reduzido a uns meses antes, em que aparece um casal que se quer casar, faz-se um curso de preparação para o matrimónio com meia dúzia, ou às vezes nem isso, e pronto, “estão casados, agora aguentem-se”, para falar mal e depressa. Não é isto. Trata-se de algo tão importante na ordem sacramental, em que o próprio Deus está incluído, que requer muita consciência, muita preparação e muito acompanhamento. Porque uma vida tem crises a ultrapassar e superar, e sozinhos é muito difícil, para não dizer impossível. A grande questão que se põe é como que nós, comunidades cristãos, vamos, nas nossas famílias, paróquias, comunidades e movimentos, preparar e apoiar o matrimónio cristão. Isto vai levar, e a minha intervenção vai ser nesse sentido, a uma reorganização da vida cristã em chave familiar.


E como se fará essa reorganização?
Isto é importante para a Igreja, que nem sempre vive assim. Mesmo em casos de militância, falamos do homem ou da mulher, mas não sabemos se é casado, se é viúvo, se tem filhos… há aqui uma relação familiar que tem de estar muito mais presente na comunidade cristã, para que ela seja, como já pedia o Papa João Paulo II, uma família de famílias, e não em termos individuais. E se a Igreja conseguir avançar para uma organização em chave familiar, isto pode ser um grande estímulo para a sociedade, que também não vive assim. A nossa sociedade vive, infelizmente, e desfaz-se mais do que se constrói, em torno de duas abstrações: o indivíduo, que é o ser sem relações, e o termo massas, que é o ser sem rosto. Reparamos que é assim na vida profissional, até na desportiva, em que se contam mais as pessoas individuais, ou as massas, mas sem entrar em linha de conta com a rede familiar.

E como é que conseguiríamos organizar a Igreja e a sociedade em chave familiar? 
Bom, começamos pela Igreja, que é aquilo que nos compete. De resto, participamos como cidadãos. No que diz respeito à Igreja… bom, pelo exemplo é mais fácil. Olhamos para uma paróquia e dizemos que tem 2 ou 3 mil praticantes dominicais, e fazemos censos e estatísticas. Não é muito mais interessante dizer “eu nesta paróquia tenho 253 famílias”? Em que a base e a estruturação, a vida sacramental, o batismo dos filhos que já provieram do matrimónio dos pais, a iniciação cristã, conta muito mais com a base familiar, do que com a abstração individual. Quantas famílias são? Mesmo que depois haja algum individual que por esta ou aquela razão não tem família, e se inclui também. E aqui toca-se um ponto doutrinal: nós somos cristãos porquê? Como todos os religiosos, acreditamos em Deus, certo. Não estamos cá por acaso nem sozinho, acreditamos que alguém nos precede e nos espera, como as pessoas de todas as religiões. Mas isto é ser religioso, no sentido de estar ligado a Deus. Mas ser cristão é outra coisa: é dentro deste fundo comum, que compartilhamos com todas as pessoas crentes, nós situamos a nossa relação com Deus na pessoa de Jesus Cristo. E eu disse pessoa, não indivíduo. Porque Jesus teve mãe, um pai adotivo, parentes que são referenciados no Evangelho, Jesus vive 30 anos em contexto familiar e de trabalho, numa terra, com vizinhos. Nós não falamos em abstrações. Quando um cristão pensa em Deus e como Deus se revela, pensa numa família, que foi a família de Nazaré, que aliás foi emigrante à força no Egito. Pensamos na carpintaria de Nazaré, naquele contexto local em que foi bem recebido umas vezes e outras não. Pensamos na sinagoga, pois Jesus era um judeu praticante e não ia à missa ao domingo, mas sim à sinagoga ao sábado. Há um contexto local, familiar, de vizinhança, que nós cristãos acreditamos que é a própria revelação de Deus. E por isso a família não é algo acessório

Mas se sabem assim tão bem, porque é que ainda não vivemos nessa chave familiar?
Temos de viver mais, temos de ser operativos e viver mais. Mas julgo que é porque ainda somos subsidiários dessas abstrações. Pensamos em indivíduos mais ou menos sem relação, ou pensamos em massas. Mas essa não é a maneira evangélica de pensar as coisas, não foi essa a Revelação cristã. E mais! Lemos os textos do Novo Testamento, que dizem respeito as primeiras comunidades cristãs, e verificamos que elas também têm chave familiar. É muito interessante ver S. Paulo dizer que batizou a casa de fulano, a família de fulano. A primeira referência de Paulo à Europa é a família da Lídia que ele encontrou e foi a sua casa. Quando Paulo fala a Timóteo, não lhe fala da fé, diz-lhe “não te esqueças da fé que recebeste da tua mãe Eunice e da tua avó Loíde”. Não podia haver igrejas, como temos agora, e a comunidade funcionava em casa deste e daquele. O casal importante de Aquila e Priscila onde funcionavam as comunidades.

Este motu proprio sobre a nulidade matrimonial vem colocar mais responsabilidade sobre os ombros dos bispos, com a criação do processo breve. Não sei se o Papa terá falado convosco sobre o motu proprio, mas o que é que ele traz de novo?
Na linha de coisas que tinham sido pedidas e insistidas na última assembleia sinodal, que se facilite o que pode ser facilitado. Atenção que o sacramento é uma coisa séria, e portanto quando de uma maneira consciente, responsável e livre um homem e uma mulher se aceitam como esposas perante Deus, nós, Igreja, não temos qualquer espécie de poder ou autoridade para interferir. Agora o que podemos e devemos é não só preparar esse momento, e daí a tal aplicação muito maior na formação para o matrimónio cristão, para as pessoas perceberem do que se trata e tenham uma base experimental onde isso possa assentar, e depois verificar se isso aconteceu assim. E é em relação a estas circunstâncias que se facilita o processo, no sentido de ser só numa instância, e de não precisar de ir a outra diocese para confirmação – sempre com o direito a apelarem os que não ficarem satisfeitos – com mais envolvimento do bispo diocesano, dispensando algumas formalidades quando os casos são muito evidentes. Tudo no sentido da verdade do que aconteceu e na respetiva verificação.

Muitos bispos não têm formação em direito canónico, mas o Papa pede que sejam eles a julgar estas situações. Não tem receio que isto possa vulgarizar a declaração de nulidade e criar quase um divórcio religioso? 
Isso, meu amigo, nisto como em todos os casos, é a consciência que cada um tem ou não tem. Se estamos a tratar de algo tão sério como a é a vida sacramental para aqueles que a querem seguir, contamos com a seriedade de consciência de quem realiza o ato sacramental e de quem o acompanha e avalia. Se faltar a esta base, em relação a isto e a tudo… vamos acreditar que tudo seja feito com seriedade, e vamos exigir essa seriedade. Se algum caso muito notório de desrespeito desta seriedade e regras, isso seria verificado e devidamente reprovado… não vejo aqui um problema maior do que noutros setores, é uma base geral de seriedade que vale aqui e vale em tudo.

Acredita que isto possa resolver parte significativa dos casos existentes de divorciados recasados, que sofrem por não poderem comungar ou confessar-se? 
Eu aí nem preciso de achar, porque se trata de verificar o número de verificação da nulidade do alegado casamento que se dão e vermos que os caso é grandíssimo. Até por uma certa experiência empírica de ouvirmos os casos e ouvirmos como é que as pessoas pretensamente se casaram. Infelizmente é assim…

Quanto aos outros, muitos dos defensores de uma maior abertura para com as pessoas em situações irregulares, têm-se socorrido de declarações do Papa em que ele pede uma maior abertura para dizer que ele vai mudar tudo. Mas acolher essas pessoas significa aceitar as suas situações? 
O acolhimento refere-se às pessoas. Cada batizado tem o seu lugar nesta casa da família dos filhos de Deus. No que diz respeito à prática sacramental, temos de entendê-la como um todo, pois os sacramentos não vivem independentes uns dos outros. Pelo Batismo entra-se em casa. Mas enfim, mesmo não estando nós em condições dessa vida sacramental plena, estamos sempre em condições para uma vida sacramental que o nosso estado de batizado nos habilita.

Não depreende, portanto, das palavras do Papa que ele está a declarar que vai aceitar essas situações irregulares dentro da Igreja? 
Com certeza que não. Não devemos fazer avaliações subjetivas, e a situação, não sendo a que propomos, é a que existe, e a pessoa está antes, durante e depois de tudo isso.

Acha possível que, dentro da doutrina, nomeadamente em casos pontuais, ou em situações em que o cônjuge é abandonado e o parceiro não deixa qualquer solução de reconciliação... 
A Igreja, em toda a sua moral e aplicação moral, inclusive na vida sacramental, já faz esse raciocínio. A proposta é o que é, a apreciação caso a caso das circunstâncias faz-se a outro nível mais pessoal e interpessoal, porque é aí que se deve fazer…

E aí é possível estabelecer diferenças para as situações que são diferentes? 
Isso com certeza.

Porque temos pessoas que nunca viverão de forma completa, ou fora da comunhão da Igreja, ou fora da alegria de uma vida familiar plena... 
Sim… trata-se de vermos como devemos conjugar cada vez melhor a verdade sacramental com a vida de cada um e as circunstâncias subjetivas e objetivas. Temos de ver tudo isso sem pôr em causa nenhum dos termos.

E adequando as coisas a cada pessoa e cada caso? 
Isso é o que já acontece, e quem está dentro da igreja sabe que é isso que se faz.



Outra das questões que tem sido debatida foi a necessidade de melhorar a preparação para o matrimónio, e promover o acompanhamento posterior dos casais. Uma preparação mais exigente, e mais espaçada no tempo, é necessária? 
 Isso já está dito, até por João Paulo II, que dizia que a preparação para o matrimónio começa na casa dos pais e na catequese. Porque isto trata-se da educação para uma vida em função do outro, e isto é uma educação longa, que começa em casa, com a noção de que há o menino, mas há a menina, a avó, o parente que está doente e precisa de atenção, a refeição que aparece na mesa mas que é preciso colaborar. Coisas tão simples que vão educando no sentido da atenção ao outro, uma dai que está descentrada em si e centrada em Deus e nos outros que mais precisam. E essa é a grande preparação para uma comunhão real e de compromisso como é o caso do compromisso matrimonial. A preparação significa uma preparação para viver não a seu bel-prazer, mas em função dos outros.

Mas muitos casais que chegam à preparação imediata não vêm nessas condições… Deve essa preparação imediata ser mais exigente no sentido de acompanhar os casais?
Tornar as coisas claras, para os casais saberem ao que se estão a comprometer, sacramentalmente, envolvendo o próprio Deus nesse ato, com certeza. Agora estas são as disposições gerais, e depois temos o caso a caso, em que há pessoas que aprendem mais depressa que outras. Há uma meta a atingir, mas depois temos de ver caso a caso.

Mas há paróquias que têm apenas um encontro, ou nenhum, e depois…
E depois, o depois é que é importante. Saber como se sustenta a vida matrimonial. Por exemplo, há bocadinho, quando falávamos da reorganização comunitária em chave familiar. Nós reparamos que muitas das nossas celebrações dão uma importância muito grande ao sufrágio dos defuntos, “missa por alma”, como se diz. Damos igual relevo às comemorações matrimoniais? “hoje é o aniversário deste e daquele casal na nossa paróquia”, fazemos isto? E nem precisamos de esperar pelos 25 anos, fazem dois, fazem três… damos suficiente relevo ao compromisso matrimonial na nossa vida paroquial? É algo que parece simples, mas é muito importante. Eu conheço párocos que, todos os anos, tendo as direções dos casais, enviam uma felicitação a quem faz anos de matrimónio. Coisas simples mas que dão à vida matrimonial um acompanhamento e uma atenção como deve ser.

Um acompanhamento da comunidade… 
Da comunidade, precisamente, comunitário. Há tentativas nesse sentido, mas ainda falta muito. Qual é o lugar que nós damos à celebração do batismo que insere na família dos filhos de Deus aquela criança que os pais trazem à comunidade? Vemos isso com gosto, a nossa família cristã a crescer? A mesma coisa para os avós, que dão à comunidade cristã uma atenção prioritária e permanente ao primeiro núcleo que é o da igreja doméstica. Manter constantemente a referência matrimonial e familiar no âmago da comunidade cristã. Da família igreja doméstica à família dos filhos de Deus.

Coincidência ou não, começam a aparecer medidas mais efetivas de apoio à natalidade em Portugal, e este ano o número de nascimentos parece estar em curva ascendente, como não se via há uns anos. Estamos a preocupar-nos mais com a família? 
Um movimento no qual devemos estar todos atentos e ativos. O matrimónio, mesmo que não seja sacramental, não é um exclusivo cristão. Nós colocamos a pessoa de Jesus Cristo no seu centro. Paulo diz que quem casa, casa-se no Senhor, e isto tem uma envolvência. Há muita inspiração cristã na sociedade portuguesa, e esse é um dos pontos em que fazemos o reconhecimento feliz que há incidência. O Patriarcado está também a viver um tempo sinodal.

De que forma pode o Sínodo de Lisboa ser enriquecido pelo Sínodo de Roma? 
Bom, isso só saberei no final do sínodo em Roma (risos). Mas quase que adianto que, estando este caminho sinodal de Lisboa a refletir sobre as variadas reflexões do Papa Francisco na Evangelii Gaudium, está a fazê-lo projetando-se para o futuro. Esse futuro passará certamente por este revigoramente comunitário, esse revigoramento comunitário passará certamente pela presença mais forte das famílias nas nossa comunidades cristãs, e aí conjugam-se muito as duas coisas.

29 de outubro de 2014

«Há necessidade de que se desenvolva uma nova fraternidade entre todas as famílias»


 

D. Vincenzo Paglia é o presidente do Conselho Pontifício para a Família. Em exclusivo para a Família Cristã, faz um balanço do Sínodo sobre a Família e pede que todas as famílias e comunidades se envolvam no processo de reflexão que agora se inicia, em vista do Sínodo ordinário do próximo ano.

Qual é a sua avaliação do Sínodo que se passou em Roma?
Direi que foi um acontecimento absolutamente extraordinário. E num certo sentido foi importante não apenas para a Igreja mas para todas as famílias do mundo. Poderia dizer que, sobre as costas daqueles 191 padres sinodais, realmente existia uma preocupação por todas as famílias do planeta; não somente pelas crentes, mas por todas. E eu creio que a sapiência e o olhar preventivamente avançado do Papa Francisco, que quis este longo percurso de reflexão de toda a Igreja sobre a família, deu os seus frutos. Foi um debate animado, livre, franco, em que se tocaram muitos temas – outros deverão ser ainda examinados – todavia o itinerário que se abriu no encerramento do Sínodo extraordinário é um itinerário de grande responsabilidade, além de grande interesse.

Qual será, no decurso do próximo ano, o trabalho do Conselho Pontifício para a Família sobre a Relatio Synodi, em vista à preparação do Sínodo ordinário de 2015?
O Conselho Pontifício para a Família, obviamente, está particularmente interessado na reflexão e na realização de debates múltiplos, plurais, a todos os níveis, sobre cada temática discutida durante este Sínodo. Não foi por acaso que o Sínodo quis “caminhar em conjunto”. Apesar de ter sido muito aberto, tem, todavia, que se favorecer indispensavelmente uma ulterior abertura de tal modo que as temáticas que ali foram tocadas sejam debatidas em todos os níveis. Houve debates que tiveram um caráter mais teológico, outros uma relação mais imediata com a vida pastoral, mas indubitavelmente todos somos chamados a meter no centro da nossa atenção não somente as teorias, mas também a vizinhança de todas as famílias, em relação às sãs e às feridas; às que caminham e às que coxeiam. Porque é importante que todas as famílias – mesmo as que ainda não estão marcadas pela plenitude do sacramento, ou até pela robustez de um caminho – apressem o passo e se unam numa simpatia comum de tal modo que o que já está bem amadureça plenamente. Há, pois, a necessidade de que se desenvolva uma nova fraternidade entre todas as famílias, entre as famílias crentes, entre as famílias crentes e as não-crentes, porque se volta a descobrir com clareza que a família é um património comum para toda a humanidade. 

A preparação para o matrimónio foi um dos temas discutidos no Sínodo. Como podemos integrar a pastoral do matrimónio na pastoral juvenil, catequética, privilegiando a preparação remota exigida pela Familiaris Consortio?
Todos os padres sinodais sublinharam a importância da preparação ao matrimónio, até porque o matrimónio não é uma festa, e nem é sequer um dia em que é festejado, mas é uma escolha de vida: neste sentido trata-se de fazer redescobrir que a escolha de um se casar é um chamamento, uma vocação. Ninguém se casa só para si mesmo mas para criar uma família, e para que esta família incida na sociedade e na criação. Isto significa que a preparação ao matrimónio não pode ser nem apressada nem muito menos superficial, bem pelo contrário, em minha opinião, deve representar uma ocasião para uma compreensão renovada, seja da fé, seja da vida matrimonial e familiar. Não basta por isso contentar-se com um amor romântico ou um “gostamos um do outro, ponto final”. Na realidade deve-se redescobrir a alta e difícil vocação de ser esposos, pais e promotores de ligações sociais. 

Pensa que a formação imediata ao matrimónio deva ser mais exigente?
É indispensável uma ligação dos nubentes – destes jovens que querem assumir a vida matrimonial – com a comunidade cristã. Não é possível conceber um matrimónio e uma família sem uma ligação com a comunidade cristã de referência: esta é uma das indispensáveis acentuações que devem ser promovidas. Com demasiada frequência a família anda por conta própria, como também muitas vezes a paróquia, ou a comunidade cristã, anda por conta própria. Por isso acontece que se prepara sem viver a vida da comunidade e se inicia a vida de uma nova família num ambiente onde da comunidade paroquial, ou da comunidade cristã, não se sabe nada, e nem sequer se conhece.

Em sua opinião, é justo que as dioceses exijam que os seus sacerdotes devam recusar fazer o casamento dum homem e duma mulher se estes não estiverem bem conscientes do sacramento?
Este vazio deve absolutamente ser ultrapassado e neste sentido a proposta evangélica da família não deve abaixar-se, mas deve ser sempre alta. O problema não é, se assim posso dizer, abaixar a meta, mas deve-se reforçar o acompanhamento com ela, e isto comporta um envolvimento de todos: dos esposos, dos operadores pastorais, e da própria comunidade cristã, que acolhe e acompanha cada jovem família.
É evidente então que o sacerdote ou o grupo pastoral que acolhe os jovens nubentes devam fazer crescer neles a consciência. Portanto é sempre uma perda, é uma derrota deixar cair esta questão. Nunca mandar ninguém para trás. A mecha que ainda fumega não seja apagada, mas reavivada e reativada para se tornar uma chama ardente. Por isso eu sou completamente contrário a mandar para trás, pelo contrário, deveríamos ser despachados para trás nós se não formos capazes de ajudar. 

Além da questão da preparação, muitos falaram da necessidade do acompanhamento dos casais, estejam eles em crise ou não. Como fazer isto?
Eu creio que aqui devemos redescobrir uma grande sapiência. Infelizmente muitos matrimónios, tantas famílias, rompem-se porque estão sozinhos, abandonados. Por isso nós devemos estar perto destas pessoas antes da crise, mais ainda durante a crise, e acompanhá-las esperando que obviamente tudo se resolva. Se depois sucedem fraturas devemos estar ao lado e compreender. E onde se descobre que o matrimónio não existiu, deve-se obviamente facilitar os procedimentos de nulidade, sem que isso porém signifique um alegre cancelamento. 

Como podem os sacerdotes ajudar nesta tarefa?
Estar perto dos matrimónios que se fraturam é um dos grandes desafios que o Sínodo pediu para enfrentar e que sobretudo o Papa Francisco quer que todos os pastores e compreendam. E a vizinhança faz encontrar também caminhos, se não de solução, certamente de acompanhamento. É uma arte acompanhar todos; é uma arte ainda mais sofisticada a de acompanhar os feridos. Quanto tempo é preciso para ter um doutoramento em medicina, para operar, para ajudar a manter a saúde? Eu creio que o mesmo seja necessário para acompanhar, para fazer crescer bem, para curar quando as doenças do espírito enfraquecem ou fraturam coexistências que deveriam reencontrar um novo vigor e uma nova primavera.

Entrevista: Ricardo Perna
Fotos: Ricardo Perna e News.va

28 de outubro de 2014

«Muitas vezes o que afasta as pessoas é a atitude da comunidade, e não a doutrina da Igreja»


Maria Giovanna Ruggieri é a presidente da União Mundial das Organizações Femininas Católicas (UMOFC), tendo sido reconduzida no cargo na Assembleia-geral que decorreu esta última semana em Fátima, onde 500 membros desta união mundial se juntaram para falar sobre o papel da mulher na Igreja. Sobre o Sínodo da Família, onde dois dos membros da união se pronunciaram enquanto leigos, a presidente da UMOFC faz uma avaliação positiva e lamenta que os media generalistas tenham reduzido a discussão alargada a «apenas dois temas», a comunhão dos recasados e as pessoas com tendências homossexuais.

Como é que viu o sínodo sobre a Família?
Vi de uma forma positiva, porque o clima foi muito aberto, as pessoas puderem falar abertamente sobre os assuntos, e isso é muito bom. A ideia de que estamos num local tão importante, com toda a hierarquia, e temos a possibilidade de falar de todas as nossas dificuldades, é muito bom. Este foi um passo em direção ao sínodo do próximo ano, e é importante perceber como o conteúdo deste sínodo pode ser refletido e discutido ao nível local e ver o que volta para discussão em outubro do próximo ano.

Foram colocadas muitas propostas em cima da mesa. Quais foram as mais significativas para si?
Não acho que seja importante destacar um ou outro ponto. Lamento que, nos media, apenas se tenha falado de dois assuntos, e não se prestou atenção a todo o trabalho de reflexão em conjunto, que é muito importante. O Papa disse que não havia dúvidas sobre a indissolubilidade do matrimónio, da abertura à vida dos casais, ou da noção de que o casamento é entre um homem e uma mulher. Estes princípios não foram colocados em causa, são a base da nossa doutrina. Os media apenas transmitiram estes assuntos, aplicaram categorias sociais à Igreja, e esqueceram que a Igreja não é uma democracia, é um corpo em que todos tendem à comunhão. É por isso que é muito fácil degenerar para as questões do poder, em detrimento do serviço. Se eu achar que estou trabalhar numa carreira, para o poder, é mau, mas se eu me lembrar que estou a trabalhar para a comunidade, tudo será mais fácil. Claro que podemos ter opiniões diferentes, mas o que é importante é não quebrar a comunhão, e a mim parece-me que o Sínodo não quebrou a comunhão. Sim, em dois assuntos houve diferença de opiniões, mas a maioria esteve de acordo em todos os casos. Eu vejo o Sínodo como um exercício de comunhão, um caminho em conjunto.

Mas se há desafios que precisavam de ser abordados, é porque algo tem de mudar…
Sim, há. Os participantes falaram dos desafios da migração, que são terríveis. Mulheres da Ucrânia ou da Roménia que deixam os seus filhos com os avós para virem trabalhar para outros países, é um desafio que tem de ser abordado. Ou mulheres da América Latina onde a figura do pai não existe. Não são apenas as questões dos divorciados e recasados ou homossexuais, como os media tentaram fazer perceber. Veja a falta de trabalho. O que fazemos com os jovens que não podem casar porque não têm emprego permanente? Como conciliar essa instabilidade com um casamento e com filhos? Temos de olhar para todos os desafios, não apenas alguns…
Penso que temos muitos assuntos que precisam de ser abordados, e espero que venham a fazer parte da pastoral familiar nas paróquias. Por vezes, quando preparamos os casais para o matrimónio, estas questões não são abordadas, e acho que esta preparação deveria incluir isto.

A preparação para o matrimónio pode ser a solução?
Não digo que seja a solução para tudo, mas é importante que as pessoas tenham noção dos problemas que vão enfrentar. E tenho de dizer outra coisa: deveríamos também perceber que os casais que decidem casar têm de ser apoiados. A minha sobrinha tem 32 e dois filhos, e já esteve desempregada, o que foi muito complicado. Quando ela estava grávida do segundo filho e estava com dificuldades, alguém lhe sugeriu uma alternativa que ela se recusou a aceitar. O que é que fazemos com estas pessoas? Dizemos que elas têm de casar e ter filhos, mas depois, como comunidade, não as apoiamos? Um casal que tem de vir viver para uma grande cidade e não tem ninguém que lhe fique com os filhos, o que fazemos? Qual é a importância da comunidade neste trabalho? Em qual comunidade os casais podem deixar os seus filhos com alguém para que possam até ir comer um gelado como casal, porque é importante para a sua relação que o façam? Estas são pequenas questões, mas que devem ser refletidas para chegarmos a uma conclusão.

As comunidades devem organizar-se para isso?
Sim, porque não? Em vez de julgarem, ou de ficarem a apontar o dedo a dizer “ah, ela é divorciada, não pode comungar”, devemos oferecer as nossas mãos para ajudar, e não para apontar e dizer que ele ou ela não fazem parte da comunidade.

É uma questão de atitude?
Sim, muitas vezes o que afasta as pessoas é a atitude da comunidade, e não a doutrina da Igreja. O Papa Francisco diz-nos muitas vezes que a misericórdia de Deus é tão grande, e mesmo assim nós damos mais importância à lei. Nós esquecemo-nos disto, e apenas aplicamos a lei, em certos casos, e esquecemos a misericórdia. Eu concordo com a lei, mas podemos fazer outras coisas para acolher as pessoas, para lhes dizer que são filhas de Deus e não foram esquecidas…

Entrevista: Ricardo Perna
Fotos: Rita Bruno

11 de outubro de 2014

«É necessária uma maior preparação para o Matrimónio»


Diante do alto número de divorciados, é necessária uma preparação maior, personalizada e também severa para o matrimónio, sem medo de ver, eventualmente, uma diminuição no número de casamentos celebrados na Igreja. Este foi um dos aspectos salientados nos trabalhos do Sínodo Extraordinário sobre a Família em andamento no Vaticano. A Rádio Vaticano conversou sobre este tema com o Presidente da Prefeitura dos Assuntos Econômicos da Santa Sé, Cardeal Giuseppe Versaldi:
 
Card. Versaldi: Os problemas existem, e são resolvidos os que dizem respeito às pessoas em dificuldade após o matrimónio, mas eu quis insistir no facto de que é necessário prevenir as dificuldades e sobretudo os sofrimentos das pessoas, tendo portanto, uma maior atenção à preparação do matrimónio. No Ano da Fé, o Papa disse-nos que a fé – também entre os batizados – não pode mais ser pressuposta e, portanto, é necessário realizar um caminho também doutrinal. Eu insisti sobre o acompanhamento pessoal dos casais, em maneira tal que, não por meio de instrumentos jurídicos, mas através de um acompanhamento pastoral e espiritual, se verifique verdadeiramente se a intenção dos esposos é a de serem introduzidos não ao casamento, mas ao Sacramento do Matrimónio, de modo que depois possam gerir as dificuldades na vida matrimonial. Fracassos existirão sempre, mas assim colocamos uma barreira não para impedir o matrimónio, mas para o tornar não só válido, mas também frutuoso. É melhor ser um pouco mais exigente antes, mesmo que diminuam um pouco as celebrações de casamento, mas que sejam pessoas convencidas de encontrar Cristo e não somente de fazer a cerimónia.
 
Para evitar justamente quem se casa como uma etapa social, concentrada mais na cerimônia e no dia do matrimónio. Depois, quando chegam os problemas, encontram-se despreparados...
Supondo este automatismo entre o fato de que alguém é batizado – e portanto se supõe que tenha a fé – e o Matrimónio, que é outro Sacramento. Certo, o Batismo introduz na salvação, porém é um encontro com Cristo e quem se casa, ao invés disto, acreditando não ter necessidade de Cristo - mas somente porque é uma tradição ou até mesmo um ato folclórico -, se casa validamente, mas depois não consegue administrar a fadiga do matrimónio e então pede a nulidade. O paradoxo então é que a Igreja é generosa no início, admitindo a todos, e depois é severa deixando-os com os seus pesos. Isto não está certo!

Seria necessário, então, ter a coragem de dizer “não” a alguns casais que chegam despreparados ao matrimónio?Mais do que dizer “não”, indicar um caminho: não casem já, mas, façamos um caminho. Agora fala-se tanto dos divorciados e dos recasados e de um caminho penitencial, que é sempre penitencial e doloroso; lá seria, ao contrário, um caminho não penitencial, mas de crescimento, de maturação na fé.

Agir na origem…Agir na origem, fazendo também entender que não podem ir ali pedindo o matrimônio, já fixando a data e pressupondo que se trata somente de uma fórmula: “Aceitas aquilo que faz a Igreja?”; “Sim!”. E depois se passa a saber o que existe por trás daquele ‘sim’.... Estamos a discutir tanto sobre como mudar o ‘depois’ e não discutimos tanto sobre como mudar o ‘antes’. Eu fiz um pronunciamento, mas também outros se pronunciaram neste sentido.
 
Há depois o “pós-matrimónio”. Tem quem sugira um acompanhamento também após o matrimónio dos casais, que frequentemente se casam com pressupostos cristãos e de repente se encontram sozinhos....E alí verdadeiramente é a paróquia, a comunidade paroquial, como família de família, e sobretudo os esposos, mais do que os sacerdotes, que devem acompanhar os casados naquele ponto. É importante o acompanhamento dos jovens esposos por parte de quem já tem a experiência, quem sabe mesmo, de crises superadas. Este é outro ponto intermediário: antes de chegar à ‘vexata questio’ “Damos ou não damos a comunhão aos divorciados-recasados?”, o que certamente é um problema, mas quando torna-se um problema muito generalizado, quer dizer que alguma coisa está errada no início. Se não fazemos uma preparação adequada, devemos depois cuidar dos matrimónios fracassados e a Igreja de “hospital de campanha” torna-se um obituário, onde se fazem as autópsias dos matrimónios defuntos”.


Fala-se muito nestes dias de doutrina e misericórdia, quase como se fossem duas realidades distintas. É realmente assim ou doutrina e misericórdia necessariamente devem caminhar juntos?
A misericórdia é a doutrina da Igreja e a doutrina da Igreja é a salvação: “Não vim para condenar, mas para perdoar”. Todavia, o perdão pressupõe o arrependimento.

Entrevista: News.va

Uma semana de «debate realmente livre»

É decididamente positivo o balanço do Sínodo no final da primeira semana de trabalhos e, portanto, a meio caminho da terceira assembleia extraordinária, reunida a partir de domingo no Vaticano para debater sobre a família. Quem fala é o o secretário-geral do Sínodo dos bispos, numa entrevista concedida a L'Osservatore Romano. 

No sábado, de manhã cedo, os ambientes da sala sinodal estão praticamente vazios e só se ouvem as vozes dos colaboradores, que também hoje trabalham. 

Aproveitando o momento mais tranquilo, o cardeal Lorenzo Baldisseri descreve sem formalidades, segundo o seu estilo direto e eficaz, a preparação da assembleia, o trabalho profícuo destes dias realmente intensos e o clima sereno, referindo-se no final às próximas etapas de um caminho que procede muito rapidamente.

Para Vossa Eminência trata-se da primeira vez, depois de uma vida passada sobretudo nas representações pontifícias de meio mundo: como foi?
Eu sentia um pouco de apreensão porque – embora tenha participado em muitas assembleias episcopais – nunca participei num sínodo, e simplesmente não conseguia imaginar como seria esta nova experiência. Pensava que fosse mais complexo e rígido. Mas pelo contrário, o sínodo é uma assembleia como as outras, e além disso existe uma estrutura e diversas pessoas, também muito preparadas, que ajudaram.

Desde quando se trabalha e quais são as novidades desta assembleia?
Trabalhamos há mais de um ano e, embora não tenha havido mudanças formais, pudemos experimentar uma dinâmica entre as normas e a sua aplicação, que obviamente pode ser rígida ou flexível, e aproveitámos este espaço. Entre as novidades, a principal e mais significativa foi, nestes meses, a participação pessoal do Papa em todas as reuniões do Conselho ordinário de secretaria. Depois, no debate na sala simplificamos muitas formalidades e introduzimos o italiano, que até entre os padres sinodais é mais conhecido que o latim. E isto, num clima mais informal, permitiu realizar trabalhos mais eficazes e livres.

Contudo, houve críticas sobre a informação: um sínodo fechado?
Muito pelo contrário. Também neste âmbito simplificamos, visando os encontros com os jornalistas – inclusive de cada um dos padres que, obviamente, são livres de conceder entrevistas – e abandonando o sistema dos resumos, porque na realidade não refletiam as intervenções: o texto inicial escrito era resumido e divulgado, mas o pronunciado na sala era em seguida modificado. Penso que deste modo se reflete mais o debate. Um debate – repito – realmente livre.


Como foram estes dias?
Respiramos um clima sereno, inclusive no confronto leal de pareceres diversos, porque vi em todos um grande amor pela Igreja como povo de Deus, em todos uma fidelidade inquestionável ao ensinamento na tradição, com um olhar de misericórdia para as pessoas. Ouvimos todos os que pediram para intervir: 180 intervenções programadas e 85 no espaço reservado às livres. No total, 265 intervenções no respeito escrupuloso dos horários, a tal ponto que chegou a sobrar uma hora e meia, que naturalmente depressa utilizamos. «O senhor tem um relógio suíço», disse-me, imitando o Papa. Mas o debate foi facilitado também porque 60% das intervenções chegaram antes, e foi possível tê-las em consideração no relatório ante disceptationem, precisamente a base do debate, que não foi de modo algum dramático, mas sério e construtivo.

E agora?
Na segunda-feira ouviremos o relatório post disceptationem, que está quase pronto; depois, a partir da tarde de segunda-feira, nos vinte círculos menores, serão preparados os modos, ou seja as integrações ao texto, de forma a poder apresentá-la na sala na quinta-feira. Daqui chegaremos ao documento final desta assembleia, a relatio synodi, outra novidade, que no sábado será votada e entregue ao Papa. Entretanto, na manhã de sábado será publicado o nuntius, isto é a mensagem da assembleia sinodal, que deseja falar aos católicos e aos distantes, tendo em consideração as pessoas, mulheres e homens, de hoje. No domingo será celebrada a missa conclusiva, durante a qual – com a presença e a participação dos chefes das Igrejas orientais e dos presidentes de todas as Conferências episcopais do mundo, membros desta assembleia – será proclamado beato quem, em 1965, instituiu o Sínodo dos bispos: Giovanni Battista Montini, Paulo VI. Depois, a partir de segunda-feira, encaminhar-nos-emos rumo à assembleia ordinária, que terá lugar daqui a um ano. Caminhando rapidamente, como fizemos até agora. 

Entrevista: News.va
Foto: News.va