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20 de outubro de 2015

Preparação para o Matrimónio vai ser «chave» deste Sínodo


O cardeal Wilfrid Napier, arcebispo de Durban (África do Sul) e presidente-delegado do Sínodo dos Bispos, apontou hoje a preparação para o Matrimónio como uma das “chaves” das propostas que a assembleia vai fazer ao Papa, este sábado. Segundo este responsável, as propostas dos participantes visam promover “um processo durante o qual um jovem tem a oportunidade de identificar a sua vocação”. A esta preocupação, soma-se a do acompanhamento “pós-matrimonial”, em particular nos primeiros anos de casamento, contando com a ajuda de católicos que possam “adotar um jovem casal” e ajudá-los a superar as dificuldades.

O cardeal sul-africano elogiou a “fidelidade à doutrina” que guiou os trabalhos e falou num sentimento de “otimismo”, estimulado também pela liderança do Papa. Segundo D. Wilfrid Napier, Francisco atendeu às preocupações que foram manifestadas desde a reunião extraordinária do último ano, incluindo na carta dos 13 cardeais, no início desta assembleia geral ordinária. O responsável voltou hoje a referir que os trabalhos estavam a ser “levados numa certa direção” em 2014, o que desapareceu este ano, dado que foi possível “trabalhar juntos nos vários temas, como uma equipa”. A reflexão em curso, acrescentou, faz “parte do processo que começou no Conclave de 2013, quando os cardeais sublinhavam a necessidade de reforma da Igreja”, que exige os “bons fundamentos” da família.

Durante a conferência de imprensa promovida pela Santa Sé, para abordar o andamento dos trabalhos sinodais, foram apresentadas várias observações sobre a reforma dos processos de nulidade matrimonial. O cardeal Lluís Martínez Sistach, arcebispo de Barcelona (Espanha) e perito em Direito Canónico, entende que a reforma promovida pelo Papa “harmoniza plenamente a fidelidade à indissolubilidade e a misericórdia da Igreja”, porque “agiliza o processo”, “soluciona muitos problemas de consciência” e permite que estas pessoas possam “refazer a sua vida”. O chamado processo “breve” passará sempre para o processo ordinário caso não seja possível chegar à verdade “objetiva e imediata”.

Qualquer separação tem “muitas consequências negativas”, sublinhou o cardeal Lluís Martínez Sistach, para quem este Sínodo colocou em relevo aspetos “muito importantes”, como a finalidade do Matrimónio, a fim de “evitar separações”. A este respeito, também o arcebispo de Barcelona insistiu na preparação “remota” para o casamento, desde a adolescência, bem como a preparação “próxima e imediata”, que muitas vezes se confronta com a falta de “formação religiosa” e o afastamento da Igreja, por parte dos noivos.

O cardeal Alberto Suárez Inda, arcebispo de Morelia (México), assumiu por sua vez que os bispos têm uma “maior responsabilidade” por assumirem um papel de “juízes misericordiosos”. O encontro com os jornalistas abordou outras questões específicas, como as migrações ou a coabitação antes do matrimónio, que no caso africano pode resultar de dificuldades ligadas ao “dote”. “Que este Sínodo dê uma grande ênfase às Igrejas locais, para que estas assegurem que há cada vez mais casamentos muito bons”, com o ensinamento sobre o Sacramento e o que a Igreja espera do Matrimónio, pediu o cardeal Wilfrid Napier. Este responsável concluiu a sua intervenção com uma consideração sobre a falta de dimensão "profética" numa assembleia mais centrada na atenção "pastoral".

Texto: Agência Ecclesia
Foto: @holyseepress

16 de outubro de 2014

Cardeal Schönborn fala de «um Sínodo autêntico»


Depois de dias de tensão, a conclusão dos trabalhos nos círculos menores do Sínodo da família que decorre no Vaticano trouxe também uma visão mais calma dos documentos de trabalho. Hoje os bispos entregaram as suas propostas para «alteração e aprofundamento» do Relatio Post Disceptationem, a fim de que seja preparada a mensagem final da Assembleia Sinodal e o Relatio Synodi, o documento de trabalho que concluirá este sínodo e lançará as bases de trabalho para o sínodo de 2015.

O Cardeal Christoph Schönborn foi hoje o convidado para vir falar aos jornalistas, e convidado por um deles a adjetivar este Sínodo que caminha para o final, destacou a sua autenticidade. «Um Sínodo autêntico, que se está a desenvolver num sentido muito positivo, porque é um caminho de conjunto», definiu o cardeal austríaco de Viena, Áustria. O prelado declarou-se «surpreendido» com o interesse que o Sínodo está a despertar nas pessoas, mas reconhece que o tema assim obriga. «Poucos temas nos tocam tanto como o tema da família», reconheceu o cardeal. «Todos temos pais, irmãos, primos, tios, etc, e todos sabemos que quando temos problemas, o nosso primeiro recurso é a família», acrescentou.

Defendendo a necessidade de «alargamento da visão da família», o cardeal reconhece que é normal haver «tensões» no Sínodo. «Há vários aspetos a considerar: todos sabemos a doutrina, mas todos conhecemos também a misericórdia de Jesus. Como unir as duas é a questão permanente da Igreja, aqui e a nível local, na paróquia, onde é preciso encontrar um equilíbrio entre a força da doutrina e a pastoral», afirma. E dá o exemplo da indissolubilidade. «A indissolubilidade foi ensinada por Jesus não como uma imposição, mas como uma proposta de caminho de vida, não é um ideal, é um caminho real», diz, reconhecendo de seguida a existência de situações irregulares, que conheceu na primeira pessoa. «Os meus pais eram divorciados, conheço a realidade, não é a ideal, mas é uma realidade. A Igreja fala destas situações porque são verdade, mas fá-lo com compaixão e como um convite a um caminho de fé», sustenta o prelado.

Quanto a perspetivas de mudanças no Catecismo da Igreja Católica, cuja mais recente edição o cardeal Schönborn foi secretário, o prelado não se mostra confiante. «Não creio que haja necessidade de mudanças, mas pode haver desenvolvimentos. Há 50 anos atrás, o fenómeno das uniões de facto era impensável e por isso não foram mencionadas no catecismo, mas hoje são uma realidade que é preciso contemplar», exemplificou, afirmando que, também aqui, a Igreja precisa de dar uma resposta. «São uma desinstitucionalização da família, e devemos enfrentar este novo desafio de encontrar uma palavra para dar nestas situações. A proposta que fizemos foi no sentido de ver esta gradualidade, não da lei, mas da vivência da lei, passo a passo», revelou o cardeal austríaco.

Quanto à questão do acolhimento dos homossexuais, cuja polémica se agravou com a emenda que o Vaticano fez da tradução inglesa do relatório preliminar, para um termo mais leve de avaliação da realidade homossexual, e não tanto de aceitação, como sugeria a primeira versão do documento, o cardeal Schönborn não tem dúvidas sobre como enfrentar a realidade. «Primeiro olhamos para a pessoa, não para a sua orientação sexual. Quando o catecismo fala de acolhimento, é um comportamento básico, todos os seres humanos têm uma dignidade antes de qualquer outra coisa. Mas isto não significa, nem significará, que a Igreja pode dizer que o respeito pela vida humana signifique o respeito por todos os comportamentos humanos», avisou.

«O dom fundamental da criação de Deus é a relação entre homem e mulher, e o catecismo é muito claro. O sentimento da homossexualidade não tem nada a ver com pecado, mas as relações homossexuais não podem ser aceites, pois a Igreja não pode mudar de forma fundamental para aceitar isto. Com todo o respeito pela situação, e sem saber o que estará no documento final, posso prever que será acolhimento, que é elementar», afirmou o cardeal Schönborn.

O Pe. Lombardi, porta-voz da Santa Sé, anunciou na conferência de imprensa que serão disponibilizados os textos de resumo entregues pelos círculos menores. «Em virtude de ter ido publicado o relatório preliminar, a maioria concordou que também estes documentos devem ser publicados», informou o sacerdote jesuíta.

O porta-voz aproveitou o encontro com os jornalistas para transmitir um recado do cardeal Muller, que desmentia categoricamente todas as declarações negativas que tinham sido postas a circular na comunicação social sobre o relatório preliminar atribuídas a si, e para informar que o Papa Francisco tinha decidido incluir na comissão que prepara o Relatio Synodi o cardeal sul-africano Wilfrid Napier e o arcebispo australiano de Melbourne Dennis Hart. A inclusão do cardeal africano, não sendo possível confirmar tal situação, acaba por ir contra as declarações do cardeal Kasper reproduzidas ontem pela agência de notícias ZENIT, onde afirmava que os bispos africanos de países de maioria muçulmana não poderiam ser ouvidos sobre algumas das matérias, tendo em conta a realidade que vivam nos seus países.

Texto: Ricardo Perna
Foto: News.va

14 de outubro de 2014

Relatório preliminar «não é o pensamento» do Sínodo


A conferência de imprensa do Sínodo da Família desta manhã foi dominada por questões relacionadas com o mal estar demonstrado pelos bispos após a leitura do Relatio post disceptationem, da autoria do cardeal Péter Erdò. Os bispos demonstraram discordância com alguns dos pontos do Relatio, mas o pior mesmo foram as notícias que surgiram na comunicação social. Aliás, o primeiro ponto de ordem foi feito pelo Pe. Lombardi, em nome da Secretaria geral do Sínodo. «A secretaria-geral do Sínodo informa que os grupos linguísticos, em círculos menores, estão reunidos para aprofundar o documento de trabalho que, recordam, é um “work in progress” e apenas isso», disse o Pe. Lombardi a abrir os trabalhos, mostrando-se «surpreso» com a quantidade de jornalistas ali presentes.

O cardeal Wilfrid Napier mostrou de forma mais clara o seu descontentamento. «Este documento é do Cardeal Erdò, não é um documento do Sínodo. Nós estamos a trabalhar no documento, e só depois do nosso trabalho é que será o nosso documento, o do Sínodo», disse aos jornalistas, acrescentando que as notícias veículas pelos meios de comunicação social em todo o mundo colocaram «pressão» sobre os padres sinodais. «A mensagem saiu, e agora os padres sinodais estão numa posição difícil. Diz-se que este é o pensamento do Sínodo, mas isso não é verdade, pois o Sínodo não tomou essas posições. Tudo o que fizermos agora será encarado como “controle de danos”, mas essa não é a verdade», lamentou o cardeal sul-africano.

Apesar disso, o cardeal sul-africano mostrou-se satisfeito que «as pessoas quisessem saber o que estava em causa aqui no Sínodo». «O risco é apenas que se criem demasiadas expetativas, quando isto é apenas um documento de trabalho. As frases que são colocadas no relatio podem induzir a que o sínodo já está a decidir coisas, mas isso não é real», criticou o cardeal Napier, numa referência velada ao autor do relatório, o cardeal Erdò.

Questionado sobre se o relatório preliminar tinha visões pessoais e não do sínodo, o cardeal Napier afastou qualquer possibilidade desse aspeto. «Não tenho razões para crer que haja pessoas no sínodo que estejam mais interessadas na sua visão que na visão do sínodo, e sei que o documento final vai refletir a visão da Igreja», disse o cardeal.

Sobre o assunto, o Pe. Lombardi enfatizou que não tinha havido críticas ao documento, que recolhia as opiniões de uma semana de trabalho sinodal. «Alguns bispos, nas suas intervenções, afirmaram a necessidade de ajustar este ou aquele ponto, mas no geral todos elogiaram o documento produzido», referiu o porta-voz.

O cardeal Fernando Filoni, italiano, referiu aos jornalistas que no seu grupo de houve «perplexidade» com a repercussão que o relatório preliminar teve na comunicação social. «Parecia que eram já as decisões da Igreja ou o Papa a falar, quando é apenas um documento de trabalho», reforçou o cardeal italiano.

O prelado aludiu ainda à necessidade das pessoas perceberem que o Sínodo não vai «resolver problemas». «As expetativas são más se pensarem que aqui se vão resolver problemas. Não pode ser “amanhã damos a solução para todos os problemas”, o que se deve dizer é que a Igreja tem todos estes problemas no centro das suas atenções», afirmou aos jornalistas.

Para além de questões relacionadas com o mal estar do relatório dentro da aula sinodal, que dominaram a conferência de imprensa, o cardeal Napier teve ainda oportunidade para explicar como o círculo menor de que é moderador abordou a realidade da família nos dias de hoje. «Falámos sobre a família como tendo as flutuações de um dia: de manhã, quando tudo é fantástico, de tarde, quando as dores começam a sentir-se, e de noite, quando os problemas surgem e temos de lidar com os problemas. Parece que os problemas não vão terminar, mas é preciso levar uma mensagem de esperança de que uma nova manhã irá surgir», lembrou o cardeal sul-africano.

Referindo-se à missão de cada família, este prelado defendeu que, hoje, também a família tem de ser missionária. «No passado a Missão era reservada a religiosos, mas a novidade é que a família compreendeu que pode ser não apenas objeto da evangelização, mas também agentes da evangelização, e hoje temos famílias que saem, depois de um período de formação, para a missão. E isto é muito rico, porque para além do anúncio da doutrina, há a riqueza do testemunho», disse o cardeal Napier.


Texto: Ricardo Perna
Foto: News.va