1 de outubro de 2015

O Sínodo das decisões… ou não

© Foto l'Osservatore Romano
O mundo católico aguarda em expectativa o desenrolar da reunião ordinária do sínodo dos bispos, que terá lugar este mês em Roma. As posições têm-se extremado entre conservadores e liberais, e, apesar de não parecer ter o mesmo impacto mediático, a verdade é que muitos aguardam com ansiedade mal contida as propostas que os bispos irão aprovar ali, que servirão de base de reflexão para a exortação apostólica que Francisco publicará nos meses seguintes. 

Estávamos no início de outubro de 2013 quando o Papa Francisco decidiu surpreender o mundo com a convocação de um sínodo extraordinário sobre a família, a que se seguiria, no ano seguinte, o sínodo ordinário, também sobre a família. A decisão de convocar um sínodo extraordinário era surpreendente por si, mas dedicar dois sínodos, espaçados por um ano, ao mesmo tema, foi caso único na história da Igreja Católica. Por isso, o tema começou desde logo a ser falado e debatido, o que ia ao encontro das intenções do Santo Padre: colocar a família no centro das discussões e reflexões dos católicos e do resto do mundo.

Quando saíram os Lineamenta para o sínodo, o frenesim subiu de tom: Francisco pedia que todos os católicos do mundo se pronunciassem sobre as questões da família. Em todos os sínodos, os fiéis são chamados a pronunciar-se sobre o tema, mas raras vezes o fazem, deixando o trabalho para os bispos, sacerdotes e movimentos da Igreja. Aqui, o Papa foi, no entanto, claro: queria que todos contribuíssem. E assim foi: milhares de católicos em todo o mundo responderam aos inquéritos lançados pelas conferências episcopais, com base no inquérito que vinha nos Lineamenta.

Se a intenção era despertar o interesse, a estratégia resultou. Saíram para fora muitas ideias e opiniões, quer no sentido de abrir a Igreja a novas realidades como os divorciados e recasados, os homossexuais e as uniões de facto, quer no sentido de manter a doutrina da Igreja tal como está, reforçando a indissolubilidade do matrimónio e a impossibilidade doutrinal de aceitar qualquer coisa mais do que o que já estava definido.

Apesar de haver quem criticasse Francisco por ter “aberto” estas frentes de discussão pública, o Papa foi claro quando iniciou o sínodo. «Uma condição de base é falar claro. Que ninguém diga que “sobre este assunto não se pode falar”. Um cardeal escreveu-me uma vez a dizer que havia assuntos sobre os quais os cardeais não falavam, por causa do que diria o Papa. Isto não é sinodalidade, pois temos de dizer tudo aquilo que achamos que o Senhor quer que digamos», avisou o Papa no início dos trabalhos. E foi isso que, durante as duas semanas seguintes, se fez. Com um relatório intermédio polémico, por parecer muito imparcial, e com um relatório final que, não tendo sido aprovado pela maioria necessária, demonstrou a maior vontade dos participantes sinodais em introduzir algumas mudanças na realidade da Igreja, deu-se início a um ano de reflexão e de maturação das reflexões ali efetuadas.
© Foto Lusa
As diferenças entre o Sínodo extraordinário e o ordinário
O Papa, esse, continuou impávido e sereno. Durante este ano que passou, dedicou as suas catequeses semanais ao tema da família, e as suas palavras foram aproveitadas por ambos os lados da discussão para fazer valer os seus pontos de vista. Mas tudo não passa de especulação. E por isso todos olham para este novo sínodo, desta vez ordinário, onde se vão voltar a discutir os mesmos temas, mas onde as coisas poderão ser bem diferentes.

Tudo começa no número de participantes. No sínodo extraordinário, participaram apenas os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, para além dos cardeais, peritos e leigos convidados. Este ano, como é norma nos sínodos ordinários, as conferências enviam os seus representantes, e muitos países, nos quais se inclui Portugal, enviam dois ou mais representantes. De Portugal seguem D. Manuel Clemente, que já esteve no ano passado e D. Antonino Dias, presidente do Comissão Episcopal do Laicado e Família em Portugal.

A verdade é que, como no outro sínodo, daqui não irão sair decisões. Apesar das pressões colocadas por muitos dos que irão intervir no próprio sínodo, este órgão não tem capacidade decisória dentro da Igreja. Cabe apenas ao Papa a decisão sobre o caminho a seguir daqui para a frente. E o que pode o Papa decidir? Esta é a grande interrogação, da qual nada se sabe e pouco se pode adivinhar.

Francisco é um Papa que, desde o início do pontificado, se tem pautado pela busca de consensos, dentro e fora da Igreja, atitude que já vem dos seus tempos de bispo na Argentina. Essa busca pode levar a pensar que se preparam grandes mudanças, mas a verdade é que a personalidade de Francisco sempre foi marcada por um tradicionalismo e fidelidade à Igreja, que defendia com unhas e dentes. Aliás, foram públicas as suas posições, quando estava como bispo de Buenos Aires, contra a legalização das uniões entre pessoas do mesmo sexo, entre outras questões com as quais foi chocando com o poder político da altura.

O que se deixa transparecer do discurso de Francisco, e da reflexão dos padres sinodais, é que, antes de qualquer modificação legal, tem de existir alteração de comportamentos. A Igreja não acolhe como deveria, não fala como deveria, e precisa mudar. São muitos os exemplos dentro da própria Igreja que mostram que é possível, como Francisco pede, acolher com misericórdia todos os que estão em situação irregular. A questão é que acolher é muito diferente de aceitar, e essa tem sido uma argumentação por parte de quem deseja ver essas mudanças na Igreja que não corresponde à realidade.
© Foto Lusa
Quando Francisco afirma que é preciso acolher todas as pessoas homossexuais ou divorciadas e recasadas, em momento algum refere que se deve aceitar a sua condição. Também Jesus acolheu a mulher adúltera, mas disse-lhe «vai e não tornes a pecar», pelo que não se poderá confundir a abertura ao acolhimento com a aceitação de todos esses comportamentos ou situações irregulares. Mas isto não impede que venham a ser introduzidas mudanças reais, fruto de uma reflexão sobre a doutrina que pode, em situações como a dos divorciados e recasados, permitir analisar os casos individualmente e estabelecer modos de atuação diferentes dos atuais.

O aprofundamento da doutrina em questões como a comunhão espiritual, por exemplo, que é permitida aos casais divorciados recasados, mas que foi questionada no último sínodo, por não ter grande diferença para a comunhão física, pode ser um dos pontos de partida, mas especular que se irá permitir a comunhão a todos os recasados já é “esticar a corda”, uma vez que uma decisão desse tipo colocaria em causa todo o caminho que muitos fiéis já fizeram na pele de divorciados recasados dentro da Igreja.

Perigo de Cisma parece pouco provável
Alguns temem que o sínodo abra feridas que não irá conseguir sarar. Outros aspiram pelo dia em que a Igreja se irá abrir à vontade da sociedade, apesar de 2000 anos de história afirmarem que isso raramente aconteceu. Mas todos esperam ansiosamente pelas palavras de Francisco, pois sabem (ou irão saber) que, apesar de serem muitos a pensar, o único a decidir será mesmo ele. De tudo isto, Francisco já conseguiu algo importante: pôs toda a sociedade a falar sobre a família, a pensar sobre a família.

Porque mesmo para criticar a Igreja, é preciso refletir sobre o assunto, e isso já foi conseguido. Mesmo nos países onde a família é colocada em causa, os últimos anos de inverno demográfico ajudam a que o assunto da família esteja na ordem do dia, e até nisso o timing de Francisco foi perfeito. A família precisa de ajuda, e o Papa parece a pessoa mais bem colocada para o fazer, assim todos os fiéis decidam escutá-lo, compreendê-lo e aceitar o resultado de todas as reflexões que irão ser feitas.

Texto Ricardo Perna

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