26 de outubro de 2015

«A indissolubilidade do vínculo não é um jugo, é um dom»


D. Antonino Dias, bispo de Portalegre e Castelo Branco e presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família, foi um dos dois delegados da Conferência Episcopal Portuguesa enviados ao Sínodo. Numa conversa com a Família Cristã e a Agência Ecclesia, faz o balanço deste encontro de gentes e realidades de todo o mundo, e aponta já caminhos para as comunidades diocesanas portuguesas começarem a trabalhar com os resultados desta reflexão feita em Roma.

Foram três semanas de muito trabalho e reflexão, na procura de convergências. Regressa a Portugal com a ideia de uma Igreja que tem de estar ao lado de todas as famílias e acompanhá-las sempre? 
Foi de facto um encontro muito importante e rico no conteúdo e na diversidade de pessoas, culturas e línguas, de experiências em relação à família. O Sínodo não terminou, agora é que começa, quando se vai pôr em prática aquilo que foi aqui falado. O Sínodo todos os debates que se fizeram não foram para ganhar ou perder, mas sempre em busca da verdade e daquilo que será mais conveniente para continuarmos a estar ao lado da família, a promover a família e a abrir perspetivas, caminhos de pastoral. É preciso abrirmos caminhos novos para pôr em prática o que sentimos que ainda é preciso levar à prática. Não é tanto na doutrina, mas mais em como levar a doutrina à prática. Falou-se na preparação mais insistente e permanente para o matrimónio. É uma área onde precisamos de investir muito, porque muita gente aproxima-se do sacramento sem fazer ideia do que isso é. Não podemos supor, temos de formar e as pessoas que tomam essa opção tem de ter ideia da opção que estão a tomar.

O sínodo disse que se deve contar muito com a ajuda de casais e leigos especializados que possam ajudar as comunidades paroquiais a fazer uma espécie de ministério específico de acompanhamento da vida conjugal... 
A preparação para o matrimónio começa em casa, desde pequeninos, pela experiência que os filhos têm da vivência dos pais. Mas depois há todo um acompanhamento que as paróquias e os movimentos fazem, e as famílias sempre foram um apoio muito grande para a formação destas pessoas. Temos de olhar para a família como destinatária da evangelização, que o é, mas sobretudo como protagonista da evangelização. A família tem de assumir a sua quota parte de colaboração neste anúncio do Evangelho da Família, a começar por casa, mas depois abrindo-se à comunidade e prestando um contributo muito importante, experiencial, à própria comunidade. E isso pode ajudar muito os casais novos a valorizar o que é importante no sacramento do matrimónio e na própria família.

Nesta atenção pastoral, o documento final vincou uma atenção especial às famílias feridas por vários aspetos. Há três pontos que foram muito mediatizados, que dizem respeito ao discernimento para com os casais divorciados que voltaram a casar civilmente. É preciso esperar uma clarificação do Papa sobre como é que se pode aplicar este caminho de discernimento no terreno? 
Há muita gente que vai mais à frente, e outra que fica mais para trás. É bom que se coloque tudo sobre a mesa, mas a palavra final pertence ao Santo Padre. Este documento conclusivo dos bispos foi um poaio ao Santo Padre. Ele deu autorização que se publique, mas os padres sinodais pediram que ele publicasse um texto clarificador. Temos de aguardar um pouco, porque está nas mãos dele, e ele fará o discernimento necessário com o seu carisma petrino, e dar-nos-á uma importante mensagem, quando achar oportuno. Isto vai de encontro ao que dizia no início de encontrar novos caminhos pastorais.


É isso que se vai transmitir aos párocos e aos leigos em Portugal? 
Precisamos de despertar os leigos para a necessidade de eles serem evangelizadores. O laicado é um grande gigante adormecido e nós temos de o acordar. Esta nova evangelização de que tanto se fala, ou se faz com os leigos ou não se fará. De facto, os sacerdotes não conseguem fazer tudo e há muitas coisas que não sabem e têm de pedir a colaboração a quem esteja em melhor posição para fazer melhor. É importante que os leigos despertem para isto. É evidente que as famílias feridas que falou, a Igreja sempre teve uma grande sensibilidade para com elas, e procurou, na medida do possível, por vezes não tanto quanto seria necessário, mas sentimos sempre isso, acompanhá-las. Essas situações não são buscadas, são aceites com sofrimento. Não acontecem por capricho, e por isso essas pessoas sofrem. Depois há esse estigma de pensarem que estão fora da Igreja. Não estão, e foi isso que quisemos dizer aqui, inclusive na aula sinodal, que são pessoas que são pertença da igreja na mesma, e têm de ter consciência dessa pertença nessa situação em que se encontram, que será aí o seu caminho de santificação, não com atropelos, mas com o que a Igreja lhes diz: que podem crescer, acompanhar, inserir-se. Penso que a Igreja sempre esteve aberta a isso. Apesar de aqui ou ali ou acolá de vez em quando encontrarem uma porta fechada, mas esse não é o pensar da Igreja.

Este sínodo fica também marcado pelo anúncio oficial da criação da nova congregação para a Família e Leigos. Como é que vê essa nova congregação, e o que é que ela pode trazer de novo à Cúria e ao povo de Deus? 
Acredito que esta situação já fosse apontada há algum tempo, até porque o D. José Policarpo já tinha sentido essa necessidade e juntou as duas matérias numa só em Portugal. Penso que isto é muito bom, porque o apostolado laical e da família não existem um sem o outro, estão interligados.

Que novidades pode trazer ao trabalho da Igreja com a Família? 
Uma ação mais coordenada, com certeza, e mais inserida uma na outra, porque eram dois compartimentos, e pode ser que o trabalho seja mais harmonioso, mais profícuo, pelo menos estou esperançado que sim.

Que tipo de leitura podem e deve as famílias católicas portuguesas começar a fazer a partir deste relatório? 
O relatório é público, e os resultados dependem muito das dioceses e de quem elas têm à frente desta pastoral familiar. Embora aqui se dissesse que toda a pastoral diocesana devia estar imbuída do espírito familiar, tudo depende das estruturas diocesanas. E as estruturas são o que são e o que podem ser, mas é aí que temos de investir. Há muita coisa por onde pegar e desenvolver, porque a maior parte do relatório é pacífico, excetuando dois ou três pontos que têm de ter a resposta do Santo Padre. 

E como é que o presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família gostava que este tema fosse trabalhado pelas instâncias diocesanas em Portugal? 
Penso a prioridade deve ser reestruturar a preparação para o matrimónio. Intensificá-la, melhorá-la e que essa preparação comece também na juventude, não só nos CPM. Isso é bom e útil, mas é pouco, e esse é o grande desafio. As pessoas não podem aproximar-se para celebrar um sacramento se saberem o que implica esse sacramento, e sem essa consciência. E não só o sacramento, mas saberem que têm de fazer da família uma comunidade de vida e de amor. O importante é que as pessoas sejam felizes, e que entendam que a indissolubilidade do vínculo não é um jugo, é um dom, e que saibam valorizar esse dom e o saibam fazer crescer.

Mas nem sempre a preparação remota é possível, e as pessoas chegam à preparação imediata sem saberem o que vão fazer. É preciso dizer às pessoas "Não"? 
Isso era bom, mas vivemos num ambiente que quando se diz a uma pessoa que não está preparada para isto ou para aquilo, elas reagem mal. Portanto, tem de haver aí uma pedagogia muito importante. Cada um fará aquilo que puder dentro das suas dioceses. É importante que aqueles que se preparam para o matrimónio se insiram nas suas comunidades com alegria, com responsabilidade, não para os prejudicar, mas para os ajudar.

O Sínodo falou muito na necessidade da comunidade se envolver na preparação para o matrimónio. Como é que podemos fazer isso? As comunidades têm de acolher publicamente as pessoas, como antigamente? 
A minha diocese não é bem exemplo para isso, porque quando chega uma pessoa nova toda a gente vai querer saber quem são. Mas sim, acho que devemos retomar isso. Quando um casal jovem chega a uma comunidade e se integra na comunidade, socializa logo e é acarinhado e inserido, geram simpatia. Quando um casal vem para uma comunidade, mas vive afastado dela, tem mais dificuldade em se inserir, e nós precisamos dos outros para fazermos a nossa caminhada de fé, ninguém a consegue fazer sozinho, como se costuma dizer. Fazer da comunidade paroquial uma família mais alargada, uma família de famílias, é muito importante.




Texto: Ricardo Perna e Octávio Carmo
Fotos: Ricardo Perna

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